O Vídeo do Convívio de 2019 dos Antigos Alunos da Escola Aristides Graça, do Vale de Santarém

Já aqui publicámos sobre este muito bem-sucedido convívio anual, realizado em 28 Set. 2019, que teve a expressiva presença de 180 participantes.

Com as fotos que encontrámos no facebook, a que juntámos as que foram feitas pelo fotógrafo Francisco Marques, pudemos fazer um pequeno vídeo, para “saborear” e para ficar para a história das realizações dos antigos alunos da nossa antiga Escola.

Destaque também para a inclusão, neste vídeo, de uma gravação da Vitorina Rosa Gaspar, que, num convívio posterior, da Fábrica AVILIMA, que se realizou em Vila Chã de Ourique, em 27 Outubro, foi convidada a cantar o Hino da Escola Aristides Graça, e saiu-se muito bem desse pedido que as trabalhadoras da histórica Fábrica lhe fizeram, para que o cantasse. No próximo convívio, muito certamente, já o iremos cantar em coro, com a ajuda Vitorina. Oxalá!

Tudo isso pode ser visto clicando em

 

As minhas saudações,

Manuel João Sá.

180 participantes no convívio de 2019 dos antigos alunos da Escola Aristides Graça, do Vale de Santarém.

Foi o IX Convívio Anual da Escola Aristides Graça, juntando antigos alunos, familiares e amigos, no dia 28 de Set. Pelas opiniões recolhidas, no próprio dia e já depois, e também pelo que se foi dizendo no facebook, pôde concluir-se que se tratou de uma óptima confraternização, que cumpriu o programa previsto, onde acabaram por acontecer algumas surpresas, como é costume, as quais também agradaram.

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Programa do convívio dos antigos alunos da Escola Aristides Graça-Vale de Santarém-28Set2019

Abaixo, algumas fotos dos momentos do Programa deste IX Convívio anual.

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Homenagem ao professor Fernando Costa, na praceta com o seu nome, próximo da Junta de Freguesia, quando usava da palavra o Miguel Centeno, pela Comissão. 28Set.2019.
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Homenagem aos antigos alunos e professores falecidos – estão sepultados no cemitério do Vale a professora Leopoldina Augusta Cunha e Conde; o professor Aurélio Faria; a professora Tomásia Guimarães Rodrigues. Usou da palavra, pela Comissão, o Miguel Centeno. 28Set.2019

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Foram 180 participantes, mas nem todos puderam deslocar-se ao local, para a fotografia.

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O bolo de aniversário do IX Convívio. A nossa Escola foi fundada em 1915.

Teve igualmente muito acolhimento a entrega feita, aos participantes, da letra do Hino da Escola, que acabou por ser cantado, pela 1ª vez integralmente neste convívio, pela antiga aluna VITORINA ROSA GASPAR, que recebeu muitos aplausos. Já antes havia sido cantado, em parte, pela nossa querida amiga e antiga aluna MARIA ELVIRA SERRENHO (entretanto falecida em 25 Julho 2019) no convívio de 2016.  A letra do Hino é da autoria do Poeta JOÃO D’ALDEIA, sendo autor o Maestro VENCESLAU PINTO, que teve casa no Vale, onde vinha passar férias.

Aqui está a letra do Hino.

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O Hino era cantado por raparigas e rapazes, quando o Professor FERNANDO COSTA esteve o seu primeiro período no Vale de Santarém. A letra do hino foi-nos facultada pelo antigo aluno JOSÉ MARTINHO DA CRUZ (por alcunha “Caralheta”), infelizmente já falecido, que fez parte das récitas organizadas pelo professor Costa, com a colaboração de JOÃO DA SILVA NOGUEIRA-POETA JOÃO D’ALDEIA, que escrevia os poemas, e com músicas da autoria do maestro VENCESLAU PINTO. No desenho e confecção dos cenários, para as récitas, colaborava ainda com o professor Costa o SR. BENJAMIM SÉRGIO, marido da D. Mercedes – tinham uma loja quase à saída do Vale, na estrada para Santarém.
Nestas récitas, e além de José Martinho da Cruz, outros entravam, como as antigas alunas MARIA ELVIRA SERRENHO (que nos deixou neste ano) e MARIANA SÁ PATRÍCIO, além de outras raparigas e rapazes.

