25 de Abril

Em homenagem a todos, mulheres e homens, que foram mortos, presos, torturados e perseguidos pelas polícias do regime ditatorial;

Em homenagem a todos os que lutaram e resistiram para derrubar esse regime;

Em homenagem aos que morreram na guerra nas ex-colónias, portugueses ou naturais desses territórios;

Em homenagem ao povo Português, que sofreu as consequências de um regime tenebroso, caduco, isolado e desacreditado pelo resto do mundo;

Em homenagem aos “Capitães de Abril” e a todos os militares que, pelo golpe de estado revolucionário, nos devolveram a Liberdade e os direitos de cidadania, na sua completude…

Eu direi SEMPRE: VIVA O 25 DE ABRIL!
Aqueles que querem voltar a esse passado miserável, quaisquer que sejam as roupagens com que pretendem enfeitar as suas propostas;

Aqueles que ainda dizem coisas como “dantes éramos mais felizes e não sabíamos”, ou “estamos pior do que dantes” e outras equiparações deste tipo… esses ou não sabem o que então se passou, ou sabem-no mas fazem-se esquecidos ou mentem, ou, ainda, sabem-no mas querem destruir o que foi conquistado: o direito a sermos livres, a podermos dizê-lo e a actuar conforme essa condição, que todo o cidadão consciente deve respeitar, preservar e defender, para o BEM COMUM, no nosso País.

VIVA O 25 DE ABRIL! 25 DE ABRIL SEMPRE! 

Num Dia do Pai

Não sei quando começou, para mim, o “Dia do Pai”. Enquanto fui jovem não me lembro de haver tal dia, tal comemoração. Foi muito mais tarde que ouvi falar disso e da razão de existir. Hoje está consolidada a data, a comemoração familiar e toda a diversidade de manifestações, de muitos matizes, incluindo o aproveitamento frenético da publicidade e das compras-porque-sim, o frenesi pela oferta para marcar presença, ou da mensagem, ou do beijinho, quanto mais não seja para descansar as consciências da ausência de dias, talvez meses ou anos, da visita que não se faz porque, dos cuidados que não se tem porque, do desamor que cresceu e não se reverte, porque…

Porém, quem sou eu, para me considerar com saberes e sentimentos melhores, para combater esta tendência para o consumismo, o espectáculo, o faz-de-conta, embrulhado com papel especial de festa e hipocrisia, porque é preciso corresponder ao-que-todos-fazem, porque é costume e parece mal não ser assim, sobretudo neste dia…

O meu Pai é meu Pai vai para mais de 75 anos, e também Pai de mais 8. Foram nove, os que a minha Mãe, com ele, deu à Vida, e o resto, até chegarmos aqui, foi um mundo inteiro: alegrias, tristezas, nódoas negras, vitórias… Isso multiplicado por nove!… pelo menos.

O meu Pai foi-se embora em 2005, num dia de Abril cheio de sol, depois de uma vida intensa, sem fraquezas, de cara erguida, contra o obscurantismo, a falta de tudo, a subserviência, o medo, a ditadura. Nesse dia escrevi-lhe a primeira daquelas cartas que nunca lhe tinha escrito, a primeira daquelas que depois continuei a escrever, e que talvez um dia traga “cá para fora”. Devo-lhe muito, e isso faz parte do que lhe devo. Ele, com as suas virtudes, com os seus defeitos. Como eu. Como todos: Pais e Mães. E Filhos, e Netos… A vida é isto.

Então, sendo assim, neste dia, e para os meus Filhos, para os Pais da minha Família, para os Pais meus Amigos (com A grande) os votos de muitos “Dia do Pai”. Mas que seja TODOS OS DIAS, é o que desejo.

Manuel da Silva Sá (1917-2005)

As andorinhas estão de volta…

Neste tempo, de Primavera a caminho, as andorinhas chegaram, ao que soube. Porém, ainda as não vi por aqui, e é sempre feliz esse primeiro avistamento. Suponho-as ainda um pouco cansadas da viagem que tiveram de fazer até regressarem, por mais ou menos seis meses, ao nosso céu, procurando depois as bordas das poças e charcos onde, com os bicos, recolhem areia húmida ou lama e palhinhas, para construírem os seus ninhos, quais açafates revestidos a penas, que arrancam do seu pequeno corpo, para aconchegarem os ovitos, que os filhotes hão-de estar a caminho.

Cansadas, digo eu, porém li que acabam por descansar em pleno voo, e regressam, activas, exactamente ao mesmo espaço e lugar específico onde nasceram ou procriaram, se não estiver oculto ou destruído. Guardam, estes tão pequeninos seres, o registo completo e eficaz do lugar de onde hão-de partir, para uma longa travessia aérea, os filhotes pela primeira vez, todas elas inseridas num grande grupo, até um dado ponto do planeta, que também já sabem qual é. E esse exacto ponto, e não outro, por quê? E qual o radar, qual o mecanismo de “pensamento” que as norteia e a capacidade de decisão para que a escolha seja exactamente essa, e não outra, se é que não têm interrogações, fáceis ou difíceis de resolver, face às alternativas?… Escolherão entre elas – as eventuais alternativas – e em função de quê?… ou, ao que se apurou, sabem muito bem, desde que partem, que o seu destino será um e um só, um ponto algures, a milhares de quilómetros de distância, para o qual traçam um azimute, aonde hão-de chegar, se não houver uma fatalidade durante o voo? Um voo durante o qual não param. Um voo durante o qual se alimentam e refrescam, abrindo ao máximo os seus bicos, para neles entrarem muitos milhões de insectos e a água que consigam captar, lá bem no alto, pelos céus…

