Entre finais de 2009 e 3 Julho 2019 dei o meu contributo na Comissão de Coordenação dos Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial de Santarém. Foi uma actividade gratificante, com muitas realizações e ricas vivências, no sentido de proporcionar aos antigos alunos, professores, funcionários, familiares e amigos uma organização que permitisse o seu reencontro, reviver as suas memórias, recuperar, manter e divulgar o seu património histórico, conviver, chegar a pessoas amigas que, depois de terem terminado os estudos na nossa Escola, muitas já não se viam há décadas.
Tendo a consciência de que em tudo isso coloquei disponibilidade pessoal, empenhamento, o melhor saber fazer e o permanente respeito e honestidade de processos perante todos, considerei ter chegado a hora de sair da Comissão Coordenadora, onde participei durante 10 anos. Agradecendo aos que estiveram comigo na Comissão, sei que aqueles que continuam vão desempenhar muito bem a sua missão, com o apoio da generalidade dos Antigos Alunos EICS. É o que mais desejo.
Símbolo da Organização dos Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial de Santarém, criado por António Fagulha, antigo aluno. Este símbolo foi escolhido de entre cinco desenhos do mesmo autor, por voto dos participantes, no Encontro Anual de 27Fev2010.
Fazem parte das minhas memórias, da minha família, de quando criança e adolescente, as vitórias de Portugal em Hóquei em Patins. Fazem parte das minhas memórias e também das memórias de muitos portugueses. Calhou meu pai poder comprar uma telefonia na década de 1950, da marca Mullard que, para funcionar, lá no cabeço da Fonte Boa, no Casal do Cantadeiro (e não Catarino, como passaram a chamar-lhe) onde a electricidade haveria de chegar décadas depois e a água canalizada ainda muito mais tarde, a solução era uma bateria de 12 volts, que era preciso levar a carregar, no Vale, quando a carga já havia sido “consumida”. Então, Emídio Pinto, Raio, Edgar, Cruzeiro, Lisboa e Perdigão, como depois outra geração de ouro, que teve Moreira, Souto, Adrião, Velasco e Bouçós, mais Vaz Guedes, mais Ramalhete, mais Livramento, mais…muitos nomes de notáveis jogadores de hóquei, fizeram a minha delícia, só pelos relatos, a altas horas, dos campeonatos do Mundo, em Portugal ou no Estrangeiro.
Mas, antes desses, Cipriano, os irmãos Sidónio Serpa e Olivério Serpa, e os também irmãos Jesus Correia e Correia dos Santos (os primeiros Campeões do Mundo por Portugal, em 1947) e um outro Adrião, pai do Fernando… Jogos até ao último minuto, melhor, até ao último segundo, com a Espanha, regra geral, como o adversário mais difícil e, por vezes, a Itália.
Ora, uma equipa mais sóbria, mas igualmente competente, revelando união, resiliência, cabeça e alma no comando, conseguiu voltar a vencer o Campeonato Mundial, pelo visto com uma boa liderança.
Estamos de parabéns, sim. Devemos saudá-lo, sem meias palavras. Com alegria e orgulho. Somos Campeões Mundiais de Hóquei em Patins! Outra vez, dezasseis anos depois da última conquista, que havia sido em 2003.
Manuel João Sá
Selecção de Portugal de Hóquei em Patins, Campeã do Mundo em 2019, no campeonato disputado em Barcelona, com vitória de 2-1 sobre a Argentina.