Já após o IX Convívio Anual dos Antigos Alunos, realizou-se o III Convívio Anual da Fábrica Avilima, onde, a pedido de alguns participantes, a Vitorina Rosa Gaspar cantou o Hino da Escola. É assim possível ouvir a letra e música do Hino, com aplausos e agradecimento à VITORINA, clicando em

https://www.facebook.com/1311703195526218/videos/3246469792089674/

A Comissão Organizadora

Francisco Ferreira – José Marques – Luís Quina – Manuel João Sá – Manuela Grazina – Margarida Silva – Miguel Centeno – Virgílio Pereira – Vitorina Rosa.

Olá Pai…

Tenho-te aqui, à minha frente, neste dia que é teu, em particular. Foi há 102 anospai que a Avó Alexandrina lançou para a luz da vida a primeira semente alojada no seu ventre, por mor do seu amor Alfredo, nosso Avô, que conhecemos sempre de bigode e poucas falas, perito na arte da vinha e da enxertia, até de rosas.

Hoje, no cabeço da Fonte Boa há-de estar sol, como gostavas, a acreditar que “os astros”, como a Mãe dizia, isso me fazem prever, olhando daqui, pela janela, esta manhã serena, uma leve aragem, a acamar, talvez, as ervas da nossa vinha, que o Avô Toino da Velha nos deixou, depois de partir, tão inesperadamente, tão misteriosamente, coisa que nunca conseguimos decifrar.

A Mãe também já partiu, mas os vossos Filhos, oito dos nove que deram à vida, por cá continuam, vendo crescer os vossos netos e, sabes uma coisa, já tens mais bisnetos, a sementeira continua…

Para além de estares bem vivo em nós, nas nossas vidas e nas nossas memórias, estás vivo no nosso Vale, não só na rua com o teu nome mas nas memórias das pessoas que, amiúde, me falam de ti, dos ensinamentos e dos exemplos que facultaste, talvez até sem te dares conta: o teu perfil de cidadão activo, decidido, combativo, realizador, no campo associativo e, tanto quanto possível, no campo político, em ambiente em que só a clandestinidade era a solução para continuar a lutar pela Dignidade e pela Liberdade, contra a ditadura. Liberdade que só celebrámos em 25deAbril1974, mas já a havias sonhado tantas vezes, em particular no dia das eleições presidenciais, com Humberto Delgado a vencer no nosso Vale, como pelo País, em tantos lugares, e nessa tarde chegaste a nossa casa e abraçaste-nos, em lágrimas de alegria, a gritar “ganhámos, ganhámos!” e… roubaram-nos a alegria, Pai…

Apesar da Liberdade, apesar da Democracia, continuamos a lutar pela Liberdade, pela Democracia. Sempre!

Um dia destes vou continuar a escrever-te. Hoje, como criança pequena, ainda, em teus braços, ou caminhando ao teu lado, ao vento lanço estas palavras, para estar ainda mais perto de ti, da tua voz, do teu olhar, do teu calor.
Abraço, Pai.

Manuel João Sá

Uma missão que chegou ao fim

Entre finais de 2009 e 3 Julho 2019 dei o meu contributo na Comissão de Coordenação dos Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial de Santarém. Foi uma actividade gratificante, com muitas realizações e ricas vivências, no sentido de proporcionar aos antigos alunos, professores, funcionários, familiares e amigos uma organização que permitisse o seu reencontro, reviver as suas memórias, recuperar, manter e divulgar o seu património histórico, conviver, chegar a pessoas amigas que, depois de terem terminado os estudos na nossa Escola, muitas já não se viam há décadas.