Espanto. Espanto e interrogações que me acompanham desde criança, desde quando, ao cabeço da Fonte Boa e à minha aldeia as via chegar, todos os anos e, cerca de meio ano depois, após a azáfama da elaboração delicada e demorada do seu ninho, após o nascimento e a criação e o treino de voo dos filhotes, se juntarem, aconchegando-se, às centenas, milhares, enchendo o ar com os seus típicos “falares” agitados, nos fios eléctricos e, um dia, quando decidiam (mas quem de entre elas o faz, quem as comanda, quem as lidera?…) partirem, em grupo, como um mancha negra, deixando um vazio, uma forte nostalgia, até ao seu regresso…

Coisas “simples” e belas, da vida, que a nossa memória nos faz manter. Felizmente…

Manuel João Sá.

Andorinhas a alimentar os filhos.
Andorinhas a alimentar os filhos.
Andorinhas juntando-se para partirem.

Votar: um direito e um dever. Hoje, mais do que nunca.

Nasci num tempo em que estávamos privados das liberdades essenciais à vida, e, quem lutasse ou simplesmente se manifestasse publicamente contra isso, corria o risco de ser perseguido, de ser preso pela PIDE e outras forças repressivas do regime e sofrer as consequências brutais, incluindo a morte, como aconteceu a milhares de portugueses, durante a ditadura, inclusive nas ex-colónias. As pessoas mais pobres, e o povo em geral, eram considerados portugueses de segunda ou terceira categoria, sempre vergados pelos interesses e poderes dos mais ricos, que eram os beneficiários do regime. Condições básicas, essenciais à vida e ao nosso desenvolvimento, eram puramente esquecidas ou menorizadas, com particular destaque para os serviços de saúde, a educação, a segurança social, a habitação, o direito ao trabalho e a uma vida digna. Durante décadas, a saída para muitas pessoas e suas famílias foi a emigração, para a Europa, para o Brasil, para os Estados Unidos da América. Portugal era a nossa pátria, mas a nossa pátria expulsava-nos. Mantendo uma visão suicida, o poder político, à custa da sua polícia, das eleições viciadas e da manipulação, contando com a falta de consciência sociopolítica e da incapacidade do povo para dizer BASTA à ditadura, continuava a deixar grande parte dos portugueses na miséria e na fome, e a explorar os bens das colónias e a condenar os seus naturais à miséria, às doenças, à não-vida, tendo mergulhado toda uma geração e as famílias na guerra colonial, com as consequências nefastas que são conhecidas.

O 25 de Abril, felizmente acontecido em 1974, por obra de um punhado de patrióticos e audazes militares, que acabariam por pôr final ao regime isolado, caduco e repressivo, que nos envergonhou quase 50 anos, veio responder a muitas das necessidades essenciais para a cidadania, assumida finalmente em liberdade, com voz, com direitos e deveres, para a vida com condições, para a assumpção de um país capaz, decente, perante a Europa e o Mundo, deixando Portugal de ser um coito de dirigentes malfeitores, desumanos, assente em acções de carrascos pidescos e outras forças reaccionárias, com bufos a actuar por todo o lado, desde as famílias às aldeias, aos empregos, aos cafés, aos  organismos do Estado. Portugal ganhou, enfim, o direito a ser um país respeitado e depois fez por isso, para se manter num patamar de dignidade, em vez de um “país-coitado”, desprezível, escarnecido e desprezado pelo resto do Mundo.

No processo de vida colectiva que tivemos desde então, com muitos acontecimentos dignificantes e alguns outros que não deviam ter acontecido, seguimos, apesar de tudo, um percurso que está muito longe, felizmente, daquele de onde saímos, por acção da vitória que foi a revolução militar e do apoio popular. Aquilo que foi positivo é, em quantidade e qualidade, muito superior ao negativo, que desde então se deu entre nós. Porém, há os que, não tendo conhecimento do que foi esse regime, e/ou sendo críticos em relação ao presente – elegendo situações de facto negativas, condenáveis, como suporte da sua argumentação – querem fazer passar a ideia de que o regresso a esse passado, com alguns toques de pretensa democracia, é o que devemos preferir.

Ora, quem sabe o que foi esse regime, e os males que trouxe ao país, não poderá deixar de concluir: não podemos voltar para trás. O nosso caminho é em frente, e temos de o assumir enquanto cidadãos, sem estarmos “sentados” na liberdade que obtivemos, “à espera” de que tudo de bom aconteça, supostamente porque os Governantes – seja a nível do poder central ou do poder local – supostamente porque a Justiça, supostamente porque a Assembleia da República, supostamente porque “Alguém”… supostamente porque todos esses é que sabem e só nos resta “dizer que sim”, ou que “não tenho nada a dizer”, ou “quem sou eu para mudar seja o que for”, ou “eles é que sabem, pois foram eleitos”… Quer dizer, há os poderes instituídos, que estão consagrados na Constituição, que muito devemos defender: pelo que lá está escrito – o seu texto – mas também, e, sobretudo, a defesa da sua prática, pelos que governam, e que, a todos os níveis da sociedade, essencialmente, deve ser defendido pelos cidadãos.