9 de Julho. Tenho pouco mais de quatro anos. De manhã, muito cedo, saímos de casa da avó Alexandrina, no Rio das Patas. Descemos a rua de terra batida, cheia de crateras no Inverno, mas é Verão e até parece normal. Vou pela mão do tio João, que leva uma cesta, com um farnel, que a minha avó preparou, na noite anterior, de coelho guisado, pastéis de bacalhau, pão, pêssegos “carecas”, damascos e ameixas, e também uma garrafa de vinho, a que o meu avô aplicou uma rolha, quase torneada, com o seu canivete predilecto. Na cesta segue ainda uma pequena toalha, aos quadrados vermelhos e brancos, e dois copos de esmalte. Antes de virarmos à direita, olho para trás e a minha avó está lá em cima, junto à cancela, e diz-me adeus. Vamos a caminho da camioneta, que é do Vinagre. Chegamos perto da Fonte das Três Bicas e lá está ela, em vermelho escuro, com uns tons de cinzento a todo o comprimento. É bonita, tem faróis grandes e os estofos em grená. Já lá estão outros homens. Só homens, que nos saúdam, quer dizer, o meu tio e eles apertam as mãos, com vigor, dão abraços que parecem combates de palmadas, a mim dizem-me graças, eu sorrio, é o costume. Não vejo outros rapazes. O motorista anda numa azáfama, a meter as cestas na camioneta e, a certa altura, pergunta se está toda a gente e há quem, com um papel na mão, diz que sim. Começa aí a excursão. Não sei para onde vamos, mas sinto-me bem, sentadinho junto à janela, do lado direito da camioneta. O meu tio vai ao meu lado e fala muito, com este e aquele, e todos querem saber porque é ele que vem comigo e não o meu pai. Não oiço as respostas, ou não as compreendo, mas a mim ninguém me disse que poderia haver uma razão para ser assim; o meu pai só me havia comunicado, uns dias antes: o tio João está cá, vai haver uma excursão depois de amanhã e tu vais com ele, foi assim.
Depois de o meu pai me ter dito que ia a uma excursão, a minha mãe começou a preparar a roupa para mim. Era simples: havia os calções, a camisinha creme, as meias, os suspensórios, a boina, as botas e um casaquinho de malha, se fosse preciso, mas já era Verão e o calor só amainava para a noite. No dia anterior o meu pai foi-me levar a casa da minha avó, para dormir lá e seguir logo cedinho, com o meu tio, a caminho da camioneta. Nessa noite dormi com ele, no quarto e na cama que havia sido dele e do meu pai. Foi muito cedo que a minha avó nos chamou e me pôs em alvoroço, dizendo que ia ver coisas muito bonitas, que depois lhe havia de contar, e que me apressasse para as torradas e o café, entretanto ajudou-me a vestir e calçar e disse: agora não te sujes…
Depois de Santarém, as conversas aumentaram e andavam homens de pé, enquanto o motorista não lembrou que se a polícia de trânsito visse ia ser o bonito e o meu tio explicou-me porquê. Durante a viagem ia-me entretendo com o que os meus olhos viam, pela primeira vez, mas também com essas conversas, em alta voz, era como se os homens estivessem num arraial. Fosse porque tinha madrugado ou pelo cadenciado do motor, acabei por adormecer, só acordando quando a camioneta parou e os homens começaram a sair, para irem a uma pequena fonte, para beberem água ou para uma mijinha, na parte de trás do valado, foi o que me disse o meu tio, perguntando-me se também queria. Acabámos por ir mais adiante e entrámos numa taberna: para mim veio uma laranjada, para ele um copo de vinho branco, dos mais pequenos, tal e qual como o meu avô Alfredo gostava. Foi no regresso à camioneta que perguntei ao meu tio se faltava muito e os outros homens, mangando comigo, começaram a dizer que só chegávamos lá de noite, mas eu disse que o que trazíamos na cesta não iria chegar, que sabia muito bem o que a minha avó lá tinha posto, não dava para almoçar e cear… Os homens riam-se e o meu tio ainda mais, às gargalhadas, como era costume nele.
