Benfica-Sporting no Vale de Santarém e outras memórias sobre futebol

O Mário do Benfica chorava sempre. O Benfica estava a ganhar, ele chorava. O Benfica estava a perder, ou a empatar, ele chorava. Acabado o jogo, fosse qual fosse o resultado, o Mário chorava, tipo “baba e ranho”. Andava ali, frente à taberna do Baeta, de um lado para o outro, a remoer, para dentro, as incertezas dos resultados, copos de tinto e lágrimas à mistura, a telefonia em altos berros, roufenha, o senhor Baeta a sintonizar melhor, o Artur Agostinho a dar o cenário como ninguém, os adeptos em grande algazarra, ou a baterem palmas, ou num urro de estremecer tudo e, no Vale, alguns a enfernizarem o ambiente em volta do Mário, mas o José Águas, cabecinha d’oiro, a saltar para mais um golo soberbo na baliza adversária, e o Mário a dizer “vês, vês, eu não te dizia…”, como a convencer-se de que íamos ganhar, “tá quase, tá quase pá…”, vá de chorar um pouco mais, o jogo acabava, o Benfica ficava quase sempre a ganhar, mas o Mário continuava por ali, lágrimas nos olhos, parecia uma criança, feliz, rosto encarniçado, mais para o vermelho cor das camisolas do Benfica.  O Manel Careca, outro benfiquista, bem se afadigava, com paciência, na sua vozinha tremida e aflautada, em consolar o Mário, mas era o mesmo que chover no molhado. Aquilo era uma doença… 

Era muito diferente, na expressão, a doença do Rifa, que era do Sporting, zangava-se se o Passos deixava passar a bola entre os enormes pés que se dizia que ele tinha, “aquele corno tem pés de alicate…”, e zangava-se se o Carlos Gomes fazia uma grande estirada, mas era mais para a fotografia, afinal era golo, dava saltos de corça se o Albano, pequenino, fintava todo o mundo pela extrema esquerda, e metia a bola, direitinha direitinha, para a cabeça do Travassos e era mesmo golo, e isso passava a irritar ainda mais o Mário do Benfica. Por vezes andava por ali o João Carvalho, do Sporting, que fazia por não dar muito nas vistas, que ele não era de tabernas, mas gostava de estar pronto para a festa de rua se o seu clube ganhava, de modo que era mais um a atazanar a cabeça do Mário, mesmo que nada dissesse, sobretudo em dia de jogo entre os dois grandes rivais. Silencioso, sem se deter entre o grupo, frente à taberna, o João Carvalho tinha especial prazer em saborear os golos dos “cinco violinos”, com um meio sorriso, para não ferir consciências rivais, porém, se o seu Sporting perdia, remetia-se a casa, na rua principal e, dizia-se, fazia descarregar as amarguras da derrota sobre a mula: dirigia-se ao estábulo e não descansava enquanto não assentava umas fueiradas no lombo da quadrúpede, coitada, já que não podia dar umas arrochadas nos jogadores do Sporting. Seu filho, Manuel João, que viria a ser um exímio futebolista, com a alcunha de “Albano”, tal o seu virtuosismo, também sportinguista, haveria de suportar as brincadeiras dos amigos, a propósito dos eventuais tratos dados à mula, em dias de derrota clubística, mas outros, do Benfica e do Sporting, tinham outras formas de expressar incontidas alegrias ou tristezas, incluindo estas, para alguns, o jejum, os copos ou os maus tratos lá em casa…

Naquele tempo, no Vale, não se falava do Futebol Clube do Porto. Ninguém, que eu conhecesse, era adepto do Porto. No entanto, era um pouco estranho, porque houve épocas em que o Porto teve equipas de grande nível, com jogadores de imenso talento, e isso era audível, se assim se pode dizer, nos relatos durante os jogos e, depois, nos comentários aos jogos, nos jornais desportivos “A Bola” e o “Mundo Desportivo” – onde escrevia o valesantareno Nuno Mota – jornais que costumava encontrar na barbearia do Sr. Frederico, e era um prazer estar ali, a saborear aqueles artigos de gente que sabia apreciar futebol.  Em certa épocas, a qualidade da equipa do Porto foi tal, que acabei por fixar a linha, como se dizia. Jogavam em sistema WM, ou seja, além do guarda-redes, três defesas, dois médios, e cinco avançados, sendo dois extremos, dois interiores e o avançado-centro -, como quase todas as equipas, então. Alguns grandes jogadores, mas sobretudo uma equipa coesa, ganhadora, a da década de 1950: Pinho (guarda-redes), Virgílio, Miguel Arcanjo e Barbosa (defesas), Luís Roberto e Monteiro da Costa (médios), Carlos Duarte, Hernâni, Noé, Teixeira e Perdigão, os avançados. Hernâni era o maestro, o cérebro, como também se dizia, mas Carlos Duarte era um perigo pela extrema-direita, veloz e fortíssimo. Toda a linha avançada marcava golos, e essa era uma das marcas que o treinador,  Dorival Yustrich, brasileiro, conseguiu implantar. Um dia meu tio João levou-me a um Benfica-Porto, no estádio da Luz, que o Benfica ganhou. Foi numa tarde de domingo, no Inverno, cheia de sol, mas fria e ventosa, em que a bola parecia uma bicha de rabiar, fugidia e de efeitos imprevistos, tocada pelo vento. Hernâni era o único que sabia que fazer, entre vinte e dois jogadores: a bola vinha endemoninhada, mas ele, atarracado e peitudo, pernas arqueadas, um pouco fortes para atleta, acolhia a bola com meiguice, dominava-a com classe, colava-a à relva com saber, escondia-a dos adversários, rodando sobre si, e saía a jogar, de tal modo notável que até uma portista, cheia de cachecóis azuis, como os seus olhos, e argolas enormes nas orelhas, ali ao pé de nós, gritou o tempo todo, até enrouquecer: “anda Arnâni, qu’és o mestre da bola!”. E era.

O Belenenses… o grande azul de Lisboa, e também de Portugal. Onde as referências, na minha cabeça, vêm desde Pepe, e do que dele me foram dizendo os mais antigos: o melhor jogador português de então. Figura do Belenenses, desde 1926, da selecção e do país, partiu de forma trágica com apenas 23 anos. Uma morte que pode ter custado outras glórias ao clube do Restelo. Mas não só: José Pereira, o “pássaro azul”, guarda-redes, e as torres de Belém, quatro defesas: Feliciano, Capela e Vasco Oliveira e, noutras versões, com Serafim das Neves, garantiam a solidez defensiva do Belenenses, durante várias épocas a defesa menos batida. E depois, génios, como Vicente, Dimas, Di Pace e, acima de todos, Sebastião da Fonseca Lucas, aliás, “Matateu”. O célebre “Matateu”, o “terror dos guarda-redes”. Há uma pequena publicação antiga, do tipo “Ídolos do Desporto”, que tem na capa o grande Matateu num dos seus célebres pontapés de tesoura: todo no ar, as pernas num movimento de tesoura, o pé (esquerdo ou direito) esticado, acertando em cheio na bola, e o ar determinado, plástico, belo, do executante, parecendo antever que vai atingir o objectivo do jogo – o golo!… Uma imagem que guardo, a sépia: em papel e na memória. O Belenenses, clube dos meus amigos Freitas de Carvalho, da Fonte Boa-Estação Zootécnica Nacional. Uma família, com o pai Freitas de Carvalho no comando, equitador na EZN, cujos filhos, António José, João José, José Emílio e Maria do Carmo-Micá, eram, além de meus amigos, grandes belenenses. E há quanto tempo não nos reencontramos, amigos!?…  

Outras equipas chamavam a minha atenção, como o Sporting de Braga, onde, durante anos, os irmãos Mendonça (João, Jorge e Fernando) com o Jorge em maior plano, eram uma dor de cabeça para o Benfica. Lembro-me de grandes jogos entre os dois clubes, sempre renhidos, até que o Jorge Mendonça, um jogador de grande nível, foi transferido para o Atlético de Madrid, onde conseguiu grande êxito. Outro clube do mesmo nível, naquelas décadas de 1950 e 1960, como ainda hoje, o Vitória de Guimarães, onde triunfaram jogadores como os irmãos Pinto, um dos quais haveria de seguir para o Porto, e os brasileiros Edmur e Caiçara, grandes referências históricas do clube.

