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Há 51 anos, a caminho da guerra colonial

Há 51 anos, por volta das duas da tarde, já o Vera Cruz já estava em alto mar. Era a minha primeira viagem num grande paquete. Comigo iam quase três milhares de jovens, a maior parte era rapaziada na casa dos 20, 20 e poucos. Angola era o nosso destino, numa viagem não marcada e não desejada por nós, sujeitos a não regressar, o que aconteceu com tantos. Deixáramos um mar de lágrimas no cais, nos olhos dos nossos pais, namoradas, amigos. Ou então nas nossas casas, quando nos despedíramos, “até ao meu regresso”, eu a fazer-me forte, rápido no adeus, que aquilo custou…

Olhei ainda a ponte, gigante, sobre nós e o Tejo. A costa foi ficando longe, depois Sintra já era só um pontinho de saudade, no horizonte. Rumávamos ao Sul, bem ao Sul. Depois o Funchal, onde atracámos, para entrarem mais tropas. Comprei vinho. Uma garrafinha, do Madeira, e um baralho de cartas. Comprei também um postal colorido, com motivos da Ilha, que fui meter no correio, a dizer aos meus pais que havia partido no dia anterior. Alguns dias depois, São Tomé, onde ficaram alguns tropas.

A 7 de Setembro, pela manhã, Luanda. Estávamos a poucos quilómetros da guerra colonial. Lá onde, quando na mata, matar ou morrer, era o que se esperava que acontecesse, com aqueles que estavam em zona que o exigisse. Da minha Companhia todos regressaram. Como foi possível?… perguntávamos a nós próprios, quando “aquilo” para nós terminara. Regressámos a Lisboa em 15 de Outubro de 1971. Ainda hoje nos questionamos: como conseguimos regressar, sem mortos e feridos?…

Agora, aos poucos, vamos partindo. A foice da vida, é outra. Este ano ainda não fizemos o nosso convívio anual. Era para ser em Maio. Passou para Outubro. Talvez não seja possível, por causa da COVID. Vamos aguardar. Um forte e comovido abraço aos meus Camaradas e a todos os que, como nós, foram mandados para lá: Angola, Moçambique, Guiné, Timor.

Manuel João Sá

Victor Pinto da Rocha, Meu Amigo para sempre!

EM MEMÓRIA DE VICTOR PINTO DA ROCHA, QUE A MORTE LEVOU EM 28 DE JUNHO 2020.

Foi em Outubro de 2012 que me encontrei, pela primeira vez, com Victor Pinto da Rocha, participante, como a sua mulher Regina, no convívio anual dos antigos alunos da Escola Primária Aristides Graça, do Vale de Santarém, que se realizava desde 2011, e a cuja organização eu pertencia. Radicado em Lisboa desde os dezoito anos, eu não sabia ainda do currículo notável dos dois professores que, em Santarém, nos estabelecimentos de ensino mais antigos e prestigiados do nível secundário da cidade, haviam recebido a distinção por parte de alunos, pais e comunidades da região, pela qualidade do seu labor educacional e pedagógico, ao longo de décadas. Não sabia isso e também não sabia que Vítor Pinto da Rocha havia sido presidente da Junta de Freguesia do Vale de Santarém, tendo desenvolvido um trabalho importante nesse domínio, também virado para o apoio ao associativismo e à cultura na nossa terra. Foi nesse convívio, no ambiente emotivo do acontecimento, que assisti às palavras de homenagem à professora Tomásia Rodrigues, escritas e lidas pela sua aluna Regina Pinto da Rocha, e saudadas de modo vibrante pelos presentes. E foi também aí que falei a primeira vez com o casal Pinto da Rocha, que me provocou o desejo de com eles me relacionar daí em diante, tendo em vista um projecto que, há anos, me andava na cabeça.

Ainda em Outubro, realizou-se a I Tertúlia de Poesia do Vale de Santarém, onde nos voltámos a encontrar. A sessão decorreu ao ar livre, no Jardim do Vale e, como havia sido pedido aos participantes, também li um poema que, na altura, a minha prima Mariana Sá Patrício, também presente, me cedeu, para o efeito. Por razões pessoais, saí da sessão antes do seu termino, porém, a vontade de voltar a estar com os dois cimentara-se – eles haviam estado na génese daquela sessão, e isso era revelador da intenção de darem continuidade à sua acção, no domínio da cultura.  

No Vale de Santarém, terra de pelo menos um poeta (João d’Aldeia) e onde outros poetas de grande vulto se juntaram, nas suas tertúlias (Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Bulhão Pato) na Quinta do Desembargador (depois mais conhecida como Quinta das Rebellas, propriedade de Luís Augusto Rebello da Silva, outro destacado homem das Letras) eu via acontecer poesia, por iniciativa de alguns valsantarenos, e logo em ambiente de natureza. Era razão para me sentir feliz e desejar mais, ao mesmo tempo que pensava na possibilidade de, aproveitando a maré, falar com pessoas que pudessem aderir a uma ideia que tinha em mente, há anos: resgatar do possível esquecimento e perda, “coisas” importantes da história do Vale e das suas gentes. Sendo eu natural da nossa querida aldeia, então já elevada a vila, sentia que havia muito a pesquisar, estudar e oferecer aos valsantarenos e outros interessados. O Vale merecia isso: que lhe fosse devolvido o que, da sua identidade e memória colectiva se conseguisse obter, ainda, e para isso era preciso pôr pés ao caminho.

