No dia de Entrudo…

Vale de Santarém. O Entrudo. Como no meu tempo de rapazeco aprendi a dizer. E não “o Carnaval”, como agora se diz. Tempos diferentes, em tanta coisa, que a mudança é isso: não pára.

Memórias. De andarmos ensaiados (agora diz-se “mascarados”) e sairmos assim, à rua, nestes dias. Uma vez atravessei todo o Vale, com a minha irmã Nelita, que já partiu, há muito. Ninguém nos reconhecia, e essa era a “vitória”: todos a quererem saber quem éramos e não conseguiam. Levávamos máscaras feitas com cartão e, na cabeça, lenços, ocultando bem os nossos cabelos, para dificultar a nossa identificação. E vestíamos roupas completamente “malucas”. Diziam-nos coisas, puxavam as roupas, tentavam descobrir-nos, mas não conseguiam. Eu afugentava-os com um velho cajado de marmeleiro, que ficara do avô António. Eles a rodearem-nos e o cajado (chamávamos-lhe “pau de marmeleiro”) a afastá-los, sempre de roda, sempre de roda, até nos largarem. Mais adiante, outros a virem ao nosso encontro, a tentarem descobrir-nos, e nós muito bem postos, no nosso papel de ensaiados, e a proteger-nos assim, com o pau de marmeleiro, contra as investidas do rapazio, em algazarra… Fomos até ao Zé Pego, virámos para a estação de caminho de ferro (hoje um simples apeadeiro) e regressámos ao centro do Vale, até nos escapulirmos pela rua da Sociedade Recreativa Operária, seguimos depois por “detrás das hortas” e sumimo-nos pelos olivais, rumo à nossa casa, no cabeço da Fonte Boa. Não nos reconheceram. Vencemos o desafio…

Noutro ano, na Sociedade Recreativa Operária, andei a dançar, toda a tarde, também ensaiado, com uma ensaiada; eu sabia quem ela era e ela também sabia quem eu era, pois tínhamos combinado. Entrámos na Sociedade de mão dada, gerando desde logo as perguntas: quem serão estes? Tinha eu doze anos e ela catorze. Maria. Que também já se foi, a minha bonita amiga da adolescência. Foi com ela que aprendi a dançar. Foram catorze modas seguidas, corpo contra corpo, suando e experimentando, num dançar frenético, feito de inocência e prazer, coisa nova, pelo menos para mim. E eu, com a frase popular na cabeça: “não faz mal, no Entrudo ninguém leva a mal”. Ainda bem, que bom que era estar ali, naquele reino da alegria, suscitada e aumentada pelo ambiente descarado do Entrudo. Vá de dançar, de brincar, de rir e descobrir… Toda a tarde a mulher do sapateiro fez funcionar aquela concertina… que foi ela quem animou a matiné dançante, cheia de serpentinas, balões, papelinhos, risos, gargalhadas. Uma festa!

Até o palavreado era mais livre, naqueles dias, nas brincadeiras de mulheres (muitas) e homens, nos largos: da Fonte das Três Bicas, do Manel Jaquim, noutros. Havia anos em que os grupos se deslocavam ao longo do Vale, paravam num dado ponto, e continuava a folia. Jogos de quartas – bilhas de ir buscar água às fontes, a passarem de mão em mão, mas enviadas pelo ar, quem as deixasse cair e partir tinha dichotes, ou seja, críticas, gozos – enfarinhadelas, ataques às pernas das raparigas com urtigas, enfim, uma série de disparates de Entrudo… E algumas canções com “dizeres”, onde o vernáculo, puro e duro, imperava, como esta, de que recordo uns versos…

“O bardamerda está preso, na cadeia do vai tu, vai dar a volta à Ponte Asseca, mete-me o nariz no cú…”

Coisas do Entrudo, o Carnaval de outros tempos, no Vale de Santarém, que a memória ainda conserva, e de que hei-de conseguir recuperar mais pormenores. 

Manuel João Sá.

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Vale de Santarém. A Fonte das Três Bicas, numa foto com algumas dezenas de anos. Duas mulheres na fonte, vendo-se: os trajes, uma quarta (bilha). Na mulher que segura a quarta, que vai colocar na cabeça, vê-se a “rodilha” (uma rodela de pano) no alto da sua cabeça, onde vai assentar o fundo da quarta, e assim a levará até casa, equilibrada, as mais das vezes, sem segurar a quarta com as mãos. Este era um dos largos onde se brincava ao Entrudo, hoje Carnaval.
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Vale de Santarém. Largo da Fonte de Uma Bica, também por vezes usado por grupos, no Entrudo.
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Uma quarta (bilha de barro)  parecida com as que usavam as mulheres do Vale de Santarém, para irem buscar água às Fontes: de Três Bicas e de Uma Bica.

Autor: 60emais

Português.

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