Minha homenagem aos naturais do Vale de Santarém que combateram na I Guerra Mundial

“Os cadáveres de soldados, mulas, cavalos e mais fragmentos macabros, são em abundância e em verdadeiro estado de putrefacção. Espalhados à superfície da terra, incomodam-nos, horrorizam-nos. A falta de preparação para enfrentar-se de modo súbito tal situação é a causa do nosso aniquilamento moral… O apetite desaparece… Aqui arrumando-se, ali carregando-se; mais volta para aqui, mais volta para acolá; mais engulhos de enjoo por ter-se topado com uma perna ou uma cabeça a granel, de mistura com a pá ou picareta…”.

(Sobre o dia-a-dia nas trincheiras. Depoimento de Pedro Freitas, soldado sapador ferroviário, português, combatente na I Guerra Mundial. Retirado do livro “Das Trincheiras com Saudade – A vida quotidiana dos militares portugueses na Primeira Guerra Mundial”. Autor: Isabel Pestana Marques-2ª Edição, A  Esfera dos Livros.)

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O horror, nas trincheiras, na I Guerra Mundial – 1914-1918

“França 11 / 7 / 918 

Minha querida madrinha

Às 4 horas da manhã do dia 9 de Abril de 1918 rompe um enorme bombardeamento da parte do inimigo., coisa essa que nós, à primeira vista não estranhámos, visto que já estávamos habituados a tudo isso, mas o prazo nesse bombardeamento foi-se prolongando e as horas foram-se passando, e já depois de o inimigo ter feito grandes tentativas para avançar para as nossas trincheiras e sempre repelido pelo nosso fogo, continua o grande bombardeamento  com tal violência que ao fim de algumas horas o chão estava todo voltado como debaixo para cima, um completo horror, é mesmo inexplicável. Milhares e milhares de infelizes portugueses tinham desaparecido, uns despedaçados pelos ares, outros tinham ficado soterrados para jamais serem vistos. E o feroz inimigo nessa altura consegue avançar, e eu para ver se mesmo assim não ficava prisioneiro fugi por debaixo de água até ao pescoço, mas de nada me valeu porque já era tarde e lá tive que marchar passar a noite toda encharcado… entre portugueses e ingleses éramos 18.000. Colocaram-nos em uma cerca de arame farpado e ali passámos umas 5 ou 6 noites em cima da lama em montão uns em cima dos outros todos os dias nos obrigavam a trabalhar mas sem comer coisa nenhuma estivemos três dias completos. Desde esse dia para cá tem sido uma completa noite escura de tristeza para todos nós. …  Por agora nada mais. Muitas saudades para toda a nossa família…”

(Em carta de João Ferreira d’Almeida, soldado do Regimento de Infantaria 2, natural de Oliveira de Frades, para a sua madrinha de guerra, pouco antes de fugir de um dos campos de internamento alemães. Esta carta foi apreendida pelo Serviço de Censura de Base, não tendo nunca chegado ao seu destino. Retirado do livro “Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial – Frente Europeia 1917/1918- Autor: Maria José Oliveira. Editora: Saída de Emergência).

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O horror, nas trincheiras, na I Guerra Mundial – 1914-1918

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Quantas famílias, por esse país fora, vendo, com infinita tristeza, partir os filhos!… Quantas interrogações, incertezas, silêncios, medos, desânimos, raivas, revoltas, quanto sofrimento naqueles que partiam, para o inferno da I Guerra Mundial, não só na Europa, mas também nas colónias de Angola e Moçambique, pois a Alemanha também tinha pretensões em relação a estes territórios, e foram muitos e terríveis os combates aqui travados, foram muitos os que lá morreram. Depois, lá, em plena guerra, quão brutais terão sido os sofrimentos de toda a espécie em que se viram mergulhados… 

Havendo ainda algumas dúvidas sobre a lista de nomes dos militares nascidos no Vale de Santarém que foram mandados para essa horrível guerra, é possível dizer que dela farão parte:

  1. ANTÓNIO CUSTÓDIO – Soldado
  2. ANTÓNIO DA SILVA VARGAS – Soldado
  3. ANTÓNIO DOS SANTOS – Soldado – Sapadores Mineiros
  4. ANTÓNIO PEDRO – Soldado
  5. CARLOS DA SILVA CANHA – Soldado – Regimento Infantaria 16
  6. FAUSTINO DA CRUZ – Soldado – R.A. 1
  7. FAUSTINO FERREIRA – Soldado – Regimento Artilharia 1
  8. J. ARTUR GUEDES – Soldado
  9. JOÃO ALMEIDA SEARA – Tenente de Infantaria
  10. JOÃO DA SILVA MACHADO – 1ºCabo – Regimento Artilharia 1
  11. JOÃO MONTEIRO – Soldado – 1º. Esq. Reg. Cavª 4
  12. JOAQUIM AUGUSTO DE ALMEIDA – Soldado
  13. JOAQUIM DOMINGOS – Soldado – Regimento Infantaria 16 
  14. JOAQUIM LOPES – Soldado – Regimento Infantaria 16 
  15. JOAQUIM MARTINS DA PIEDADE – Soldado – 2º. Esq. Reg. Cavª 4
  16. JORGE MANUEL HEITOR – Soldado
  17. JOSÉ BARBOSA – Soldado – C.A.P. 
  18. JOSÉ DA SILVA CASEIRO – Soldado
  19. JOSÉ DE AZEVEDO – Soldado
  20. JOSÉ MATIAS JÚNIOR – Soldado 
  21. JULIO GODINHO – Soldado
  22. MANUEL FRANCISCO SERRANHO – Soldado
  23. MANUEL GONÇALVES – Soldado
  24. MANUEL MONTEIRO – Segundo Cabo
  25. MANUEL TOMÉ – Alferes do C.A.
  26. MANUEL VALADOR – Soldado – Reg. Obuses de Campanha
  27. SABINO GOMES FORTES – Segundo Cabo

(Abaixo, as fotos a que tive acesso, e que agradeço aos familiares dos ex-combatentes referidos. Outras publicarei, se me forem facultadas).

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António Custódio (“Toinico”) – ao centro, em baixo. Do Vale de Santarém. Esteve na I Guerra Mundial.
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António da Silva Vargas – Do Vale de Santarém, já em idade avançada. Esteve na I Guerra Mundial.
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Joaquim Domingos. Do Vale de Santarém. Antes de ir para a I Guerra Mundial.

Destes homens, ainda conheci alguns, já com avançada idade. Conheci-os não pelos seus nomes, mas pelas alcunhas. Um deles, António Custódio, o “Toinico”. Vivia na zona do Rio das Patas, na mesma rua onde moravam os meus avós paternos, que depois do 25 de Abril recebeu o nome de Rua dos Sabugueiros. Foi num dia de festa, lá ao cimo da rua, do lado esquerdo, no quintal da casa do “Toinico”. Era dia de casamento. Lá estive, com outros rapazes, fomos em busca de receber pelo menos um rebuçado, pois era costume os noivos os distribuírem pelas crianças . E foi nesse dia de muita alegria que, para meu espanto, para além do “Toinico”, dei com a figura inesquecível do “Mariganga”, alcunha de um dos jovens que o nosso Vale viu partir para aquela guerra. Era então um homem ainda vigoroso, forte. Ostentava um farto bigode, que sobressaía da barba por fazer, há muitos dias, ou era já residente. Falava ele, para todos, do que vira e passara na guerra, desde a vida nas trincheiras, à fome, ao frio, ao efeito dos gases que tiveram de suportar e, já certamente um pouco tocado pelos calores do vinho bebido, lá vieram à baila também, retiradas do meio dessas memória terríveis, algumas situações caricatas que havia vivido, porventura com algo de fantasioso, as quais repetia pela aldeia amiúde, e que ficaram na memória de muitos. O “Toinico”, mais contido, torneando embora algum exagero por parte do “Mariganga”, acenava com a cabeça ao que ele dizia, abraçando-o, como a um irmão. Foi nesse mesmo dia que ouvi falar, pela primeira vez, na “grande guerra”, longe porém de entender o por quê e a magnitude horrível dessa tragédia. Foi ali que soube que aqueles dois valesantarenos, então jovens, haviam estado lá. E foi mais tarde que, aos poucos, fui sabendo, de conversas ouvidas, que outros homens do nosso Vale também tinham vivido essa desumana experiência, um dos quais o “Buer”, outra alcunha que guardei na memória, e com quem, infelizmente, nunca falei, apesar de o ver passar e de ouvir: olha, ali vai o “Buer”… esteve na guerra.

