João d’Aldeia, poeta do Vale de Santarém

João d’Aldeia, ou seja, João da Silva Nogueira, poeta do Vale de Santarém. Vem-me à memória, de vez em quando e, sempre que leio os seus versos, em azulejo, na nascente da Fonte da Joaninha, retomo a pergunta: será que os valesantarenos, eu próprio incluído, irão algum dia querer saber quem foi, na verdade, e conhecer melhor a obra deste seu poeta?

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João da Silva Nogueira, o poeta João d’Aldeia, natural do Vale de Santarém (1879-1961)

Conheci-o pessoalmente, quando era criança. Perto da Fonte das Três Bicas, estava eu com meu pai, e era domingo. Enquanto falavam, eu só apreciava, tanto quanto a idade me permitia fazer. Depois, já em rapaz, falámos, também no mesmo largo. Um dia, da janela, perguntou-me: “queres ler o que ando a escrever”? E assim foi: subi as escadas, íngremes, escuras, bafientas, até ao andar de cima, que era onde passava a maior parte do tempo. Mostrou-me então alguns dos seus poemas, que me leu, numa voz serena, mas cansada. Da última vez em que estive em sua casa, estaria a partir, e tudo em redor assim estava: crepuscular, silencioso, inerte, na agonia lenta, a caminhar para o fim.

Sei que mostrou os seus poemas a outras pessoas e outros rapazes da minha idade, no Vale. Naquele tempo, porém, estava eu longe de entender que era poeta, poeta a valer. Escrevia aquelas coisas, em pequenas folhinhas de papel, amarrotadas, numa letra pequenina, inclinada para a direita. Trazia-as enroladas na algibeira do casaco, e mostrava-as a alguns. Rimava, aquilo que eu lia, é verdade. Mas isso estava ainda longe do meu entendimento, do meu saber apreciar, pelo conteúdo e pela forma. Mas sim, era poeta, a caminho do fim da vida, que a doença, a velhice e a solidão já o minavam há muito. O largo da Fonte das Três Bicas foi, no Vale, o seu espaço preferido. Alto, curvado, quase sempre de casaco, no inverno com um sobretudo escuro, muito coçado, e de chapéu, conversava com todos, com afabilidade, com interesse e saber. Costumava estar de mãos atrás das costas, enganchadas. Sempre com um sorriso sedutor, mostrava um olhar que acolhia, brilhante, mas profundo, que ia para lá da circunstância, conservando o que terá sido um comportamento de galanteador, que eu haveria de comprovar, nos poucos versos que dele vim a apreciar, mas já mais tarde.

E lá partiu, em 1961. Sem a admiração pública que merecia. Antes pelo contrário, havia um ambiente que lhe era desfavorável, no Vale de Santarém. É que, em plena ditadura, afirmava-se republicano, e mostrava-o. Fazia até questão de ter sempre uma pequena bandeirinha de Portugal, na janela do 1º andar, virada para o pequeno largo da Fonte das Três Bicas, local de passagem de muita gente do Vale, o tal ponto onde observava as pessoas e ali colhia imagens, ideias, quadros, inspiração para os seus poemas. Falava sobretudo com aqueles que sabia serem oposicionistas. Sem medo, no dia da comemoração da implantação da República, assim como no 1º de Maio, punha a bandeirinha de Portugal bem à vista, fora da janela. E os situacionistas e a polícia política – que tinha agentes no Vale – não gostavam disso… que ele fosse claro na sua afirmação contra o regime.

Com uma poesia aparentemente simples, ligada aos temas da terra, da natureza, da vida das pessoas, cantando o amor, a mocidade, a mulher, os seus encantos, espera ainda, lá onde estiver, que o Vale o conheça, e faça conhecer o que nos deixou. Era, e é, a maior homenagem que podemos tributar-lhe. Ele, que tão bem cantou o Vale. 

Manuel João Sá.

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Fui às “sortes”…

22 Julho 1966.

Chegou uma carta, com muita antecipação. Também saiu o edital do costume, afixado na junta e noutros locais da freguesia. E, ainda como de costume, quem não soubesse ler ou não tivesse visto o edital, acabaria por saber através da voz popular, nas lojas, nas tabernas, pelas ruas. Aproximava-se o dia das “sortes”, assim chamado pelo povo, ou, mais modernamente dito, da “inspecção militar”. Ou seja, vinte anos depois de terem vindo ao mundo, os rapazes do Vale, como de outras terras, deviam apresentar-se, no dia, hora e local indicados, para serem sujeitos à inspecção militar, quer dizer, inspecção médica, para se concluir da sua aptidão para a vida militar, para a… tropa e, obviamente, para a guerra, havendo. E essa data passou a ser, dali em diante, um marco na vida dos rapazes do Vale, das suas famílias, das namoradas, ou até das mulheres e filhos, se já os houvesse. Assim, como sempre, mas, desde há alguns anos, sob o espectro da guerra colonial.

Ainda era criança quando comecei a saber que havia isso: as “sortes”. Então, os rapazes que eram chamados, no dia marcado saíam, manhã cedo, do Vale, vestidos e arranjados como nunca e, após fazerem a tal inspecção em Santarém, regressavam pelo meio da tarde, em grupo, sendo recebidos em festa pelos seus familiares, pelos amigos e muitos outros, a que se associava sempre o rapazio, desesperado por novidades. Entre foguetes e morteiros, lançados pelo Manuel “Careca” ou outro especialista, o grupo passeava então pelas ruas principais, acompanhado de música de concertina, no mínimo, por entre palmas e outras manifestações de alegria, fazendo muita gente vir às janelas ou ao seu encontro, gritando-lhes vivas, trocando sorrisos, beijos e abraços. Começava assim o primeiro período de multidão que viviam na aldeia, naquele dia especial. Antes disso, e depois da dita inspecção, tinham feito o almoço de grupo, na cidade, num repasto sempre bem regado e de grande exaltação de juventude, uma espécie de carta de alforria que, dizia-se à boca pequena, com malícia, era também o dia especial de “ir às mulheres”, pela primeira vez, para alguns. Na “rua das linheiras”, em Santarém.