Vieram outros convívios anuais e, aos poucos, comungando ideias e intenções, de que começámos a falar, ia-se impondo a necessidade de contactos mais pessoais entre mim e o casal Pinto da Rocha, contactos esses que se foram intensificando, pelo telefone, ou no Vale, na sua residência. Muitas horas passámos a dedicar ao interesse que o Vale nos merecia – o seu passado, mas também o seu presente e futuro. Trazendo à conversa acontecimentos e figuras do Vale, como muitos outros aspectos das suas particularidades, fomos elegendo temas a trabalhar. Entretanto, já conhecedores de que eu escrevia umas singelas “Crónicas do Vale de Santarém”, que vinha publicando no meu blogue, a Regina e o Víctor perguntaram-me: já pensou em publicar isso?… E aconselharam-me a fazê-lo.

Em 2014, após contactos preliminares, iniciei um conjunto de conversas com algumas pessoas que me foram sugeridas, visando genericamente obter “histórias de vida e contributos para a história do Vale de Santarém”. Tal iniciativa, que atingiu um conjunto razoável de participantes, muito interessados (incluindo Regina Pinto da Rocha) deu contributos que canalizei para eventual organização a criar, a qual pudesse acolher esse material, a trabalhar e divulgar. Ao longo deste percurso, continuando as conversas com o casal Pinto da Rocha, foi ganhando força a ideia de que precisávamos de nos encontrar com outras pessoas que, acolhendo já igualmente as nossas ideias e propósitos, quisessem avançar para uma pró-associação de natureza cultural. E foi assim que, em Novembro de 2015, se reuniu um grupo de interessados neste objectivo, na sequência do qual, em 2018, haveria de surgir a fundação da Associação Cultural Vale de Santarém-Identidade e Memória.

Entretanto, ainda antes da criação da Associação, já Victor Pinto da Rocha estava de corpo e alma entregues a João da Silva Nogueira, o Poeta João d’Aldeia, uma paixão que tinha desde criança, e que agora ganhara toda a sua energia e criatividade. Este havia sido um dos temas eleitos pela pró-associação, e o Victor tinha agora o Homem e o Poeta sob aturado e pormenorizado estudo, ao mesmo tempo vivendo a emoção da descoberta. Recorrendo aos materiais que há muitos anos vinha obtendo, em dedicadas pesquisas, aos quais, entretanto, se foram juntando alguns outros, que lhe chegavam de diversas mãos e fontes, foi dando forma ao seu trabalho, do qual fez uma apresentação brilhante, no dia 24 de Junho de 2018. Foi uma sessão memorável: porque finalmente, pela excelente qualidade do conteúdo apresentado, começávamos a conhecer João d’Aldeia, o Poeta do Vale de Santarém – o homem e os traços fundamentais da sua obra; e também porque nesse mesmo dia, na sala da Junta de Freguesia, quase a findar a sessão que ali decorreu, a D. Júlia Pacheco, neta do Poeta, teve a inesperada, notável e reconhecida acção de, em representação da família, entregar ao Vale de Santarém toda a obra de João d’Aldeia. O Vale, eternamente grato, merecia-o, e, por essa via, se cumpria o que o Poeta havia escrito, num soneto datado de 20 de Abril de 1949, dizendo sobre o destino desejado para os seus versos:

«A aldeia os inspirou – da aldeia são:

Ofertando-os, oferto o meu coração

A este lindo Vale – meu berço amado.»

Victor Pinto da Rocha, com o seu amor ao Poeta, e com o trabalho que realizou e ali deu a conhecer, foi o genuíno símbolo de confiança para que a obra de João d’Aldeia ficasse bem entregue, ao Vale de Santarém, tal como a sua família decidiu, satisfazendo o desejo do Poeta.

Cumprida esta etapa, e tendo sido impossível (por ter sido sujeito a uma cirurgia à vista) a apresentação do seu livro “João d’Aldeia, Poeta do Vale de Santarém”, numa sessão do Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, já Victor Pinto da Rocha se dedicava a outros trabalhos que, igualmente, há muito faziam parte da sua carteira pessoal de interesses, no âmbito da cultura, os quais iria publicar, sendo alguns deles sobre personagens relacionadas com o Vale de Santarém. Na última vez em que falámos, recentemente, pelo telefone, na circunstância tão impeditiva e perigosa que a pandemia nos tem feito viver, disse-me que um desses trabalhos estava em fase de conclusão, e que iria depois dedicar-se a outras figuras do Vale, sobre as quais já trocáramos ideias, e eu até tinha elementos novos para lhe dar para isso.