Mas já o Heitor, de nome completo Jorge Manuel Heitor, era pessoa que vim a conhecer mais de perto, vivia ele junto à estrada de acesso ao Rio das Patas, ou para a Fonte Boa, conforme quisermos. Ali,  no quintal que servia também a casa do casal Rafael e Luciana, pais do Reinaldo, meu grande amigo de sempre, aparecia ele, o Heitor, homem de pequena estatura mas muita vivacidade. Por vezes, com ar de alucinado, saia de casa e, olhando em volta, parecendo receoso, mas, tomando ares de guerreiro, procurava o inimigo, que continuava a morar na sua memória. Por vezes, armado do que lhe parecia ser uma espingarda, como um pau ou mesmo um bocado de madeira, investia contra esse inimigo imaginário que, das cenas dantescas da guerra, saltavam para o seu caminho, perseguia-o sem parança, já na estrada, então ainda de terra batida, ali mesmo, na bucólica zona onde, mansamente, corria a água do ribeiro, no sítio conhecido por “rio dos loureiros”, à beirinha do largo chamado Casal da Abelha, a que foi dado depois o nome de Largo Aurélio Faria, professor.

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Em 27 de Agosto de 1969 partia eu para Angola, no Vera Cruz, integrado na Companhia de Artilharia nº 2573, formada em Évora, no Regimento de Artilharia  nº 3. Regressei em 15 de Outubro de 1971, após ter estado em áreas de guerra, nas zonas de Songo e Santa Cruz.

Primeiro na Índia, depois Angola, Moçambique, Guiné: outros palcos de desumanidade e morte, onde milhares de jovens portugueses perderam a vida, entre os quais alguns valesantarenos, numa guerra de que nada percebiam, e que não sentiam como sua, como já acontecera antes a outros, na I Guerra Mundial. Foram anos de enorme sangria na sociedade portuguesa: para além dos que morreram, para muitos foi um adiamento, pelo menos temporário, do seu percurso de vida. Marcas que a memória colectiva dos portugueses guarda, e que, muitos dos que lá estiveram, sentem ainda hoje, de modo particular, nas doenças psicológicas e outras, que daí resultaram. Para si e suas famílias.

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Aproxima-se mais um aniversário da gloriosa revolução de Abril de 1974, que resgatou o País de um longo e tenebroso período da nossa história, permitindo-nos, apesar de algumas dificuldades, manter o rumo de uma sociedade livre, onde sejamos senhores do nosso destino colectivo. Onde a prática da democracia se mantenha e aprofunde, como solução única de regime político que nos interessa. E que essa prática de democracia, em todos os domínios da nossa vida, contribua para o nosso progresso e a paz. Em Portugal e no Mundo. 

No próximo dia 25 de Abril, gozando a liberdade sociopolítica que a revolução nos trouxe, vão reencontrar-se, em cerimónia de homenagem, os cidadãos nascidos no Vale de Santarém, ou noutros lugares, mas ali residentes, que estiveram na guerra colonial. A cerimónia, promovida pela Junta de Freguesia, ganhou justo lugar, há alguns anos, nas comemorações do 25 de Abril na nossa vila, e assim será, estou certo, enquanto memória houver, da parte da comunidade, sobre o que foi esse período das nossas vidas.

Pela minha parte, na qualidade de ex-combatente, assumo o firme propósito de tudo fazer no sentido de que, no ano do centenário do fim da I Guerra Mundial (que se será em 2018) seja prestada homenagem pública, pelos valesantarenos de hoje, também aos valesantarenos que estiveram nessa guerra, inclusive com a colocação de uma placa alusiva, como a que abaixo se encontra.

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Recordar, também por esta via, grandes factos da nossa história colectiva, é um contributo para ajudar a preservar a memória do nosso passado, e um reforço do sentimento de pertença a uma terra que viveu períodos difíceis, que foram ultrapassados, apesar das perdas, e que todos nós queremos ver caminhar rumo a um futuro mais prometedor.

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Vou continuar a pesquisa sobre este tema dos valesantarenos que estiveram na I Guerra Mundial, quer no território europeu, quer em Angola e Moçambique. É um dever de cidadania que assumo, em relação aos ex-combatentes da minha terra, que tiveram essa triste sina, desse modo procurando ajudar a fazer a história desse período tão difícil das suas vidas, das suas famílias e do próprio Vale de Santarém.

Manuel João Sá.

A caminho da Escola Industrial e Comercial de Santarém

1957. Estou na quarta-classe. Fernando Costa é o professor, um nome que já tem história na escola primária do Vale de Santarém. Meu pai não foi seu aluno, mas meu tio João sim. Dele se diz que é exigente, rigoroso, disciplinador. Que quem leva a exame fica sempre bem. Da sua qualidade tenho provas todos os dias, desde o princípio do ano lectivo. Corresponde ao que me disseram meus pais e outras pessoas da nossa terra. As aulas são vivas, interessantes, exigentes, sempre em crescendo, dia após dia. Tem duas classes, na sala: a segunda e a quarta. 

Com a nossa chegada à quarta classe, abre-se a possibilidade de continuarmos depois a estudar, mas para isso temos de ter aulas específicas. Logo ao começar o ano escolar, o professor Costa fala-nos nisso e explica como será. Diz para falarmos com os nossos pais e que, quem quiser essas aulas, pode depois falar com ele e que já tem alguns interessados. Meu pai diz que sim. Outros pais também, e forma-se um grupo, talvez de doze. Começamos a ter aulas específicas depois do almoço, numa salinha ao lado da sala principal. As aulas da admissão, que é assim que lhes chamamos, acabam por ser para os rapazes cujos pais têm mais posses. De algum modo, vou tendo a percepção de que aquilo é uma diferenciação que começa a fazer-se, e ficam de fora alguns que até são melhores alunos do que outros que estão nessas aulas. Por exemplo, o Azenha e o Celestino ficam de fora, com pena minha.