Tendo a consciência de que em tudo isso coloquei disponibilidade pessoal, empenhamento, o melhor saber fazer e o permanente respeito e honestidade de processos perante todos, considerei ter chegado a hora de sair da Comissão Coordenadora, onde participei durante 10 anos. Agradecendo aos que estiveram comigo na Comissão, sei que aqueles que continuam vão desempenhar muito bem a sua missão, com o apoio da generalidade dos Antigos Alunos EICS. É o que mais desejo.

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Símbolo da Organização dos Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial de Santarém, criado por António Fagulha, antigo aluno. Este símbolo foi escolhido de entre cinco desenhos do mesmo autor, por voto dos participantes, no Encontro Anual de 27Fev2010.

Memórias do Hóquei em Patins

Fazem parte das minhas memórias, da minha família, de quando criança e adolescente, as vitórias de Portugal em Hóquei em Patins. Fazem parte das minhas memórias e também das memórias de muitos portugueses. Calhou meu pai poder comprar uma telefonia na década de 1950, da marca Mullard que, para funcionar, lá no cabeço da Fonte Boa, no Casal do Cantadeiro (e não Catarino, como passaram a chamar-lhe) onde a electricidade haveria de chegar décadas depois e a água canalizada ainda muito mais tarde, a solução era uma bateria de 12 volts, que era preciso levar a carregar, no Vale, quando a carga já havia sido “consumida”. Então, Emídio Pinto, Raio, Edgar, Cruzeiro, Lisboa e Perdigão, como depois outra geração de ouro, que teve Moreira, Souto, Adrião, Velasco e Bouçós, mais Vaz Guedes, mais Ramalhete, mais Livramento, mais…muitos nomes de notáveis jogadores de hóquei, fizeram a minha delícia, só pelos relatos, a altas horas, dos campeonatos do Mundo, em Portugal ou no Estrangeiro.
Mas, antes desses, Cipriano, os irmãos Sidónio Serpa e Olivério Serpa, e os também irmãos Jesus Correia e Correia dos Santos (os primeiros Campeões do Mundo por Portugal, em 1947) e um outro Adrião, pai do Fernando… Jogos até ao último minuto, melhor, até ao último segundo, com a Espanha, regra geral, como o adversário mais difícil e, por vezes, a Itália.
Ora, uma equipa mais sóbria, mas igualmente competente, revelando união, resiliência, cabeça e alma no comando, conseguiu voltar a vencer o Campeonato Mundial, pelo visto com uma boa liderança.

Estamos de parabéns, sim. Devemos saudá-lo, sem meias palavras. Com alegria e orgulho. Somos Campeões Mundiais de Hóquei em Patins! Outra vez, dezasseis anos depois da última conquista, que havia sido em 2003.

Manuel João Sá

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Selecção de Portugal de Hóquei em Patins, Campeã do Mundo em 2019, no campeonato disputado em Barcelona, com vitória de 2-1 sobre a Argentina.

Uma viagem inesquecível

1950.

9 de Julho. Tenho pouco mais de quatro anos. De manhã, muito cedo, saímos de casa da avó Alexandrina, no Rio das Patas. Descemos a rua de terra batida, cheia de crateras no Inverno, mas é Verão e até parece normal. Vou pela mão do tio João, que leva uma cesta, com um farnel, que a minha avó preparou, na noite anterior, de coelho guisado, pastéis de bacalhau, pão, pêssegos “carecas”, damascos e ameixas, e também uma garrafa de vinho, a que o meu avô aplicou uma rolha, quase torneada, com o seu canivete predilecto. Na cesta segue ainda uma pequena toalha, aos quadrados vermelhos e brancos, e dois copos de esmalte. Antes de virarmos à direita, olho para trás e a minha avó está lá em cima, junto à cancela, e diz-me adeus. Vamos a caminho da camioneta, que é do Vinagre. Chegamos perto da Fonte das Três Bicas e lá está ela, em vermelho escuro, com uns tons de cinzento a todo o comprimento. É bonita, tem faróis grandes e os estofos em grená. Já lá estão outros homens. Só homens, que nos saúdam, quer dizer, o meu tio e eles apertam as mãos, com vigor, dão abraços que parecem combates de palmadas, a mim dizem-me graças, eu sorrio, é o costume. Não vejo outros rapazes. O motorista anda numa azáfama, a meter as cestas na camioneta e, a certa altura, pergunta se está toda a gente e há quem, com um papel na mão, diz que sim. Começa aí a excursão. Não sei para onde vamos, mas sinto-me bem, sentadinho junto à janela, do lado direito da camioneta. O meu tio vai ao meu lado e fala muito, com este e aquele, e todos querem saber porque é ele que vem comigo e não o meu pai. Não oiço as respostas, ou não as compreendo, mas a mim ninguém me disse que poderia haver uma razão para ser assim; o meu pai só me havia comunicado, uns dias antes: o tio João está cá, vai haver uma excursão depois de amanhã e tu vais com ele, foi assim.

