As aroeiras do valado, pela Primavera

Pela Primavera, as aroeiras do nosso valado já se mostravam pujantes de vida. Eram nossas companheiras, ali há muito tempo, desde que o nosso avô António “da Velha” tudo arroteara, para plantar vinha, oliveiras e árvores de fruto. Cresciam no valado, de parceria com silvas e carrasqueiros. O valado fazia de extrema com a estreita estrada, de terra batida, de frente para o ovil da Fonte Boa, a qual ligava com a estrada do “carril”, de caminho para o Vale. É a estrada que hoje tem o nome de Manuel da Silva Sá, meu pai. Ali, onde era o nosso casal, chamava-se “Casal do Cantadeiro”, porque o “Cantadeiro”, que tocava guitarra e animava bailes, no Vale de Santarém, na Póvoa da Isenta e no campo, era nosso antepassado. Era o proprietário daqueles terrenos. Hoje chamam-lhe “Casal Catarino”, mas isso resultou de um engano: não se respeitou a história do lugar.

Tenho o perfume das aroeiras entranhado, desde sempre. Vem-me à memória, quando por elas passo, seja onde for. Esmago as folhas, os frutos, e lá está o perfume intenso, saudável. Lembro-me dos coelhos bravos que se refugiavam nas moitas de erva, junto ao valado, dos ratos e dos sardões que de lá saíam, e de uma cobra gigante, que nos aterrorizava, e que vagueava entre o nosso valado e o terreno do João “brasileiro”. Havia uma figueira enorme, que se entrelaçava com outra, perto do valado. Os pássaros, em bandos, eram fregueses diários das figueiras, até deixarem os figos só com pele, uma casca fininha, o pé agarrado, ainda, aos troncos, por vezes com buracos, viam-se os raios de sol, através dos buracos, ao fim da tarde. Eu subia às figueiras e ficava lá a aguardar os pássaros que, àquela hora, atacavam as figueiras de um modo particular: os papa-figos, os mais vorazes, mas também os mais bonitos, só nessas alturas os conseguia ver de perto, era isso mesmo que eu queria. Pela Primavera os papa-figos faziam os ninhos no único eucaliptal que havia por ali, um pouco abaixo da casinha da família das três gémeas (Ana, Clara, Joaquina) minhas amigas. A casinha ficava a meia encosta, no terreno do “brasileiro” e o eucaliptal era noutra propriedade ao lado, dizia-se que era dos “Garceses”. Íamos ver os ninhos, muito altos, tecidos entre as folhas dos eucaliptos, os ninhos como açafates, as folhas a bailarem ao sabor dos ventos e os ninhos lá em cima, baloiçando, baloiçando… guardando os ovos lá ficava a mãe, depois nasciam os filhos e, todos os anos, a natureza cumpria-se. Aquela colónia de papa-figos, que nidificava no eucaliptal e ali se reproduziam, era certa no ataque às nossas figueiras, todos os anos.

Ontem calhou voltar a estar de novo junto a um mar de aroeiras, carrascos e outros arbustos da charneca portuguesa. E como hoje começa a Primavera… VIVA A NATUREZA. TODOS OS DIAS!

Manuel João Sá

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1º ENCONTRO DOS VALESANTARENOS QUE COMBATERAM NA GUERRA COLONIAL

Foi com Manuel Gaspar Pedro, mais conhecido por “Manuel da Cantina”, que começou a mobilização de jovens do Vale de Santarém para a Guerra Colonial, no caso concreto para os territórios da Índia sob a dominação portuguesa. Isso aconteceu em 1954 e este nosso conterrâneo haveria de lá permanecer até 1955. Depois, outros valesantarenos seriam enviados para a Índia e, desde 1961, muitas dezenas mais haveriam de partir para outras frentes desta guerra, que iria alargar-se a Angola, Moçambique e Guiné, onde movimentos de guerrilheiros lutavam pela independência daqueles territórios. Timor e Macau haveriam de receber também forças militares, nas quais seriam integrados alguns conterrâneos nossos.