Os dias correram céleres e, tão inesperada quanto brutal, chega-me a triste informação do ataque cerebral que acometeu o Amigo Victor, com um prognóstico que não previa hipóteses de recuperação, a que se seguiria o seu falecimento, em 28 de Junho. De então para cá tenho rememorado o que vivemos de muito positivo (somente muito positivo!) nestes poucos anos, desde 2012, que foi quando nos encontrámos, pela primeira vez: o acolhimento afectuoso e sereno do casal, o modo como interpretaram e apoiaram as nossas ideias e se envolveram no que íamos falando e construindo, tanto em termos pessoais como no seio da Associação; a abertura, a disponibilidade, a sinceridade, o conselho, a postura equilibrada, o incentivo e também os  cuidados a ter, de modo a guiar a Associação da forma mais adequada às especificidades da envolvente da comunidade, e conforme padrões de responsabilidade social e de ética, que são essenciais.

Pessoalmente, sinto-me reconhecido, para sempre, pela Amizade que me foi tributada pelo Victor e pela Regina (que me pediram para assim os tratar, sempre…) e que vou guardar em mim e, em especial ao Victor, por me ter deixado extremamente emocionado quando, concluído o seu trabalho de investigação e literário sobre o Poeta João d’Aldeia, me ter surpreendido com apertado abraço, pedindo-me que o considerasse como o irmão que nunca teve. O professor reconhecido, o homem da cultura, o senhor de grande capacidade de comunicação, de fino trato e elevada educação, o cidadão de comportamento humanista e muito respeitado, selava assim, de forma vibrante, verdadeira, para comigo, o sentimento que não mais esquecerei.  

Neste tempo de tristeza e vazio por que passamos, ficam, como faróis, as palavras que costumávamos usar, quando, face ao que nos propuséramos, nos apareciam alguns “ses” e, entre eles, os relacionados com eventuais percalços de saúde, que o correr dos anos poderia trazer. Então, falávamos da urgência em obter, fazer, concluir… porque depois poderia ser tarde. É nisso que vou continuar a empenhar-me, Amigo Victor. Eu e os companheiros da nossa Associação. E, porque continuamos consigo e com a Regina ao nosso lado, vamos pelos caminhos que nos ajudou a trilhar, com o seu exemplo de cidadania, pelo melhor para o nosso querido Vale de Santarém, o Vale do céu azul, intenso, profundo, que, tal como eu, tanto gostava de admirar, essa abóbada esplendorosa, imponente, sobre o verde do chão das hortas e das encostas, como sobre o casario branco, algumas paredes aveludadas a cal, e ainda há pelo ar alguns dos perfumes que os valsantarenos conhecem e amam e os poetas também sentiram e cantaram.

Sim, o nosso Vale merece-o. É por aí que vamos.

Eternamente grato, Amigo Victor.

Seu Irmão para sempre!

Manuel João Sá.

poeta-vale-santarem-joao-silva-nogueira (1) - Cópia

Um olhar sobre Abril

A Associação GANDAIA, da Costa da Caparica, convidou-me para uma comunicação sobre o 25 de Abril, no âmbito das comemorações da acção militar que marcou o derrube da ditadura fascista, que se prolongou por cerca de quarenta e oito anos, vindo a ter fim pela acção decisiva e heróica dos Capitães, iniciada na madrugada dessa data histórica.

Da sessão, realizada em 21 de Abril de 2020, foi publicado pela GANDAIA o respectivo vídeo. 

A sessão, com os participantes recolhidos em suas casas, devido ao confinamento físico relacionado com a crise pandémica da COVID 19, teve início, praticamente, aos 9 minutos do vídeo.

Para ver o vídeo, clicar em…

Saudações democráticas e antifascistas,

Manuel João Sá.

 

Nos 75 anos do fim da II guerra mundial

COMO FOI POSSÍVEL?

Como foi possível que, depois da tragédia que foi a I Guerra Mundial, finda a qual se dizia que nunca mais iria acontecer… tivesse acontecido a II Guerra Mundial, ainda mais mortífera?… Embora ainda continue por determinar, terão sido entre 70 a 80 milhões de vítimas, na Europa e na Ásia…. mais de 50 milhões foram civis. Isto para além dos feridos, dos estropiados, de todas as consequências brutais para a vida das pessoas, das comunidades e dos países.

No dia em que passam 75 anos sobre a capitulação da Alemanha, pondo fim à loucura que deformou a face do mundo, da forma mais brutal possível, continua a ser pertinente esta pergunta: Como foi possível?… Como se não tivesse bastado a evidência destruidora da I Guerra Mundial (1914-1918) foi de novo a nação alemã, berço de tantos notáveis, em tão diversas áreas, do pensamento, da investigação à técnica, à inovação… como foi possível terem-se deixado arregimentar pelas ideias loucas de domínio do Mundo, corporizadas na pessoa de Hitler, porém existentes também nas cabeças de outros nazis, e atravessando largas camadas, incluindo gente da mais alta sociedade, da classe média, intelectuais e tantos, tantos das classes mais desfavorecidas, todos manipulados, rumo à tragédia, que haveria de semear o horror, a morte, a destruição das vidas e até da esperança…

Sempre que penso nas guerras (nas que fazem parte da História da Humanidade, mas também nas que continuam a acontecer por aí, um pouco por todo o mundo, mais localizadas, com outros loucos no comando, uns actuando nos territórios dos seus países, outros intrometendo-se na vida interna de outros países) vem-me sempre a ideia de que os cidadãos continuam muito vulneráveis, incapazes de contrariar esta tendência para o confronto armado, destrutivo, posto em acção pelos seus governantes, como se não houvesse outras saídas, daí decidir-se o confronto, a aniquilação do Outro, a destruição da sua vida e da sua circunstância.