Cumprida a passagem, com muitas paragens, pela aldeia, arrumados os foguetes, por enquanto, e posta a música em descanso, era altura de os mancebos recolherem a casa, onde, pelo início da noite, haveria o jantar melhorado, momento especial de homenagem, por parte da família, ao protagonista daquele dia inesquecível. Um dia único, que continuava no baile, na mesma noite, organizado pelos membros do grupo, onde sobressaía a música contratada, sempre brilhante, no espaço enfeitado como de arraial (folhas de palmeira, hera em profusão, além de florões em papel de seda colorido, e outros enfeites vistosos, como balões) as mais das vezes no amplo quintal da Mari Jaquina, ao ar livre. Pela noite dentro, em ambiente de alegria, havia ainda muito para confraternizar, para viver e… para beber. Os mancebos, ombreando com a luz das estrelas da noite, enlevados no aconchego máximo, da aldeia, sobretudo por parte dos seus familiares, e com as mães especialmente vivas, sorridentes, radiantes, orgulhosas, com as suas crias ali, no grande dia do ritual de passagem de rapaz a homem, assim consagrado; as mães, talvez desejando que aquela noite não acabasse, e as namoradas ainda mais, elas nos braços dos seus homens agraciados publicamente, eles em dia de exaltação da sua vitalidade masculina, dançando, dançando, enganchadas as mãos, olhos nos olhos, corpo colado com corpo, tudo em comunhão, tudo em comunhão, sonhos fazendo-os voar, consolidando-se os namoros, ou, então, ali começando, nesse glorioso dia. 

Antes da data prevista, para a ida “às sortes” dos rapazes do meu ano, já eu tinha pensado maduramente no assunto. Os tempos iam difíceis: com a guerra colonial, primeiro na Índia, depois em Angola, Moçambique, Guiné, e com a mobilização de jovens militares para estes e outros territórios coloniais, entretanto convertidos pelo regime político em “províncias ultramarinas”, que papel me cabia, desde logo, quanto ao que fazer no dia das “sortes”? Naquele tempo, não se tratava já, como alguns anos antes, da situação de fartura de rapazes para as necessidades das forças armadas, pois estávamos em guerra. Quando, nesses anos, não havendo guerra, a política foi de escolher só os melhores, os mais fortes, os mais aptos, os eleitos, fisicamente, para “a tropa”, para ocuparem as vagas existentes, isso obrigava a um sorteio – daí o termo “ir às sortes” – para que, entre esses, os eleitos, os apurados, ficasse decidido quem iria. Assim, de entre os apurados, havia aqueles a quem o sorteio ditava que iam “fazer a tropa”, e os restantes, de entre os apurados, ficavam livres dessa obrigação. Mas, além dessas hipóteses, havia duas outras: a dos que ficavam de espera – para voltarem a nova inspecção – e os que eram considerados inaptos, por razões de saúde, de falta de altura, ou outras, tidas como incapacidades para a entrada na vida militar. E estas últimas eram, em regra, situações menos felizes, para os próprios e seus familiares.  

Mas esta não era a situação que se me deparava. Por isso, pensando no cenário de guerra que vivíamos, foi meses antes que tomei a resolução de falar com alguns rapazes do meu ano, com um objectivo muito concreto: o de lhes propor não fazermos qualquer festa no dia “das sortes”, dado o facto de não ser de alegria, de felicidade, esse acto que nos conduziria certamente à vida militar e à muito provável participação na guerra colonial, a qual já semeara a morte e a incapacidade física entre muitos portugueses, até aí – do Vale, logo em 1961, a guerra ceifara a vida a João Amaro, em Angola. Essa conversa, que foi sendo feita com o Reinaldo, o Joaquim Júlio, o Orlando, o Joaquim Rafael, o Rui Sá, o Azenha, e eventualmente com um ou outro mais, bastou para ganhar desde logo a adesão da maioria: nem roupa especial, nem música, nem foguetes, nem baile. Estaríamos lá, no dia e, terminada a inspecção, iríamos almoçar em grupo. Somente, e chegava. Havia, porém, uma etapa a cumprir: cada um de nós teria de informar os pais e restantes familiares, e pedir-lhes que compreendessem as razões da nossa decisão. E assim foi. Dado tal passo, com algumas tristezas e receios pelo meio por parte de familiares, a verdade é que, pensámos então, as reacções negativas não teriam sido significativas: nem dos familiares, nem da população.

Chegaria o dia 22 de Julho. Estávamos nos 20 anos. Havíamos entrado na escola primária em 1953. Esse tinha sido o nosso primeiro encontro e, agora, iríamos concretizar o segundo, mas do modo que havia sido combinado. Uns foram de camioneta da carreira, outros de motorizada, e também houve quem, trabalhando em Santarém, tivesse saído da oficina para ir “às sortes”, envergando o seu “fato de macaco”. O serviço militar de recrutamento era no Regimento de Artilharia nº 6. Entrámos em grupo, após termos dito à sentinela ao que íamos. Depois do controlo dos nomes, passámos, em fila, à zona de acesso ao local específico onde a inspecção ia acontecer. Mandaram-nos despir, já com instruções e voz de tipo militar. A roupa de cada um ficou onde podia ser, e foi nessa altura que o Azenha teve de deixar o seu fatinho novo por ali, e ficar, como todos, nuzinho, para a dita inspecção. Surpreendidos, uns, encolhidos, outros, nervosamente activos – a tentar encobrir a timidez – outros ainda, cada qual a viver a incomodidade do momento, lá fomos avançando, em fila, a qual já contava com outros jovens que não conhecíamos e, atrás de nós, outros vinham já a pôr-se a jeito, para a mesma função. Talvez um capitão-médico, um alferes, um sargento e um enfermeiro, seria esta a composição da equipa que conduzia a inspecção, a qual fluía, com algumas tiradas militares e graçolas, próprias para o momento, ainda mais contando com a situação de inferioridade psicológica que ali vivíamos. Concluída a sessão, ficámos todos apurados. Portanto, a tropa e, provavelmente, a guerra colonial, faziam já parte do nosso futuro, a partir dali.