Última referência para um clube mítico, o Lusitano de Évora. Do tempo em que, tendo saído do Benfica um avançado de grande gabarito, chamado Du Fialho, natural de Cabo Verde, após uma intervenção cirúrgica e, ao que se dizia, por ter aparecido a concorrência de jogadores mais jovens… foi jogar para o Lusitano. Ora, em 27 de Outubro de 1957, exactamente na primeira deslocação do Benfica a Évora, após a transferência de Fialho, para defrontar o Lusitano, o resultado foi de quatro a zero. Quem ganhou? O Lusitano. Fialho, além de Flora, Batalha e Cardona, fizeram a cabeça em água ao Benfica, onde José Águas e Mário Coluna e outros grandes jogadores marcavam o ritmo, mas não conseguiram, nesse dia, um golinho que fosse, na baliza do grande Vital. No próprio relato do jogo, já se foi falando de vingança do Fialho, que destroçou, pouco a pouco, com os seus companheiros, a equipa do Benfica, superior, à partida. Mas, no dia seguinte, a imprensa era ainda mais contundente. Foi a partir daí que fiquei a admirar esse grande clube, O Lusitano Ginásio Clube, de Évora, de tal modo que guardei na memória, e aqui permanece, até hoje, uma das suas linhas: Vital, Teotónio (ou Polido), Falé e Paixão, Olmedo e Garcia, Quinito, Caraça, Batalha, Fialho e José Pedro.

De regresso ao Vale de Santarém… passava-se na rua principal, aos domingos e, de dentro das tabernas, saíam os sons inconfundíveis dos relatos, de modo que era possível passar da taberna do Isidro, à do Farelo, à do Zé Inglês, à do Baeta, à do Manel Jaquim, à do Zé Pego, ou então, para falar também de outras, ir até à do Jaquim Cabreiro, ou da Maria do Padre… e os golos e outras incidências iam alimentando o imaginário de quem só ouvia e esperava que o seu clube ganhasse. Grande parte do Vale – homens e rapazes, é claro – vivia nesses dias, nas tabernas ou perto, um acontecimento comum, com diferentes expectativas, consoante o seu clube, e depois de festejos momentâneos ou tristezas, ficava a discussão nos ares, ou a retirada, silenciosa, menos feliz. Tudo porque era só ali, nas tabernas, que havia telefonias. Era ali que se ouviam os relatos e comentários de Artur Agostinho, de Amadeu José de Freitas, de Lança Moreira, de Vítor Ferreira de Melo e outros grandes, desse tempo, dos relatos radiofónicos. E, para entreter, ou para ajudar a temperar os nervos dos radiouvintes, havia as mulheres que, nas proximidades das tabernas, vendiam castanhas assadas, ou rebuçados, ou tremoços, ou pevides. Ou então, enquanto os relatos ecoavam pelos ares, alguns jogavam ao chinquilho, ou à sueca. Aparentemente, para não sofrerem… ou sofrerem menos.

Eu tinha, no Vale, grandes amigos, rapazes da minha bugalhada, adeptos do Benfica e do Sporting. Alguns já partiram, infelizmente: Azenha, Orlando, Joaquim Rafael, Helder. Ensinou-me a vida, bem cedo, que as rivalidades clubísticas não podem, nunca, estragar as amizades e, felizmente, assim foi, sempre. Não sei como, mas aconteceu: da parte deles e da minha. O João Ferreira foi, e é, um desses amigos. É benfiquista, filho de um grande amigo de meu pai e de meu tio João. Como irmãos, e tratavam-se assim. Viviam desde crianças no Rio das Patas – o Sabino, pai do João, lá muito mais para cima. Já partiram, também, os três. A amizade entre eles ajudou, e muito, a cimentar a nossa. Íamos jogar muitas vezes para uma pequena área aberta num pinhal que era da quinta de Rebello da Silva, junto à levada, da parte de cima das hortas, as mais das vezes com uma grande bola de trapos, pois era difícil arranjarmos uma de borracha e, uma de “catchumbo”, com pipo e tudo, isso então era uma miragem. Esse nosso campo era uma maravilha: plano, com alguma erva, parecia que era relvado, até gastarmos a erva toda com as nossas jogadas, de pé descalço. Tinha duas oliveiras, que faziam de baliza, numa das pontas e, pelo meio, outra oliveira, mais pequena, que dizíamos ser o defesa da equipa contrária. Tínhamos de a fintar, mas algumas vezes batíamos contra ela, com a cabeça, uma vez caí redondo e fiquei esfolado na cara, andei dois dias de mão na cara, para meus pais não verem, mas eles tinham olhos de lince, e lá tive de contar que… o defesa central da equipa adversária não se tinha desviado para eu continuar a jogada, e pronto…

Juntávamo-nos lá, com o Celestino, a quem a minha avó Alexandrina chamou, sempre, de “Cestrino”. Por vezes aparecia também o “Ganilha”, mas esse era mais tipo ave de arribação: dava uns toques, uns remates, depois ia à vida. E o Vassalo, também, outro sportinguista. E o Fernando, da Palmira, mais um sportinguista. De modo que fazíamos ali grandes jogos: o Celestino centrava, sempre da esquerda, que era o forte dele, passes bem medidos, em arco ou tensos, o João aparecia no hipotético centro da área, havia um ou mais defesas, para além da oliveira pequena, a tentarem contrariar o poder finalizador do João, um matador em potência, e eu, à falta de mais recursos, ficava na baliza, entre as duas oliveiras a fazer de postes, saltando, como um gato, a tirar a bola da cabeça do João, eu arrojando-me ao solo, eu a ir buscar a bola aos pés do João, e muitas vezes não era golo… Mas havia uma coisa notável: era o relato do que ia acontecer, ou de que estava a acontecer, ou do que tinha acontecido, há segundos. O Celestino, sportinguista, enquanto corria, com a bola, junto à extrema imaginária e preparava os passes para o centro da área, punha nele o nome de jogadores do seu clube, e a jogada que ele iniciava e levava por diante, relatava em voz alta e a preceito e a bola podia passar pelo Peres, pelo David Julius, ou por outro grande jogador do Sporting e depois eu ia relatando também, até a bola chegar à zona de acção do João, benfiquista, mas não fazia mal, para aquele caso punha nele nome de jogadores do Sporting, e eu aparecia a defender, com o nome de Costa Pereira, pois claro, e por aí fora, tardes inteiras. Era assim, a não ser que nos desse na cabeça para, desanuviando, irmos aos pássaros, e aí a estrela era também o João, como um dia hei-de contar, ou tomarmos banho no ribeiro, ali mesmo ao lado, ou irmos ao dinheiro, ou seja, procurar moedas nos locais do ribeiro onde as mulheres iam lavar as roupas e, por vezes, dos bolsos das calças dos maridos, nas águas caíam umas moeditas… Curiosamente, mais tarde, o João e o Celestino haveriam de jogar nos Leões de Santarém, na equipa de seniores, e eu na de juniores. Mas a arte deles era bem superior, sem dúvida. E isso era, ainda é, uma honra, para mim.

Não ficam por aqui as pequenas memórias sobre o futebol na minha vida. Escola de formação e de aprendizagem desportiva, mas também para a vida, começou no Vale de Santarém, continuou, como atleta praticante, pelos Leões de Santarém e pelo Grupo Desportivo do Songo, neste caso no tempo da guerra colonial. Mas foi muito para além disso. Até aos dias de hoje, quando em vez das celebrações das vitórias, com respeito pelos que não ganharam, daquela vez, quando os ódios e os desmandos de todo o tipo, com origem em alguns membros de corpos gerentes e outros sem nível, deitam abaixo uma modalidade que podia, e deveria ser, exactamente o contrário. E é isso: o contrário da podridão, da mixórdia, da mentira, que eu desejo. Sempre. 