Depois de o meu pai me ter dito que ia a uma excursão, a minha mãe começou a preparar a roupa para mim. Era simples: havia os calções, a camisinha creme, as meias, os suspensórios, a boina, as botas e um casaquinho de malha, se fosse preciso, mas já era Verão e o calor só amainava para a noite. No dia anterior o meu pai foi-me levar a casa da minha avó, para dormir lá e seguir logo cedinho, com o meu tio, a caminho da camioneta. Nessa noite dormi com ele, no quarto e na cama que havia sido dele e do meu pai. Foi muito cedo que a minha avó nos chamou e me pôs em alvoroço, dizendo que ia ver coisas muito bonitas, que depois lhe havia de contar, e que me apressasse para as torradas e o café, entretanto ajudou-me a vestir e calçar e disse: agora não te sujes…

Depois de Santarém, as conversas aumentaram e andavam homens de pé, enquanto o motorista não lembrou que se a polícia de trânsito visse ia ser o bonito e o meu tio explicou-me porquê. Durante a viagem ia-me entretendo com o que os meus olhos viam, pela primeira vez, mas também com essas conversas, em alta voz, era como se os homens estivessem num arraial. Fosse porque tinha madrugado ou pelo cadenciado do motor, acabei por adormecer, só acordando quando a camioneta parou e os homens começaram a sair, para irem a uma pequena fonte, para beberem água ou para uma mijinha, na parte de trás do valado, foi o que me disse o meu tio, perguntando-me se também queria. Acabámos por ir mais adiante e entrámos numa taberna: para mim veio uma laranjada, para ele um copo de vinho branco, dos mais pequenos, tal e qual como o meu avô Alfredo gostava. Foi no regresso à camioneta que perguntei ao meu tio se faltava muito e os outros homens, mangando comigo, começaram a dizer que só chegávamos lá de noite, mas eu disse que o que trazíamos na cesta não iria chegar, que sabia muito bem o que a minha avó lá tinha posto, não dava para almoçar e cear… Os homens riam-se e o meu tio ainda mais, às gargalhadas, como era costume nele.