Cá fora, após nos voltarmos a juntar, seguimos para o restaurante do Vieira dos Frangos, à entrada da Rua do Postigo, onde decorreu o almoço. Aí sim, comemos e bebemos a contento, de tudo um pouco, fumámos demais, falámos do que vivêramos, ficámos acalorados e emocionados, como era previsível e desejável. Trocámos memórias dos nossos tempos de escola primária, jurámos continuar a encontrar-nos, sempre que possível, no Vale, ou onde quer que fosse. E, quando a tropa viesse… e quando fosse de irmos para a guerra, se assim tivesse de ser, que a sorte nos protegesse. Isto dissemos, naturalmente, longe ainda do dia em que, na verdade, alguns de nós tiveram mesmo de ir. E nem tudo correu bem.  

Terminaria aqui esta crónica, se…

Alguns meses depois, estando a trabalhar e estudar em Lisboa, desde Dezembro de 1964, fui ao Vale, o que acontecia pelo menos uma vez por mês. Meu pai escrevera-me e perguntava-me quando iria fazer uma visita à família. Quando tal acontecia – escrever-me – era certo e sabido que tinha algo especial a dizer-me. Fui ao Vale, e foi então que vim a saber que, da parte de algumas pessoas, tinham andado a ser feitas perguntas sobre quem havia tomado a iniciativa de não se fazer a festa das “sortes”; que, com ele, também teria havido essa conversa, porém não por parte das pessoas “perigosas” – termo que usou – pois que essas (da PIDE) não se atreveriam a falar com ele directamente, para esse efeito, no Vale – teriam de usar outra via, mais drástica, mas tal não veio a acontecer. O que veio a acontecer, é que todos nós fomos à tropa, e, quase todos à guerra colonial. Do nosso ano, perdeu lá a vida o Rui Sá. Além do Rui, mais três, de outros anos. Outros, ainda, voltaram com incapacidades diversas, cuja vida teve de voltar a ser reequacionada, reajustada, face a tais consequências.

Que a nossa vida continue, o melhor possível, em todos os domínios, camaradas de um tempo único. Onde, ir às “sortes”, já deixara de ser a ingénua, feliz, exaltante etapa da nossa juventude, para a etapa seguinte: ser adulto. Um tempo que, felizmente, passou, mas só porque houve outro acontecimento notável, de redenção nacional: o 25 de Abril.

Cumprimos. Não fizemos a festa, que nada havia, então, para festejar. Faltou-nos, mesmo assim, uma foto. Isso sim, faltou. Viemos a reencontrar-nos, há alguns anos, num almoço, relembrando o dia em que entrámos na nossa escola primária, pela primeira vez. 7 de Outubro de 1953. Entretanto, aos poucos vamos partindo. Custa. Mas é assim, a vida, não é?…

Manuel João Sá.

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Militares do Vale de Santarém que faleceram na Guerra Colonial. Minha homenagem.

 

 

O meu primeiro dia de Escola Industrial e Comercial de Santarém

Terminada a 4ª classe, seguiu-se o exame de admissão à Escola Industrial e Comercial. Não foi difícil, que a preparação tinha sido muito boa, com as aulas do professor Costa, no Vale, que eram de segunda a sexta, após o almoço. Não havia escapatória: era dose dupla diária, mas as aulas para a admissão eram mais exigentes, apesar de, aparentemente, o programa ser semelhante. Então, em data que não recordo, em Julho de 1957, foi o exame. Meu pai acompanhou-me na viagem, na camioneta da carreira, que vinha da Isenta e passava pela Fonte Boa. Do Vale de Santarém, salvo erro, só mais três fizeram esse exame: a Manuela Martins, mais tarde conhecida como Manuela “do Vale”, a Glória Vicente, e o Manuel João Carvalho que, dado ser sportinguista e jogar normalmente a extremo-esquerdo, passou a ter, nas escolas de infantis dos Leões de Santarém, a alcunha de “Albano”, nome do excelente jogador dos famosos cinco violinos do Sporting. E foi também por “Albano” que o Carvalho passou a ser conhecido na nova escola.

No exame de admissão, estive numa sala que muito mais vezes iria ser, para mim, de aulas e exames. Era a grande sala a que chamávamos “sala de química”, mas onde tive aulas de outras matérias. Curiosamente, foi ali que fiz a última oral, mas para falar disso ainda faltam muitas outras memórias, que hão-de vir aqui. Ao recordar esse dia, do exame de admissão, como é possível que ainda me lembre do exacto momento de ser chamado, pelo nome, para entrar na sala, e que meu pai me tenha visto entrar, ele sorridente, eu, com um tremor na barriga, com a caneta dele, de tinta permanente, na mão, e também com um lápis, uma borracha, uma régua? E o relógio dele, no meu pulso, pela primeira vez… Como é possível, ainda, que me recorde de ficar sentado, no lugar que me destinaram, mais ou menos a meio da sala, podendo ver janelas à esquerda, por onde entrava o sol límpido da manhã? Como foi possível guardar essa memória, e, também, mais dois pormenores: as carteiras, em madeira, que eram de tampo direito (mandaram-nos pôr o bilhete de identidade em cima da carteira) e, olhando em volta, em vários armários de madeira, e por cima deles, viam-se alguns objectos, como balanças, tubos de ensaio, retortas de alquimista?… Mas sabia lá eu, então, o que aquilo seria?!.. naquela enorme sala, onde havia uma grande mesa, com tampo negro, de lousa?…

Por esses dias, no Liceu de Santarém, também prestavam provas os meus amigos do Vale de Santarém, que tinham andado nas aulas de admissão, e cujos pais haviam escolhido o Liceu para a continuação dos seus estudos. Assim, para além de, terminada a instrução primária, a maioria dos meus amigos da quarta-classe ter parado de estudar – esperava-os qualquer outra actividade, no campo ou numa fábrica, mais dia menos dia – iniciava-se ainda uma certa separação entre os que iam para a o liceu e os que iam para a escola técnica. Na verdade, desde os nossos primeiros anos nessas novas escolas, iríamos reencontrar-nos nos transportes, ou por vezes em Santarém, e, mais amiúde, nos períodos de férias. Se o Reinaldo se mantinha sempre próximo, sobretudo nos tempos de férias, aos poucos foi-se dando distanciação natural para o Fernando Garcês, o Norberto e outros, que entraram no liceu. Em conclusão, aquela quase vintena de rapazes que, em 1957, terminara a quarta-classe, estava, ano a ano, a distribuir-se, naturalmente, por uma série de caminhos para diferentes futuros, no trabalho ou nos estudos. Era assim. 