Quem dera que hoje, no Benfica-Sporting que vai haver, houvesse decência. Elevação. Respeito. Independentemente do vencedor.

Manuel João Sá.

 

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2018

2018?

É, segundo o calendário, o ano a seguir. Para os que cá estão, para os que, nele, cá hão-de vir e, também, para os que já partiram – estão, pelo menos, nas nossas memórias.

Na vida tudo é passagem, mas também aprendizagem. Que a passagem de mais um ano seja conseguida da melhor forma possível. Que saibamos aprender, para sermos melhores, mais justos, mais… Pessoas. Simples. Fraternos. Humanos. Independentemente de credos e opções políticas, ou outras. Que respeitemos e exijamos respeito. Que saibamos reconhecer o erro próprio e dizer “errei, enganei-me, peço desculpa”… 

Se, como o poeta Ramos Rosa disse, e eu concordo, “a vida é uma vitória que se constrói todos os dias”, então tenho que me pôr a caminho, para conseguir essa vitória. Ainda vou a tempo?…

Ah, para além disso: 2018 de saúde e paz. E assim por diante…

Manuel João Sá.

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Imagem obtida na internet

 

O 1º almoço convívio dos antigos trabalhadores da Fábrica AVILIMA, do Vale de Santarém

Foi no passado 25 de Novembro. Dia de algum sol e de festa no Vale de Santarém, pois realizava-se o 1º convívio dos antigos trabalhadores da fábrica que, nos primeiros anos da década de 1950, viria a marcar um período novo na história da terra. Do Vale de Santarém, mas também de outras terras em redor, como Póvoa da Isenta, Vila Chã de Ourique e até de Pontével, mulheres e homens, de idades diversas, iniciavam ali uma actividade nova nas suas vidas, numa unidade industrial que, também ela, era nova na região e, de certo modo no país, dado o facto de um dos seus produtos – os sapatos à base de guita, com solas de cabedal – ser completa novidade.

Passaram os anos, a fábrica teve o seu apogeu e, no ano de 1986, haveria de encerrar as portas. Pelo meio, muitas realizações, muitas histórias pessoais e de grupo vividas e, depois, anos a fio, recordações a virem à tona, nos corações e nas bocas de quem lá trabalhou, pelo que, como é natural, foi surgindo a ideia, que levava à pergunta: e se fizéssemos um almoço, um convívio? Mas, os anos iam passando e tal não acontecia. Ora, andando eu interessado na história da Fábrica AVILIMA – na qual trabalharam quatro das minhas irmãs – e estando a pesquisar sobre o assunto, em jornais e através de conversas com quem lá trabalhou, fui falando com a minha irmã Maria Inocência, sobretudo, e também com a  Vitorina Rosa, a Manuela Grazina, a Manuela Ferreira e outras e, mais recentemente, calhou estar à conversa com outro grupo que também lá andou. Soltei então a pergunta: já alguma vez fizeram algum encontro? E veio a resposta, imediata, da Fátima Rosa: não, mas ando há anos a pensar nisso, de fazer um almoço, para juntar “o pessoal”. Então, de que está à espera?… que o tempo vai passando, ripostei… e a Fátima, dizendo “agora é que vai ser…” puxou logo para a conversa a Rosa Tomé, que estava ali ao lado – era um dia triste, pelo velório do falecimento de Joaquim Gomes.  

Alguns dias mais tarde, a Fátima disse-me que já estavam a organizar o tal convívio, que já tinha data e local, que andavam a tentar falar às mulheres e homens de quem tinham os nomes, para lhes dar a notícia. Que se calhar não iriam conseguir chegar a todos, pois não teriam alguns nomes, ou os seus contactos. Que, no entanto, haveriam de falar com familiares, mesmo que não tivessem trabalhado lá. Que iam divulgar, o mais que pudessem. Que havia antigos sapateiros de quem nada sabiam, mas que iam tentar encontrá-los. Que estavam a tentar obter obter fotografias daqueles tempos, e que gostariam de as mostrar, projectadas, no almoço, perguntando se eu podia colaborar – claro que sim, eu próprio já tinha algumas fotos, obtidas nas minhas pesquisas. Que além do almoço haveria uma romagem, no cemitério e missa na igreja do Vale, lembrando os que já partiram. Que, durante o almoço, haveria música e baile, e tudo!… Que gostavam de me ver lá… Que iríamos falando. E assim foi.

O tempo foi correndo, rápido. Tendo resolvido “meter mãos à obra”, Fátima Rosa e Rosa Tomé, a que se juntaram Gabriela Catalão e Irene Ramos, certamente com mais ajudas, puseram de pé o primeiro convívio, que terminou no almoço no restaurante Quinzena do Santarém Hotel, no qual estiveram mais de 120 pessoas, a maior parte trabalhadores da Avilima, além de familiares e amigos. Foi, naturalmente, um dia de muita alegria para todos os que passaram anos naquela fábrica, algumas desde o tempo em que ainda eram meninas de treze anos, ou pouco mais, outras já casadas, com filhos, para quem se abriu uma nova fase, uma nova oportunidade na sua vida. Os sapateiros, alguns deles vindos de Pontével, para a fábrica – Jaime Rato, Júlio, José Chagas, José Silvestre; os sapateiros, vindos também de outras zonas, como da região de Torres Novas, de onde era natural João Brogueira, que a partir de certa altura haveria de ser uma figura central na coordenação operacional da fábrica; os sapateiros, onde também havia naturais do Vale de Santarém, como o Bruno; dos sapateiros, estiveram presentes no convívio: Valdemar Sá (do Vale) e Pedro Cordeiro, Frederico e Quim, sobrinho e afilhado de João Brogueira. 

Nos sorrisos, nos abraços, nas lágrimas que as emoções acabaram por fazer saltar, as mulheres e homens da AVILIMA tiveram, enfim, um dia memorável, relacionado com a sua vivência na histórica fábrica, encerrada há 31 anos. Seria difícil falar aqui dos nomes de todos os participantes deste reencontro, que trabalharam naquela fábrica, nem esse é o propósito desta crónica. Destaque-se no entanto a presença de Emília Batista, a Batista, como todos lhe chamam, mulheres e homens. Como já disse em crónica anterior, sendo mais velha, e solteira, era escolhida pelas mais novas como confidente, conselheira, amiga para as horas difíceis, para as conversas e aprendizagens que requeriam alguma reserva. Mas era também fazedora de momentos de convívio alegre, durante o trabalho e nas horas vagas, nomeadamente quando caminhava entre a fábrica e sua casa, uma viagem longa, a pé, todos os dias, pois é natural de Póvoa da Isenta. Não se estranha, pois, que tenha sido a Batista uma das mais saudadas antigas trabalhadoras da AVILIMA onde, disse-me, esteve 27 anos, nos sapatos de guita, enquanto sua irmã, Maria Delfina, esteve 18 anos na mesma área. 

Recordações de muita emoção também, as que foram vividas na visita à pequena, mas muito bem organizada exposição, patente na sala do convívio, onde se podiam admirar vários aspectos e artigos do trabalho da AVILIMA, como os sapatos – de guita e de couro – os chapéus e malas para senhora – revestidas de bunho ou em couro – e até um tear e mostras de trabalhos com ele obtidos, além, ainda, de formas, em madeira, para a confecção dos artigos. Um espaço onde, afinal de contas, se harmonizavam as áreas de trabalho manual e oficinal do operariado especializado – dos sapatos, dos teares e sapateiros – todos contribuindo para o produto final da fábrica. Foi aí que, no meio das memórias, me falaram, várias vezes, da minha irmã Maria Manuel (Nélita) que trabalhou nos teares, e que a morte levou, quando tinha vinte e quatro anos. Eu sabia que ia passar por aquilo… pelas memória e referências à Nélita. De certo modo, ela também também estava ali, naquele dia. Com as colegas, amigas. Comigo. 