 Para ser mais concreto: Eu, Cada um de Nós, tem o direito e o dever de ser pessoa activa, de forma decente e explícita, para defender o que está na nossa Constituição, pois ela espelha o essencial, em síntese, do que deve ser a nossa Vida Colectiva, enquanto Comunidade Nacional.

Há visões diferentes, em muitos aspectos, sobre os caminhos a seguir, e isso é positivo. É a base da vida em sociedade, do presente e do futuro. É a vitalidade da democracia. Visões diferentes e práticas diferentes, de pessoa para pessoa, como, por maioria de razão, dentro das famílias, dos grupos de amigos, e, obviamente, dentro das comunidades locais e regionais. Por isso, há muitas formas de organização e de expressão política, em grupos de opinião, organizações da vida social ou em partidos políticos, sendo esta a forma superior de organização cívica, política, por parte dos cidadãos, prevista e defendida na Constituição. Esta é uma riqueza da nossa forma de viver em comum, que não podíamos ter antes do 25 de Abril, pois os partidos políticos estavam proibidos, a não ser o partido único, a tão tristemente célebre União Nacional.

Chegaremos em breve às eleições para a Presidência da República. É um acontecimento que deve MOBILIZAR TODOS OS PORTUGUESES. Embora o Presidente da República não tenha funções governativas, ele é, em última instância, o garante do regular funcionamento das instituições democráticas da República Portuguesa e o chefe supremo das Forças Armadas. É um símbolo e deve ser, pela sua acção, um exemplo positivo, evidente, na prática do respeito pela Constituição, pela imagem interna e externa do poder político em Portugal, o congregador da nossa Comunidade, independentemente das visões e opções político-partidárias que a nossa democracia alberga, e, obviamente, o espelho do nosso País, perante o Mundo. Por isso, a figura da pessoa política do Presidente da República é fundamental, na escolha em que vamos entrar, e tendo em vista o nosso futuro colectivo, encarando as dificuldades que o país sempre tem enfrentado, e muito para além da actual pandemia que continuamos a ter pela frente.

Eu sei há muito em quem não vou votar. Melhor: eu sei em quem nunca votaria, em circunstância alguma. Hoje e sempre.

Nunca, como nestas eleições, surgiu perante os nossos olhos, face à incapacidade de muitos verem, de facto, o perigo que está a crescer, que há um candidato que, assentando o seu discurso e acção política na exploração de falhas e práticas do próprio viver democrático depois do 25 de Abril (algumas coisas bastante graves, que nunca deviam ter acontecido) o qual, com muitas mentiras à mistura, consegue arregimentar muitos mais do que os “nossos” velhos reaccionários, saudosos de Salazar, Caetano e das suas políticas repressivas e de benefícios para uma clique. Há que dizê-lo: muito provavelmente, não irão ser só esses, saudosos militantes do fascismo e do colonialismo, aqueles que esta personagem vai arregimentar. Infelizmente, haverá gente do povo, até do mais abandonado e ainda esquecido, que se estará a deixar levar pelos argumentos que “a peste” invoca, argumentos que são, muitos deles, de defesa da exclusão social, de racismo, de xenofobia, da necessidade de aplicação da violência física, até da castração e outros processos tenebrosos, inclusive a prisão perpétua ou a pena de morte. Ou seja, no pior dos cenários, invocando a necessidade da ordem repressiva, o regresso à barbárie a cargo do poder político, policial e administrativo, a propósito de regular a vida em sociedade, espezinhando os princípios éticos, o respeito pela dignidade da pessoa humana, com desprezo pelos conceitos e práticas que a evolução do pensamento e das sociedades hoje consagram, como os melhores, a perfilhar, para a vida em sociedade.

A divisão entre “Nós”, os bons, os perfeitos, os escolhidos – ele próprio dizendo-se escolhido por um deus – e “Eles”, os maus, aqueles a erradicar, a mandar para fora do país, os pretos, os ciganos e “os que não querem trabalhar”, é uma velha e conhecida argumentação que serviu como suporte para manipular os impreparados, os incautos e outros, críticos da situação que vivem, para os braços de gente que, aqui, como na Alemanha e outros países onde o fascismo nasceu e vingou, durante um tempo, e actualmente nos Estados Unidos e no Brasil, querem afinal fazer STOP ao caminho democrático, no nosso País e no Mundo. O que tem acontecido nos EUA é a última evidência de tudo isso. A bestialidade destas foças retrógradas e violentas, com falinhas de cordeiros, que se apresentam como arautos da ordem, está a conseguir confundir muita gente e a arregimentar seguidores, entre os quais também se contam vítimas do facto de, afinal, a democracia ainda não lhes ter feito chegar as condições mínimas de vida e de dignidade. Não podemos negá-lo, mas temos de enfrentar esta situação perigosa, no presente e muito mais no futuro, se assistirmos passivamente.

Obviamente, vou votar, segundo as minhas convicções políticas, que não são de agora. Vou fazê-lo, assumindo um direito que conquistámos e que, se não o exercer, estou a dar trunfos aos inimigos da minha / da nossa liberdade colectiva, conquistada com tanto sofrimento, depois de quase 50 anos de ditadura, a mais velha e longa ditadura da Europa a cair. Vou votar porque é um dever que tenho, como cidadão. Como ser humano. Vou votar, mas com um firme propósito / um sentimento / uma mensagem final:

VOLTAR ATRÁS, À PERDA DO QUE CONQUISTÁMOS, COM O 25 DE ABRIL, NUNCA.