A 1 de Outubro de 1957, terça-feira, desci do autocarro da camionagem Vinagre, na paragem da bonita avenida da cidade, frente ao hospital. Ia entrar na Escola Industrial e Comercial de Santarém, como aluno. Era cedo e a manhã estava fresca. Levava a pasta de cabedal que o senhor João, correeiro de renome na Fonte Boa, me prometera se eu entrasse na escola técnica. Na pasta, que cheirava tão bem a cabedal novo, somente um caderno, a caneta de tinta permanente e um lápis, além de um papo-seco, com fatias de queijo de Alcobaça, embrulhado num paninho branco, preparos carinhosos de minha mãe. Segui por entre os canteiros que ladeavam a avenida, sempre floridos e com o buxo bem aparado, e fui a caminho da rua que me levaria à praça da Escola. Era já a rua que mais conhecia, várias vezes a havia usado, acompanhado pelo meu pai, como quando do exame de admissão, ou dos retratos para a matrícula na nova escola, na Foto Sequeira – o senhor já tinha alguma idade, era simpático, endireitou-me a cabeça, com um simples toque a duas mãos, depois, por detrás do pano preto, disse-me para eu sorrir, e assim fiquei com aquele meio sorriso, mais timidez que outra coisa, nem ele ter brincado com as pintinhas brancas da minha gravata grená deu para mais. Fiquei assim, pela primeira vez com um fato de casaco e calção, um lencinho no bolso do casaco junto à lapela, onde brilhava também um emblema do Benfica. Uma imagem para sempre. Foi no dia 11 de Junho de 1957, está anotado no verso.

A caminho da escola, foi ao passar pelo “canto da cruz” que me veio novamente à mente o que meu pai me havia dito: aqui é o “canto da cruz… se estiveres perdido, voltas para trás e vais até à avenida”. Isso eu percebi, só que não perguntei a razão de se chamar “canto da cruz” – só muitas décadas depois vim a saber que ali, no encontro de quatro ruas, se forma uma cruz latina, com os seus quatro cantos, sendo o topo da cruz a parte que vai até à igreja de Marvila. E foi aí mesmo, junto à igreja, que virei à esquerda, para seguir até à escola. Lá ao fundo, um mar de cabeças de gente pequena, na companhia de alguns adultos. Foi um instante, até me acercar deles, e ali ficar à espera de sermos chamados, mas, num repente, veio uma ordem e começámos a subir as escadas, depois houve a chamada pelos nomes, e novamente entrei para a mesma sala do exame de admissão. Com a sala repleta, por entre o alegre desassossego da altura, irrompeu um senhor de óculos, acompanhado de outros (“são professores”, disse para mim…) que, pouco depois de chegar à mesa grande, começou por saudar todos, sorridente, dizendo depois “sou o director da escola, sejam bem-vindos!” e muito mais: falou de horários, de pontualidade, de ser preciso estudar, de disciplina, dos contínuos… Viria a saber que, após sairmos, outros alunos foram chamados para a mesma sala, onde a conversa terá sido a mesma.

Em seguida, foi tempo de irmos conhecer o espaço de intervalos, uma sala do primeiro andar, depois voltámos à entrada e mostraram as vitrinas e os horários das turmas, e novamente a menina Preciosa, que havia ajudado meu pai a preencher os papéis da matrícula e as fichas para as cadernetas, veio ajudar, veio dizer como funcionava aquilo, do horário, coisa nova para mim, e para muitos. Mas não só isso era novo: vi raparigas e rapazes já muito grandes, levaria tempo a perceber que se tratava dos que tinham entrado no ano anterior, muitos dos quais já tinham treze e catorze anos, tinham estado à espera da abertura da escola, cuja criação era sucessivamente adiada, há anos.

A manhã passou rapidamente, marcada pela excitação sucessiva de todos aqueles novos pequenos momentos, afinal para todos nós, os recém chegados, era o mesmo, e, apesar da tentativa de anotarmos, pelo menos mentalmente, tudo o que era dito, muitas informações se perderam, de tal modo que, nos dias seguintes, me vi a regressar às vitrinas, ao contacto com os contínuos ou a conversar com outros, para não me desorientar naquele novo mundo. Entretanto, combinado que estava que meu pai viria encontrar-se comigo, para irmos almoçar, ficara assente que esperaria por ele junto ao marco do correio. E foi assim que aquele específico ponto, que ficaria na memória de milhares de antigos alunos da nossa escola, começou a entrar na história da minha vida escolar. Meu pai não demorou e, depois de conversarmos um pouco, dirigimo-nos para a casa de pasto “A Floresta”, do senhor João da Frasqueira, no largo logo a seguir ao Jardim da República, frente ao qual também ficava o Regimento de Cavalaria. Chegados lá, o senhor João, baixote, para o gordinho, quis-me conhecer, até me deu um aperto de mão “como os homens”, disse. Meu pai ia lá, com frequência, na volta da venda de refrigerantes da Fábrica Águia d’Ouro, do Vale de Santarém, de modo que foi fácil combinar com ele que eu iria lá almoçar, todos os dias, levando o almoço preparado de casa, só precisava da mesa. Confirmada pelos dois esta solução, o senhor João disse “hoje o almoço é por minha conta”, e foi assim que comi carne guisada com batatas e feijão verde, a que ouvi chamar “carne à jardineira”, e também essa designação foi novidade para mim. Meu pai, padecendo de úlcera renitente, ficou-se por uma posta de peixe cozido, com batatas e cenouras, e bebeu água, enquanto eu fui presenteado com uma gasosa “Aguia d’Ouro”, para minha alegria.