Embora sujeitos a correcção, os números relativos aos valesantarenos que estiveram na guerra colonial são os seguintes, de acordo com Miguel Centeno, que facultou tais dados, que agradeço:

MILITARES DO VALE DE SANTARÉM – COMISSÃO DE SERVIÇO NAS EX-COLÓNIAS

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QUATRO VALESANTARENOS HAVERIAM DE PERDER A VIDA NESTA GUERRA

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Além dos que perderam a vida, outros houve que foram feridos em combate, tendo de confrontar-se, vida fora, com as tristes consequências que a guerra trouxe às suas vidas.

Vai realizar-se este ano, pela primeira vez, um encontro dos valesantarenos que foram mandados para tais teatros de guerra. Era um desejo que vinha ganhando forma e que, assim, vai ser satisfeito. Para tal, formou-se um grupo que assumiu essa primeira realização. Será no dia 13 de Abril, conforme cartaz que abaixo apresento. Vai ser dado o “pontapé de saída” e, naturalmente, no próximo ano poderá ser outra a constituição do grupo organizador.

Cartaz(Vs2)_FinalO objectivo é conseguir juntar o maior número de camaradas militares que estiveram na guerra colonial, porém esta é uma iniciativa destinada também à participação dos seus familiares e amigos.

O importante é que haja muitas inscrições e que esta realização, que já tardava, passe a constar do calendário anual das actividades da nossa vila.

Pela minha parte, tendo já escrito algo neste meu blogue sobre a minha participação nesta guerra, saúdo todos os que, ao longo de dezenas de anos, viveram também com as consequências directas e indirectas de acontecimento tão complexo e difícil nas nossas vidas, como também para as nossas famílias. E hoje, quando, uns mais do que outros, somos ainda muitas vezes reconduzidos a esse tempo de sofrimento e incerteza permanente, é bom que o nosso encontro ajude a falar e a dissipar o que de menos bom se mantém em nós, dessas memórias que teimam em manter-se.

Ao terminar esta mensagem, é aos que mais sofreram e, sobretudo aos que partiram, que eu expresso a minha sincera homenagem.

Dia 13 de Abril vai ser um dia diferente nas nossas vidas!

Manuel João Sá

 

 

 

 

Homenagem do Vale de Santarém aos combatentes da I Guerra Mundial em 24 de Novembro

No dia 24 de Novembro será a Homenagem aos Valesantarenos que estiveram na I Guerra Mundial. A homenagem é promovida pela Junta de Freguesia, com a colaboração da Associação Cultural Vale de Santarém-Identidade e Memória e a Liga dos Combatentes-Núcleo de Santarém. Com Programa a divulgar muito em breve, esta homenagem, no ano em que se cumpre o centenário do fim desta enorme tragédia da humanidade (o armistício foi em 11 Nov. 1918) vai lembrar e honrar todos os que, do Vale de Santarém, foram chamados para a Guerra. São trinta e dois.

Nas cerimónias, que serão ao longo de todo o dia, vão estar presentes os familiares (filhos, netos, sobrinhos netos, outros) e, além de entidades oficiais, espera-se (deseja-se, é melhor dizer assim) a presença da população do Vale de Santarém, que nesta guerra perdeu um dos seus (José Matias Júnior) e onde outros foram feridos e outros, ainda, regressaram suportando a vida toda os efeitos físicos e psicológicos dos combates e da inalação de gases mortíferos.

Por isso, para todas as idades, sem distinção de filiações partidárias ou de outra natureza, a forma mais activa de honrarmos os Valesantarenos que, em 1917, suas famílias viram partir para aquela mortífera guerra, é estarmos nesta homenagem, um acto de cidadania que é também do presente e com os olhos postos no futuro, ou seja: tudo devemos fazer para que flagelos destes, decididos e postos em andamento por uns (sempre uma minoria que tem interesses que não são os da maioria) arregimentem e lancem na loucura homens, populações inteiras, destruindo milhões de vidas e nações, deixando o mundo no caos.