Foi ainda antes da hora do almoço que nos aproximámos do destino, assim pensava eu. Depois de umas curvas, a camioneta a seguir mais devagar, à direita um rio e, mais adiante, os corpos dos homens a elevarem-se, pelo menos de pescoços esticados, mais conversa, olha aqui!… olha ali!… e seguimos à direita para uma ponte sobre o rio, estacionando ainda mais à direita, num largo.  Já chegámos!… disse o motorista. Abertas as portas, os homens começaram a sair e combinaram o que iam fazer a seguir. Uns queriam ir dar uma volta, para ver os  monumentos, havia quem quisesse ir ver o convento, outros queriam andar de barco, no rio, outros queriam ir logo almoçar, no jardim, outros perguntavam quando é que se ia para o “castelo de bode”, e eu, no meio daquilo, olhando, ouvindo, tentando perceber onde estava e para onde íamos, porém, à cautela, de mão dada ao meu tio, que era a minha primeira vez numa série de coisas: a primeira viagem com o meu tio, em vez do meu pai (mas porquê, com o meu tio?…); a primeira vez com tantos homens e nenhuma mulher, como era possível?… e era também a primeira vez que ia ali, um sítio que estava ainda sem saber como se chamava, até que, até que… seguimos para o lado do jardim, por decisão do meu tio, que levava a cesta do farnel e, pela sua atitude resoluta, outros nos seguiram, porém, ao caminharmos sobre uma pontezinha, a caminho do jardim, uma coisa fantástica me atraiu: uma roda gigante, de madeira, girando e carregando água nos seus baldes, parecia mesmo, mas em ponto bem maior, a roda da azenha do rio da Quinta, que o meu pai me mostrara, pela primeira vez, algum tempo antes. Ainda quis ir ver mais de perto, mas o meu tio, com energia, logo me disse: depois de almoço voltamos aqui.

Sentados sobre a relva, protegidos pelas altas árvores, junto ao rio, que ali chega ziguezagueando, com ruído forte ao transpor os açudes no seu leito, passámos o tempo do almoço em volta da nossa toalha, onde o meu tio pôs, com cuidado, aos poucos, tudo o que a avó Alexandrina havia colocado na cesta. Não faltavam os garfos e facas, não faltavam os guardanapos brancos, de pano, não faltava um canivete, para a fruta. Em redor, mais grupos da nossa camioneta, e, entretanto, passeando, outros grupos de outras excursões, de modo que foi-se fazendo conversa entre os pequenos grupos, e começaram a fazer retratos, havia até um senhor que andava por ali, a fotografar quem quisesse. Foi depois de arrumarmos na cesta tudo o que restava que alguns começaram a perguntar: então não vamos dar uma volta de barco?… Regressámos à camioneta, para lá deixarmos a cesta, e voltámos ao jardim para a viagem, no rio, em barcos que se alugavam, à hora. Alugados dois barcos, para os quais entraram, com entusiasmo, e talvez um copito a mais, diversos interessados, foi o início de uma experiência que me ficou para sempre: porque foi a minha primeira viagem sobre as águas; porque pouco faltou para naufragarmos, pensava eu, apesar de se ver o fundo, ali mesmo, e os peixes luzirem, sob os raios de sol, na água límpida, em vertiginosos raides, como se contentes por nos verem ali, em tão alegre e ruidoso passeio. Retirado do barco que tinha a maior lotação, no qual um garrafão passava frequentemente de mão e os alegres convivas faziam adornar a frágil embarcação, puseram-me ali perto, sentado na relva, a recuperar do cagaço, meio nauseante, até que o meu tio mandou chegar à borda e veio ter comigo, não fosse haver problemas, disse-me ele, e logo na primeira vez que me tinha a seu cargo.

Recuperado da tormenta, que meteu enjoo e tudo, foi num banco de ripinhas vermelhas que fiquei um tempo, a ver a roda gigante, sempre a girar, e eu de novo com vontade de a ver mais de perto, enquanto o meu tio, deitando ao ar o fumo do cigarro, com deleite, continuava na conversa com o “Xerife” e o “Garrafão”, alcunhas, já se vê, e de vez em quando dava-me indicações com a mão, para aguardar: já lá vamos… já lá vamos ver o moinho… O tempo a correr, o sol a mudar de posição, as árvores a não servirem de protecção, ali, e foi então que decidi procurar outro banco de ripinhas vermelhas, onde me sentei, porém, foi mais forte do que eu: avancei até à roda gigante, e ali me deixei ficar, silencioso e atento, a olhar os pormenores daquilo tudo, a minha paixão pela água, quem sabe, talvez a começar ali. Estava eu neste êxtase, pela beleza imponente daquele quadro da natureza, quando o senhor dos retratos me aparece de frente, e zás, assenta em mim o olhar e a sua máquina de fole, assim fiquei apanhado para a posteridade, surpreso, olhar tímido, e foi mesmo ele que acabou por me levar ao meu tio e aos companheiros de viagem, que já gritavam pelo meu nome, procurando-me em todo o jardim, e eu ali tão perto, encantado com o movimento da roda da azenha…