Terminado o almoço, fomos à Papelaria Silva. Meu pai precisava de falar com o senhor Alfredo, que conhecia bem, com o propósito de combinar que eu fosse atendido, quando por lá aparecesse para a compra dos livros e outros materiais, que meu pai iria depois fazer contas com ele. Falaram, e ficou assente.

Foi já pela tarde que regressámos ao Vale. Enquanto meu pai voltou ao trabalho, eu fazia o caminho até ao cabeço da Fonte Boa, para o primeiro de muitos regressos a casa, na história da minha vida de estudante, na Escola Industrial e Comercial de Santarém.

Manuel João Sá

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Edifício da Praça Visconde Serra do Pilar, em Santarém, onde foi instalada a Escola Industrial e Comercial. Funcionou aqui até 1969.
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A foto para o Bilhete de Identidade, tirada em 11 Junho de 1957, na Foto Sequeira – Santarém.

 

A caminho da guerra colonial

23 e 24 Agosto 1969. Fim de semana. Passo-o no Vale de Santarém, na nossa casa, no cabeço da Fonte-Boa. Na família, todos sabem, há meses, que estou mobilizado para a guerra colonial, e que em breve irei partir, para Angola. No dia 25, pela madrugada, digo adeus a meus pais. Digo-lhes que ainda voltarei, para me despedir, mas meu pai, sem nada me dizer, percebe que não é verdade. Minha mãe acredita. Faço o caminho, a pé, atravessando o Vale, até à estação. Faço o caminho a pé, porque assim escolhi. Enquanto caminho, recordo muito da minha vida: os lugares do Vale, as memórias que me ficaram, as pessoas que fizeram e continuam a fazer parte da minha vida. Os ruídos, os perfumes, as ruas, as casas, as vozes, os rostos. Memórias difíceis. Aguardo, na estação, o comboio para Lisboa, onde me vou encontrar com a minha namorada. Depois seguirei para Évora, para me juntar à Companhia. A Companhia de Artilharia nº 2573, formada no RAL3.

Na noite de 26 para 27 de Agosto saímos de Évora, de comboio. Seguimos sem parar, até Vendas Novas, onde o comboio prossegue pelo ramal do Setil, passando por Coruche e Muge, até encontrar a linha do Norte. Pelo caminho, com a manhã a despontar, revejo locais que conheço, em particular a pateira da vala de Azambuja, próximo da estação do Setil, onde passei dias na pesca, com meu pai. Como por encanto, a claridade ainda difusa mostra-me o meu pesqueiro preferido, o salgueiro que me protegia do sol, o local preciso onde assentava a minha cana de pesca. Entretanto, o comboio queda-se antes da estação do Setil, para passar outro com prioridade, na linha do Norte. Depois, já a caminho de Lisboa, há nova pequena paragem em Vila Franca de Xira. Seguimos depois até Braço de Prata e, desviando aí para a direita, continuamos pela linha que circunda Lisboa pelo Norte. A cidade está na sua vida de todos os dias, parece distante, como que insensível ao que ali vivemos, naquele comboio, acenando para quem passa, a caminho da guerra. Queremos dizer isso, mas parece que ninguém nos ouvirá. É uma sensação estranha. Em particular, os rapazes naturais de Lisboa berram, ao passarmos por Alcântara-terra. O comboio, como que a pedido, afrouxa, depois pára um tempo, enquanto não passa para o lado do cais. Continuam os acenos, os gritos, os palavrões. O trânsito automóvel fica parado, para o comboio seguir para o cais de Alcântara, onde o Vera Cruz nos aguarda. É então altura de formar, de ouvir discursos militares, de marchar. A seguir é o tempo do adeus. Há correrias, há apelos, há acenos, há muitos lenços e lágrimas. Despeço-me da minha namorada, que, com duas amigas, aguarda, no cais, que eu a encontre, no meio de milhares de familiares de outros militares. O tempo é pouco para tudo. A tensão é grande. Lá a encontrei, para o abraço longo e apertado, soltam-se as lágrimas e os beijos de despedida. A seguir, a subida, pela escada, para o navio, e a tentativa, ainda, de olhar para trás, para quem nos diz adeus, mas há ordens para não pararmos na escada de acesso. Chegando ao navio, procuro rapidamente a amurada. Ali fico, olhando o cais, acenando, no meio daquela confusão da partida. Por instantes, consigo encontrar quem, do cais, me acena. Logo depois o urro da partida solta-se, uma e outra vez, das entranhas do Vera Cruz. Estou abraçado aos que, comigo, também querem dizer adeus. Mas já é tarde. Pouco passa do meio-dia. Lenta, lentamente, o navio larga o cais. Lá dentro, eu e milhares de camaradas, alguns dos quais não voltarão. 

Minha mãe vai saber, dois dias depois, que já parti. Encerra-se dois dias. Vai para o palheiro da burra, não quer ver ninguém, não quer falar com ninguém. É preciso ir tirá-la de lá. Uma tristeza profunda, até ao meu regresso. Até que regressei e, felizmente, mais nenhum de nós, seus filhos, foi mandado para a guerra.

Mas, entre o partir e o regressar, muito mais há a dizer, nas minhas “Crónicas da Guerra Colonial”.

Manuel João Sá

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Navio “Vera Cruz” – Um embarque de militares, para a Guerra Colonial.