Claro que, no meio de muitas conversas, fui encontrando referências a quem teve e lançou a ideia da constituição da AVILIMA – D. Encarnação Lima Monteiro e D. Elisabete (Babete) Avilez, de cujos apelidos nasceu o nome AVILIMA, bem como as referências a outros seus colaboradores mais próximos, entre mulheres e homens. Estes e muitos outros aspectos serão para o trabalho de outra dimensão que encetei, há uns tempos, sobre a AVILIMA, onde se inclui, nomeadamente, o de confirmar se, como já me foi dito, mais recentemente, a designação oficial, inicial, da empresa, terá sido o de ALPARCAS AVILIMA.

Para finalizar, é tempo de dar os parabéns a quem organizou este 1º convívio dos antigos trabalhadores da AVILIMA: teve muitos participantes, foi bem organizado, correu bem, teve alegria, emoção, a memória e a homenagem a quem já partiu, e contou com a boa animação musical de Daniel Matos, da Póvoa da Isenta. Nos momentos que consegui captar, em fotografias e filmagens, de que fiz um vídeo, está bem expresso esse festivo ambiente de convívio, no almoço. É para continuar. É o que desejo e, também já soube, tal vai acontecer, pois a equipa que tomou a empreitada, contando com todas as colaborações que sempre são de agradecer, vai voltar a nova realização em 2018. Assim seja. 

Manuel João Sá

8 Dez 2017

Para ver o vídeo, clicar em:

 

 

A Fábrica Avilima, do Vale de Santarém

Primeiro contributo para a História da Fábrica Avilima, do Vale de Santarém.

Teria eu oito anos quando comecei a ouvir falar de uma “fábrica dos sapatos”, no Vale de Santarém. Não posso precisar se já estava a funcionar nessa altura, mas lembro-me de que na terra ia uma grande discussão sobre o assunto: uma nova fábrica era a novidade, e toda a gente, nas lojas, nas tabernas, nos campos, na praça, pelas ruas, tinha algo a dizer. As opiniões, as interrogações, como sempre, eram muitas. Tal novidade surgia após a ausência, durante anos, de novas unidades fabris, por ali. Na verdade, havia então a “fábrica dos briquetes”, uma unidade industrial de transformação de minério de carvão em blocos, semelhantes a tijolos – os briquetes – destinados ao consumo em fornalhas de grandes dimensões, como as dos comboios de então e outras máquinas. Situada na zona de Cadima, mesmo junto à linha férrea do Norte, esta fábrica recebia parte dos materiais de carvão extraído na mina de Rio Maior, e que era canalizado para ali, através do ramal ferroviário criado em 1945, chamado ramal de Rio Maior, entre esta vila e o Vale de Santarém. Trabalhavam aqui alguns homens do Vale e das proximidades, em condições muito difíceis, sujeitos à doença pulmonar causada por depósitos de poeira de carvão nos pulmões, como mais tarde se veio a comprovar – sobre este tema estou a elaborar trabalho, que irei divulgar.

Além desta, havia ainda a “fábrica das gasosas”, ou seja, a Fábrica de Refrigerantes Águia d’Ouro, então propriedade do Dr. Fragoso de Almeida, médico, natural do Vale, com consultório na terra, no edifício que vinha da família, na Rua Marquesa da Ribeira Grande. Esta fábrica, tendo já estado noutros locais do Vale, situava-se então no quintal do dito prédio. Desta fábrica, além das gasosas, saiam laranjadas e pirolitos e, em determinado período, um refrigerante à base de cola, que pouco tempo durou, pois veio a ser proibido no País. Os refrigerantes da Águia d’Ouro, de boa qualidade, eram vendidos em tabernas e outros lugares de muitas terras nos concelhos de Santarém, Cartaxo, e outros, em redor. Esta fábrica dava trabalho a cerca de doze pessoas: no engarrafamento, na lavagem e na distribuição, e também dava um certo prestígio à terra, do que hei-de falar. E era tudo o que havia de fábricas, naquela época, no Vale de Santarém e, pelos arredores, muito pouco se encontrava no domínio industrial, no concelho de Santarém – somente para os lados de Torres Novas, Tramagal e Pernes havia crescimento do desenvolvimento industrial. Também estou a organizar uma história desta fábrica, tanto mais que meu pai, Manuel da Silva Sá, foi, durante quase toda a sua vida profissional, trabalhador nesta unidade.

Foi por isso com algum alvoroço que o Vale recebeu a criação da nova fábrica, destinada a fazer sapatos para senhoras, essencialmente, dizia-se, com a particularidade de, além das solas em cabedal, o restante ser confeccionado em guita, em trabalho feito à mão. Portanto, um trabalho destes exigia muita mão-de-obra, e o Vale acabou por ser, naturalmente, o principal centro de recrutamento de pessoas para essas tarefas. Não foi sem alguma contestação que a novidade foi recebida por alguns sectores da zona, mais ligados ao sector agrícola, em especial, os proprietários de maior dimensão. Precisando sobretudo de mulheres para certas actividades sazonais, como as vindimas e a apanha da azeitona, por exemplo, estes proprietários ficavam com menos pessoal disponível, pois era de esperar que, face à novidade da fábrica, preferissem seguir esta via para a sua vida, se tivessem oportunidade, considerando que era trabalho mais qualificado, mais limpo, exigindo menos dispêndio de energias e era realizado “debaixo de telha”, com a possibilidade de ser mais bem pago. Não fazia mal tentar e, se fosse possível, era muito provável que a decisão das mulheres fosse… deixar o trabalho do campo e avançar para a fábrica. As mais jovens, sobretudo, assim pensariam, e aí estava o receio dos grandes agricultores, que teriam de ir mais longe recrutar o pessoal que o Vale de Santarém passaria agora a ter em menor quantidade, para o trabalho agrícola.   

A ideia da concepção e lançamento da fábrica e do negócio correspondente foi de D. Encarnação, esposa de Joaquim Lima Monteiro, agricultor de muitas posses, do Vale, e de D. Elisabete (Babete, para os amigos) casada com o também conhecido Eng. Avilez, que trabalhava na Fonte Boa. A partir dos apelidos Avilez e Lima construíram o nome da Fábrica – AVILIMA – que teria como objectivo, sinteticamente, produzir sapatos para senhoras (usando guita, como já dito, além do cabedal, para as solas) a que juntaram o fabrico de chapéus, malas e outros adereços, também para senhoras. Assim, a fábrica tinha duas áreas distintas de produtos, para clientes finais do sexo feminino. Essas duas áreas (sapatos, por um lado, e chapéus e malas, por outro) obrigaram a necessidades de aprendizagens para aplicar saberes e técnicas específicas, que as operárias foram começando a distinguir desta forma: “as dos sapatos” e “as dos teares”. Portanto, a partir daqui, e pela experiência que as operárias contavam em casa, com amigas e pelo Vale, veio a ficar, para o futuro, que havia “os sapatos” e “os teares”, mas a fábrica haveria de ficar mais conhecida, no Vale e arredores, pela “fábrica dos sapatos”… da Avilima, talvez por ser maior o número de pessoas a trabalhar nessa área dos sapatos. À D. Encarnação ficava entregue, em particular, a área dos sapatos e, à D. Babete, a dos teares.