Nós, pais e avós, mulheres e homens que já vivemos o suficiente para condenar esta via (pois que, pela vivência e/ou pelo estudo, a História nos devolve tremendas lições, através de testemunhos, imagens, conclusões e balanços de tão terríveis acontecimentos) que fazemos nós, no nosso dia-a-dia, para ensinar, ou seja, mostrar, dar a ver às crianças, desde a mais tenra idade (pelas vias e meios pedagógicos mais adequados, consoante a idade, na família como na escola) esta necessidade urgente da relação com os Outros, começando pela relação interpessoal, mas para a concórdia (sem unanimidades, é claro) para a convivência de respeito das ideias do Outro (entre pessoas, comunidades, povos…) portanto sem a visão, a converter-se em prática, da derrota do Outro, da eliminação do Outro, até ao mais elevado grau de destruição que esse furor destrutivo pode levar?…

Não começará em casa, e na escola, a possibilidade de conferirmos aos nossos filhos e netos a capacidade de valorizarem ideias de relações de compreensão dos Outros, das suas pessoas, ideias, culturas… em vez de aplanarmos o caminho (dos nossos filhos e netos) para acolherem, como banais, naturais, os comportamentos de competição, de necessidade de destruir (o Outro, ou seja o que for) independentemente do que vier a seguir?…

Quando educamos para a guerra, educamos para quê? Para a destruição, para a morte, certamente, por mais cândidos que sejam os argumentos.

A banalização da violência a que assistimos, que tem lugar em casa (violência doméstica, sobre adultos e crianças) como nos jogos que hoje se dão a ver às crianças, por todos os meios que as novas tecnologias e redes sociais permitem, assim como as simples pistolas “de brincar” e outras barbaridades que por aí continuam, são um contributo para que cresçam acolhedores de novas barbáries, como foram as duas grandes guerras mundiais, ou outras semelhantes.

Ao pensar na guerra, em qualquer guerra (tenhamos estado ou não em cenários desses) a nossa mente e o nosso coração só deverão estar inclinados para a PAZ. Para sermos militantes da PAZ. Contra todos os loucos do Mundo, que eles continuam por aí. E alguns voltaram a ter o poder nas mãos, o que é um mau sinal.

(Pensamentos recorrentes, em tempos de memórias das guerras: aquelas de que soube, pela História da Humanidade, e aquela de que soube por experiência própria – a Guerra Colonial).

Manuel João Sá

Berlim
1945. Berlim. O regresso depois da brutal catástrofe humana, provocada por Hitler e seus seguidores.

1º de Maio no Vale de Santarém, em tempos de ditadura

1º de Maio! Quantas lutas foi preciso travar, quantos foram os que morreram, homens e mulheres, em todo o Mundo, para que esta data fosse, definitivamente, consignada como O DIA DO TRABALHADOR?… Hoje, ainda não o é, em diversos países. Hoje, neste preciso dia de 1 de Maio de 2020, haverá perseguições, espancamentos, prisões, talvez mortes, contra a celebração efectiva, participada, do DIA DO TRABALHADOR, mesmo quando se sabe que SEM O TRABALHADOR não há produção, seja qual for o sector de actividade ou lugar.

DIA DO TRABALHADOR como dia de celebração do TRABALHO E DOS TRABALHADORES, como acção de consciência comum dos direitos que lhes cabem, face aos deveres que lhes são impostos, com ou sem negociação e que, como é sabido, deixa sempre na posição mais frágil aqueles que têm para dar, nessa relação, somente a força e capacidade de trabalho.

1º DE MAIO que só vivi, em liberdade, naquele histórico 1 de Maio de 1974, pois até ali (tinha eu 28 anos) qualquer tentativa era violentamente reprimida pelas forças repressivas do regime ditatorial. 1º DE MAIO que, apesar disso, ouvia referir em minha casa, ao meu pai, de algumas vezes em que, nos campos do Ribatejo, houve acções populares contra o regime, com greves, exigindo, por exemplo, que se passasse da “jornada de sol-a-sol” para a “jornada de oito horas de trabalho”. Uma luta que ecoou pelos campos do nosso País, e que saiu vitoriosa ao cabo de sofrimento, dor e morte.

1º DE MAIO, data em que, muitos anos antes, os valsantarenos que trabalhavam nos campos faziam questão de participar, invocando que iam “para a feira de Maio no Cartaxo”. O argumento funcionou enquanto a força repressiva da ditadura não entrou em acção. É do Jornal de Cá (Diário digital do Cartaxo) a memória desse tempo, que se poderá ler clicando em

https://jornaldeca.pt/em-quinta-feira-de-ascensao-ate-as-f…/

VIVA O 1º DE MAIO !