Todos aqueles que têm esta mesma divisa por opção, devem lutar por ela: nas conversas com os seus familiares e amigos, ou até publicamente. Já será um grande contributo, para que “a peste” não tolde o nosso ambiente de cidadãos livres, responsáveis pelo seu presente e desejando um futuro melhor. Cabe-nos assumir esse papel, esse desígnio. Para sermos livres e inteiros. E humanistas. Hoje e sempre.

16 Janeiro 2021.

Manuel João Sá

O dilúvio segundo o ti’ Manel d’Abrã

Pela tarde, o tempo pôs-se quente, estranhamente quente para a altura do ano. Havia muitas nuvens, grandes e grossas, viam-se bem, lá do alto da Fonte Boa, onde morávamos, nuvens negras debruadas a cinzento escuro, estacionadas no céu, para os lados do Cartaxo, pensava eu, e, para oriente, um sol baço, ainda querendo negar a tristeza do negrume da tarde. O cenário era este, tapando o céu, nuvens como gigantes negros e feios. Eu e os meus irmãos continuávamos a brincar por ali, junto à empena da nossa casa, fazendo sombras na parede virada a poente, com os nossos corpos, em movimentos curtos ou com gestos de pose, de fantasia, como os palhaços no circo, caretas e risos à mistura e, lá em cima, junto ao vê invertido do telhado, víamos a andorinha negra e falávamos com ela, desafiando-a; era de loiça, havia sido comprada na feira do Cartaxo pelo meu avô Toino da Velha, mas ele nada dizendo,  para fazer surpresa e, quando foi de terminar a casa, a andorinha, asas abertas, como que voando, ali a mandou fixar, quase virada para o céu, um encanto para a mulher, Constantina, e para a sua filha, Emília, até que um dia, coisa de rapazes, a andorinha desfez-se em cacos por via de uma certeira pedrada, movida pela disputa de “a ver se a gente lhe acerta”, pronto, quebrou-se o encanto, chorou muito a minha mãe com aquela tragédia, que a minha avó pôs-se calada, depois ajuntou “atão, deixa lá, coisas de cachopos”, se chorou foi só no pinhal do Ginestal, onde costumava sarar as feridas da má sorte, e o meu avô, se chorou ou praguejou foi na sepultura, onde já morava, e eu, não deitando lágrima, chorei com a minha mãe, mas longe e em silêncio, para dentro de mim, engolindo para o mais fundo das minhas entranhas as mais amargas lágrimas de remorso, para que nos havia de dar?!…, ficou-me a dor a latejar entre a garganta e o peito, até hoje.

Por ali andámos, na procura da mais estranha figura que cada um podia inventar com o seu corpo, projectando a sua sombra, que se pintava em tons azulados no branco da cal da empena, quando se começou a pôr frio, dei por isso  e estranhei, era do sol que desaparecia agora por detrás das nuvens espessas ou era do arrepio que todo aquele negrume espalhava em redor, isto era eu a perguntar, do alto dos meus quase dez anos, até parecia que o céu estava cada vez mais baixo, ameaçando esmagar-nos, e foi nesse entretanto que o ti’ Manel d’Abrã, alto e esgalgado no andar, o barrete preto surrado enterrado até às orelhas, lá dentro a onça de tabaco e as mortalhas de papel “Conquistador”,  o barrete a dançar ao sabor da ventania que se pusera, como era possível, um vento furioso como nos dias de vendaval do nordeste, dizia a minha mãe que tanto podia dar chuva como não; o vendaval vinha dos lados das nuvens que continuavam sobre o Cartaxo, supunha eu, agora talvez um pouco mais perto de nós, e nisto o ti’ Manel d’Abrã, vindo da sua casa, apressado, contra o costume, vem de galgão ao nosso encontro e começa a gritar “é o denúve, é o denúve”, e nós, que nunca tínhamos ouvido tal, ficámos entre o perguntar e o querer decifrar o que dizia, e ele só repetia “é o denúve, é o denúve…” quando um relâmpago feriu os ares, espalhou lumes por todo o lado, e mais outro e outro se lhe seguiram, o ti’ Manel despachou-se a mandar-nos fugir para a nossa casa, nisto aparece à quina da empena a ti’ Mari’ da Velha, tem-te-não-caias, que era pequenina e leve e a ventania quase tomava conta dela, mas foi lesta, lá se refugiou na nossa casa, onde a minha mãe nos acolhia, sobressaltada e preocupada, como galinha protegendo os seus pintainhos, ai deusnóssenhor, ai deusnóssenhor e a avó Constantina já se acantonara no seu quarto, acendera a torcida da candeia de azeite e começara as suas rezas a Santa Bárbara bendita, esperando que todos a rodeassem, no único espaço forrado a madeira no tecto, era ali o nosso refúgio em dias de trovoada …