Além do recrutamento de mulheres, também houve necessidade de homens, para sapateiros. Quanto às operárias, a selecção incluiu logicamente quem tivesse a escolaridade obrigatória, abrangendo pessoas de diferentes idades, promovendo-se assim um certo equilíbrio etário que, se não foi desde logo previsto, viria a funcionar positivamente depois, como foi reconhecido pelas próprias trabalhadoras (que me referiram este pormenor) por ajudar ao desenvolvimento das mais novas, em termos pessoais e sociais, apoiadas pelas de maior idade – a possibilidade de contacto permanente, naquele ambiente propício, com mulheres já casadas, permitiu-lhes outra preparação para a vida. Por outro lado, apesar de ter sido o Vale a terra que, desde o início, mais contribuiu para a força de trabalho da nova fábrica, no que respeita às mulheres, também acabaram por entrar algumas outras, sobretudo da Póvoa da Isenta. Quanto aos sapateiros, necessários também em quantidade razoável, e de preferência já com algum conhecimento prático da profissão, era mais difícil a sua obtenção no Vale, pelo que houve que recorrer a outras zonas onde pudessem existir e de onde pudessem deslocar-se, diariamente, para o Vale, ou então mudarem a sua residência para a aldeia. Foi assim que, para além dos muito poucos que foi possível obter no Vale, vieram sapateiros das zonas de Torres Novas e de Pontével, além da zona da Benedita e ainda de outras terras mais próximas do Vale.

A fábrica terá começado a funcionar nos primeiros anos da década de 1950, naturalmente de início com uma fase de aprendizagem e formação por parte da maioria do pessoal, sobretudo das mulheres. Quanto aos sapateiros, que já dominavam o essencial básico da função, teriam somente de afeiçoar esse seu saber prático a novo tipo de sapatos – foi o caso do Sr. Bruno, sapateiro, do Vale. Passada essa fase inicial, a fábrica entrou em laboração normal, mas as instalações eram ainda precárias – só mais tarde haveria mudanças para uma nova zona fabril, para instalações adequadas. Na primeira fase, terão entrado somente algumas operárias, como a Dionísia “do Brás”, a Ilda, do Manel Pedro, a Alice, irmã da Ilda, a Maria Isabel “do Zé Carlos”, a Alda do “Toinico”, a Fernanda “do Hermenegildo”, a que outras se seguiram, um pouco mais tarde, entre as quais: a Maria Júlia “do Pereirita”, a Emília de Oliveira, “do Quintelas”, a Maria Elisa “do Canha”, a Maria Inocência Sá, a Vitorina Gaspar, e a Emília Batista e irmã, Maria Delfina, estas duas da Póvoa da Isenta. As mulheres tinham, como chefe, a D. Carolina, na parte dos sapatos. Nos teares, Gilberta, filha do Sr. Dionísio da farmácia, era a responsável, braço-direito da D. Babete.

A fábrica passou a oferecer ao mercado um produto que não existia (no caso, dos sapatos de guita) e outros produtos que, embora existindo (chapéus e malas para senhora) havia a intenção de aparecerem como novidade, diferentes, portanto, do que havia à venda. Estando por confirmar, da minha parte, se havia produção para exportar, não é de excluir que essa vertente tenha sido também equacionada e praticada, com o avançar da consolidação da nova unidade fabril, já depois de passar a estar em instalações definitivas e melhor apetrechadas.

Muito mais há a dizer sobre a “fábrica dos sapatos”, a Avilima, que marcou o Vale de Santarém durante algumas décadas, e por onde passaram muitas dezenas de trabalhadores, mulheres e homens, nas duas vertentes: sapatos e teares. Famílias houve em que todos os membros disponíveis trabalhavam para a Avilima: presencialmente – na fábrica – ou em casa, sobretudo quando se tratava de sapatos, pois que sendo o trabalho uma espécie de “entrançado” feito com guitas, sobre um desenho em cartão, colocado numa almofada assente num banco próprio de madeira (como uma das fotos mostra) era possível, a quem aprendesse (mulher ou homem) fosse operário contratado ou não, reproduzir o que era apresentado como molde a seguir, com desenhos que variavam, e conforme o tipo de sapato: raso, de salto alto, ou até chinelas. Assim, casos houve em que o marido, a irmã, o irmão ou mesmo outros familiares, acabaram por ser, também, operários da Avilima, sem contrato – portanto, fora do controlo oficial – recebendo catorze escudos por cada par, na fase inicial.

A Fábrica Avilima transformou, de certo modo, o Vale de Santarém, contribuindo inegavelmente para o seu desenvolvimento. Para além de outros aspectos importantes a salientar, termino por hoje com a referência ao garrido da saída da Fábrica, todos os dias, de mulheres e homens, onde a juventude tinha um quinhão muito evidente, que animavam a estrada principal e as outras ruas da aldeia. Era um colorido cheio de vida, que invadia todos os dias a nossa terra, ao fim da tarde, no inverno já noite, cuja memória ficou para sempre, sobretudo para quem o viveu. Memórias que, para além de outros, eu procuro fixar, com os meus singelos contributos. 

Numa próxima crónica abordarei outros aspectos importantes da Avilima, corrigindo também, ou tornando mais precisos, alguns pormenores desta crónica que eventualmente disso careçam.

Vai realizar-se, conforme anunciado, um almoço de antigos trabalhadores da Avilima. Vai ser no próximo dia 26 de Novembro. Com saudações para a organização, que seja um reencontro de muita confraternização, com boas memórias, e que se repita por muitos anos, é o meu desejo.

Será também, certamente, o desejo de três das minhas irmãs, que fizeram parte dessa novidade que foi a Avilima, no Vale de Santarém: a Maria Inocência, a Maria Emília, a Maria Margarida, nos sapatos. A Maria Manuel, que já faleceu, aos 25 anos, trabalhou nos teares.

Este meu trabalho, como contributo para a história da Avilima – que vai continuar em próximas crónicas – é em sua memória, e também em memória de outras e outros que já partiram, e afinal, em homenagem às mulheres e homens que, para aquela fábrica, deram o seu contributo, e que ficaram na história mais recente do Vale de Santarém.

Manuel João Sá

16 Novembro 2017.

Luciana Martins Ribeiro-talvez 1968
D. Luciana Martins Ribeiro, operária na Fábrica Avilima (nos sapatos) nesta foto, no quintal de sua casa, no Casal da Abelha, a executar o seu trabalho, tendo ao seu lado a irmã, Maria Virgínia Heitor, que não terá chegado a andar na fábrica. Foto cedida por Reinaldo Ribeiro, filho de D. Luciana,
Avilima-Trabalhadoras - Cópia
Outras trabalhadoras da Avilima-Vale de Santarém, em período de descanso, nas imediações das instalações da Fábrica. Foto cedida pela Maria Guilhermina “Minita”.
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Três trabalhadoras da Avilima-Vale de Santarém, da parte dos teares. Foto da Família Sá e nela está a Maria Manuel Sá (1ª à direita, falecida com 25 anos, em 19 Fev. 1973) e suas amigas: Isilda Bernardes Oliveira, ao centro, e a Carolina, irmã do Veríssimo.
Almoço - Fabrica de Sapatos Avilima - Anos 80
Um grupo que organizou, na década de oitenta do século passado, o que terá sido o 1º almoço de confraternização de trabalhadoras da Fábrica Avilima-Vale de Santarém, e onde estão pessoas de períodos diferentes da fábrica.
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Um novo almoço de confraternização vai realizar-se. 26 Nov. 2017!

 

A primeira vez, pai…

Pai, por várias vezes estive para iniciar as minhas conversas contigo, desde que partiste, e é assim, com “Pai”, que sempre tenho começado a escrever, sem escrever, ou seja, mentalmente elaboro a primeira frase, sai num ímpeto, a primeira frase ou talvez nem isso, em verdade as primeiras palavras, a entrada na longa conversa que admito que iremos ter. Então, impõe-se a primeira palavra, Pai, e, afinal, não tenho passado daí, nem eu sei bem por quê, a empreitada é imensa e difícil, por isso, certamente, tenho adiado, adiado, como tantas vezes fiz com outras coisas e momentos da minha vida, coisas aparentemente simples, outras mais complexas, mas isso agora é algo que não interessa. Interessa, sim, quais as razões por que não iniciei, há muito, a conversa, longa conversa, que deveria ter começado contigo, e cuja necessidade se me impôs, muito antes de tu partires, necessidade, até, do tempo em que era adolescente. Não sei responder. Pelo menos, ainda.