As aulas são das duas da tarde às cinco. Não temos carteiras, mas uma mesa grande, sobre o comprido. Estamos todos sentados em volta da mesa e o professor Costa está no topo, logo à entrada. Há um candeeiro, do tipo prato de esmalte, suspenso na vertical, e mais uma lâmpada na parede. Mesmo assim, a iluminação é fraca e, no inverno, ainda é pior. Como a sala ao lado está a funcionar, acabamos por ouvir o que lá se passa, assim como eles talvez oiçam a voz do professor Costa, que tenta falar mais baixo do que quando está connosco, na sala principal. Um dia há um tumulto na sala ao lado. A professora não deve estar a conseguir resolver o problema. De súbito, o professor Costa levanta-se, abre a porta que dá entrada para a sala e dá um berro. Faz-se um silêncio imediato. Ele avança pela coxia entre carteiras, quase até à coluna, que fica a meio da sala, e vai olhando à esquerda e à direita. Pela porta entreaberta vejo que a professora está um pouco aflita, a mão na cabeça. O professor vai ao seu encontro e, chegado lá, volta-se para as classes. Alguns de cabeça baixa. Ele diz, com um voz muito forte: a senhora professora e eu não queremos que isto se repita, ai de vós… Ouviram?… Continua o silêncio. Ouviram? Então eles foram respondendo “sim, senhor professor”. A coisa fica por ali. O professor Costa regressa ao nosso espaço, afogueado, uma ruga na testa. Nem uma palavra. Recompõe-se e retoma, mais devagar, a nossa aula.

Nas aulas da admissão repetimos os conteúdos da quarta-classe, mas há outros temas que temos de estudar. O professor Costa trouxe uns cadernos de folhas verdes, impressos, com perguntas. Terminado um caderno, recebemos outro. Algumas perguntas são de resposta múltipla, ou verdadeiro/falso e porquê, outras são para desenvolver. Também temos de preparar temas e falar sobre eles. Na parte de aritmética, geometria e cálculo fazemos muitos exercícios. Estamos sempre numa grande dinâmica e o facto de o professor estar ali, muito junto de nós, e o grupo ser pequeno, leva a grande rendimento individual. De certo modo, também aumenta o conhecimento entre nós. Quando estamos nas aulas da quarta classe sinto que não posso falhar nada, porque sou um beneficiado com as aulas da admissão. Não posso falhar e não tenho razões para isso. Vejo, com tristeza, que outros não estão a ter as mesmas possibilidades, e os resultados vêem-se, na quarta classe. Dos que não estão nas aulas da admissão, de facto só o Azenha e o Celestino se destacam.

Enquanto faz avançar a quarta-classe, o professor Costa está sempre a dedicar atenção à segunda, nas duas filas ao nosso lado. São mais pequenos, a progressão é mais lenta, mas tudo corre bem, que ele consegue gerir as duas classes na perfeição. Estão sempre todos ocupados e quase não há distracções. Na quarta classe, em particular, o ritmo não abranda. Vamos aos mapas de Portugal, das ilhas adjacentes e das colónias e, a certa altura, aquilo está tudo na ponta da língua: os rios, os afluentes, as serras, as praias, as lagoas, os cabos, os caminhos de ferro, os ramais e um sem número de coisas úteis, como as produções e os minérios. O professor leva-nos para a rua, logo pela manhã, e é lá que aprendemos os pontos cardeais: faz-nos abrir os braços, esticar o braço direito, apontar para o lado do sol – o oriente. Depois, diz, no seu oposto, aquele para que a aponta a mão esquerda – o ocidente. Rodamos várias vezes, repetimos, repetimos, e aprendemos. Os pontos cardeais, os nomes que têm, mas também os que ficam entre eles. Nas ciências sabemos do corpo humano, dos animais, das plantas, das enxertias, e também sabemos das rochas e de tantas coisas mais. Alguns têm mais dificuldades e trocam, por exemplo, a classificação dos tipos de caule das plantas com as partes em que se divide o corpo humano, e isso é trágico, que o professor Costa fica muito zangado, e não sai dali enquanto aquilo não estiver apreendido. Há dias difíceis. Aprendemos sobre a higiene do nosso corpo. Manda pôr as mãos em cima da carteira e inspecciona as unhas. No dia seguinte temos de aparecer com as unhas cortadas e limpas. Também nos vê as orelhas. Vê o cabelo, que pode haver piolhos. Na semana seguinte temos de aparecer com o cabelo cortado e lavado. É uma corrida aos barbeiros. O meu barbeiro, o Sr. Frederico, diz logo: o professor Costa todos os anos faz isto, assim é que é. No dia do regresso com o cabelo cortado e lavado, o Ruço da Mari Meilitra leva o cabelo brilhante de mais e isso chama a atenção do professor Costa. Vê-o com a cabeça a luzir, e vá de lhe cheirar o cabelo. Cheira a azeite. O Ruço a justificar-se de que não tinha fixador, que então pôs azeite, que já lhe começa a descer para a testa… Foi mandado imediatamente à fonte das três bicas, para lavar o cabelo, com sabão azul.

O professor Costa ensina-nos a respeitar os mais velhos. Como os devemos ajudar, que um dia também chegará a nossa vez de precisarmos dessa ajuda. Como devemos conversar com outra pessoa na rua, dando-lhe a direita. Como devemos escrever uma carta, um vale postal, um telegrama, e traz impressos para termos esse treino. A certa altura começa a fazer chamadas orais, da seguinte maneira: pede-nos para pormos o banco corrido entre o quadro e as carteiras, depois chama este, aquele, mais aquele, até chegar a seis, que é o número de alunos que podem ficar sentados no banco. Ele senta-se numa cadeira, à nossa frente, mas por vezes levanta-se e anda de um lado para o outro. Começa a fazer perguntas sobre qualquer matéria: hoje pode ser de história, amanhã de ciências, de zoologia, de geometria, de geografia. Outras vezes, vamos ao quadro. Passa a pergunta de um para o seguinte, quando alguém não responde logo. À primeira falta de resposta ainda não há sanção, mas à segunda já entra ralhete, à terceira pode ser pior. Todos passam pelo banco das perguntas, mais do que uma vez, e para alguns é complicado. Mais tarde, aproximando-se os exames, faz uma tabela, na qual estão datas e os temas das chamadas orais. Mas introduz uma novidade, que anuncia: os melhores alunos vão ter um prémio, que não diz qual é. Mas informa que os melhores alunos, que sejam do Benfica, do Sporting e do Belenenses, vão receber o prémio. Portanto, todos nós, somos concorrentes ao prémio, e temos de dizer que somos de um desses três clubes. Por isso deduzimos que vai haver três prémios, para os três melhores alunos, um de cada clube. Ele pergunta a que clube pertencemos, nós dizemos e ele toma nota. Fica uma folha com a letra dele, ao lado da tabela que tem as datas das chamadas orais, que também tem o nome do clube de cada um. Lá vamos outra vez para o banco corrido. Todas as semanas há chamadas e até mais do que uma vez por semana. Andamos sempre a consultar a tabela, mas não sabemos quem vai para o banco, a seguir. As matérias são todas aquelas que já demos na quarta-classe. Ele faz as chamadas e tira notas, mas nunca nos diz quem vai à frente. Estamos quase a chegar aos exames e pelo meio ainda temos de voltar a treinar para a prova escrita. O fim do concurso aproxima-se e o professor Costa começa a fazer selecção dos melhores. Há um ambiente de intenso trabalho e até parece que as nossas cabeças estão em alta rotação. Chega o dia das últimas chamadas orais. Então, chama seis para o banco corrido: o Celestino, o Garcês, o Norberto, o Reinaldo, o Sá e… o Azenha. É uma prestação global de grande disputa entre nós, uns a sobressaírem numas coisas, outros noutras. Grande parte da manhã naquilo, sem desfalecimentos, o professor Costa num entusiasmo galopante a cada nova pergunta, a cada nova resposta. Estamos esgotados. O concurso termina. De seguida o professor Costa tira os prémios de dentro de um saquinho de papel e mostra um de cada. O prémio é algo que nunca vi, nem sei para que serve. Mas é bonito. Em metal amarelo, com uma calote onde está o desenho de uma bola de futebol, na parte convexa e, sobre ela, o emblema do clube: o Belenenses, o Benfica, o Sporting. Da calote sai uma pequena corrente, que termina numa argola, a qual tem uma mola, para abrir e fechar a argola. Depois o professor tira mais prémios, iguais aos anteriores. Agora já tem seis na mão. Afinal são dois de cada clube, mostra ele. E foi assim a distribuição: os dois do Sporting, para o Celestino e o Reinaldo, os dois do Benfica para o Norberto e para o Sá, os dois do Belenenses, para o Garcês e também para o Azenha que, embora sendo do Sporting, não podia ficar sem prémio, que a sua prestação foi de grande nível. Por fim, o professor Costa ensinou: isto é um porta-chaves, e eu fiquei quase na mesma, que tal coisa, além de não fazer parte dos meus conhecimentos, também não era uma das minhas necessidades de então, pois não tinha quaisquer chaves para lá meter. Quem quiser pode colocar no passador do cinto das calças, disse por fim o professor Costa, e assim foi. Pendia, com vaidade minha, dos meus calções ou calças, em dias de festa. Desapareceu, talvez dois anos depois, numa ida às nêsperas, no quintal da Mari Pintora. Quando ela deu por isso, começou a gritar. Fugimos, saltando o caniçado. Ficou lá o prémio…