Manuel João Sá

25 de Abril! Valeu e vale a pena…

Não passo esta noite sem um grande e profundo sentimento: o de que valeu e vale a pena ser livre, senhor do seu espaço e do seu tempo. Porque houve um tempo em que o meu pai, a minha mãe, a minha família, quase todas as famílias na minha terra – o Vale de Santarém – não podiam sequer falar: de que a vida estava cara, de que ganhavam pouco, de que não havia trabalho, de que trabalhavam de sol a sol, de que quando havia cheias, e não podiam ir trabalhar para o campo, não auferiam qualquer compensação… e havia fome. Era assim, na minha terra, no nosso País: no continente, nas ilhas, nas colónias. Não podiam falar nisso, porque havia quem logo fosse contar, havia bufos por todo o lado, e a PIDE vinha e prendia. A minha avó foi presa só porque, estando o mercado da aldeia em construção, ter dito numa loja que, se queriam mais dinheiro, depois do que o povo já tinha dado, que o fossem pedir aos ricos da terra.

Não posso deixar de pensar que nasci e cresci nesse clima horrível, de repressão e medo; que havia exploração (sim, exploração! concreta, autêntica) na minha terra e por esse país fora. Que houve um cerceamento de todas as liberdades cívicas e políticas. Que o país pertencia a um núcleo de privilegiados, que tudo faziam e desfaziam a seu belo prazer, com o maior desprezo pela população em geral. Que houve uma guerra (colonial) que teria sido evitada, se tivessem querido; que essa guerra mobilizou a nossa juventude e que, além das consequências nefastas para o país e sua juventude, atrasou uma resolução capaz, equilibrada, pacífica, absolutamente possível, em vez da guerra e da descolonização que, nas circunstâncias em que aconteceu, seria sempre mal-sucedida, como foi.

Não posso esquecer-me de tudo o que antecedeu o 25 de Abril, e que conheci, porque nada do que passou a existir depois foi, sequer, minimamente próximo desse reino horrível da miséria, do terror, da ausência de liberdade, da incapacidade de nos assumirmos como pessoas livres, com direito a voz, com direito a acertar e a errar, e com direito inalienável a contribuir para o futuro individual e da(s) comunidade(s) em que nos inserimos.

Por tudo isso eu sou, claramente, um militante da liberdade, dos ideais do 25 de Abril, da defesa da democracia, do progresso civilizacional, de um regime que não queira voltar a políticas e práticas ditatoriais, tenha ele as roupagens ou invólucros que tiver. E, ser militante desta opção, significa que não me condiciono a que, neste actual quadro sociopolítico em que actualmente vivemos, assista ao que os diversos poderes pensam (inclusive os politico-partidários) decidem, praticam, na expectativa (paralisação sistemática) de que vão fazer bem, e estão sempre a fazer bem. Não. Eu tenho de ser cidadão consciente, activo, interventivo, no presente e futuro da(s) comunidade(s) em que me insiro, para além de estar atento e activo em relação ao presente e futuro do meu país. Se o não fizer, não cumpro o meu papel de cidadão que quer um país melhor. Ausento-me da minha responsabilidade: a nível local, regional, nacional. É por isso que, em algumas sociedades, há milhões de pessoas que desacreditam numa visão de progresso civilizacional, e passam a admitir uma solução que entendem ser preferível: a de terem alguém (Trump, Le Pen, Bolsonaro, por exemplo) com uma suposta visão e prática protectoras, mas cujo ideário político é um regresso ao passado, que já sabemos o que nos deu.

Em Portugal, mais recentemente, tais visões passaram a ter também evidentes protagonistas, infelizmente, que até podem captar simpatias e adesões a partir de descontentamentos entendíveis, mas eles não dizem a verdade sobre aquilo a que vêm. O seu ideário é, conforme até já deram a conhecer, um perigoso caminho de regresso ao passado, de que nos libertámos. Nessa linha não estou, nunca estarei, nem como protagonista nem como facilitador. A vida ensinou-me, desde criança, que o caminho das pessoas decentes, é o contrário disso, e é esse caminho que farei, até ao fim.

Sim, pelos ideais de liberdade e democracia do 25 de Abril. Sem dúvida, mas também pelo aprofundamento do progresso do país, em todos os domínios, e pela participação activa, social e política, dos cidadãos, nesse objectivo.

Manuel João Sá.

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Capitão Salgueiro Maia, o maior símbolo da pureza dos ideais do golpe militar de 25 de Abril de 1974, no seio dos Capitães que fizeram regressar Portugal e os Portugueses ao caminho da Liberdade e da Democracia.