Conversa é um modo de dizer, pois que, embora tendo-te bem presente, que a memória de ti é muito forte, impressiva, tu não vais estar em pessoa, aqui, à minha frente ou a meu lado (mas tu gostavas mais de estar de frente) porque já nos deixaste em 19 de Abril de 2005, um dia fresco, de muito sol, uma claridade forte, talvez um cenário que seria a teu gosto, se o pudesses apreciar ainda, mas foi no hospital que te despediste, estúpido lugar, foi o Alfredo a ligar-me a meio da manhã, a dizer “o Pai apagou-se”, e ficou tudo vazio, naquele silêncio de milésimos eternos entre nós dois, é sempre o que não queríamos ou pensávamos ouvir, mas foi assim, o resto foi o costume, tu também viveste as dores desses passos da vida, quando foi de teus pais e da nossa Nélita, além de outros que te eram próximos.

Foi pela Primavera que partiste, cenário de flores, de sol e alguma quietude, daqueles que gostavas de apreciar, mesmo quando, sitiado pelo inexorável avançar da idade, sentado ao volante do carro estacionado para sempre, à entrada da vinha, sem energia já para qualquer viagem, da tua parte e do carro (e tu fizeste tantas e tão diversas viagens!…) aconchegavas-te ali, onde aguardavas o chegar da tarde, o canto dos pássaros, o florescer das azedas, o rebentar da vida na natureza à tua volta, sementeira de futuro no cabeço que te serviu de casal décadas a fio. Tu, que tantas vezes disseste “a vida é tão bonita!”, e nessa afirmação decerto a antecipada tristeza pela inevitabilidade da partida, como se adiantando a essa frase qualquer coisa como “não há nada mais bonito do que a vida” e tinhas razão, ou pelo menos também assim penso, aliás digo e sinto o mesmo, só não tenho tantos sonhos como aqueles que nos contavas, e que foram em maior quantidade à medida que envelhecias, alguns em que, disseste-nos, voavas livremente, feliz, por sobre montanhas e vales profundos, os campos sempre verdejantes, e dizias que só querias que fosse mesmo verdade e nós, talvez duvidando desse universo onírico, fantástico, que as noites te traziam, atribuíamos isso à tua capacidade inventiva, que foi sempre alta, mas sabes, também já tive uma vez ou outra sonhos desses, estou mesmo a voar, até estico os braços e as pernas, sou como ave em pleno voo e, cá em baixo, o colorido dos campos, as árvores, as casas com seus telhados e chaminés, as clareiras, mas não há pessoas, não há carros nem animais, não há movimento, só eu pelos ares, mais ninguém a fazer o mesmo, muito alto, muito alto, o vento dando-me em cheio no rosto, eu subindo e descendo, a contornar as dobras dos montes, depois rentinho rentinho ao solo, como quem toca as flores mas não toca, e elas ficam como que em onda pela minha passagem, eu sorridente e feliz, tudo tão natural, até que vem lentamente o acordar do sonho, seguido da enorme vontade de que ele volte, ou de que eu a ele volte… mas só ainda tive este sonho duas ou três vezes, Pai, e, contigo, isso acontecia regularmente, tanto que estavas sempre a contar como era, rematavas com “se fosse verdade, se eu pudesse voar…”. Quando eu partir, que seja assim, a sonhar, como tu sonhavas e eu… vou a caminho.

Nasceste no dia 10 de Novembro de 1917, Pai. Foi há cem anos, velhote! Partiste aos noventa e dois. Em cada aniversário, dizias: p’ró ano já cá não estou. Claro que um dia tinha de ser, mas, sabes uma coisa, no último dos teus aniversários não disseste “p’ró ano já cá não estou”. E foste embora. Quando o Pai parte deixa um enorme vazio. Quando a Mãe parte deixa um enorme vazio. Vazios diferentes, consoante as pessoas que foram em vida, e consoante as pessoas que sentem a partida, neste caso os filhos. É o que eu sinto. A partida da Mãe é a partida das entranhas, das profundezas luminosas de onde viemos, da natureza humana que brota, do amor que temos antes de sermos gente nascida, acariciados no seu ventre a cada solavanco, a casa espirro, a cada necessidade de alimento, de conversa, de carinho, de toque, de mimo, de sonho… vais ser, meu bebé… isto e mais aquilo, mas só quero que venhas perfeitinho, depois hás-de ser… E a Mãe a ver-nos sempre bebé seu, toda a vida… A partida do Pai é a partida da árvore, do poste a que nos arrimamos em criança e pela vida fora, da segurança contra o ambiente, o fiel do equilíbrio para que tudo corra bem, a mão que nos agarra, o abraço que nos protege, o desafiador militante para enfrentarmos a vida… o espírito de criança, feito adulto, porém igual a nós, até à partida.

Quando teu Pai partiu, eu já estava em Lisboa. Recebi a notícia de ti, pelo telefone. Também fiquei quase em silêncio, perante a tua emoção, e foi depois que combinámos que iria dizer ao tio João que… o avô Alfredo estava muito mal, que era melhor ir vê-lo, ao Vale… que estava em casa, muito doente… Fui à Praça das Flores, imediatamente, e lá atamanquei aquela informação que combinámos, mas a tia Delmira percebeu logo, e fiz-lhe sinal que sim, que o avô tinha morrido. Fizemos a viagem por comboio, e o tio João, a mostrar-se forte (que ele, na tropa, era o “peitos d’aço”, mas isso é para outras crónicas…) foi fazendo conversas sobre milhentas coisas só que, por alturas da Azambuja, imbicou para o avô Alfredo, já de lá não saiu até chegarmos ao Vale, e foi a partir daí que eu concluí: já deduziu que o pai dele morreu. Então eu, que já o conhecia bem, encostei-me mais a ele, e pouco depois começámos a chorar os dois, como crianças, até chegarmos à estação do Vale, as lágrimas a caírem e eu a desejar que o comboio chegasse depressa à estação… Subimos a pequena rua e, já perto da taberna do Leirião, alguns homens foram abraçar o tio, e assim continuou a acontecer, pelo Vale acima, até parecia que estavam todos à espera dele. Quando chegámos ao quintal da casa dos avós, no Rio das Patas, tu e o tio abraçaram-se, longamente, em soluços que eram urros, só depois chegaram ao pé da avó, e foi ali que, pela primeira vez, o sentimento forte da partida de alguém que nos é querido, me apanhou em cheio e me deixou pequenino…

Não me lembro, Pai, da primeira vez em que me pegaste ao colo, mas como havia de me lembrar?!… Tu sim, terás certamente guardado para sempre esse momento, para não esquecer, como também assim terá sido com todos nós, teus filhos, nove ao todo. A primeira vez. A minha primeira vez de segurar um filho nos braços foi quando, em 15 de Outubro de 1971, regressei da guerra, em Angola. Foi no cais, logo após o desembarque, estava a Cidália com o Sérgio à minha espera, como bem sabes. Um dia inimitável, por tantas razões. Depois foi com a Adriana, já no aconchego da maternidade, em 12 de Fevereiro de 1974, era quase noite. A primeira vez, Pai, é sempre irrepetível. Ao fim de muitos anos de desejos e intenções, comecei hoje a escrever-te, como se fosse uma conversa. É uma necessidade. Qualquer coisa de inadiável, de imperioso, na minha vida. Melhor fora que tivesse sido em vida; decerto seria mais rico, mais partilhado, mais esclarecedor. O tempo dirá.