Até ao exame, em Santarém, foi um instante. Era sabido que quem o professor Costa levasse a exame da quarta iria ficar bem. Manhã de muito sol e nós a caminho, bonitos de bem vestidos e penteados, que nossas mães cuidaram de tudo. Saímos do Vale na camioneta da carreira e fomos para a escola do exame, com nossas mães. O professor Costa estava à nossa espera, e fez logo uma chamada, para ver se estavam todos. E estavam. Depois uma professora chamou um a um. Entrámos. Lá dentro fomos preenchendo as carteiras vazias. Já lá estavam rapazes de outras escolas, que não conhecíamos. Depois da porta fechada, uma senhora começou a falar, a dizer como ia ser a prova escrita e que não podíamos falar a partir dali, que se quiséssemos alguma coisa levantávamos o braço e uma professora ia falar connosco. Depois entregam-nos papel e uma folha com informações para o exame. Dias antes andámos a treinar para a prova escrita, a arrumação dos títulos na primeira página, tudo direitinho, equilibrado, sem borrões de tinta, logo se veria se no próprio dia sairia tal e qual. Fizemos muitos ditados, cópias, redacções, problemas e desenhos. Lemos muitas lições e também escolhemos uma, como no exame da terceira classe, para o caso de na oral nos dizerem: escolhe uma lição de que gostes. Até pus lá uma folhinha de louro, que apanhei na curva das Rebelas, a marcar a lição que escolhi. Era sobre os transportes. Mas isso era para a oral. Para o exame escrito levei a caneta de tinta permanente do meu pai. Andei a treinar com ela, antes, nas provas escritas de preparação, na nossa escola, e em casa. Era uma caneta Wearever, bonita. Também levei o tinteiro Quink e um mata-borrão novo, verde-escuro. Levei lápis novo, número 3 e borracha, azul de um lado, vermelha do outro, com uma camada branca ao meio. Na sala, a luz a entrar da esquerda, por janelas grandes. Cada um em sua carteira. Um professor e duas professoras, que não conhecíamos, por detrás de uma mesa, num estrado. É o júri, eu a pensar. Em frente, o quadro negro. Começámos. Uns ruídos próprios do momento. Folhas a roçagarem umas nas outras. Cabeças um pouco inquietas, depois a acalmia. Silêncio. Atiro-me àquilo. Faço a primeira página: os títulos, o meu nome, a data. Tudo copiado do que as professoras escreveram no quadro. A seguir, na segunda página, era o ditado. Foi o professor do júri a ditar, devagarinho. Depois foi fazer a redacção, a seguir as contas e os problemas. Pelo meio, momentos de transpiração. Os professores do júri a virem até nós. Param aqui, param ali, a ver, a ler o que estamos a escrever. Cochicham com um ou outro de nós, sobre o que estamos a fazer, ou quando há uma pergunta. A certa altura o professor do júri diz, alto: meninos, não podem olhar para o lado. A minha mãe já me tinha dito que quando fez o exame da quarta também disseram o mesmo. De súbito, eu a perguntar-me: e as raparigas, alunas da D. Tomásia, onde estão elas a fazer exame?…

Talvez tivesse havido um intervalo antes da parte dos problemas ou do desenho, mas não posso garantir. O certo é que, terminada a prova escrita, o professor Costa aparece logo, a saber como tinha corrido. Juntamo-nos à volta dele. Lá fomos respondendo, para ele e para as mães, e ele fica descansado. No meu caso foi o meu pai que apareceu. Traz uma pombinha de Santarém, uma banana e uma gasosa. Fala comigo e com o professor Costa. Estou confiante. Mas só me apetece é ir embora, que o exame foi cansativo e eu quero ficar sossegado, na nossa casa, na Fonte Boa. Regressamos ao Vale na camioneta da carreira, que nos deixa aqui, ali, conforme o sítio que mais calha a cada um. Meu pai desce logo na paragem frente à loja da dona Mercedes, que ele vai voltar ao trabalho. Eu desço na paragem do Manel d’Oliveira, depois sigo para casa, a pé, pelo carreiro, como tantas vezes, passando pelo olival, pelo pinhal, pelas terras do João brasileiro, até chegar ao casal, no cabeço. Muito calor. O casaco pendurado por um dedo, sobre os ombros, como os homens. O nosso cão a vir esperar-me, rabo a dar a dar. Minha mãe anda na vinha. Ponho o casaco e as outras coisas em casa, e vou logo ter com ela. Pergunta-me como correu, e fica descansada com as respostas. Dá-me de comer, que já tinha preparado. Fico relaxado e com sono. Depois de dormir, vou até ao pinhal da Fonte Boa, sozinho, e aí comecei a pensar no que estava para acontecer: o meu tempo de escola no Vale vai acabar. O meu futuro vai passar por outras paragens. Uma certa nostalgia, no regresso a casa. Ainda fazia calor, mas o sol já estava baixo. Os seus raios cruzavam o ar, inclinado-se, sobre os troncos dos pinheiros.

Nos dias seguintes voltamos à escola, mas em regime pouco normal, só para fazer revisões. O professor Costa tem boas informações sobre como nos correu a prova escrita e nos últimos dias passa a insistir mais com aqueles que poderão ter maiores dificuldades na oral. Nas aulas da admissão faz o mesmo, pois os exames à escola técnica e ao liceu são logo a seguir ao da quarta classe. Eu vou fazer exame para a escola técnica, foi o que decidiu o meu pai. É visível que o professor Costa está seguro de que vai correr tudo bem, porque não se zanga quando falhamos alguma coisa e agora falhamos muito menos. Parece ter mudado nesse pormenor, mas talvez seja para nos deixar mais tranquilos, embora não deixe de apertar connosco. Alguns não foram ao exame da quarta, porque o professor Costa disse que não estavam preparados, e era verdade. Têm de repetir a quarta classe. Com alguns isso vai acontecer pela segunda vez, e são estes casos que me causam maior tristeza. Estes já não vêm à escola, agora têm de esperar pelo novo ano. Por outro lado, há rapazes que não foram inscritos para a admissão à escola técnica ou ao liceu, porém são muito bons alunos, dos melhores, casos do Azenha e do Celestino. Talvez pudessem ter sido inscritos, dizia eu, que o valor das aulas, a pagar ao professor Costa, não era elevado. No entanto, meu pai lembrou que as aulas de admissão eram para os que iam continuar a estudar… não para os que tinham de ir já aprender um ofício, para começarem a ganhar algum dinheiro… que a maioria das famílias muito precisava. E aproveitou para dizer: e tu vê lá, que se não passares na admissão, vais logo trabalhar.