Livros

O meu primeiro livro tinha uma capa que eu já conhecia: uma menina e um menino, no meio de um círculo, lendo. Era da 1ª classe do ensino da escola primária e, antes de ter sido o meu livro de leituras, tinha-o visto nas mãos das minhas irmãs, Inocência e Emília, que eram mais velhas. Devido ao modo de ensinar da professora, D. Tomásia, as minhas irmãs liam dizendo “escrito à máquina…” ou “escrito à mão”, conforme as letras apareciam como escritas à máquina ou escritas à mão. Esse foi o meu primeiro livro, aquele que desde logo me levou longe, até mesmo a voar, vendo-me num dos aeroplanos que apareciam na “lição” daquele dia, os aeroplanos com a hélice rodando, na imagem e na minha cabeça, e eu dentro deles, tal era o meu desejo de um dia voar e, talvez por isso, o meu pai me tivesse oferecido uma vez um avião pequenino, de lata de “folha de flandres”, comprado não sei onde, que colocou no tronco de uma figueira, como se ali tivesse poisado, especialmente para mim…
Devo ter ficado impressionado também com aquela lição de “quando eu for grande”, onde o Manuel, um dos meninos e meninas que “entram” na conversa, diz que quer ser aviador, para “voar como os passarinhos e ainda mais alto.” Foi aí, nessa página, que acabou o tempo da leitura na 1ª classe, já depois de me encantar também com a “boa dona de casa” que a Emilita prometia vir a ser, “pois era muito esperta e desembaraçada” e gostava de “ajudar a mãe”, coisa que via as minhas irmãs fazerem lá em casa, pois era assim que a lição dava a entender que devia ser a vida das mulheres, tal e qual como as duas primeiras páginas do livro indicam, pois estão cheias de imagens de meninas nas lides da casa, basta atentar nos desenhos, bastante elucidativos do papel das mulheres, na cultura oficial daquele tempo…
Desde aí, quantos livros terei lido?… Quantas alegrias, tristezas, aprendizagens, emoções, revoltas, desencantos, caminhos novos… terei eu encontrado nas páginas das obras que comprei ou me ofereceram? Livros, companheiros de tantas horas… Em paz ou em desassossego. Livros, uma necessidade permanente, que não substituí por qualquer outro objecto para o mesmo fim: o fim de saber mais, de conhecer melhor, e, nesse caminho, me surpreender com a conclusão de que, afinal, tenho ainda tanto para conhecer. Livros, não como entretenimento, não para ajudar a preencher o tempo. Aliás, nem mesmo assim penso quando se trata de ler jornais e revistas, ou de viajar, ou de olhar a Natureza, tudo ambientes propícios à aprendizagem. Aprender, com o fim último de apre(e)nder, ou seja, de integrar o aprendido, acumulando ao que já existe, ou que substitui o que se torna dispensável, ultrapassado…
Não sei dizer do sentimento de surpresa, espanto e felicidade que senti quando entrei, pela primeira vez, na Papelaria Silva, em Santarém e vi, bem alinhados, ao alto, muitos livros nas estantes, ali estive um tempo a ler as lombadas, e uma senhora, vestida de escuro, talvez admirando-se, veio perguntar: “o menino precisa…” e eu, em sobressalto, tranquilizei-a, dizendo “só estava a ler os títulos”… que dinheiro não havia para comprar aquelas riquezas.
Depois haveria de chegar o dia da entrada na biblioteca Braamcamp Freire. À entrada, à direita uma estátua em gesso do “soldado desconhecido”, que impressionava e, subindo ao 1º andar, entraria eu e mais alguns alunos da Escola Industrial e Comercial de Santarém para o mundo mágico dos livros ali guardados, para leitura, para consulta, para aprendizagens… Ali estivemos, ali voltámos mais vezes, para obter conhecimentos para trabalhos escolares, ali me apetecia estar mais tempo, a descobrir o que estava para lá dos títulos, ler histórias de vidas de outros tempos, ver imagens que não conhecia, porém o que nos encomendavam os professores era o que estava no programa…
Também viria o supremo encanto pela carrinha cinzenta da Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian, que aparecia silenciosa, pela tarde, e estacionava próximo da Fonte das Três Bicas, lá no Vale de Santarém, e chegava a minha vez de entrar, e então escolhia, escolhia, levava uma braçada de obras para casa, e encantava-me com tudo, tendo começado com “As Aventuras do Trinca-Fortes”, que era uma versão heróica de Luís Vaz de Camões, segundo a visão de Adolfo Simões Muller, até terminar com “A Vida de um Rapaz Pobre”, de Octave Feuillet.
Livros, bibliotecas, um mundo que me encanta, ao qual dedico o tempo possível da minha vida, com interesse renovado a cada compra, mesmo que seja no alfarrabista ou num mercado de velharias… Livros, naquele formato de objecto físico, com capa e folhas, e frases, e perfumes, com ou sem imagens, mas com retratos de vidas dentro, inventadas ou reais, ou então ensaios, ou memórias, ou poemas, ou… sempre a possibilidade da surpresa, do não lido, do não visto, ou não daquela maneira.
Livros, livrarias, bibliotecas, num tempo de tão grandes mudanças, quando outros objectos, frios, minúsculos, sem o seu calor, perfume e plasticidade do livro, se afirmam como seus substitutos.
Requiem pelo objecto livro?… O tempo dirá.

(No “Dia Mundial do Livro 2020”)

Manuel João Sá.

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Livro da 1ª classe da Instrução Primária, que frequentei na Escola Aristides Graça, Vale de Santarém, no ano lectivo de 1953/54.

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Carrinha da Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian.