Foi ainda antes da hora do almoço que nos aproximámos do destino, assim pensava eu. Depois de umas curvas, a camioneta a seguir mais devagar, à direita um rio e, mais adiante, os corpos dos homens a elevarem-se, pelo menos de pescoços esticados, mais conversa, olha aqui!… olha ali!… e seguimos à direita para uma ponte sobre o rio, estacionando ainda mais à direita, num largo. Já chegámos!… disse o motorista. Abertas as portas, os homens começaram a sair e combinaram o que iam fazer a seguir. Uns queriam ir dar uma volta, para ver os monumentos, havia quem quisesse ir ver o convento, outros queriam andar de barco, no rio, outros queriam ir logo almoçar, no jardim, outros perguntavam quando é que se ia para o “castelo de bode”, e eu, no meio daquilo, olhando, ouvindo, tentando perceber onde estava e para onde íamos, porém, à cautela, de mão dada ao meu tio, que era a minha primeira vez numa série de coisas: a primeira viagem com o meu tio, em vez do meu pai (mas porquê, com o meu tio?…); a primeira vez com tantos homens e nenhuma mulher, como era possível?… e era também a primeira vez que ia ali, um sítio que estava ainda sem saber como se chamava, até que, até que… seguimos para o lado do jardim, por decisão do meu tio, que levava a cesta do farnel e, pela sua atitude resoluta, outros nos seguiram, porém, ao caminharmos sobre uma pontezinha, a caminho do jardim, uma coisa fantástica me atraiu: uma roda gigante, de madeira, girando e carregando água nos seus baldes, parecia mesmo, mas em ponto bem maior, a roda da azenha do rio da Quinta, que o meu pai me mostrara, pela primeira vez, algum tempo antes. Ainda quis ir ver mais de perto, mas o meu tio, com energia, logo me disse: depois de almoço voltamos aqui.
Sentados sobre a relva, protegidos pelas altas árvores, junto ao rio, que ali chega ziguezagueando, com ruído forte ao transpor os açudes no seu leito, passámos o tempo do almoço em volta da nossa toalha, onde o meu tio pôs, com cuidado, aos poucos, tudo o que a avó Alexandrina havia colocado na cesta. Não faltavam os garfos e facas, não faltavam os guardanapos brancos, de pano, não faltava um canivete, para a fruta. Em redor, mais grupos da nossa camioneta, e, entretanto, passeando, outros grupos de outras excursões, de modo que foi-se fazendo conversa entre os pequenos grupos, e começaram a fazer retratos, havia até um senhor que andava por ali, a fotografar quem quisesse. Foi depois de arrumarmos na cesta tudo o que restava que alguns começaram a perguntar: então não vamos dar uma volta de barco?… Regressámos à camioneta, para lá deixarmos a cesta, e voltámos ao jardim para a viagem, no rio, em barcos que se alugavam, à hora. Alugados dois barcos, para os quais entraram, com entusiasmo, e talvez um copito a mais, diversos interessados, foi o início de uma experiência que me ficou para sempre: porque foi a minha primeira viagem sobre as águas; porque pouco faltou para naufragarmos, pensava eu, apesar de se ver o fundo, ali mesmo, e os peixes luzirem, sob os raios de sol, na água límpida, em vertiginosos raides, como se contentes por nos verem ali, em tão alegre e ruidoso passeio. Retirado do barco que tinha a maior lotação, no qual um garrafão passava frequentemente de mão e os alegres convivas faziam adornar a frágil embarcação, puseram-me ali perto, sentado na relva, a recuperar do cagaço, meio nauseante, até que o meu tio mandou chegar à borda e veio ter comigo, não fosse haver problemas, disse-me ele, e logo na primeira vez que me tinha a seu cargo.