Também se dizia, quando acabou a I Guerra Mundial, que era para nunca mais. Porém, como sabemos, veio a outra grande desgraça, a II Guerra Mundial e, depois disso, um pouco por todo o Mundo, a tragédia continua.

Cidadania activa. Estar nas homenagens, justas e devidas, SIM! Mas, hoje, fundamentalmente, sermos activos, social e politicamente, nas nossas aldeias, vilas, cidades, em defesa do que nos interessa, como população, como fregueses, como membros de uma comunidade menor ou maior. Pelo bem de todos, pelo bem comum. Se não o fizermos, se não pensarmos que o que há na comunidade e o que queremos que ela seja, no presente e futuro, tem também a ver com as nossas ideias, a expressão em liberdade das nossas ideias e o nosso esforço para contribuir para o bem comum… se não formos cidadãos activos na aldeia, vila, cidade, país (votando, sim, mas muito mais do que isso…) então deixamos o nosso destino aos muitos poderes instalados, ficamos nas mãos das mentiras, da demagogia, dos populismos e, face à deriva dos países, estaremos nas mãos de um qualquer salvador, tenha ele a roupagem que tiver. Esse é o perigo no Mundo, em muitos países, como temos vindo a saber.

Esta homenagem aos combatentes da I Guerra Mundial, onde estiveram trinta e dois Valesantarenos é também, em meu entender, um alerta para esse perigo.

Lá estarei, no dia 24 de Nov., em cumprimento do que já havia dito no meu blogue, em 2017:

https://60emais.wordpress.com/2017/04/23/minha-homenagem-aos-militares-naturais-do-vale-de-santarem-que-combateram-na-i-guerra-mundial/

que tudo faria para que, no centenário do armistício, o Vale de Santarém prestasse homenagem aos seus filhos que combateram na Flandres, alguns deles na batalha de La Lys. Que muitos outros Valesantarenos compareçam, também! é o meu grande desejo.

Manuel João Sá

Lançamento do livro das minhas MEMÓRIAS da Escola Aristides Graça, no Vale de Santarém

O dia 21 de Outubro de 2018, em que o meu livrinho de MEMÓRIAS dos quatro anos de Escola Primária, no Vale de Santarém, foi apresentado, na sala da Junta de Freguesia, constitui um marco muito importante na minha vida.

Foi em ambiente de muito calor humano, partilha, emoção, felicidade, com recebimento de votos para o futuro. Foi uma apresentação de muita qualidade, que me sensibilizou e que muito agradeço, feita pelos Amigos Regina Pinto da Rocha, Victor Pinto da Rocha e Reinaldo Ribeiro, que tanto me honra, e que já haviam acedido também ao meu convite para fazerem a revisão do livro. Antes disso, o presidente da Junta, Manuel João Custódio, já nos havia recebido, dando as boas-vindas, felicitando-me, na sala de TODOS OS VALESANTARENOS, e esse era o cenário que eu havia imaginado para tal.

Um sentido agradecimento a todos os que compareceram e tomaram parte no acto: aos amigos do Vale e de outros lugares; aos amigos do tempo da escola primária como do tempo de outras escolas; aos conhecidos e aos até ali desconhecidos; aos anciãos, como aos jovens e crianças; aos familiares, por fim. Mas, ainda, um agradecimento muito especial, à professora Felisbela Costa, acompanhada por seu esposo, coronel Joaquim Correia Bernardo, pela sua presença, que honra me deram! Dona Felisbela, filha do meu / nosso Mestre, professor Fernando Jaime Soares Costa, natural de Vila Chã de Ourique que, durante 22 anos (metade da sua actividade como professor) esteve no Vale de Santarém, e semeou o saber dar a aprender e o saber ser, para muitas centenas de crianças, a quem chamava “os homens de amanhã”. Lá estivemos, querido professor. E assim continuaremos a ser, os seus “homens de amanhã”, enquanto a vida nos deixar. 