Pôs-se um zumbido estranho e medonho em redor da nossa casa, o vento esmagador abatia-se sobre o telhado, era como se fosse um navio no alto mar em tempo de procela, assim dizia o meu pai muitas vezes quando, no topo do cabeço, a nossa querida habitação, feita a adobes do mais cuidado labor por quem disso sabia, garantia a minha avó, resistia sem vacilar aos mais furiosos dias de tempestade, mesmo se ouvíssemos ranger as vigas de madeira do telhado e, pelas frinchas da telha vã, se esgueirassem, como por canudos, directos a nós, os ventos mais acutilantes e traiçoeiros. Foi no meio deste cenário onde tudo enegrecera, pois o dia se fizera mais noite do que muitas noites, que hesitei entre aconchegar-me a todos no quarto da avó Constantina ou ir ver o que se estava mesmo a passar: que barulho era aquele, que parecia que a terra vomitava ruídos de medo e desgraça, ou era o céu que nos submergia sob pedregulhos enormes, que pareciam rachar a terra; que coisa se passava, de onde vinha, que estava a fazer, que nenhum de nós sabia o quer que fosse, enquanto o ti’ Manel d’Abrã continuava a falar do “denúve, denúve” e a ti’ Mari’ da Velha, tremendo de medo, implorasse a todos os santos, mãos com os dedos enganchados uns nos outros, como se fossem tenazes, ia dizendo, a meia voz: “é o inferno!.. é o inferno!… e mergulhava nas rezas a Santa Bárbara magnífica…

Foi então que me pus na casa de fora, tentando sentir de onde viria o maior perigo da besta desconhecida que nos atacava, e eu ali, o mais velho dos rapazes, a querer fazer figura de homem, visto o meu pai e as minhas irmãs mais velhas estarem no trabalho; eu perguntava-me: e agora?… Era como se quisesse dizer: que fazer, que fazer? Na “casa de fora”, que noutras casas de “gente fina” se chamava “sala”, decidi-me por ir para a cozinha e, a medo, abri o postigo da porta. Olhei através dos quadradinhos de vidro, via tudo embaciado, mas ainda lobriguei que o vento era como nunca, rugia, rugia e era como se fossem diversos ventos, que se atacavam, desencontradamente, ouviam-se bátegas enormes de água, furiosas, formavam uma cortina como se fosse de fumo, caíam na nossa eira e já faziam dela lamaçal, e à frente da porta a água corria como se houvesse um regato de águas e lamas vindas de longe, enquanto os grandes alguidares de barro, postos por minha mãe a aparar água que caísse do beirado, já estavam fora do sítio, mas porquê?… O dia era já uma noite medonha, dançavam as árvores até as suas copas quase tocarem o solo, e, olhando mais para o longe, já não divisava o palheiro da burra, a figueira da vinha nova eclipsara-se, as luzes da Estação Zootécnica Nacional, na quinta da Fonte Boa, já ligadas naquela tarde feita noite, pareciam pirilampos na escuridão imensa e trágica, o pinheiro grande, ao pé do picadeiro, era vergastado sem dó, vacilando as suas ramadas como se de uma árvore jovem se tratasse. Foi então que, o quer que fosse, esteve um tempo demoníaco a rugir, a rugir ainda mais, enquanto do quarto da minha avó ouvi soltarem-se não sei quantos “ai deus nos acuda, deus nos acuda, deus nos acuda”, com alguns choros miudinhos à mistura. Nessa altura, vindo como das entranhas da terra, ou dos céus, ou dos mares mais alterosos que o mundo já viu, uma devastação irrompeu, em turbilhão, varrendo tudo o que eu podia observar, através dos quadradinhos do postigo. Alçaram-se aos ares, rumo ao céu, pedaços de coisas, de todos os tipos, houve ruídos de latas e madeiras em choque, algumas telhas caíam da nossa habitação e espatifavam-se logo, havia árvores arrastadas ou voando, como se fossem papéis, o arrastão era como uma serpente gigante e bojuda, por um lado rente ao solo, mas também em espiral, subindo, subindo, fantasmagórica, mas poderosa, bela, sempre caminhando, caminhando, deixando como que uma cauda mais atrasada nesse caminhar, talvez no sentido de Santarém, pensava eu, faíscas cruzavam os ares, era uma amálgama surpreendente de efeitos de algo inexplicável, tremendamente assustador, poderoso, trágico, mas belo. Para lá do que era possível distinguir, estariam as instalações da Estação Zootécnica Nacional, que conhecia como as minhas mãos, mas só conseguia ver, através da penumbra carregada, muito pouco das árvores junto às pocilgas dos porcos, um pouco para lá da nossa vinha. O resto era escuridão, era nada.

Aos poucos, amainaram os ventos, enquanto a serpente, tão temerosa e sugadora, seguia o seu caminho, abrindo um rasto largo de destruição, que lançava coisas ao ar, como um dragão tonitruante, impiedoso, assassino. Como algo que se estivesse a vingar dos males que todo o mundo lhe infligira. Como um aviso de que os humanos eram seres menores, indefesos, incapazes, contra as forças violentas que, vindas não sabia eu de onde, reduziam a papéis, cacos ou lama o que antes era sólido, palpável, duro, agarrado ao chão, com fundações profundas. Então, mais rapidamente do que se fizera escuro e noite, começaram a surgir sinais de que afinal ainda era dia. Os ventos eram agora réstias singelas dos muitos, desencontrados, contínuos e tempestuosos sopros gigantes que haviam varrido a nossa casa e os espaços em redor. Sentindo isso, foram saindo, pouco a pouco, os ocupantes abrigados no quarto da avó Constantina. Eu, já na rua, começava a caminhar por ali e, para além das poucas telhas arrancadas à nossa casa, o que mais via na nossa vinha era árvores tombadas, quase arrancadas, e também cepas presas ao solo por poucas raízes. Parecia impossível que, lá no cabeço, a nossa parte de estragos fosse pequena, afinal. Ainda não era noite a sério, quando fui ver algo do que teria acontecido na Estação Zootécnica Nacional, que para mim, naquela altura, ainda se chamava Fonte Boa. Aparentemente, para além de telhas caídas, telhados de zinco arrancados, árvores arrancadas, pouco mais. Vim a saber no dia seguinte que, um silo construído em zinco, que estava situado perto do lagar de azeite, fora arrancado e, levado pela monumental força do vento, atravessara o paul de Anana e voara até perto de Santarém, tendo aterrado no chamado Monte Figo.