A memória mais antiga de ti, Pai, é de quando me levaste a Coruche, tinha eu quatro anos. Havia lá um jogo da bola, fomos numa camioneta do Vinagre, e iam outros homens do Vale. Das equipas e de quem ganhou nada lembro, só sei que fizemos uma viagem de muita cantoria e confusão: os homens beberam à farta e, no regresso, já de noite, adormeci com o ronronar do autocarro. Quando chegámos ao Vale estava muito maldisposto, de tantas coisas que havia comido, de tal modo que me carregaste às costas, carreiro acima, entregando-me à Mãe mais morto que vivo, foi ela que tratou de me recuperar com lavagens e chás, eficazes como sempre. Pouco tempo depois, tinha quase quatro anos e meio, houve nova excursão, do Vale a Tomar, mas o interesse particular era a barragem de Castelo do Bode, quase terminada por essa altura. Estava previsto que iria contigo, porém, no dia anterior, fui surpreendido com a informação de que tu não podias ir, que seria o tio João a acompanhar-me. A viagem correu muito bem, cheia de peripécias, que hei-de contar. A principal novidade foi que, quando o tio João me levou a casa, estavas à minha espera e disseste: anda cá, vou-te mostrar o teu novo irmão. Era dia 9 de Julho de 1950 e, ao lado da Mãe, estava o António. Foi a primeira vez que dei pelo nascimento de um irmão. Outros mais iriam chegar.

Recordo-me, Pai, do ano em que fui, pela primeira vez, para a colónia balnear. Foi depois de terminada a primeira classe. A Mãe preparou tudo, como era costume e, também como de costume, chegámos à paragem do Manel d’Oliveira quando a carreira do Vinagre já aparecia na curva apertada, na subida. Viajámos até Lisboa, mas antes, na paragem em Vila Franca de Xira, compraste rebuçados de “cada-cor-seu-paladar”, que saboreei pela primeira vez. Depois de sairmos para a Rua da Palma (fizeste questão de chamar a atenção para a placa onde estava o nome da rua) seguimos de eléctrico para o Cais do Sodré, de onde saímos, eram dezenas de rapazes e familiares, para a colónia balnear, no Estoril. Foste comigo até à camarata, ajudaste-me a pôr as coisas num armário, disseste para guardar as minhas economias (levava um porta-moedas de cabedal, novinho, com catorze escudos, uma fortuna!) e uma bola de borracha, cheia de veios, às cores. Disseste que não me podia distrair, que os outros podiam roubar, como na tropa… Depois, durante algum tempo, estiveste comigo na zona de recreio, fazia calor e ficámos sentados num banco, à sombra de uma árvore. Estava prestes a terminar aquele tempo, senti eu, até te ires embora, mas ainda me disseste: tens lá os postais, não te esqueças de escrever… Havias comprado cinco postais dos correios, tinham aquele desenho do homem montado no cavalo. Mas, para ser mais fácil, já tinhas preenchido o destinatário, na parte da frente: Manuel da Silva Sá – Vale de Santarém. Portanto, bastava só escrever, e até disseste: podes dizer só “estou bem”… Para isso, na mala eu tinha levado um lápis, bem afiado. Depois desta conversa, em que comecei a sentir que estavas quase a ir embora, e aquilo estava a ser difícil para mim e para ti, enchi-me de coragem e disse-te: Pai, pode ir embora… eu fico aqui, mas não vou olhar para você a ir-se embora, eu não vou chorar, pode ir… E assim foi, tu abraçaste-me, o primeiro abraço de que me recordo, virei-me de costas, e foi ao ficar com o olhar fixo numa árvore em frente que, afinal, fui chorando devagarinho, até que chegou uma vigilante e me acarinhou, aliviando a tristeza da tua partida. Ainda mandei dois postais, mas houve um dia em que, tendo-me distraído, me roubaram a bola e o porta-moedas, tudo no mesmo dia, nunca mais consegui recuperá-los, apesar de me ter queixado à vigilante. No dia seguinte, estando a contar, no terceiro postal, o que tinha acontecido, veio um e começou a gozar comigo, a dizer que eu tinha letra de quem não sabia escrever, de modo que larguei o postal e o lápis e me atirei a ele, acabei por feri-lo, teve de ir à enfermaria. O resultado é que me puxaram as orelhas até à dor, e não houve mais postais, porque fiquei de castigo logo nesse dia, até o lápis me foi retirado…

A primeira vez que me levaste a Santarém, para o exame à Escola Técnica, foi marcante, Pai. Foi o tempo em que a Mãe, cumprida a missão de me acompanhar quanto à escola primária, no Vale, me viu partir para o teu controlo, no capítulo escolar, em Santarém, de que um dia falaremos. Depois, feita a admissão, foi a entrada: o primeiro dia de aulas e o percurso seguinte, que foste acompanhando, à distância, pensava eu, mas não tiravas os olhos de mim. Nesses anos de escola, em Santarém, muitas situações ocorreram, incluindo ter começado a jogar futebol nos Leões de Santarém e, fosse onde fosse, quando menos esperava, lá estavas tu junto à lateral a ver o jogo, para depois fazeres a tua apreciação, por regra mais exigente do que o mais exigente dos comentadores desportivos.

Houve um dia em que Santarém ficou para trás. Foi quando acabei de concluir o exame de admissão ao Instituto Comercial e parti para Lisboa. Estava cumprida a etapa para a qual havias depositado esperanças de que conseguisse formação secundária para ter um emprego mais qualificado. Foi em 1964, e foi também em Dezembro desse ano que comecei a trabalhar no banco, de dia, e a estudar à noite. Viria ainda o tempo da vida militar e da guerra colonial, depois o tempo da formação da minha família, da chegada dos filhos. Viria o dia único, inesquecível, de 25 de Abril de 1974, que saudámos sentidamente. Logo no sábado a seguir, cheguei à Fonte Boa e abraçámo-nos rijamente, pela primeira vez com vivas à liberdade, junto à empena da nossa casa. Parecíamos dois garotos. Sem desfalecimentos, continuámos a celebrar esse acto heróico, por aquilo que, bem sabemos, foi sepultado nesse dia e pelo que viria a seguir. 

Temos muito mais para conversar, Pai. Esta foi a primeira vez, depois que partiste. Nos cem anos do teu nascimento.

10 Novembro 2017.

Manuel João Sá.

Em homenagem ao Sr. Fátima

Recebo a triste informação de que faleceu o Sr. Fátima, amigo de meu pai, de meu tio João e da nossa família. O nome do Sr. Fátima não é este, como sabem os Valesantarenos: passou a ser chamado assim, devido ao facto de ter nascido por essas bandas de Fátima, e assim ficou, para sempre.

No Vale, haveria de casar, com a D. Maria. Tiveram uma filha. Foi sapateiro. A certa altura da vida, partiu com a família para Angola. Tendo eu ido para a guerra colonial, para Angola, em 1969, a minha Companhia foi colocada no Songo, cerca de 40 km a norte da cidade de Uíge, então Carmona. Um dia, por carta, meu pai disse-me que o Sr. Fátima estava em Carmona, com a família. Procurei-os de seguida, e encontrámo-nos. Ficou assente um almoço em casa deles, e assim aconteceu. A partir daí falámos sempre que possível e matámos saudades do Vale, e do “puto” (da Metrópole) e, como eu precisasse de umas botas de futebol (para jogar no Clube Desportivo do Songo) foi a ele que recorri. O Sr. Fátima teve um orgulho grande naquele trabalho. As botas, com travessas, como era costume naquele tempo, ficaram com chancela de qualidade. Em 1971 a companhia foi mandada mais para norte, para Santa Cruz e foi em Outubro 1971 que regressámos a Lisboa. Anos mais tarde, o Sr. Fátima e família regressaram. Algumas vezes, nas visitas ao Vale, fui vendo o Sr. Fátima e a esposa Maria, e sempre recordávamos esse tempo de Angola.

A longa vida do Sr. Fátima chegou ao fim. Um homem bom. Um amigo, meu e da minha família. Toda a minha vida ficará guardada essa imagem, com o meu eterno agradecimento. Foi uma honra tê-lo conhecido. Obrigado, Amigo. Quanto às botas, claro, continuam comigo. Enquanto vida houver. 

Meu sentimento de profundo pesar. Abraço de conforto à D. Maria e sua Filha, e toda a Família. 