Recuperado da tormenta, que meteu enjoo e tudo, foi num banco de ripinhas vermelhas que fiquei um tempo, a ver a roda gigante, sempre a girar, e eu de novo com vontade de a ver mais de perto, enquanto o meu tio, deitando ao ar o fumo do cigarro, com deleite, continuava na conversa com o “Xerife” e o “Garrafão”, alcunhas, já se vê, e de vez em quando dava-me indicações com a mão, para aguardar: já lá vamos… já lá vamos ver o moinho… O tempo a correr, o sol a mudar de posição, as árvores a não servirem de protecção, ali, e foi então que decidi procurar outro banco de ripinhas vermelhas, onde me sentei, porém, foi mais forte do que eu: avancei até à roda gigante, e ali me deixei ficar, silencioso e atento, a olhar os pormenores daquilo tudo, a minha paixão pela água, quem sabe, talvez a começar ali. Estava eu neste êxtase, pela beleza imponente daquele quadro da natureza, quando o senhor dos retratos me aparece de frente, e zás, assenta em mim o olhar e a sua máquina de fole, assim fiquei apanhado para a posteridade, surpreso, olhar tímido, e foi mesmo ele que acabou por me levar ao meu tio e aos companheiros de viagem, que já gritavam pelo meu nome, procurando-me em todo o jardim, e eu ali tão perto, encantado com o movimento da roda da azenha…
Depois do óbvio ralhete, seguiram-se outros retratos, e ainda fomos a um café onde os homens continuaram a beber, outros compraram coisas para oferecerem às mulheres e aos filhos. De regresso à camioneta, foi preciso esperar por alguns, depois foi o início do regresso, durante o qual todos queriam contar o que tinham visto, o que tinham feito, e demorámos pouco tempo até à paragem seguinte. Perguntava eu ao meu tio: e agora, onde vamos?… Ele olhou para mim, ainda estávamos no nosso banco e disse: vamos ver uma coisa que nunca viste… A camioneta estacionada, fomos saindo e alguém começou a dizer o que íamos ver… Castelo de Bode… uma barragem, uma grande barragem, e eu… mas o que é uma barragem?… já muitas excursões ali tinham ido, de muitos pontos do país, dizia o senhor, e aqui está ela, e apontava, façam favor… e nisto começou a dizer muitas coisas sobre aquilo, que eu ainda não sabia o que seria, mas a expectativa estava criada… Avançámos por uma estrada, ainda havia alguns trabalhos por ali, mas era mesmo uma coisa grande, muito grande, tiveram que me pegar ao colo para ver de um lado e doutro, e para que servia aquilo?… E como é que fizeram uma coisa daquelas, tão grande, que tudo o que eu conhecia, podendo ser grande para a minha compreensão, não tinha nada a ver com aquilo?… nem os prédios da Fonte Boa, nem o silo maior da Fonte Boa, nem a ponte do Vale… como era possível?…
Foi no regresso que o meu tio me foi explicando alguns pormenores sobre o que era uma barragem, porque estava ali, naquele sítio, que havia uma central, que se usava a queda da água do rio que por ali passava para fazer electricidade, e eu… hã?… fazer electricidade… com água?… O regresso continuou sob o signo da surpresa e da aprendizagem, misturada com pão e chouriço às rodelas, uma surpresa escondida na cesta, era o que sobrava, para nós dois, do farnel preparado com carinho pela avó Alexandrina. Foi ainda o tempo de o Lobato, que tão vivo havia estado no barco ao lado, passando o garrafão de cinco litros de tinto de mão em mão, estar já aquietado, dormia e ressonava alto, no banco de trás, competindo com o ruído do motor. Adormeci e só dei por termos chegado ao Vale quando o meu tio me acordou. Era noite. As luzes da rua principal, anémicas, puseram à mostra um grupinho de mulheres que vinham esperar os seus homens. O meu pai também já lá estava. Ele e o meu tio conversaram um bocado, sorrindo muito os dois, já depois de o meu pai me beijar e me perguntar se tinha gostado. Disse-lhe que sim, mas também a pensar que o meu tio poderia contar-lhe do susto que lhe preguei, mas tal não aconteceu. Seguimos os dois para a nossa casa, no cabeço da Fonte Boa, pelo carreiro do costume, enquanto o meu tio, chegando ao Pombal, fora para casa da minha avó, no Rio das Patas. Foi quando virámos para a vinha da tia Mari’ da Velha que o meu pai me começou a dizer que tinha nascido naquele dia um menino, que se ia chamar António, meu irmão. Estava explicada a razão de eu ter feito aquela excursão com o meu tio, a Tomar e ao Castelo de Bode.