As provas orais chegaram. Já tínhamos a experiência da terceira classe, mas agora era mais difícil e numa escola de Santarém. O professor Costa, nos últimos dias antes das orais, deu conselhos sobre como devemos estar nesse dia: ouvirmos muito bem as perguntas, não termos precipitações a responder e, e se tivermos dúvidas, pedir: senhor professor, desculpe, pode repetir?… Não tenham receio, estejam concentrados e não se ponham a chorar… avisou. Naquele dia minha mãe chamou-me cedo, mas eu já estava acordado. Pôs o café com leite e a torrada na mesa da cozinha e foi fazendo outras coisas. Não falámos muito, até que as minhas irmãs mais velhas se levantaram, para irem trabalhar, talvez para a fábrica dos sapatos. Depois foi a altura de me vestir. Era o mesmo fatinho, o que havia, de calção e casaco, por cima de uma camisa creme. O fato já um pouco apertado. Talvez por isso, meu pai disse: se tiveres calor, despe o casaco. Desta vez fui apanhar a camioneta do Vinagre, que vinha da Isenta, e passava por dentro da Fonte Boa, ao pé do laboratório. Ficou combinado assim com o professor Costa, que eu iria na camioneta da Isenta.  Entrei, disse bom dia e sentei-me. Meu pai havia-me dado dinheiro para o transporte e, pela primeira vez, fui eu a pedir o bilhete. Uma viagem diferente, até ao Vale. Nas paragens seguintes foram entrando outros rapazes da nossa escola, que tinham oral no mesmo dia. Eu estava logo a seguir aos primeiros bancos, à direita, e do lado da janela. Algumas mães acompanhavam os filhos. Desta vez minha mãe disse que iria lá ter. Depois de chegarmos a Santarém, fomos todos juntos para a escola onde seria o exame. Éramos um bom grupo, com as mães ao nosso lado. O professor Costa estava à nossa espera, junto à escola. Naquele dia faziam oral, além de mim, o Azenha, o Norberto, o Reinaldo, os irmãos gémeos Baeta da Graça, o Melão, o Orlando, o Manuel Júlio, e mais alguns. Outros, como o Ângelo, o Celestino, o Joaquim Júlio e o Garcês, tinham feito oral no dia anterior. Tinha corrido bem. Fomos chamados, um a um, para dentro da escola. As mães foram autorizadas a entrar depois. Os professores do júri, os mesmos da prova escrita, estavam no estrado, por detrás da secretária deles, todos de bata branca. Nós, não. Fomos autorizados a mostrar as nossas vestimentas. As orais seguiram a ordem alfabética. Assistimos a dificuldades, engasganços, da parte de alguns, mas nada de grave. Recuperaram. Quando chegou a minha vez, o coração abanou um pouco. Estava afogueado e a professora começou logo por perguntar se estava com calor. Descansei-a. Disse “não senhora professora”, mas estava um pouco nervoso, isso sim. A gravata, graná às pintinhas brancas, apertava. Ou seria o casaco? Entretanto, a professora tinha as folhas da minha escrita na mão, como fizera com os outros. Abriu, virou, revirou e disse: então, vamos lá, escolhe uma lição. Devagarinho, abri na página marcada, o canto um tudo nada dobrado. Entrei na leitura, com voz alta, devagar, para me tranquilizar, e assim aconteceu. Vieram as perguntas sobre os transportes, as comunicações e aquilo foi canja, como dizíamos entre nós. Interpretação, dividir orações, sujeitos, predicados, complementos directos… tudo fácil. Terminou com “paupérrimo”, superlativo absoluto simples de pobre. Logo a seguir os problemas: um que metia horas, minutos e segundos e o pagamento de não sei quanto à hora a um trabalhador, durante um certo tempo; outro em que era preciso calcular volumes e havia um cone, à mistura. A seguir os mapas. Coisa pouca: o sistema galaico-duriense e a linha do Oeste. Por fim, o corpo humano: os ossos da mão e do pé, e a particularidade do dedo grande, e mais não sei quê. E ainda, a enxertia por mergulhia, como era. Estando tudo a correr bem, foi com alívio que ouvi “parabéns, está terminado o teu exame, podes ir sentar-te lá atrás”. Então, sem mais, foi o que fiz, e vi minha mãe, sentada na sala, um sorriso bonito no rosto. Chegara a tempo de assistir à parte final do meu exame.

Perto da uma, as orais chegam ao fim. Estamos todos cá fora. Aguardamos os resultados, mas estamos tranquilos: apesar de algumas escorregadelas, todos vão ficar bem. Como se diz na nossa terra: não vai haver raposas. As mães estão felizes. Nós estamos muito faladores, uns com os outros, e até exageramos. Já queremos é sair dali, não sabemos bem para onde, mas é a vontade que tenho. É preciso esperar, não saiam daqui, estejam quietos, dizem as mães, mas qual quê?!…. Depois, o professor Costa vem até nós e anuncia: passaram todos, parabéns! Também ele recebe parabéns, e deixa-se envolver na manifestação de alegria que já deve ter vivido muitas vezes. O Celestino, quase da altura do professor, está ao seu lado. Ele, mais velho, porque entrou mais tarde para a escola, irá voltar para pastor de cabras? E os outros, os que não continuam a estudar, irão já para uma oficina? No meio daquele turbilhão de felicidade, uma professora vem entregar papéis ao professor Costa. Chega finalmente a confirmação: ficámos todos bem. Depois disso, o professor Costa diz que ainda vai haver uma aula especial. E diz a data e a hora. Fica combinado. Despede-se de nós, com um grande sorriso. Já tirei há muito o casaco e é minha mãe que o segura. Ela fala com outras mães e, aos poucos, vamos saindo dali. Depois, num instante, cada um vai para seu lado, e minha mãe diz: deixa lá, nós vamos para o jardim. Pouco depois, no jardim da República, bem perto do coreto, sentamo-nos num dos bancos, de ripas vermelhas. Minha mãe abre a cesta de verga. Tira o tacho, envolto em papel de jornal, para manter o calor. Por cima, a toalha, de quadrados brancos e vermelhos. Cheira-me a carne guisada com batatas, ela sabe que eu gosto muito. Tira os pratos, os garfos, as fatias de pão, e a toalha, que estende sobre o banco. Ela de um lado da toalha e eu do outro, almoçamos assim. Devagar, à sombra das árvores. Falando um pouco, sobre o exame, e sobre como quando foi o exame dela, na quarta-classe, era professora a D. Leopoldina Augusta de Carvalho e Conde. Falando sobre as colegas dela, como a Estrudes do Artur Tendeiro, a Estrudes do João Vítor, a Maria Virgínia, outras. No fim do almoço ainda comemos maçãs leirioas, da nossa vinha. Fomos apanhar a camioneta da Ribatejana, à travessa do Postigo e regressámos ao Vale. Fizemos o caminho pelo açude, entrámos pelo olival do Garcês, e subimos ao cabeço, pelo carreiro da tia Mari da Velha, que aparece, junto à casa dela. Fica muito sorridente por saber que tudo tinha corrido bem. Na altura, comigo a crescer, já ela me parecia pequenita, mais do que sempre fora, e foi pendurada no meu pescoço que meu deu muitos e repenicados beijos. Depois, entrámos em nossa casa. Pela tarde fora foi a descompressão, a satisfação de todos, pela passagem no exame.