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Capa de uma edição de “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett. Edição da Livraria Tavares Martins, Porto, em 1946. EDIÇÃO COMEMORATIVA DO CENTENÁRIO DA PUBLICAÇÃO, que foi no ano do meu nascimento.

Reflexão sobre a pandemia da COVID 19

Esta manhã saímos para uma ligeira caminhada. Sol, uma leve aragem, pelas bermas a Natureza a mostrar-se pujante, nos mais pequenos detalhes, que são os seus, mesmo quando confinada ao que os humanos lhe concedem. De súbito, as maias, flores campestres deste tempo do ano, a chamarem a minha atenção, e eu a voltar atrás, quando, lá no cabeço onde morávamos, as maias eram em quantidade, suportadas por caules frágeis, ondulando, ondulando, com a brisa da tarde, sob as oliveiras, rente à vinha.
As maias. A minha mãe a dizer-me que assim se chamavam porque apareciam ainda antes do mês de Maio, e eu mais não fiz do que acreditar: era a minha mãe que o dizia, e era fácil de aceitar o argumento.
As maias. As maias e todas as flores campestres, aqui, ou em qualquer berma, ou valado, ou campo, em qualquer lugar do nosso planeta. Ninguém as semeia, ninguém as planta: são elas que fazem pela sua vida, e como isso acontece nem sempre os sábios da Natureza o sabem descobrir e explicar. A Natureza tem os seus segredos e “regras”, apesar de o homem tanto a esventrar, dissecar, torturar, sem dó, com ganância, soberba e estupidez. Há milhões de anos que ela se defende, se revolta. Há milhões de anos. E ela não se cansa de nos lembrar que tem de ser respeitada, que não pode ser violentada, que há limites para a sistemática tentativa de ultrapassagem dos limites em que os homens se afadigam, para chegarem cada vez mais alto, mais longe e mais depressa, numa visão de contínua, febril, explosiva e destruidora acção, tendo em vista o TER MAIS, SEMPRE MAIS, em vez do SER MAIS E MELHOR, PARA SI, PARA OS OUTROS E PARA O AMBIENTE NATURAL QUE O RODEIA.
Quem o faz? Quem acomete, diariamente, de modo impensável, furioso, arrasador, sobre a Natureza, quer dizer, sobre o Sistema-Terra e tudo o que nela vive, incluindo obviamente os humanos? Somos todos nós. Todos nós! Uns porque para eles o que há como meta, somente, é o lucro, O LUCRO a qualquer preço: quanto maior, mais depressa, e em mais locais melhor. Por cima de tudo e todos, inclusive dos que supostamente devem governar, cuidando dos recursos e da boa gestão, mas que tantas vezes são marionetas, joguetes, nas mãos dos que querem aumentar, aumentar sistemática e sem barreiras os seus cofres. E, por fim, todos nós, cidadãos em geral, que assistimos e não pomos travões a tão gritantes atentados.
Não estão longe as crises das vacas loucas, as gripes dos suínos, das aves.. só para lembrar algumas das mais próximas dos nossos tempos…
Agora, a pandemia da COVID-19. É ainda incalculável o preço físico, moral e económico desta crise planetária, em que estamos mergulhados. “Nada será como dantes”, ouvimos dizer, mas temos direito a perguntar, a querer saber. No fim de contas temos direito (e o dever) de tomar parte, cada um de nós, no nosso futuro e do Sistema-Terra. Nada será como dantes em quê?… para quem?… como?… que há a fazer, se não DEIXAR-DE-FAZER O QUE, DE MODO TÃO EVIDENTE, ESTÁ A DESTRUIR A NOSSA VIDA E A DO SISTEMA EM QUE VIVEMOS?
Há quem pense e afirme que esta crise nada tem a ver com a acção humana. Que será uma calamidade natural, que nada temos de mudar… E há também aqueles que, a toda a pressa, querem vencer a crise pela retoma da “normalidade”. Mas qual normalidade?… Continuando a fazer o mesmo que antes e da mesma maneira?…
Será que nos vamos deixar seduzir por tal visão cega e febril, deitando fora o que esta crise nos trouxe de potencial de conhecimento e de regeneração, em vez de dizermos BASTA!?…aos mais diversos níveis e lugares do nosso SERMOS-CIDADÃOS? É imperioso não deixarmos perder este período único das nossas vidas, para DEFENDERMOS E QUERERMOS, DE FORMA ACTIVA, AS MUDANÇAS QUE ESTA TERRÍVEL CRISE NOS DIZ QUE SÃO PARA FAZER.

(vieram-me à cabeça estas simples reflexões, após a contemplação das maias – e a memória de quando era criança – subitamente encontradas na berma da estrada, no passeio da manhã).

Manuel João Sá.