Manuel João Sá
9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. Passeio de barco no rio Nabão9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. No jardim de Tomar.9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. João Sá, Manuel João Sá e “Xerife”, no jardim de Tomar.9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. Um grupo dos excursionistas, no jardim de Tomar.
Naquele tempo, terminadas as aulas do dia, ia eu para a avenida, para aquele desafio de apanhar boleia. Umas vezes juntávamo-nos, outras vezes separávamo-nos. A estratégia, porém, nem sempre resultava, pois os condutores tanto levavam um só como, com surpresa, levavam todo o pessoal.
Ainda hoje tenho matrículas e carros na cabeça. Por exemplo, aparecia o GI-20-40, que era um Fiat, ou o IE-13-17, que era uma carrinha Austin, e tinha boleia pela certa. Às sextas vinha do Entroncamento um cabo da tropa, num Renault pequenino, pintado de verde, de grelhas atrás , e era… trigo limpo. Íamos a correr, a porta abria para a frente e nós, às vezes cinco, a enfiarmo-nos no carrito, e lá íamos, Padeiras abaixo.
Tanto podíamos ter sorte de imediato, como ter de esperar… esperar. Nos dias de menor sucesso, a hora da última camioneta a chegar e eu, ali, com outros, a desesperar, a esticar o dedo, a fazer o sinal e… nada. Então, vindos dos lados do Cartaxo, de Vila Chã de Ourique, do Vale de Santarém… começavam a chegar à cidade os alunos da noite. Iam para a Escola. A nossa Escola Industrial e Comercial de Santarém.
Subida das Padeiras
E eu, que maldizia o estar ali, à boleia, a procurar poupar uns dinheiritos… ficava vencido pelo querer daqueles homens, alguns ainda jovens que, de bicicleta, faziam aquele caminho, para irem à Escola. De bicicleta. Outono, Inverno, Primavera, Verão. E eles, com chuva, vento, frio, calor, cansaço, sono, fome… eles a subirem as Padeiras, depois de subirem e descerem outros pontos da estrada, eles com as pastas de cabedal, na bicicleta, junto ao suporte traseiro, ou enfiadas no quadro… e depois, terminadas as aulas, pontos, exames, eles a voltarem a casa. Com chuva, vento, frio, calor, cansaço, sono, fome. E no dia seguinte, tudo a acontecer outra vez. Trabalho, viagem para Santarém, aulas, regresso a casa…
Eles, vindos dos lados do Cartaxo, de Vila Chã de Ourique, do Vale de Santarém… e de tantas outras aldeias e lugares, trezentos e sessenta graus em volta de Santarém, eles de bicicleta ou de motorizada, eles com o sacrifício a comandar a vida. Eles em busca de mais saber, de um emprego melhor, de uma vida diferente. Eles, a caminho do sonho. Após, todos os dias, desde manhã até à ida para a Escola, labutarem para o ganha-pão, seu e da família, tudo tão difícil…
Então, eu ali à boleia, a maldizer a sorte, cada vez menos carros para esticar o dedo para o sinal da praxe, eu ali e a ver aquele homem da minha terra, que todos os dias, sol ou chuva, trabalhava no campo, ia a casa mudar de roupa e se punha a caminho da minha Escola… aquele homem, bem mais de 40 anos, as mãos calosas da enxada e de outras alfaias, subia as Padeiras e lá ia ele a caminho da Praça Visconde Serra do Pilar…
Este homem chamava-se Manuel Martins Ferreira. Natural do Vale de Santarém, amigo de meu pai e de meu tio. Fez o Curso Geral de Comércio na minha Escola, no tempo mínimo de 6 anos que o curso durava. Este homem só teve dificuldades a Caligrafia, porque as canetas escorregavam nos calos que tinha nos dedos… este homem, disseram-me, mesmo assim teve 13 a Caligrafia, todas as outras notas foram superiores… este homem, exemplo como tantos outros homens e mulheres, ALUNOS DA NOITE da minha Escola Industrial e Comercial… deixo-lhes aqui uma homenagem… tardia, mas sentida, profundamente sentida, profundamente sentida…
Manuel João Sá.