Agradecimento ainda aos que me felicitam pelo Facebook e por outras vias, e aos que me pedem o livro, pelo correio.

A vida “é uma vitória que se constrói todos os dias”. E todos os dias são dias de aprendizagem. Sempre.

Cumpri uma etapa que andava a adiar.

Sim, estou feliz.

Manuel João Sá.

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Sessão de lançamento do livro Memórias-Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, de Manuel João Sá, em 21 Out 2018, na Junta de Freguesia do Vale de Santarém. Momento de abertura, saudações e felicitações, pelo presidente da Junta, Manuel João Custódio.
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Sessão de lançamento do livro Memórias-Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, de Manuel João Sá, em 21 Out 2018, na Junta de Freguesia do Vale de Santarém. Momento da apresentação do livro-parte a cargo de Regina Pinto da Rocha.
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Sessão de lançamento do livro Memórias-Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, de Manuel João Sá, em 21 Out 2018, na Junta de Freguesia do Vale de Santarém. Momento da apresentação do livro-parte a cargo de Victor Manuel Pinto da Rocha.
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Sessão de lançamento do livro Memórias-Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, de Manuel João Sá, em 21 Out 2018, na Junta de Freguesia do Vale de Santarém. Momento da apresentação do livro-parte a cargo de Manuel Reinaldo Ribeiro.
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Sessão de lançamento do livro Memórias-Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, de Manuel João Sá, em 21 Out 2018, na Junta de Freguesia do Vale de Santarém. Momento da apresentação do livro. O  autor fala do livro e agradece a todos. 
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Sessão de lançamento do livro Memórias-Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, de Manuel João Sá, em 21 Out 2018, na Junta de Freguesia do Vale de Santarém. Vista de uma parte da sala. 
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Sessão de lançamento do livro Memórias-Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, de Manuel João Sá, em 21 Out 2018, na Junta de Freguesia do Vale de Santarém. Vista de uma parte da sala. 
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Sessão de lançamento do livro Memórias-Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, de Manuel João Sá, em 21 Out 2018, na sala da Junta de Freguesia do Vale de Santarém. Momento da entrega, à Dra. Felisberta Costa, filha do professor Fernando Costa, de um exemplar do livro. 
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Sessão de lançamento do livro Memórias-Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, de Manuel João Sá, em 21 Out 2018, na Junta de Freguesia do Vale de Santarém. Esta obra tem edição da Associação Cultural Vale de Santarém-Identidade e Memória, fundada em 11 Set. 2018. 

 

Rio da Quinta, de regresso à vida

Vale de Santarém. 18 de Outubro 2018. Um dia para recordar, por boas razões. Concluída a recuperação de um espaço onde minha mãe e muitas, muitas mães e filhas, do Vale de Santarém, lavaram as roupas das suas famílias e de outras casas (grandes) ao longo de muitos anos, talvez séculos, que sei eu?…

No lugar chamado de “rio da quinta”, como noutros pontos do ribeiro que atravessa a nossa terra, era assim, ao longo do ano, quando a água não ia barrenta, ou como quando durante uns anos, em que uma fábrica das tripas começou a poluir tudo, o que meteu revolta, abaixo assinado, GNR a cavalo, denúncias dos pides e de outros, mas ao fim desses anos a fábrica, construída na zona do moinho (azenha) de cima, teve que fechar, e ainda bem.

Ora, este ponto do rio que, aí, passa por dentro do que foi a Quinta do Desembargador, mais tarde de Rebello da Silva, não é só um ponto do rio. Essa histórica memória da nossa terra, (diga-se, de toda a nossa população, há centenas de anos, e por isso resgatá-lo da desgraça em que havia caído era uma obrigação para com o nosso passado, era uma exigência de cidadania) vai agora estar limpo, recuperado, beneficiado, pronto para ser visto e usado com alegria, com sensatez, com respeito pela Natureza e pela História do Vale de Santarém. Um ribeiro que foi sempre fonte de subsistência, de vida, mas também de encontro, de convívio de mulheres, homens e até crianças, que dele usufruíram, que dele cuidaram, que nele e nas suas margens trabalharam, para seu sustento.