Alguns dias depois foi a aula especial, de que falara o professor Costa. Foi de conselhos e de despedida. Mais conselhos para a vida. Pela última vez, transpusemos aquela porta. O mestre estava à nossa espera. Depois das saudações, sentámo-nos. Agora já o via como um amigo, e não só como professor. Era um orgulho. Estava emocionado, e nós também. Por momentos, houve um longo silêncio, o que não era costume. Depois dos parabéns, ele começou por lembrar o que é aprender, da importância de aprender, que é preciso esforço, que é preciso trabalho. Que a vida é assim e que esperássemos isso, sempre, que não caíam as coisas do ar. Que dali em diante tínhamos de honrar a escola, porque todos iriam ficar à espera de que fôssemos bons trabalhadores. Que não nos esquecêssemos do que aprendêramos na escola, que ia ser muito útil. Que devíamos continuar a aprender, principalmente os que não podiam continuar os estudos. Que devíamos ler jornais, e livros, se pudéssemos. Que nas profissões que tivéssemos iríamos ser postos à prova e que nos devíamos servir do que aprendêramos. Que ele ia estar atento ao que íamos fazer. Que éramos os homens de amanhã, e que ele tinha muito orgulho nisso. Que estava disponível para nos atender, se o quiséssemos procurar, para qualquer necessidade. Que, mesmo que não tivéssemos essa necessidade, podíamos fazer-lhe uma visita, quando passássemos por ali, que a porta estaria aberta.

Foi mais longa, a última aula, mas isto foi o principal da conversa. Lembro-me de que os que iam continuar a estudar ainda tiveram algumas sessões de revisões. Mas, nesta aula de despedida, que foi da parte da tarde, havia uma atmosfera de muita emoção. Estava a ser difícil terminar. Parecia que não queríamos sair dali. Então o professor Costa abriu os braços e, aos poucos, cada um de nós foi até ele. Um abraço, ao professor. Pela primeira vez. Os que acabavam de se despedir iam-se encaminhando para a porta, mas pareciam querer ficar ainda. Depois sim, fomos saindo, e cada um foi à sua vida. Acabava assim aquela razão maior que nos juntara pela primeira vez: a escola primária. Estava para breve o exame de admissão à Escola Industrial e Comercial de Santarém.

Manuel João Sá

17 Abril 2017.

(Esta crónica inicia o ciclo das que vou dedicar às minhas memórias da Escola Industrial e Comercial de Santarém, a qual frequentei entre 1957 e 1964, onde fiz o Curso Geral do Comércio e a Secção Preparatória de Admissão ao Instituto Comercial de Lisboa, no qual entrei em Outubro de 1964).

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Escola onde fiz a instrução primária, de 1953 a 1957, ano em que entrei na Escola Industrial e Comercial de Santarém.

Memória breve, do tempo de Páscoa

Naquele tempo em que eu era criança, as amêndoas eram o mais importante, por alturas da Páscoa. Nada mais, além de, talvez, uma comida melhorada.amendoas de pascoa

Muitas amêndoas? Não, só as que era possível, que as posses a mais não chegavam, e a prole era imensa.

Amêndoas coloridas, cheirosas, roliças, com um som único, quando escorregando umas sobre as outras, a caminho do cartucho, de papel também colorido… compradas no meu Vale de Santarém pela nossa Mãe, nas lojas da aldeia: talvez no Artur Tendeiro, ou na D. Conceição, ou, mais tarde, na D. Mercedes. Umas quantas a cada um, por duas vezes, ou assim, e estava cumprida a tradição.

Também havia boas amêndoas na loja do Guedes “de baixo”, por oposição à loja do Guedes “de cima”, eram irmãos, o de baixo com a loja muito perto da histórica taberna do Baeta, o outro na subida para a igreja, um bocado antes da oficina de ferrador do João Cardoso, quando eu por lá passava e ele estava a queimar os cascos das bestas, aquele cheiro único espalhava-se por todo o lado, subia-me às narinas, e lá ficava a morar, um tempo.

Mas, na loja do Guedes “de baixo”, as amêndoas eram mais vistosas, apresentadas a preceito na montra, e, no interior, onde havia prateleiras pintadas de cores suaves, em verde claro e creme, atraentes, as amêndoas tinham lugar destacado. No próprio domingo de Páscoa, a loja estava aberta: era a única que recebia fregueses para as amêndoas, nesse dia. Entrava-se e não eram só as amêndoas de Páscoa, as suas cores e os seus perfumes que nos atraíam: era também o penetrante cheiro a café da marca Joaninha, que ali se vendia, vinha do Nabeiro, de Campo Maior, e assim se chamava em alusão à Joaninha dos Rouxinóis, do romance Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett. Um mimo, em cartuchos com a imagem dela, da Joaninha.

Não passa uma Páscoa sem que me venha à lembrança esse tempo: de quando era criança, mas também, de outro tempo depois, já com os dois filhos, quando íamos à terra da Mãe Cidália visitar os avós, os tios, os primos e… a ribeira da Lajeosa do Mondego, e Celorico da Beira, talvez também a cidade da Guarda, e a serra da Estrela, com neve, se houvesse e o tempo chegasse. Uma viagem de quase 8 horas de automóvel, o mesmo se fosse de comboio, tanto na ida como no regresso, um cansaço bom, que tudo era vivência, experiência, semente de futuro, com vontade de repetir, no ano seguinte…

Memória breve, do tempo de Páscoa.

Manuel João Sá – 13 Abril 2017   

Adeus Milita

Recebi hoje, da parte de sua irmã, a informação de que partiu, no dia 4 Março,

MARIA EMÍLIA TOMÉ ROQUE,

natural do Vale de Santarém, onde viveu, com a família, na zona da Fonte das Três Bicas, e onde frequentou a Escola Primária. Depois, na altura de frequentar o Liceu, em Santarém, para onde a família se havia transferido, passou a ser mais difícil encontrá-la, pois eu frequentava a Escola Industrial e Comercial. 

Só muitas décadas depois, através das redes sociais e, aquando dos contactos para a realização dos convívios dos antigos alunos da escola primária Aristides Graça, do Vale de Santarém, voltámos a encontrar-nos. Foi em 2012. Desde aí, em visitas que o Reinaldo Ribeiro e eu lhe fizemos, ou nos nossos convívios anuais, tivemos muitos reencontros, sempre poucos, porém, pois a sua necessidade de convívio era (foi sempre) muito grande. Nesses reencontros, as conversas, sempre muito animadas, abarcavam temas muito diversos; iam das nossas histórias pessoais de vida à família, à actualidade sociopolítica, à literatura, à arte, e acabávamos, sempre, por retomar a recordação do nosso tempo de meninice, ou seja, o tempo de quando a garridice e a vibração contagiante afloravam ao seu olhar,  e a Milita era um vulcão de alegria e gargalhada sã.  

Assim parte alguém que faz parte das mais antigas memórias da minha vida, e, certamente, das memórias de muitos dos seus amigos. Neste tempo em que falar já de passado é normal, fica-me a tristeza de terem passado tantos anos em que nada soubemos da Milita. A vida, com as suas estranhas particularidades, que se nos revela assim, crua, irremediável, na hora da partida.