(Esta crónica também foi publicada no blogue Alfageme Santarém, dos Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial de Santarém, em 30 Jan 2011).
O rapaz nasceu no Funchal. Não foi na parte nobre, rica, turística, mas… esquecendo-se da escola (e nisso não fez bem) o que ele queria era, junto da sua casa, jogar à bola, com outros ou mesmo sozinho, brincar como quem joga, ou jogar como quem brinca, que vai dar ao mesmo, talvez. E deu. Foi parar ao Nacional, que já era demais, um miúdo assim, tão determinado em QUERER SABER E SABER FAZER “essa coisa” de jogar (igual a gostar de brincar, mais e mais e mais…) com uma bola, até à perfeição, todos os dias, cada vez melhor e mais difícil e diferente… Todos os dias a tentar, a errar e a acertar, e mais, e mais, e mais… Tentativa e erro… novas aprendizagens, novas aquisições… tentativa e erro… novas aprendizagens, novas aquisições… tentativa e erro… Sempre, até conseguir!…
Depois veio a Academia do Sporting e o miúdo, que veio da sua rua, horas a chutar contra a parede, ou contra a baliza, e num lado qualquer um guarda-redes, real ou imaginário, o miúdo a continuar a fintar os outros e a si próprio, se preciso fosse, para aprender mais e mais como fazer, insaciável na sua determinação (determinação tem o sentido de querer chegar ao término de algo a que qualquer pessoa se propõe) o miúdo trepa, célere, escada acima, por cá e, num ápice, chega ao estrangeiro e dita leis, com fintas e pontapés de sonho, a bola, em suave voo ou como bala, ou ainda como bicha de rabiar, a fugir, a fugir, a fugir aos elásticos dos mais elásticos e consagrados guarda-redes, e finta e refinta, ou faz que finta mas não finta, volta a fintar como quem brinca à bolinha debaixo da carta, que tão depressa lá está como já não está e põe os defesas sem verem a “vermelhinha”, os defesas pregados ou de cangalhas, no chão verde, verde para ele, de glória, mas, para os defesas, de tortura ou, como bailarino, agiganta-se, qual galgo alado, plana nos ares, aí se suspende e permanece, retesa músculos, pára a respiração, tudo por intermináveis milésimos de segundo e zás… da cabeça faz taco, ou raqueta, ou placa giratória e a bola, ali batendo, na testa iluminada, segue, imparável, para o fundo da baliza, está cumprida a determinação, atingido o objectivo, é “goal”!
Há tanta coisa notável naquele corpo, sobretudo no cérebro!!!… para além da aptidão natural, que tem de considerar-se elevada, que este homem-atleta deveria ser considerado um caso de estudo. Como um cientista, como um artista, um “performer”, como um fora de série, como um verdadeiro “special one”… E, não fora ele, mais um ou dois, fugindo ao inconcebível esquema, mais uma vez, de F. Santos, e a Suíça poderia, DE NOVO, vencer Portugal. A Suíça até foi mais selecção, mas não teve a chamada sorte do jogo. E, para além do King que, nos tempos de hoje, é Cristiano Ronaldo, com a ajuda de mais dois ou três companheiros (o passe LONGO, de Rúben Neves, para Bernardo Silva e deste para Ronaldo, no 2º golo, foi contra as orientações de F. Santos) tudo o mais de interessante que aconteceu, em termos de equipas, pertenceu à selecção da Suíça.