Depois do óbvio ralhete, seguiram-se outros retratos, e ainda fomos a um café onde os homens continuaram a beber, outros compraram coisas para oferecerem às mulheres e aos filhos. De regresso à camioneta, foi preciso esperar por alguns, depois foi o início do regresso, durante o qual todos queriam contar o que tinham visto, o que tinham feito, e demorámos pouco tempo até à paragem seguinte. Perguntava eu ao meu tio: e agora, onde vamos?… Ele olhou para mim, ainda estávamos no nosso banco e disse: vamos ver uma coisa que nunca viste… A camioneta estacionada, fomos saindo e alguém começou a dizer o que íamos ver… Castelo de Bode… uma barragem, uma grande barragem, e eu… mas o que é uma barragem?… já muitas excursões ali tinham ido, de muitos pontos do país, dizia o senhor, e aqui está ela, e apontava, façam favor… e nisto começou a dizer muitas coisas sobre aquilo, que eu ainda não sabia o que seria, mas a expectativa estava criada… Avançámos por uma estrada, ainda havia alguns trabalhos por ali, mas era mesmo uma coisa grande, muito grande, tiveram que me pegar ao colo para ver de um lado e doutro, e para que servia aquilo?… E como é que fizeram uma coisa daquelas, tão grande, que tudo o que eu conhecia, podendo ser grande para a minha compreensão, não tinha nada a ver com aquilo?… nem os prédios da Fonte Boa, nem o silo maior da Fonte Boa, nem a ponte do Vale… como era possível?…

Foi no regresso que o meu tio me foi explicando alguns pormenores sobre o que era uma barragem, porque estava ali, naquele sítio, que havia uma central, que se usava a queda da água do rio que por ali passava para fazer electricidade, e eu… hã?… fazer electricidade… com água?… O regresso continuou sob o signo da surpresa e da aprendizagem, misturada com pão e chouriço às rodelas, uma surpresa escondida na cesta, era o que sobrava, para nós dois, do farnel preparado com carinho pela avó Alexandrina. Foi ainda o tempo de o Lobato, que tão vivo havia estado no barco ao lado, passando o garrafão de cinco litros de tinto de mão em mão, estar já aquietado, dormia e ressonava alto, no banco de trás, competindo com o ruído do motor. Adormeci e só dei por termos chegado ao Vale quando o meu tio me acordou. Era noite. As luzes da rua principal, anémicas, puseram à mostra um grupinho de mulheres que vinham esperar os seus homens. O meu pai também já lá estava. Ele e o meu tio conversaram um bocado, sorrindo muito os dois, já depois de o meu pai me beijar e me perguntar se tinha gostado. Disse-lhe que sim, mas também a pensar que o meu tio poderia contar-lhe do susto que lhe preguei, mas tal não aconteceu. Seguimos os dois para a nossa casa, no cabeço da Fonte Boa, pelo carreiro do costume, enquanto o meu tio, chegando ao Pombal, fora para casa da minha avó, no Rio das Patas. Foi quando virámos para a vinha da tia Mari’ da Velha que o meu pai me começou a dizer que tinha nascido naquele dia um menino, que se ia chamar António, meu irmão. Estava explicada a razão de eu ter feito aquela excursão com o meu tio, a Tomar e ao Castelo de Bode.

Manuel João Sá

001 - Cópia (2)
9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. Passeio de barco no rio Nabão
001
9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. No jardim de Tomar.
001 - Cópia
9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. João Sá, Manuel João Sá e “Xerife”, no jardim de Tomar.
001 - Cópia (3)
9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. Um grupo dos excursionistas, no jardim de Tomar.