Usando, de certo modo, versos de Fernando Pessoa, nós, valesanternos, quando estamos ao pé do nosso “rio”, não estamos só ao pé do nosso “rio”: estamos ao pé da nossa História. Nesta recuperação de um dos nossos símbolos encontram-se o passado, o presente e o futuro que, enquanto água e vida houver, é meu, é nosso, é dos valesantarenos e de todos os que o queiram respeitar e amar. E é preciso mantê-lo, preservá-lo, amá-lo.

Há que dizê-lo: houve uma acção de cidadania que deu frutos. O descontentamento da população era grande, há anos, face à situação, e isso era ouvido da boca de muitos; o Movimento Ecologista do Vale de Santarém vinha-se batendo, publicamente, por esta mudança, e para isso deu ideias e também ajudou nos trabalhos; houve acolhimento, por parte da Junta e da Assembleia de Freguesia, para que os trabalhos se realizassem, e levou-os a cabo; a Câmara Municipal de Santarém também assumiu a sua parte, no processo de recuperação do local. Portanto, 18 de Out 2018, é dia de festa, no Vale de Santarém.

Manuel João Sá

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Memórias, em livro…

Finalmente!… dizem-me, saudando o aparecimento do meu livro, o primeiro que publico, e que é sobre o tempo em que andei na Escola Primária Aristides Graça, do Vale de Santarém, entre 1953 e 1957.

Desde criança que os livros me fascinam. Quando ia à Papelaria Silva, em Santarém, logo após ter entrado para a Escola Industrial e Comercial, sempre que podia ficava a ler as lombadas. Aquele era outro mundo, diferente do dos livros de estudo, também eles com o seu perfume, que comecei a conhecer ainda na Escola Primária. Folhear um livro novo, com “coisas” para aprendermos mais, sentir  o peso, o desenho da capa, as letras do título, o toque, o leve sussurro das folhas de papel impressas, roçagando umas nas outras e, sobretudo, o cheiro daquela tinta, o objecto ainda novo, como que a pedir “abre-me, lê-me, aprende comigo”… era isso que me impelia desde logo a ir por ali fora, quando as lições escolares se sucediam mais lentas, não acompanhando a minha sede de saber.

Na Papelaria Silva, comecei pelas lombadas, fixando títulos e autores, porém, um dia, o Sr.Alfredo, que conhecia o meu pai e já me tinha visto com ele, disse: “queres ver?… podes abrir”. Era um livro de Octave Feuillet, com o título “A vida de um rapaz pobre”. Foi o título que me fez ficar ali, quase a afagar a lombada, e foi por isso que o Sr. Alfredo me autorizou a abrir o livro, de que li uma página, se tanto, pois não tinha dinheiro nem idade para aquela extravagância…  Um dia, alguns anos depois, foi a biblioteca itinerante da Gulbenkian, estacionada como sempre junto à Fonte das Três Bicas, no Vale de Santarém, que me deu a possibilidade de ler esse livro, de que viria, mais tarde, a comprar um exemplar.

Haveria de vir a minha primeira ida à Biblioteca Braamcamp Freire, em Santarém. Foi numa visita de estudo, com a professora de Português a acompanhar a turma e a falar sobre a importância dos livros e das bibliotecas e como poderíamos utilizar aquele espaço para aprendermos mais sobre as matérias das disciplinas. Foi a primeira vez que ouvi falar em pesquisa em livros e jornais, que, não sendo material escolar, eram importantes em termos de aprendizagem. E foi também por via dessa visita e do que depois nos foi dado como orientação para trabalhos a partir da consulta de livros, que cheguei a autores como Alexandre Herculano (Eurico, o Presbítero) e Almeida Garrett (Viagens na Minha Terra) que não mais esqueci.