 

 

Nos 96 anos do nascimento de minha mãe

Daqui a pouco vou estar contigo, mãe. É que hoje é o teu dia, aquele em que vieste ao mundo, do ventre da avó Maria Augusta, para todos Mari Constantina. Tu, a segunda semente desse laço, para sempre, com o avô Toino da Velha, um dos três Pereiras, os outros eram o Manel, Manelote, por alcunha, dançarino e brincalhão, casado com a Landum, e a Ti Mari da Velha, uma “alma danada” de génio e palavra rápida, afiada, que o Ti Manel d’Abrã não conseguia segurar. Hoje, 3 de Junho, cumprem-se 96 anos sobre o dia radioso em que vieste mitigar, pelo menos um pouco, aquela dor profunda da avó, pela partida do seu menino, uns anos antes. O menino que uma doença súbita levou, ainda bebé, mas que nunca mais deixou de estar presente na cabeça da avó Constantina, só depois de o avô partir, tão tragicamente, outra dor maior veio soterrar aquela.

Tenho tantas vezes comigo o teu sorriso, mãe, e isso é o melhor das nossas memórias. Há pouco fui à nossa laranjeira, está um pouco abandonada, libertei-a de uns pequenos troncos velhos e apanhei ainda algumas laranjas, sempre boas, lembras-te, dizia o pai que eram “laranjas de espinho”, com aquela pinta castanha na casca que parecia um espinho, e que a árvore viera da região de Setúbal, que seriam muito boas, as laranjas, e sempre foram. Então, junto à laranjeira, olhei para baixo, por entre o canavial, e lá está o que resta do tanque no terreno que era do João “brasileiro”, e não pude deixar de sorrir quando me lembrei de que, estando tu a lavar aqueles montes enormes de roupa do costume, eu me afoitei para fora do caixote de madeira que o ti Manel fizera, e sumi, de súbito, nas águas do tanque, valeu-me que sempre foste valente, deitaste-te à água, e, num repente, de lá me ergueste, como se fora um coelho puxado pelas pernas ambas, eu que era só ossos, e não estaria agora aqui a lembrar-me disto e a rir-me, como se fosse contigo, se assim não tivesse sido.

Das muitas vezes que me vens à lembrança há também aquelas em que te vejo a correr para o canavial, para arrancares uma cana verde e, com ela, atacares, sem parar, as cobras que, por vezes, no pino do verão, apareciam nas redondezas da nossa casa, era uma luta frenética entre ti e as cobras, até que elas se aquietavam, iam ficando moles, como que pasmadas e, com uma enxada, tu lhes desferias o golpe final, dizias que as folhas das canas eram fatais para elas, que ficavam paralisadas com aquele rebordo cortante que têm, mas se assim é ou não nunca soube, porém, a verdade é que as cobras tinham, às tuas mãos, o destino traçado. Mas, oh mãe, como era possível seres tu a fugir quando, apanhando eu um lagarto, ou um rato, te amedrontava com isso, corria atrás de ti, e então tu parecias uma menina pequena, toda tremendo de medo, a pedir que não te fizesse mal, tu sem força para manteres o comando, para me pores no meu papel de filho, de suposto obediente, sujeito a algo mais do que uma reprimenda?… E quantas vezes, muitos anos depois desse tempo de criança e rapaz, falámos e rimos sobre isto, no entanto, não tantas vezes quantas as que deveríamos?…

Agora vou levar-te flores, mãe, mas eu sei que as não vês, que em nada disso acredito, como sabes. Em 2012 foste embora. Ponto final, como já aconteceu com as outras pessoas importantes da minha vida, e um dia assim será comigo. Ficam as memórias, como se continuássemos cá, é o que dizem. Sim, por vezes são tão nítidas, tão impressivas, que é como se estivesses aqui. Eu sei que tudo o que tem valor deve ser dado e recebido em vida, mas, mesmo que assim seja, hoje vou levar-te flores, talvez uma forma de estar contigo, num abraço. Vou lembrar-me de ti, tu a sorrires, olhos a brilhar, como se estivesses a dar-nos comida, a ver-nos dar os primeiros passos, a ouvires as nossas primeiras palavras, a aprendermos as lições da escola, que para outro dia vão ficar outras memórias, como as dos momentos em que nos viste partir das tuas mãos, que não do teu coração.

Até já.

Manuel João Sá.

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Num qualquer “Dia da criança”, ou todos os dias

Nasci em 1946. Antes disso, e durante muitos, muitos anos, ainda, eram tantas as crianças que andavam descalças, na minha aldeia e em milhentas aldeias do meu país!… Não só isso: passavam frio, fome, indiferença, maus tratos. Os seus rostos eram a personificação de um país triste, fechado, miserável, isolado, sem futuro.
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Escola Primária Aristides Graça, Vale de Santarém.
Ainda hoje assim é, noutras partes do mundo, onde, além disso, a guerra e a tirania, sob diversas faces, faz tantas vítimas, e as crianças são as mais frágeis e inocentes.

Se não me esqueço de que, naquele tempo terrível dos meus anos de menino, havia falta de quase tudo, sobretudo de humanidade, também não me esqueço do que progredimos, em Portugal, desde 25 de Abril de 1974 até hoje. E, obviamente, não posso esquecer-me de que, todos os dias, ainda, perto ou longe, há milhares de crianças à beira da morte: pela fome, pela doença, pela guerra, pelo abandono, pela insensatez e loucura dos homens adultos, em particular daqueles que têm o poder nas mãos, ou o querem tomar. Em todo o mundo, as crianças continuam a ser mártires.

É isso que o chamado Dia da Criança me faz lembrar, em primeiro lugar. Sempre! Hoje, com uma visão poética, que é um desejo:

“…que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias
que o reino da bondade dos olhos dos poetas
vai começar na terra sobre o horror e a miséria
que o nosso coração se deve engrandecer
por ser tamanho de todas as esperanças
e tão claro como os olhos das crianças
e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele…”

(Do Poema “O boi da paciência”, de António Ramos Rosa, grande poeta, que nos deixou em 2013).