O corpo está na capela mortuária das Portas do Sol-Santarém, desde as 12 H 30 de hoje, e seguirá amanhã, dia 7, para Setúbal, onde será cremado – crematório do cemitério da Estrada de Algeruz, às 15 horas.

Aos seus dois Filhos e sua Irmã, expresso o sentimento do meu mais profundo pesar.

Manuel João Sá

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No dia de Entrudo…

Vale de Santarém. O Entrudo. Como no meu tempo de rapazeco aprendi a dizer. E não “o Carnaval”, como agora se diz. Tempos diferentes, em tanta coisa, que a mudança é isso: não pára.

Memórias. De andarmos ensaiados (agora diz-se “mascarados”) e sairmos à rua, nestes dias, assim. Uma vez atravessei, com a minha irmã Nelita (já partiu, há muito) todo o Vale, ninguém nos reconhecia, e essa era a “vitória” – todos a quererem saber quem éramos e não conseguiam. Levávamos máscaras feitas com cartão e, na cabeça, lenços. E roupas completamente “malucas”. Diziam-nos coisas, puxavam as roupas, tentavam descobrir-nos, mas não conseguiam.

Noutro ano, na Sociedade Recreativa Operária, andei a dançar, toda a tarde, também ensaiado, com uma ensaiada; eu sabia quem ela era e ela também sabia quem eu era, pois tínhamos combinado. Tinha 12 aos, e foi assim que aprendi a dançar, que no Entrudo nada se levava a mal. Toda a tarde a mulher do sapateiro fez funcionar aquela concertina… que foi ela quem animou a matiné dançante, cheia de serpentinas, balões, papelinhos, risos, gargalhadas. Uma festa!

Até o palavreado era mais livre, naqueles dias, nas brincadeiras de mulheres (muitas) e homens, nos largos: da Fonte das Três Bicas, do Manel Jaquim, noutros. Havia anos em que os grupos se deslocavam ao longo do Vale, paravam, e continuava a folia. Jogos de quartas – bilhas de ir buscar água às fontes, a passarem de mão em mão, mas enviadas pelo ar, quem as deixasse cair e partir tinha dichotes, ou seja, críticas, gozos – enfarinhadelas, ataques às pernas das raparigas com urtigas, enfim, uma série de disparates de Entrudo… E algumas canções com “dizeres”, onde o vernáculo, puro e duro, imperava.

Coisas do Entrudo / Carnaval de outros tempos, no Vale de Santarém, que a memória ainda conserva. Até um dia...

Manuel João Sá.

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Vale de Santarém. A Fonte das Três Bicas, numa foto com algumas dezenas de anos. Duas mulheres na fonte, vendo-se: os trajes, uma quarta (bilha). Na mulher que segura a quarta, que vai colocar na cabeça, vê-se a “rodilha” (uma rodela de pano) no alto da sua cabeça, onde vai assentar o fundo da quarta, e assim a levará até casa, equilibrada, as mais das vezes, sem segurar a quarta com as mãos. Este era um dos largos onde se brincava ao Entrudo, hoje Carnaval.
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Vale de Santarém. Largo da Fonte de Uma Bica, também por vezes usado por grupos, no Entrudo.
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Uma quarta (bilha de barro)  parecida com as que usavam as mulheres do Vale de Santarém, para irem buscar água às Fontes: de Três Bicas e de Uma Bica.

20 de Janeiro de 2017: Trump, ou o primeiro dia de uma nova era, em todo o Mundo.

Hoje, 20 de Janeiro 2017, não é um dia igual a tantos outros.
É um dia a anotar, com um enorme ponto de interrogação, para cada um de nós, seja qual for o lugar, no mundo, em que vivamos. 
Nos EUA entra hoje em cena a mais imprevisível e perigosa figura que, nas últimas décadas, maiores preocupações traz a todo o mundo. Donald Trump. Entra em cena como presidente do grande país, após já andar em cena, com as mesmas características de comportamento, na vida empresarial, nas grandes negociatas, nos jogos de influências, na vida social. Toma posse acompanhado por gente com perfil do mesmo tipo, rumo a um futuro de incertezas e medos, que se espalham pelo resto do mundo.
No seu país teve apoiantes suficientes, que lhe deram a vitória eleitoral (isto não pode deixar de nos pôr MUITAS PERGUNTAS, e não só uma: como foi possível?) mas também se sabe que tem igualmente apoiantes entre alguns outros mandadores e muitas outras pessoas, um pouco por todo o lado. O que ele tem defendido, e o que os seus companheiros de governação também querem, anuncia-se como um futuro de, pelo menos, grande e perigosa turbulência, sem dúvida com vítimas anunciadas à partida: os mais fracos, seja de que tipo forem. Tudo o que não venha a ser isto, ou pior, será uma enorme surpresa. 
A história contemporânea já registou ascensões populistas que, cavalgando alimentadas por anteriores erros e práticas de uso e abuso dos direitos dos cidadãos, conseguiram obter a vitória pelo voto e, depois, mergulharam as sociedades, o mundo, em convulsão total. Hoje, porque os tempos, apesar de tudo, são outros, e a informação global poderá ter papel decisivo, talvez não se chegue aí, porém… tudo é interrogação. Uma grande interrogação.
Uma coisa eu sei: os cidadãos não devem deixar a, quem quer que sejam os governantes e outros poderosos, a possibilidade de nos mergulharem no caos, seja ele de que natureza for. Aqui, seja na nossa freguesia, no nosso concelho, no nosso país, ou no mundo. Se assim não procedermos, e de um modo cada vez mais assumido, estaremos à mercê disso mesmo: de que sejamos conduzidos a cenários de destruição e caos.
Manuel João Sá
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O Vale de Santarém, numa crónica de 1947

O Vale de Santarém, onde nasci, é uma terra cuja “idade” não está ainda determinada. Sabe-se que, como tem sido divulgado, a antiga povoação aparece referida apenas como Vale, Vale de Soeiro Pisão ou ainda de Soeiro Tisão, vindo a adoptar-se posteriormente o nome de Vale de Santarém. Sendo uma povoação que, ao longo dos tempos, veio a conseguir um notável crescimento populacional e um destaque razoável no concelho, foi sobretudo a partir do relevo que lhe foi dado através do romance “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, que passou a ser uma referência particular a nível regional e, depois, nacional. Este relevo adveio não só do facto de o autor situar no Vale o centro da trama amorosa do romance, o qual é um marco único e notável na literatura portuguesa, mas também pelo que deixou, para a eternidade, sobre as suas particularidades. De facto, quando Almeida Garrett escreve, nas “Viagens”, que

O Vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela Natureza; sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada grandioso, nem sublime, mas uma como que simetria de cores, de tons, de disposição em tudo o que se vê e se sente que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração, devem reinar ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os prazeres e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por ali o Eden que o homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração”…

chamou a atenção para uma terra que muitos passaram a ter interesse em saber onde ficava e, até, em visitá-la.