Depois desse tempo iniciático do contacto com bibliotecas, continuado em férias, na minha terra, através do recurso à biblioteca itinerante (levava sempre alguns livros, com o muito atento conselho do senhor que me atendia, sobre que livros preferir) chegou o tempo de começar a visitar livrarias, sobretudo em Lisboa, onde passei a trabalhar e estudar após os dezoito anos. Foram muitas, muitas horas passadas em livrarias e bibliotecas, por necessidades de estudo, académico ou profissional ou, simplesmente, pelo prazer de ler. Não por necessidade de ocupação do tempo, ou para me entreter, mas para conhecer mais da vida, do mundo, das pessoas, ao mesmo tempo encontrando autores tão diferentes, tão diferentes modos de estruturar as suas obras, tão diferentes modos de dizer…

Entretanto, ao longo dos anos, solicitado por exigências profissionais, fui produzindo catadupas de comunicações, propostas, programas, manuais, apresentações… naquela linguagem marcada pela imperiosa necessidade de vender as ideias, interna e externamente, para servir lógicas de mercado orientadas para objectivos… comerciais, de negócio, de serviço ao cliente, de reestruturação e mudança, de competição, de marketing, de… Pelo meio, como fuga que a mente impunha, e em resposta a uma necessidade que parecia desaparecida mas que regressava em força, via-me a pegar em folhas de papel, para nelas deixar pensamentos, apontamentos breves, memórias de outros tempos, mas também notas sobre coisas que via acontecer, na rua, por exemplo. Pensei algum dia em publicar isso? Não. De cada vez que entrava numa grande livraria (foram desaparecendo, já poucas existem) sentia a mesma atracção de sempre, com um respeito enorme por aquela imensidão de vida, ali, mas longe de mim a ideia de que, algum dia, poderia vir a pensar publicar fosse o que fosse. Até que…

Fui juntando os papéis e, a certa altura, reencontrei mais uns cadernos, com coisas escritas por mim, há muito, algumas por acabar. O fim da ligação ao banco onde trabalhava e a passagem a um regime livre, como formador e consultor, abriu nova oportunidade para continuar a escrever, de vez em quando, sobretudo memórias relacionadas com o meu tempo da escola primária, a adolescência e juventude e a participação na guerra colonial. Um dia, inesperadamente, recebi um convite para mandar para o jornal “O Almeirinense” aquilo que eu quisesse, em jeito de crónica. Foi a minha amiga Zália, que é de Almeirim e que trabalhava no jornal, que me disse algo como: “A redacção do jornal gosta do que escreves… manda para lá… quando quiseres” e foi assim que passei a ter, durante alguns anos, uma colaboração algo irregular, com o título genérico de “Coisas da Vida”. Foi assim que comecei a ter os meus primeiros leitores, recebendo, uma vez por outra, apreciações, sugestões, perguntas, às quais procurei responder da melhor forma. Depois, quando criei este meu blogue, fui transpondo para aqui parte do que havia escrito, com maiores preocupações, dado que aumentava o universo de potenciais leitores. Foi um período longo de maturação, que aliás continua, e tantas vezes me interrogo sobre o que penso e como penso, sobre o que digo do que penso, para ser lido, se é que há, ou continuará a haver interesse no que penso e digo, mesmo que se trate, por enquanto, muito mais de memórias, que são obviamente coisas de passado e isso pouco pode valer…

Foram-me chegando opiniões de… leitores do meu blogue. “Passei a ter leitores, coisa de grande responsabilidade!”, impensável, para mim, há décadas, já que o mais que eu havia tido era muitos leitores das minhas comunicações profissionais, de relatórios e manuais, enfim, conteúdos marcados por objectivos muito distantes dos que entretanto foram ganhando em mim lugar, sentido, urgência, vivência diária. Chegaram opiniões que se colaram a uma pergunta que ia fazendo: será que um dia vou publicar algo do que escrevo?… O quê, quando, como? Opiniões que eram positivas, de amigos e de desconhecidos, e que me interrogavam do seguinte modo: Já pensou em publicar as suas crónicas? Porque não o faz?…