Isto, apesar de no meu país, ainda hoje, haver tantos que anseiam pelo regresso de um ditador: porque têm medo da liberdade, da capacidade de nos assumirmos civicamente, de construirmos um país diferente para melhor, assente nos nossos desejos e não nos nossos medos e renúncias. 
Há muito país por construir, ainda. Livre, soberano, autêntico.
Manuel João Sá
 

O dia em que “a senhora de Fátima” andou pelos céus da Fonte Boa

Manhã de sol luminoso, céu limpo, muito azul. Adivinhava-se calor, pela tarde, depois talvez uma aragem de nordeste, era o costume. No princípio das férias grandes, os dias corriam calmos, ainda faltava muito até eu ter de regressar à escola, em Santarém. Minha mãe na vinha, a encapoilar, não fosse o sol crestar os cachos, já bem arroxeados. Eu, por ali, a ajudá-la, e nisto a ver a avó Constantina, mais acima, especada, a olhar o céu. Morena, magrinha, de lenço na cabeça, toda vestida de negro, desde a morte do avô. Especada, as mãos caídas, uma sobre a outra, no avental. Ali, recortando-se no horizonte azul do céu, perto do sobreiro grande, que tinha uma raiz enorme, saída da terra, onde nos sentávamos e brincávamos, como no dorso de um cavalo. Maria Constantina continuava especada, mirando e remirando o céu, e por isso eu aproximando-me dela, devagarinho, os pés tateando, sem ruído, o chão que ali fazia de estrada, e, lá bem no alto, uma coisa, luzindo, a mexer-se, a movimentar-se para a nossa direita, em linha recta, parecia ter umas asas abertas, deixava um rasto, como de fumo branco, finíssimo à saída, que depois se alargava um bocado, e minha avó a dizer “ai nossa senhora, ai nossa senhora, ai nossa senhora”, ela a entrelaçar as mãos, a levantá-las ao céu, a baixá-las, a levantá-las, e nisto eu a dizer: avó, avó, mas o que foi… mas que é aquilo, que é aquilo…

Abalei a correr até minha mãe e já ela vinha a subir a vinha, logo comecei a dizer-lhe: mãe, a avó… mas ela não parou, foi a correr, pernas curtas e vigorosas, chegou num instantinho ao pé de minha avó, que perdera o marido tinha eu pouco mais de dois anos, minha mãe muito aflita, pois que, por vezes, encontrávamo-la longe de nós, longe de tudo, decerto com o pensamento e o coração nesse dia trágico em que o avô António foi encontrado sem vida, pela manhã, junto ao barranco do “bico d’areia”, no terreno da ti Mari da Velha, depois de sair da taberna do Zé Inglês, mas não chegou a casa, seguiu-se uma noite de angustiadas buscas, nunca ninguém conseguiu explicar o que aconteceu, na verdade. Então, ao aproximar-se de minha avó, minha mãe afrouxou o passo, foi olhando para o lado do céu onde o rasto daquela coisa já era mais visível, e ficou também ela absorta, olhando, olhando, e pôs-se a dizer… mas que será aquilo… se calhar é algum sinal, mãe, um sinal… eis senão quando, já era largo o rasto deixado no céu por “aquilo”, surge em sentido contrário outro “aquilo” por entre o rasto, ou seria o mesmo que havia voltado para trás, vinha um pouco mais baixo, pelo menos era o que parecia, então aparece a ti Mari da Velha, vinda da casa dela, no seu andar despachado, aconchegando o lenço à cabeça, mas muito apanhada pela emoção, a dizer ah Maria, já viste os céus Maria?… e tu Emília?… ai, já viram os céus?… ai o que aí virá, e o mê Manel na tá cá, o alma danada ainda na chegou, ai jasus senhores… e vá de rezar logo de seguida uma salvé-rainha, de joelhos no chão e tudo, e o tudo era as mãos enganchadas uma na outra e os olhos postos no céu, para o lado onde “aquilo” passava, bem no alto, devagarinho.

Vendo isto, o Joaquim Adelino, que era da Póvoa da Isenta, maioral nas ovelhas da Fonte Boa, saiu do ovil e veio até à estrada de baixo, ainda lá morava, mesmo no meio do macadame, outro enorme sobreiro que, anos mais tarde, um raio possesso, numa trovoada seca, de horas, haveria de queimar para sempre, fomos lá ver por onde entrou a descarga, cheirava a lenha e cortiça queimada, mais não vimos. O Joaquim Adelino, chegando debaixo do sobreiro, repuxando o bivaque azul da farda para trás, olhou também para o céu, na altura em que “aquilo” ia agora na direcção oeste, o sol, forte, mostrava-o a brilhar, no meio de uma certa auréola no contraluz, e, por onde passava, continuava a deixar o mesmo rasto esbranquiçado, finíssimo à saída, depois ia-se alargando, alargando, passando, aos poucos, a uma espécie de nuvem comprida. Pensava o Joaquim Adelino que sim, que por vezes apareciam sinais no céu, e minha mãe corroborou, que ela sabia interpretá-los, pois sempre acertava com o tempo que ia fazer à custa desses saberes, que vinham do pai dela, sim, talvez fosse um sinal, porém daqueles nunca vira, ao que a ti Mari da Velha disse logo: não Jaquim, o que é vou-te dizer… e embargava-se-lhe a voz e nada saía de dentro dela, e nós à espera, que coisa que saísse da boca dos outros tinha sempre réplica dela, e por isso era melhor esperarmos. Estávamos naquilo e, lá muito alto, “aquilo” continuava o seu caminho, por cima da Fonte Boa, até parecia que tinha alguma fixação na zona, olhando bem, mesmo na vertical, viam-se como que umas asas, bem abertas, sempre na mesma posição. Estávamos naquilo, quando o Joaquim Adelino disse: eu vou lá acima, perguntar ao senhor Mariano, da secretaria, que ele deve saber dessas coisas… o senhor Mariano, de voz grave, sempre bem cheiroso, já com uma barriguinha, o cabelo negro puxado para trás, era do jeito do cabelo ou do fixador brylcreem, também me pareceu que ele era capaz de dizer o que seria “aquilo”. Mas a ti Mari da Velha, vendo partir o Joaquim Adelino, foi-se chegando mais à avó Constantina, que já queria era recolher ao seu quarto, em casa, e ia-lhe dizendo, baixinho: Maria, é capaz de ser a senhora de Fátima… estamos aqui tão pertinho, na achas Maria?… e dito isto entrelaçou mais uma vez as duas mãos, e minha mãe, ouvindo-a, começou a dizer… mas oh senhores, será?… se estivesse ali o Brás ferrador ia lá perguntar-lhe se ele já tinha visto… o Brás ferrador, que tinha aprendido com o Zé Queijeiro, distinto ferrador também do Vale, que na Fonte Boa dava cartas na arte de ferrar animais, desde cavalos, éguas, burros, até bois de puxar os arados ou os carros… mas não, não havia ninguém naquela altura na oficina dos ferradores. Partira o Joaquim Adelino em busca de informações da superior cabeça do senhor Mariano e, como por magia, “aquilo” já desaparecera lá para o longínquo oeste, para os lados da quinta do Carrascal, passara mesmo mesmo por cima dos eucaliptos, ali na extrema da quinta com a taberna da Palmira, onde alguns da Fonte Boa costumavam abafar as mágoas em copos de três, e os passantes, de outras origens, alguns com o faro apontado a outras intenções mais sublimes e privadas da carne, demandavam companhia, por vezes.  