Sabe-se que Almeida Garrett, amigo de Luís Augusto Rebello da Silva”, esteve algumas vezes na quinta deste, no Vale de Santarém, conhecida como Quinta do Desembargador, mais tarde chamada, popularmente, Quinta “das Rebellas”. Esse contacto com a realidade das belezas naturais do Vale, permitiu-lhe traçar a admirável imagem que, desde então, constitui o mais belo retrato da nossa terra. Porém, se o Vale de Santarém foi assim descrito por Garrett – a 1ª edição das “Viagens” foi no ano de 1846 – a verdade é que, um século depois, conforme li no jornal Correio do Ribatejo, já um natural do Vale de Santarém – Augusto Oliveira d’ Almeida – traçava outro retrato da aldeia, menos positivo, sob diversos aspectos. O seu escrito, publicado no jornal, em Julho de 1947, faculta diversos elementos para análise, que são um contributo importante para a história do Vale de Santarém, propósito no qual, de forma singela, me mantenho interessado, sobretudo para colocar ao dispor dos valesantarenos e outros, mais informação sobre o nosso passado. Em concreto, Augusto Oliveira d’ Almeida, que nasceu no Vale, como afirma, diz o seguinte, que transcrevo na íntegra, com a ortografia do tempo.

CRÓNICA DE JULHO DE 1947, DA AUTORIA DE AUGUSTO OLIVEIRA d’ALMEIDA, NATURAL DO VALE DE SANTARÉM

“Na verdade, esta alegre e pitoresca aldeia, onde fui nado e creado e fiz, há uns bons sessenta e cinco anos, o meu curso inferior de letras, soletrando o livro de Monteverde e decorando o Manual Enciclopédico, é um lugar «privilegiado pela Natureza», onde cantam rouxinóis e… «não fazem ninho os milhafres». Tão privilegiado que tem resistido a todas as investidas do Progresso! As suas antigas ruas, travessas e azinhagas, orladas de piteiras, manteem, com admirável galhardia, a beleza dos areais reluzentes, poeirentos de verão e lamacentos no inverno!… Eram assim há um século e continuam no mesmo estado de conservação, desafiando os engenheiros e calceteiros a que se atrevam a modernizá-las.
Não havia nada «grandioso» na época em que Almeida Garrett descreveu esta aldeia. Hoje há, pelo menos, a grandiosa Estação Zootécnica Nacional, instalada na Quinta da Fonte Boa… Pois é verdade. O Vale de Santarém, que foi cantado por Almeida Garrett e habitado por Luiz Rebello da Silva, é um lugar privilegiado pela Natureza, estando, por isso, incluído na zona de turismo… Os seus dois mil habitantes pagam, de sorriso nos lábios, pesadas contribuições ao Estado e à Câmara Municipal, recebendo, como compensação…as visitas dos curiosos que, de quando em vez, aparecem aqui à procura da decantada janela a que assomava a «Joaninha dos olhos verdes» cuja beleza fez dar voltas ao miolo do saudoso autor das «Viagens na minha Terra».
Feliz povoação esta… O vizinho Casal do Ouro, que existia quase ignorado no meio de um olival árido e monótono, está prestes a conquistar foros de cidade. As antigas azinhagas, intransitáveis, que conduziam à povoação, foram transformadas em largas avenidas. As suas ruas e travessas estão regularmente pavimentadas. O seu comércio tem-se desenvolvido extraordinariamente.
O Vale de Santarém… continua… a ser «um lugar privilegiado pela Natureza» ! … É que os conterrâneos da famosa «Joaninha dos olhos verdes» entreteem-se a ouvir cantar os rouxinois e não pedem melhoramento algum à Câmara Municipal ou ao Estado. Já assim era nos recuados tempos da Monarquia… Quando havia eleições para deputados aparecia aqui o candidato Mariano de Carvalho a pedir votos, prometendo uma estação de caminho de ferro nesta aldeia, estação cujo local foi várias vezes escolhido. Dias antes das eleições, chegavam a parar os comboios no sítio da Califórnia, para embarque e desembarque de passageiros. E os eleitores lá iam de longada até Almoster, dar o seu voto ao Mariano… Este, um belo dia, viu quase perdida a eleição, por terem os eleitores do Cartaxo votado no seu conterrâneo Marcelino Mesquita. Salvaram-no da derrota os votos de Rio Maior, que lhe custaram bom dinheiro… Nesse ano os eleitores do Vale de Santarém abstiveram-se de votar. Foi então que o famoso politico fez a estação do caminho de ferro nesta aldeia, para arreliar os «cartaxeiros». Tempos que já lá vão…
Não quero terminar esta ligeira crónica, rabiscada à sombra do velho «pinheiro das areias», sem lembrar aos meus conterrâneos a conservação daquela secular árvore, que deve ser, se ainda o não foi, considerada de interesse público. A-pesar-de ter sido mutilado pelo ciclone de 1941, o velho pinheiro das areias é uma das árvores mais lindas do país, na sua espécie. Já resistiu a numerosas crises de falta de combustível e eu acho que praticaria um imperdoável acto de vandalismo quem o mandasse destruir. Até a nómada raça de ciganos condenaria um tal acto. É que aquele velho pinheiro foi sempre a pousada mais cómoda e económica que as várias tribus de ciganos encontraram na sua passagem por esta povoação. Ainda eu era «menino e moço» e já os ciganos se acoitavam sob a copa daquela frondosa árvore. Ali faziam êles as suas festas pantagruélicas, manducando a carne de algum suíno que morria por doença e cujo dono mandava enterrar nas areias mais próximas… A garotada da aldeia assistia àquelas festas com grande interesse e notava que os ciganos nunca adoeciam por ter comido carne morrinhosa… Bons tempos de outr’ora !…
Vale de Santarém, Julho de 1947
Augusto Oliveira d’ Almeida”.

Muito há, nesta crónica de Augusto Oliveira d’ Almeida, natural do Vale de Santarém, que suscita o meu interesse e que, portanto, vai continuar a ter a minha atenção, no âmbito das pesquisas que venho fazendo. Por agora, ela aqui fica, para conhecimento dos valesantarenos e outros interessados. Há uma pergunta que se me põe: quem foi Augusto Oliveira d’ Almeida? Vou saber.

De notar que, Casal do Ouro, é, hoje, Vila Chã de Ourique.

Antes de fechar esta publicação, e acreditando no que nela se diz:

  • A constatação de que, em 1947, como aliás antes, a Câmara Municipal de Santarém pouca atenção dedicava ao Vale de Santarém e, também, os valesanternos pouco exigiam;
  • No entanto, numas eleições realizadas muitos anos antes, no tempo da monarquia (data a pesquisar) os valesantarenos reagiram perante o poder, fizeram uma abstenção geral às eleições, e assim conseguiram ganhar a estação de caminho de ferro, que os políticos adiavam sistematicamente;
  • A Estação Zootécnica Nacional, criada na Quinta da Fonte Boa, constituiu uma obra grandiosa, de que, hoje, resta… uma vergonha;
  • O Pinheiro das Areias, secular, como refere o cronista, era já em 1947 uma árvore notável, de tal modo que fala em considera-la “de interesse público”, devendo ser protegida; já quando Augusto Oliveira d’ Almeida era criança – portanto, antes de 1900 – a zona do velho pinheiro era “a pousada mais cómoda e económica que as várias tribus de ciganos encontraram na sua passagem por esta povoação”.

Voltarei a estes temas, da história do meu / nosso Vale de Santarém.

Entretanto, aqui ficam algumas imagens relacionadas com os autores e alguns dos assuntos referidos na crónica transcrita.

Manuel João Sá.

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Luís Augusto Rebello da Silva
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Uma das obras de Rebello da Silva

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Uma das edições das célebres”Viagens na Minha Terra”
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Quinta do Desembargador, no Vale de Santarém, ou Quinta das Rebellas – “Casa de Joaninha”. O que restava do edifício, há cerca de 30 anos. Agora, está por terra.
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Pinheiro das Areias, no Vale de Santarém, como era em 2015.
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Pinheiro das Areias, no Vale de Santarém, após o vendaval do início de 2016.