Os alunos da noite

Naquele tempo, terminadas as aulas do dia, ia eu para a avenida, para aquele desafio de apanhar boleia. Umas vezes juntávamo-nos, outras vezes separávamo-nos. A estratégia, porém, nem sempre resultava, pois os condutores tanto levavam um só como, com surpresa, levavam todo o pessoal.

Ainda hoje tenho matrículas e carros na cabeça. Por exemplo, aparecia o GI-20-40, que era um Fiat, ou o IE-13-17, que era uma carrinha Austin, e tinha boleia pela certa. Às sextas vinha do Entroncamento um cabo da tropa, num Renault pequenino, pintado de verde, de grelhas atrás , e era… trigo limpo. Íamos a correr, a porta abria para a frente e nós, às vezes cinco, a enfiarmo-nos no carrito, e lá íamos, Padeiras abaixo.

Tanto podíamos ter sorte de imediato, como ter de esperar… esperar. Nos dias de menor sucesso, a hora da última camioneta a chegar e eu, ali, com outros, a desesperar, a esticar o dedo, a fazer o sinal e… nada. Então, vindos dos lados do Cartaxo, de Vila Chã de Ourique, do Vale de Santarém… começavam a chegar à cidade os alunos da noite. Iam para a Escola. A nossa Escola Industrial e Comercial de Santarém.

Subida das Padeiras

E eu, que maldizia o estar ali, à boleia, a procurar poupar uns dinheiritos… ficava vencido pelo  querer daqueles homens, alguns ainda jovens que, de bicicleta, faziam aquele caminho, para irem à Escola. De bicicleta. Outono, Inverno, Primavera, Verão. E eles, com chuva, vento, frio, calor, cansaço, sono, fome… eles a subirem as Padeiras, depois de subirem e descerem outros pontos da estrada, eles com as pastas de cabedal, na bicicleta, junto ao suporte traseiro, ou enfiadas no quadro… e depois, terminadas as aulas, pontos, exames, eles a voltarem a casa. Com chuva, vento, frio, calor, cansaço, sono, fome. E no dia seguinte, tudo a acontecer outra vez. Trabalho, viagem para Santarém, aulas, regresso a casa…

Eles, vindos dos lados do Cartaxo, de Vila Chã de Ourique, do Vale de Santarém… e de tantas outras aldeias e lugares, trezentos e sessenta graus em volta de Santarém, eles de bicicleta ou de motorizada, eles com o sacrifício a comandar a vida. Eles em busca de mais saber, de um emprego melhor, de uma vida diferente. Eles, a caminho do sonho. Após, todos os dias, desde manhã até à ida para a Escola, labutarem para o ganha-pão, seu e da família, tudo tão difícil…

Então, eu ali à boleia, a maldizer a sorte, cada vez menos carros para esticar o dedo para o sinal da praxe, eu ali e a ver aquele homem da minha terra, que todos os dias, sol ou chuva, trabalhava no campo, ia a casa mudar de roupa e se punha a caminho da minha Escola… aquele homem, bem mais de 40 anos, as mãos calosas da enxada e de outras alfaias, subia as Padeiras e lá ia ele a caminho da Praça Visconde Serra do Pilar…

Este homem chamava-se Manuel Martins Ferreira. Natural do Vale de Santarém, amigo de meu pai e de meu tio. Fez o Curso Geral de Comércio na minha Escola, no tempo mínimo de 6 anos que o curso durava. Este homem só teve dificuldades a Caligrafia, porque as canetas escorregavam nos calos que tinha nos dedos… este homem, disseram-me, mesmo assim teve 13 a Caligrafia, todas as outras notas foram superiores… este homem, exemplo como tantos outros homens e mulheres, ALUNOS DA NOITE da minha Escola Industrial e Comercial… deixo-lhes aqui uma homenagem… tardia, mas sentida, profundamente sentida, profundamente sentida…

Manuel João Sá.

(Esta crónica também foi publicada no blogue Alfageme Santarém, dos Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial de Santarém, em 30 Jan 2011).