Foi neste quase pós-acontecimento que a ti Mari da Velha continuou a garantir que teria sido um sinal da senhora de Fátima, e agora que viria aí, perguntava-se, mirando o céu, mais respeito que medo, adiantando… que bonita ia ela, a senhora de Fátima, mas o que vai trazer não sabemos… temos de esperar, queira deus que não seja coisa má, credo… e minha avó foi para o seu quarto, e eu a pensar: agora vai acender as velas e rezar à santa Bárbara… santa Bárbara bendita… como em dias de trovoada, mas não era o caso, e por isso, voltei a pensar: talvez ela encontre outra reza para… “aquilo”. Minha mãe voltou à vinha, eu só bastante depois, porque, entretanto, fui para as traseiras da casa e pus-me a olhar o Vale, debaixo da oliveira grande, e por lá adormeci, a tensão à vista “daquilo” pusera-me quebradiço, e o sono tomou conta de mim. Durante o resto do dia, até à chegada das minhas irmãs e do meu pai, não mais se falou no caso, nem chegaram informações do senhor Mariano, via Joaquim Adelino, porque o senhor Mariano afinal estava fora e, na secretaria, ninguém tinha visto “aquilo”. Pela tarde, já corria a brisa, minha mãe e minha avó juntaram-se na faina de encapoilar e eu fui ajudando, a minha cabeça, porém, sempre a dizer-me: “aquilo” não era santa nenhuma… mas o que seria?… e daí não conseguia passar.

Minhas irmãs vieram de trabalhar na fábrica dos sapatos e, pensava eu, iam falar sobre “aquilo”, que eu até estava ansioso, mas, mesmo após a nossa insistência, apesar de espantadas, nada sabiam dizer, e, tendo chegado a nossa casa a ti Mari da Velha, ouvindo tal vazio da parte das minhas irmãs, logo se pôs a dizer: pois claro, lá em Fátima, no princípio, também só os pastorinhos é que viram a senhora, só mais tarde é que o povo todo a viu, menos os hereges, os de Judas Iscariotes, e, isto dizendo, acrescentou três vezes “t’arrenego” e depois fez o sinal da cruz… e, terminada esta peregrinação interior, pôs-se a garantir que nós, os poucos que víramos “aquilo”, na Fonte Boa, éramos tal como os pastorinhos, os escolhidos pela senhora, e que, estivéssemos descansados, que no dia seguinte iria à igreja falar com o senhor padre Nobre, e que talvez o marido, o ti Manel d’Abrã, sempre de longas barbas brancas, e a quem na aldeia chamavam “deus-nossenhor”, fosse com ela, pois o caso não era para menos, ainda que só uma vez por ano ele subisse até à igreja, que era na noite de Natal, para a “missa do galo”, no resto do ano tinha outra religião: a pesca de enguias ao remolhão, no “rio da elóia”, no que era o mestre, no Vale de Santarém.

Estava-se nestas trocas de argumentos e suposições, quando chega meu pai a casa e, vendo como que uma inesperada assembleia em volta de caso bicudo, vá de perguntar sem perguntar, que era coisa que ele fazia muito bem, só com o olhar, sem largar o olhar do outro, e pronto, estava tudo dito: tínhamos que ir avançando, pelo menos aos poucos, sobre os motivos que motivavam o seu entreolhar de sábio e intimidante perguntador. Dito, mas um pouco aos baldões, o que tínhamos visto, com a ti Mari da Velha naquela irredutível dedução de que teria sido uma aparição da senhora de Fátima, levantando até os olhos para o céu, mais propriamente para o tecto da nossa cozinha, então meu pai, senhor do conhecimento que tinha sobre “aquilo”, despachou-se a esclarecer, com um sorriso à mistura, que tinha lido no Século, jornal que lia na barbearia do senhor Frederico, que “aquilo” seria um avião a jacto, que já os havia em Portugal, que andavam até a fazer exercícios, aviões esses que deitavam fumos, mas que as pessoas não se deviam amedrontar por isso… e então fez-se um silêncio, logo seguido de muitos “então mas”, e outras formas de nos querermos certificar mais sobre o assunto, e continuou-se ainda com a conversa, mas a ansiedade acalmou, minha avó regressou ao seu quarto, porém a ti Mari da Velha ainda disse: ná, eu vi muito bem os braços da senhora, bem abertos… aquilo era um sinal… espera Manel, que logo verás. Meu pai ainda lhe disse: amanhã posso trazer o jornal, que você até sabe ler – e era verdade, que a ti Mari da Velha ainda fizera a segunda-classe – mas era tarde, pois já ela saía, como que à pressa, para sua casa, cinquenta metros mais abaixo, lá no Casal do Cantadeiro, a que, mais tarde, passaram a chamar, erradamente, Casal Catarino. Até hoje. Mas isso é outra história, que ficará para nova crónica. Qualquer dia.

Manuel João Sá – 8 Maio 2017

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