Poderemos vir a ganhar na final da Liga das Nações (hummmmm!???) mas esta ideia de futebolzinho, com tanta gente de grande qualidade em campo, não só espera sempre pela arte suprema e a eficácia de Cristiano, como reduz essa grande qualidade a um monte de vulgaridades. E é pena.
Manuel João Sá.
Foto do Jogo Portugal 3 – Suíça 1, no Estádio do Dragão, em 5 Junho 2019. Cristiano Ronaldo marcou os três golos de Portugal, apurando-nos para a final da Liga das Nações
Amoreira… Ao pé de ti, olhando o teu tronco, tenho de parar a contemplar-te, em silêncio, com admiração e respeito. Conheço-te, Amiga. Aqui, como em qualquer parte do Mundo onde te encontre, assim, enorme, como tu és, ou simplesmente um tronquito com raiz, só dez-réis de amoreira ainda, frágil, mas já a projectar vida, seiva, energia, para cumprires o teu papel na vida do Universo. Conheço-te, Amiga. Tu, certamente já estás com muitos anos, Mulher. Um tronco carcomido, como se carregado de crostas de muitas lutas, pela tua grandiosa perseverança, pela vida que teimas em manter, num contributo singelo à Mãe Natureza, aparentemente um pequeno nada, porém tão precioso. Tens uma copa enorme, frondosa, orgulhosa, carregada de frutos, uns já amadurados, outros ainda verdes. Há pássaros voando, cantando, depenicando, felizes, no teu interior. O chão, sob a tua copa, está pejado de amoras negras, tuas filhas, já pisadas, o sumo espalhado, fazendo pinturas a roxo no acimentado em volta… acimentado… que pena…
Revive em mim um misto de perfumes de antigamente, quando os meus bichos-da-seda clamavam por folhas novas, na eterna azáfama da sua vida, na metamorfose imparável desde o ovo à lagarta, ao casulo e crisálida até à borboleta, para tudo continuar, num ciclo sem fim: após o acasalamento os ovinhos a saírem do ventre das lagartas, elas prestes a sucumbir no sacrifício da sua morte, pelo brotar de nova vida, dentro de meses… e todos os anos eu a ter de ir em demanda de mais folhas, arrancadas à sucapa, uma a uma, das amoreiras da Fonte Boa, com os guardas andando por ali, algumas vezes era pela calada da noite que o conseguia…
São memórias da minha vida que tu convocaste, para o momento em que te encontrei e te admirei… E as tuas memórias quais serão? Encontro-as no teu corpo: gretado, com sulcos, ferido com golpes de serrote, que ergues ainda, digno, oxalá que por muitos mais anos. Quanta sombra fizeste, nas muitas décadas da tua existência?!… Quantas alegrias deste às crianças que pelo teu tronco treparam, para de ti obterem a satisfação da sua ousadia e gulodice e o alimento para os seus bichitos-da-seda?!… Quantas gerações de velhos sob a tua copa se protegeram dos sóis, cavaqueando, talvez recordando os tempos em que, quando meninos, por ti acima pareciam coriscos em demanda de frutos e de aventura, porfiando no alcançar do triunfo entre pares, pela chegada ao alto, cada vez mais alto, até atingirem a glória de já alcançarem o sol, no topo da tua copa?…
Estás velha, Amiga, mas digna e orgulhosa e eu, orgulhoso de ti… apetece-me abraçar-te e dizer-te: OBRIGADO.
Até breve, Amiga.
Manuel João Sá.