No dia seguinte, lendo o jornal “O Século”, lá vinha que um tornado, assim se chamava aquilo, que se formara algures, teria atravessado uma zona de muitos quilómetros, no Ribatejo, em especial atingindo a região do Cartaxo e seguidamente parte do Vale de Santarém e a Estação Zootécnica Nacional, tendo perdido força na direcção de Santarém, desfazendo-se depois.

Foi a primeira manifestação descontrolada da Natureza a que assisti. Na expressão do ti’ Manel d’Abrã, o “denúve”, ou seja, o dilúvio. Algo desconhecido, para mim e para os meus familiares, e que nada parecia poder conter. Aparentemente saindo das entranhas do próprio Sistema que é a Terra, foi um fenómeno não causado fora desse mesmo sistema. Muitos outros fenómenos idênticos, decerto alguns com mais terríveis consequências, ocorreram depois e hão-de continuar a surgir, pelo mundo fora.

Passaram mais de sessenta anos. Quem me diria que um dia, nos fins de 2019, mas com maior incidência neste ano de 2020, prestes a findar, o Ser Humano, a nível mundial, haveria de estar face a um problema tão grave, como a pandemia da SARS COV 2 – COVID 19, e com uma terrível particularidade: não se trata de um fenómeno criado no seio do Sistema-Terra, pelo próprio Sistema-Terra, mas como consequência dos terríveis desequilíbrios, dos profundos malefícios que o Ser Humano inflige à nossa casa comum, que é a Terra.

O nosso futuro, ou seja, a vida do nosso planeta e de tudo o que nele existe, está dependente do que nele e para ele queremos fazer. Retroceder ou cavar o nosso fim, é a questão. Ainda estamos a tempo de evitar um… dilúvio, ou consequência destruidora de tamanha amplitude e consequência.

Não podemos ficar parados nesta encruzilhada, à beira do ano 2021.  

Manuel João Sá

30 Dez. 2020

À distância de um clec…

Passeávamos pelo jardim quando, suavemente, a folha, encarquilhada, de crestada pelo sol, veio caindo, suavemente, e, como que baloiçando, acabou por tocar o alcatrão do caminho entre canteiros verdes, e fez clec. Talvez o pequeno ruído seja intraduzível, pela palavra falada, ou escrita. Não foi clic, nem clac, isso eu posso afirmar. Portanto, clec poderá ser a expressão que mais perto estará do que ouvi.

O que ouvi: um ruído da Natureza, como o eram também os falares das pessoas que por ali, como nós, vogavam ao sabor de uma manhã de sol, a menina com o seu balão, o casal de mão-dada, num dia claro e limpo, sereníssimo, as horas a escorregarem para as treze.

Treze horas: o limite para andar na rua, nestes tempos graves, de algo cuja natureza veio confinar a natureza humana, ao ponto de nos negar a liberdade, o convívio, o simples acto de continuar a observar as folhas que caem, as ervas que ondulam sob o efeito da brisa leve, ou a flor que brota, a borboleta que, sabe-se lá porquê, se desprende, em voo gracioso, ali, mesmo ao pé de nós, gozando da sua natural liberdade.

Que aproveitará o mundo (todos nós, os que agora somos viventes, e os que hão-de vir) desta experiência de vida mitigada que enfrentamos?

Foi isto que pensei, quando a minha atenção foi sugada pelo breve e simples cair da folha, e toda a poesia da vida me pareceu estar ali. Apesar do confinamento.

22Nov2020. Às 13H37. Conscientemente confinado.

Manuel João Sá

22Nov2020, às 12h45. Foto de Manuel João Sá.

34Joaquim Pinheiro, Maria Mandarina e 32 outras pessoas6 comentários

Saudades nossas, Pai…

Eras um bonito mancebo, pai. Olha para ti, neste retrato de quando estavas na tropa e almejavas que te saísse em sorte o número de candidato à Marinha, pois o teu sonho era correr o Mundo e, se possível, um dia ires encontrar-te com o tio Joaquim, que estava em Moçambique. Tio Joaquim, o “cabo d’ordes”, por alcunha, de quem me falaste algumas vezes, com admiração e enlevo. O revolucionário Joaquim Faustino da Silva, de quem te hei-de contar, com pormenor, o que de tão notável soubemos, da sua acção social e política, lá, em Moçambique, e que tanto gostarás de ouvir, está combinado, pai.