A resposta, por agora, está dada. Publiquei o meu primeiro livro, que é de memórias do tempo de menino da escola primária, na minha terra. Nele também deixo agradecimentos a quem devo o apoio, o conselho, o saber técnico para o pôr “de pé”. O livro é o que é: singelo, breve, autêntico. Certamente com todos os defeitos e algumas virtudes de um primeiro livro. Nele coloquei tudo o que tinha para dizer, tudo o que tinha para dar, por agora, com referência ao tempo e temas desse período da minha vida. E dei o meu melhor, estou certo. Agora (e isto é coisa nova para mim) o livro vai ter vida própria: de mim saiu, vai pertencer a quem o ler, que o fará com a sua específica forma de pensar e de apreciar o que lê. E isso é com cada um, obviamente. Já nada posso fazer pelo que escrevi e publiquei, neste meu MEMÓRIAS – Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, que tem lançamento público, na minha terra, em 21 deste mês de Outubro de 2018.

Manuel João Sá

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183 participantes no convívio anual dos antigos alunos da Escola Aristides Graça, do Vale de Santarém

Foi mais um dia de saudável confraternização. Uma das melhores afluências, num clima de muita tranquilidade e alegria, contando também com a presença de alguns que quiseram estar pela primeira vez, tanto da velha Aristides Graça como da EB2. Como é natural, a Comissão que organiza este evento só pode estar feliz.

O programa foi cumprido na íntegra e nem o muito calor que se fazia sentir teve algum efeito, embora, por via disso, nem todos tivessem ido à escadaria do edifício principal da Fonte Boa para a foto de grupo. 

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Pelas 10 da manhã fez-se a abertura da Exposição, a qual apresentou mais objectos e documentos e foi, de novo, muito apreciada.

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Depois foi a homenagem ao professor Fernando Costa, junto à placa do Largo que tem o seu nome. Ali fizemos um minuto de silêncio e deixámos um ramo de flores.

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De seguida, no cemitério, foi a romagem e colocação da coroa de flores, em memória dos alunos e professores ali sepultados – Sr. Aurélio Faria e D. Tomázia.  A missa, desta vez na sala de sessões da Junta, foi a partir das 12 horas.

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O almoço começou perto das 13 H 30. Findo o almoço, que foi do agrado geral, começou o sempre aguardado período de dança, no qual o amigo Rafael Vargas manifestou a qualidade e o entusiasmo que lhe conhecemos, oferecendo a música e a voz que fizeram rodopiar, toda a tarde, os pares interessados. Enquanto isso, o Francisco Marques e a sua equipa iam procedendo à amostragem das muitas fotos que haviam tirado, as quais puderam ser logo adquiridas e entregues no local, o que se saúda. 

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Destaque também para a entrega que fizemos de cadernos, provas escritas e livros, pertencentes a antigos alunos, uma boa surpresa que temos podido praticar e que vamos manter em próximos convívios, enquanto houver essas recordações para entregar.

Por fim, de referir ainda que, pela minha parte, foi a apresentação, durante o almoço, do livro MEMÓRIAS da Escola Aristides Graça, a qual não havia sido anunciada por não ter a certeza de que a gráfica me daria os exemplares a tempo – foram-me entregues no dia anterior ao convívio. Trata-se das minhas memórias desse tempo de aluno da escola primária e, também, da observação da vida à minha volta, no núcleo familiar e no universo específico da aldeia.

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A exposição manteve-se até ao dia 6 de Outubro, conforme anunciado, recebendo ainda mais alguns visitantes nesse período. 

Terminado mais um encontro de convívio anual, resta-nos concluir que, apesar do muito trabalho voluntário que é preciso realizar, a equipa sente-se recompensada, pois a afluência foi de grande nível e o agrado foi geral. Vamos agora fazer o balanço do convívio, pensando já em 2019.

Saudações fraternas,

A Comissão organizadora

Francisco Ferreira – José Marques – Luís Quina – Manuel João Sá – Manuela Grazina Margarida Silva – Miguel Centeno – Virgílio Pereira – Vitorina Rosa