Maias

 

Nos mares do fim do Mundo, com Bernardo Santareno e uma memória em fundo

Andaria eu no segundo ano da Escola Industrial e Comercial de Santarém quando o meu pai me falou do que sabia sobre os homens que iam para a Terra Nova, em navios, todos os anos, para a pesca do bacalhau. Falou-me do que isso seria, dos perigos que corriam, dos barquitos, chamados dóris, em que tinham de andar, na faina, longe do navio, para lançarem ao mar as linhas carregadas de anzóis com isco, e, longas horas depois, voltarem ao navio, carregados, se possível, de bacalhaus; que assim passariam seis meses, até voltarem a Portugal, às suas famílias, às suas terras, porém alguns lá encontrariam a morte, com doenças ou naufrágios; que alguns meses depois voltariam a partir para nova faina e que, nesse ir e vir, passariam anos, se a sorte os poupasse.
E falou-me também o meu pai do escritor Bernardo Santareno, que tinha estado em algumas dessas campanhas, como médico que era, para socorro aos pescadores, e que teria escrito livros que disso falavam, livros que estavam proibidos, pois neles haver “coisas” que alguns do poder não queriam que fossem faladas…
Mais tarde, quando pude, acompanhei algo da produção literária de Santareno, inclusive assisti à estreia da peça “Português, Escritor, 45 anos de idade”, no Teatro Maria Matos, em 1974, logo após o 25 de Abril, finalmente éramos livres. Depois, foi então a descoberta, que continua, sempre que a ele volto.
Hoje fui surpreendido por um vídeo que desconhecia e que aqui partilho. Carlos Oliveira é responsável por isso, e ainda bem. Agradeço, Carlos. É exactamente sobre a faina da pesca do bacalhau, nos longínquos e perigosos mares gelados do Norte, no ano de 1967. Um video sobre esses heróis portugueses, que partiam para uma vida de grande dureza, sujeitos aos tortuosos caprichos da sorte.
Como gostaria o meu pai de ver este vídeo, que vivamente recomendo…
Manuel João Sá

VIVA O TEATRO!

Tudo começou em 1959. A D. Mariana Viegas, professora da Escola Industrial e Comercial de Santarém, levou para as aulas umas folhinhas com versos, para que os pudéssemos ler e interpretar, quanto à sua forma e sentido, após o que começou a desafiar-nos para os dizermos do modo como achássemos que devíamos fazer, para uma ou mais pessoas. Na verdade, estava a convidar-nos a assumir o papel de “declamadores” de poesia, designação que então se aplicava, vulgarmente, aos que o faziam.

Já antes, o meu pai havia integrado um grupo de teatro da Sociedade Recreativa Operária da minha terra – o Vale de Santarém – e chegava a casa, depois dos ensaios, feliz pelo que estava a viver, transmitindo-me, sem saber, o interesse por essa “coisa” do teatro. Porém, por morte do pai da actriz que tinha o papel principal, os ensaios foram interrompidos e, depois, o projecto foi abandonado.

Mas, ainda quando criança, eu costumava assistir às representações com que, num largo da minha terra, os grupos de saltimbancos deliciavam quem assistia e, voltando a casa, montava, sem saber, o “meu teatro” debaixo da chaminé, que era alta e tinha uma cortina, que eu afastava sempre que ia repetir, para todos, lá em casa – e já eram muitos – o que ouvira dos saltimbancos.

Voltando à D. Mariana Viegas… antes do 1º de Dezembro de 1959 a senhora disse-me que me tinha indicado para ir “declamar um poema na festa que ia haver na cantina da escola, ao Canto da Cruz, que tinha de ser eu, porque tinha jeito…”. E foi assim. Lá fui para o palco, montado no meio da enorme sala, rodeado de rapazes da então “Mocidade Portuguesa”, trajados a rigor, com o longo poema na ponta da língua e o tal jeito, mais adornado e posto em ordem pelas diversas repetições e chamadas de atenção que a professora D. Madalena Tavares me havia dado, pois ela era a coordenadora da festa, que era de exaltação do sentimento patriótico!…

Acabada a função, cumprida conforme previsto e selada com palmas, só ao fim de muitos anos pisei palcos a sério, como membro de um grupo de teatro, melhor dizendo, de um grupo de amadores / amantes de teatro. Foi no Banco onde trabalhei – o Banco Borges & Irmão – onde durante dez anos integrei o Grupo de Teatro do Centro de Cultura e Desporto dos Trabalhadores. Foram anos de grandes aprendizagens, que ficaram para a vida, profissional e social.

Hoje, no chamado DIA MUNDIAL DO TEATRO, vem-me à memória esse percurso, que agradeço à vida ter vivido, com outros companheiros de trabalho e de palco, sempre a pensar, vida fora, que “um dia ainda volto ali”. No entanto, os anos correm céleres…
VIVA O TEATRO!

(Em memória das professoras Mariana Viegas – Mãe de Mário Viegas – e Madalena Tavares, que estiveram no início de tudo, quanto ao meu AMOR AO TEATRO. O meu obrigado aos encenadores Jose Gil, Alfredo Brito, Rogério Vieira).

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Espectáculo “Sem Cons(c)erto”, com base em textos de Karl Valentim e José Gomes Ferreira, na Sociedade Guilherme Coussul, em Lisboa.

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No fim de Espectáculo em Santarém, no Teatro Taborda. Excerto da peça “Viagem à Roda da Parvónia” de Guilherme de Azevedo. 1984.

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Da peça “Piquenique no campo de batalha” de Fernando Arrabal. Em Lisboa.