Eras já bonito em menino, o cabelo loiro, os olhos azuis, como os “ingleses” da nossa família ou da nossa parentela, que depois haveriam de ficar com “Inglês” como apelido. Uns olhos azuis faiscantes, sedutores, o que eles foram capazes de fazer nos palcos da vida que pisaste, ajudados por um sorriso natural e uma voz que vinha das profundezas, porém cristalina e vibrante, com a emoção a comandar as nuances… o que o teu todo foi capaz de fazer, eu bem gostaria de saber…

Passam hoje 103 anos sobre o teu nascimento. Foi em 1917, um ano de muitos acontecimentos. Por agora deixa-me dizer-te que, tal como quando vieste ao mundo, talvez descendente, pelo lado do avô Alfredo, de um inglês que pelo Vale de Santarém esteve, aquando das invasões francesas, hoje estamos perante uma pandemia, semelhante à que chamaram de “gripe espanhola”, a qual mandou para a cova muitos valsantarenos, mas nenhum da nossa família. Tu, bebé resistente, passaste incólume, e assim haveria de ser, contra imprevistos e maleitas, até que, em 2005, numa manhã de Abril cheia de sol, disseste adeus à vida, que tanto amavas. Tinhas 88 anos. A mãe haveria de fazer essa viagem no dia 15 de Julho de 2012.

“A vida é uma coisa tão bonita”, costumavas dizer. É verdade, pai.

Saudades de todos nós. Para ti e para a Mãe.

Manuel da Silva Sá, com dois anos.
Nasceu em 10 Nov.1917. Faleceu em 19 Abril 2005

Manuel da Silva Sá, na vida militar. Nasceu em 10Nov1917. Faleceu em 19Abr2005.

Memória da Feira dos Santos, do Cartaxo

Lá íamos, em família, sempre a contar com o que era esperado, mas também aguardando alguma novidade. Era no centro da vila, com o bulício e o ruído do costume, as barracas carregadas de artigos para a venda, naqueles dias febris de feira, de encontros, de surpresas, de muitos olhares para um mar de gente que vinha de todos os lados, trezentos e sessenta graus em redor estava ali, outros de mais longe. Uma misturada de vozes, de corpos, de cores, de sons dos altifalantes, os do Circo Mariano puxando pelas palmas do “generoso e inimitável público” para o trapezista que subia, subia, subia para o mais alto, lá, junto à lona, os tambores a rufar, a rufar, o trapezista preparado no corpo e na alma para o número mais arriscado e fantástico da sua vida, em busca da satisfação dos presentes, em busca da ovação, em busca do pão.

Há sacas de castanhas por vender, mas também as há lançando ao ar o fumo que vem dos assadores, e os seus perfumes cercam-nos sem cessar e ardem-me os olhos; há nozes como que pintadas a verniz, reluzentes, sob o manto feérico das luzes pendentes, nozes e amêndoas a dizerem-nos “levem-nos, que hoje é dia de pão-por-Deus”; também figos passados, dos pretos aos moscatel e outros pequeninos, amarelinhos, “estes são do Algarve”, diz o homem, apontando; há as barracas de brinquedos, que são de lata de folha-de-flandres, cheios de cor, desde as cornetas aos apitos, das camionetas da carreira aos triciclos, das carroças, com cavalo e tudo, às ‘caminetes’ de carga, das máquinas de costura aos ferros de engomar, das cozinhas às panelinhas de ir ao lume, no fogão, que também lá está. Há os piões, as fieiras, os pífaros, que são de barro pintado de branco, com argolas às cores, que não tarda nada um ou mais hão-de cair por ali, logo se partem, solta-se a choradeira e, “Tás aqui tás a levar uma estalada, raça do cachopo!..”

Cada criança é um mundo de desejos, vai daí “Oh mãe, olha aquela boneca tão linda mãe!…já viste?!…” e a mãe “Sim, já vi, mas o tê pai é que manda!…” e a cachopita lá se atreve, encosta-se ao pai, nada diz, olha a boneca, olha para o pai, olha a boneca, olha para o pai, num olhar suplicante… “Pronto, tá bem”, solta o pai a pergunta desejada: “De qual gostas mais?” e é assim que a menina ganha uma bonequinha, de faces rosadas, de papelão revestido a cores, que a tornam quase humana, a bonequinha sorri para sempre e vai entrar no sonho da menina, esta noite, pois há uma irmã que não tinha…

As barracas das botas e sapatos estão mais adiante, e por ali também se mostram as dos fatos, das samarras e dos safões, e as dos bonés e chapéus para a cabeça, que as dos chapéus para a chuva hão-de aparecer também. Foi por aqui que, anos mais tarde, ganhei uma samarra, fartei-me de experimentar, era suave e quente a gola de pele de carneiro, para o castanho escuro, e dizia o homem “Vá rapaz, olha-te aqui ao espelho, estás ou não todo pimpão?!…”, enquanto a mulher dele, esganiçando-se, voz rouca, apresentava a mercadoria ao público passante: “Veja bem, o senhor aí, veja, apalpe, experimente a qualidade dos nossos artigos, veja aqui, ó freguês!”

Foi aqui, na Feira dos Santos, que comi pela primeira vez frango de churrasco, assim dito por quem nos convidava para a barraca de comes-e-bebes, e foi uma geral do dito para toda a família, mais os refrigerantes e outros acompanhamentos, que era preciso preparar para a ida ao circo, já era grande a chinfrineira que vinha pelo altifalante: “Caros senhores e senhoras, comprem aqui os bilhetes para o Cirreeeeco Marrriano!… o mais antigo de Porreeeeetugal!… é às tantas horas a segunda sessão do nosso maravilhoso espectáculo!”

E lá fomos. Lá fomos ao circo, numa noite única, a findar um dia memorável. Na histórica Feira dos Santos, do Cartaxo. Em 1957.

Manuel João Sá.