Amoreira-Alhandra-Junto ao rio Tejo. Foto de Manuel João Sá-4Maio2019.
hoje pode ser outro dia glorioso para o nosso clube. Pode, mas ainda é cedo. O resultado ainda está a fazer-se, no último jogo do campeonato, que começou às seis e meia da tarde. Só quando terminar se saberá. O passado ensina-nos, não o futuro, que ainda não o vivemos. Quando muito podemos prever o futuro, prepararmo-nos para ele, isso sim. Mas aprender, apreender, com o futuro, não podemos, porque ele ainda é coisa por acontecer. Portanto, esperemos até ao último minuto. Há-de haver o apito final do árbitro e, então, poderemos ser campeões. Poderemos. Gostava que soubesses que este ano aconteceram tantas coisas que, em verdade, chegarmos aqui, à evidente possibilidade de sermos mais uma vez campeões, era uma miragem, há uns meses. Mas está prestes. Porém, falta o tal apito final e, nesse preciso momento, estarmos lá em cima, com o nosso popular clube no topo, num impulso de alegria, num frémito de glória, é preciso celebrar, na exaltação do objectivo atingido, e faz-me lembrar o que contaste de quando, num jogo assim, invadiste logo após o último som do apito do árbitro, com milhares de outros, o nosso antigo Estádio da Luz e, depois de muita luta entre iguais, da peleja travada na relva trouxeste um bocadinho da camisola do José Águas, esse inteligente, finíssimo, elegante jogador de área, que marcava de cabeça como ninguém, e ficava radiante, sorridente, porém respeitador dos adversários, sereno, homem grande, desportista de eleição, que deu tudo ao nosso Benfica, como tantos, tantos outros, desde o princípio.
É nestes momentos, em que tudo isso está de novo a acontecer dentro da minha cabeça, e a minha cabeça tem mapas com rios de memórias correndo dentro dela, é nestes momentos, pai, que me lembro da nossa primeira telefonia a funcionar a poder de bateria, que tínhamos de levar a carregar de vez em quando, para ouvir o que nos interessava: os relatos, os noticiários, os jogos de hóquei da seleccção nacional, a música para dançar, as outras notícias que vinham de longe, mas que era proibido ouvir, e também os relatos do nosso Benfica. Era uma telefonia da marca Mullard, que tinha um olho azul para sintonizar, botões redondos, de cor amarela e um contorno a castanho, com um friso e, a tapar a saída do som, um lindíssimo “pano”, amarelo doirado, que vibrava quando havia os golos, eu punha lá a mão, ao de leve, e por aí sentia o impacto da voz, era como se estivesse lá, no estádio, mas isso só aconteceu bem mais tarde, quando foi do Benfica 3 – Tottenham 1, e nesse ano fomos campeões europeus.
Trago comigo, até ao fim, as breves tardes do Inverno quando, na nossa vinha, andávamos a podar ou empar e, já com a portátil a pilhas ali connosco, encostada às cepas, ecoando os sons do antes e do durante os jogos, os dias muito frios, as geadas a fazerem gretar as mãos, mas vinha o sol e a faina continuava, e da telefonia Nordmend saíam os relatos das geniais jogadas dos nossos ases, a maior parte das vezes vencendo, nos estádios do país e ali mesmo, em alto volume, na nossa vinha, ecoando na brandura das tardes frias, quando tudo parecia parado, o Vale lá longe, e na encosta, junto à igreja, talvez o fumo de uma queimada de limpezas dos terrenos, o fumo a erguer-se, lento, a dissipar-se, para lá do pinhal do Ripilau.
Pai, hoje está sol, com algumas nuvens a fazerem negaças, como dizias. É ainda Primavera. Parece despropositado que, chegado aqui, a esta idade a que chamam agora de “senior”, que é uma aproximação à designação de “velho”, que ninguém quer ser, eu esteja aqui contigo, ainda como quando criança, expondo-me, nesta conversa em que, não podendo ter-te, e haja o que houver até ao apito final, estás ao meu lado, com a mãe e todos nós, vossos filhos, na vibração, o mais serena possível, de um momento de comunhão, em família. Haja o que houver. Esperemos que haja.