(Tirámos umas fotos, em Angola, que estão… não sei onde. Mas estou aqui, com as botas magníficas, obra do Artista Sr. Fátima).

Manuel João Sá

46
Equipa do Grupo Desportivo do Songo-Uíge-Angola, onde joguei, nas épocas de 1969/70 e 1970/71. Estou na fila de trás, 1º a contar da direita.

Nos 46 anos do regresso da guerra colonial

15 de Outubro de 1971.

Pela madrugada, chegamos ao largo de Lisboa. Com vida, felizmente, enquanto outros chegam do lado de lá, da vida. No dia anterior, foram dadas instruções à Companhia para o que havia a fazer: preparar as malas, não esquecer nada, esperar ordens para a saída do Vera Cruz. As orientações estão dadas. Oficiais e furriéis sabem que fazer. O sargento Esteves tem a lista do pessoal da Companhia e já tratou de tudo o que é necessário. Eu tenho outra lista. À medida que o navio avança, Lisboa vai-se tornando próxima, menos difusa, a costa de Sintra-Cascais já ficou para trás, vamos passar de novo por debaixo da ponte, depois o cais, vai ser um tudo nada, mas tão diferente da partida. Vamos acostar. O navio inclina-se para o cais, porque nos precipitamos, nervosos, ansiosos, para a amurada. Lá em baixo, os nossos familiares. Gritos, palmas, acenos de alegria. Lá há-de estar a Cidália, com o bebé. E os meus pais. Vou abraçá-los, enfim!… E vou ter o meu filho, Sérgio Pedro, nos braços. 

Segue-se um tempo longo, até o navio acostar, devidamente. E outro tempo longo, ou foi o que me pareceu, até começarmos a sair. Ah! Pisar o cais, de novo! Um enorme frémito de alegria, o coração a pulsar mais. Na escada, ainda, enquanto desço, olho a multidão. Lá estão eles, lá estão eles! … Momento único, indizível, mal me contenho no torvelinho das emoções, e logo, quase em corrida, a procura dos familiares, os beijos, os abraços, as lágrimas e o filhote a olhar-me, a inocência no meio da exaltação da felicidade, da vida, agora em paz. Correrias. Chamamentos. Uma certa confusão. Às tantas, aquilo parece um arraial, com polícias por aqui e por acolá. Todos querem ter os seus nos braços, mas muitos ainda têm de esperar, até chegarem a casa, bem longe dali. E, no entanto, é preciso partir, de novo. Ainda. Ir até Évora, para entregar a Companhia, que é o que me cabe fazer, a seguir. Para pôr um ponto final neste ciclo da vida de cada um de nós. Mais abraços, mais beijos e… até logo, ou até amanhã, logo direi. As viaturas militares aguardam-nos: vamos partir para o RAL3, para o acto final da nossa missão, enquanto militares.

Agora, já estamos em Évora. Para lá do meio da tarde, o sol a descer no horizonte. Há uma poalha a coar o sol, para poente, e os rapazes, já sem a farda, estão em fila, mas em arco: a fila está ali, naquela espécie de formatura do fim da vida militar, pois não há fardas, e não há qualquer alinhamento. As sombras dos quase ex-soldados, assim alinhados, projectam-se no cimento do piso das instalações e vêm até mim, até aos meus pés. Eu, pelo contrário, ainda estou fardado, que me cabe continuar a comandar a Companhia, na ausência do capitão, que ficou em Luanda. Os rapazes, só um pouquinho mais novos que eu, que tenho vinte e cinco anos, estão ali para a entrega dos pertences militares: farda, botas e boina. Já não vão ser-lhes necessários. Essa entrega, além do recebimento de um documento, em papel de cor verde, que atesta a passagem de cada um à “peluda”, são os últimos actos formais da sua vida militar. Depois disso, estão disponíveis para o regresso a casa. Às suas famílias e amigos. Às suas terras. Hão-de ir de comboio, ou de autocarro, ou talvez alguns familiares estejam lá fora, para lá da porta de armas do quartel, para os receber.

Um a um, calmamente, os militares aguardam a sua vez. Chegam ao ponto onde têm de entregar tudo aos sargentos, que são eles que recolhem o fardamento e o calçado. Depois, saudações de despedida. Desajeitadamente: encaminham-se para este, para aquele, entregam-se a abraços longos, sentidos, quem sabe se para nunca mais. Há despedidas silenciosas, outras com palavras, outras com palavras descontroladas, em alta voz, quase gritos, para soltar ao vento a emoção do momento. Vêm até mim, quase todos, e têm dificuldade no adeus, sobretudo quando me olham e vêem que, também eu, estou nas lonas: não sei por que não choro, mas é o que me apetece. Quem sabe quando os poderei voltar a ver? Com alguns é tudo mais difícil. Os do meu pelotão são mais demorados, no adeus. Conhecemo-nos há mais de dois anos e meio, e foi com eles que vivi a maior parte desse tempo. Preparámo-nos para a guerra, desde Março de 1969, em Évora. Partimos em Agosto. Fizemos a viagem, até Luanda. Dias depois de chegarmos, mandaram-nos para o Songo, quarenta quilómetros a norte de Uíge, então Carmona. Vivemos juntos tudo o que a guerra nos exigiu. O Vicente e o Gregório, furriéis, comandaram, comigo, o pelotão. Com um e com outro, o adeus é longo. Fazemos promessas de reencontro… qualquer dia, qualquer dia… Sabemos os nomes, havemos de saber os números de telefone, basta ir à lista telefónica… Com os cabos e soldados, há um mar de abraços, mas com alguns é muito difícil. O Valadas, meu guarda-costas, quase não quer ir embora. Anda ali, de volta de mim, e eu sem saber que fazer, na demora do adeus. Mas, em rigor, fomos todos guarda-costas uns dos outros, todo o tempo. Há os outros, ou seja, todos os demais do meu pelotão. O “Sines”, o “Noventa mil”, o Duarte, o Emídio, o Viana, o Ramos pequenino, o Jota Mendes, o André Guerreiro, o “Pula janelas”, o trio Albano, Costa e Espada, o Lampreia, o Piscarreta, o Colaço, o Saraiva, o Silva, o Matos, o Inácio, o Guerreiro, o Moutinho, o Guilherme “Bedford”, o Serrano, o Valentim. Ando sempre com um papelinho no bolso, com os nomes do meu pelotão, e vou guardá-lo. Mas vêm também até mim outros que vão partir: os furriéis, os soldados, os clarins, os enfermeiros, os dos géneros, os cozinheiros, os mecânicos, os condutores, os de transmissões… e, para todos, abraços, abraços, até qualquer dia…

Já há poucos na placa de cimento, à espera de vez, para entregarem o que resta, materialmente, da sua vida militar. O dia esteve quente. Na viagem desde o cais, em viaturas militares, viemos rindo, cantando, fumando, bebendo, imaginando o dia seguinte, sabe-se lá mais o quê. O sol claro, por vezes com grossas nuvens a prometerem mudança, acompanhou-nos até Évora, mas agora corre uma ligeira brisa, ali. Despeço-me dos três outros alferes: Castro, Rocha, Silva, com as mesmas promessas: qualquer dia encontramo-nos… Tenho a máquina de fotografar, que tantas fotos fez, ao longo da nossa vida na guerra, mas esqueço-me. É tarde, quando me lembro. Faço ainda uma foto, mas, de súbito, concluo que estou quase só. Mais um abraço, mais um até qualquer dia, e agora sim, só resto eu e o sargento Esteves. Ele ainda vai ficar por ali, a conferir “as coisas”. Eu, com um vazio enorme, fico um tempo sem saber que fazer. Sim, ainda tenho de ir amanhã ao Comando: o ponto final na minha vida como militar. Sim, depois vou para casa, finalmente!

Talvez um dia a gente se reencontre!…

(Perdeu-se a última foto…)

(O primeiro encontro de convívio da CART 2573 foi no dia 18 Outubro 2003)

15 Outubro 2017

Manuel João Sá