Casal da Trolha, o lugar onde nasci

Casal da Trolha, no Vale de Santarém. Assim conhecido por todos, naquele tempo. Nasci aqui, em 23 de Fev 1946, na casa alugada por meus pais, e onde já haviam nascido as minhas duas irmãs: Maria Inocência e Maria Emília. É um local aonde regresso: em pessoa, em memórias, até em sonhos. A casa era à direita, onde está a moto (fotos de 2007). Era de terra batida e tinha uma coluna (uma varola, redonda) de madeira, ao meio. Assim era, então, na maior parte das casas da minha terra. Cortinas, em vez de portas, entre as divisões. Não havia saneamento básico (esgotos) nem lavatórios, banheiras, água canalizada, luz eléctrica… na grande maioria das casas. As vizinhas ajudavam-se. As crianças brincavam no meio do U, formado pelo casal, que era da Sra. Albertina “Vindima” e do marido, o Sr. Ernesto Serrenho. Por detrás moravam os pais da Mariana Sá Patrício, com a sua filha. Eram nossos primos. A casa ainda é da Mariana e dá para a Rua José Matias Júnior, que ali coincide com a Estrada Nacional Nº 3.

Nesse mundo pequenino, onde muito acontecia, a solidariedade dos vizinhos era palavra de ordem. As mães e avós cuidavam das crianças, quando algumas mães tinham de ir trabalhar. A minha mãe dizia-me que a Ana Mirosca andou comigo ao colo, desviando-me da tentação de ir para a estrada, na esperança de que o meu pai surgisse, a conduzir a camioneta do patrão, que era a minha cegueira.

Saindo do Casal da Trolha entra-se na rua que hoje se chama de Rui Sá, também meu primo, da minha idade (fomos às sortes no mesmo dia) que faleceu na Guerra Colonial. Ali nasceu, também, o Rui. O prédio maior desta rua, que tem frente para a Rua Luís Augusto Rebello da Silva, pertencia à família Pedroso, naquela altura. Foi ali que nasceu, anos antes, o chamado Clube (de pessoas de dinheiro, da terra) e também onde houve teatro – a família Munhoz, pais da Eunice Munhoz, e ela própria, criança ainda, actuaram nesse palco, algumas vezes, e viveram esse tempo na nossa terra, na pensão da Mari’ Russa, mãe de João Romão, que foi novilheiro. Foi ainda no espaço do quintal dos Pedrosos que nasceu a Fábrica de Refrigerantes Águia d’Ouro, do Vale de Santarém, sobre a qual hei-de publicar uma síntese histórica.

Tinha eu quase dois anos quando o meu avô materno, António “da Velha”, ao nascer do dia, foi encontrado morto, pela minha mãe, a caminho de casa, nas proximidades da Fonte Boa. A minha avó Constantina ficou a viver só, uns tempos. Depois fomos viver na sua casa. A que é, ainda, a Nossa Casa. Onde nasceram os outros seis irmãos.

A nossa vida dá muitas voltas. A minha começou assim. No Casal da Trolha, cuja designação, até hoje, ainda não consegui decifrar.

Manuel João Sá

Casal da Trolha-Vale de Santarém- 2007  Foto de Manuel Sá.
Casal da Trolha-Vale de Santarém-2007-Foto de Manuel João Sá.
Casal da Trolha-Vale de Santarém-2007-Foto de Manuel João Sá.

Há 51 anos, a caminho da guerra colonial

Há 51 anos, por volta das duas da tarde, já o Vera Cruz estava em alto mar. Era a minha primeira viagem num grande paquete. Comigo iam quase três milhares de jovens, a maior parte era rapaziada na casa dos 20, 20 e poucos. Angola era o nosso destino, numa viagem não marcada e não desejada por nós, sujeitos a não regressar, o que aconteceu com tantos. Deixáramos um mar de lágrimas no cais, nos olhos dos nossos pais, namoradas, amigos. Ou então nas nossas casas, quando nos despedíramos, “até ao meu regresso”, eu a fazer-me forte, rápido no adeus, que aquilo custou…

Olhei ainda a ponte, gigante, sobre nós e o Tejo. A costa foi ficando longe, depois Sintra já era só um pontinho de saudade, no horizonte. Rumávamos ao Sul, bem ao Sul. Depois o Funchal, onde atracámos, para entrarem mais tropas. Comprei vinho. Uma garrafinha, do Madeira, e um baralho de cartas. Comprei também um postal colorido, com motivos da Ilha, que fui meter no correio, a dizer aos meus pais que havia partido no dia anterior. Alguns dias depois, São Tomé, onde ficaram alguns tropas.

A 7 de Setembro, pela manhã, Luanda. Estávamos a poucos quilómetros da guerra colonial. Lá onde, quando na mata, matar ou morrer, era o que se esperava que acontecesse, com aqueles que estavam em zona que o exigisse. Da minha Companhia todos regressaram. Como foi possível?… perguntávamos a nós próprios, quando “aquilo” para nós terminara. Regressámos a Lisboa em 15 de Outubro de 1971. Ainda hoje nos questionamos: como conseguimos regressar, sem mortos e feridos?…

Agora, aos poucos, vamos partindo. A foice da vida, é outra. Este ano ainda não fizemos o nosso convívio anual. Era para ser em Maio. Passou para Outubro. Talvez não seja possível, por causa da COVID. Vamos aguardar. Um forte e comovido abraço aos meus Camaradas e a todos os que, como nós, foram mandados para lá: Angola, Moçambique, Guiné, Timor.

Manuel João Sá