Andei, com outros rapazes, ao “Pão por Deus”.
Na verdade, pelo menos na primeira vez e durante algum tempo, não sabia bem por quê, quais as razões, “faz-se assim”, diziam os rapazes mais velhos e as mães e avós, sobretudo elas, as mulheres das nossas casas, das nossas vidas, porém, a tradição (nem nisso se falava, tradição) estava no calendário e, uns dias antes, nunca me lembrarei quando e como, mas recordo-me do onde (no Rio das Patas, ou seja, uma parte do Vale de Santarém por onde corria um ribeiro, todo o ano, a que chamávamos “rio” e, “das patas”, também só muitos anos depois soube por quê, diziam, e pronto, era assim…) ribeiro com nascente mais a oeste, pró Cabralão, mais ou menos, e então lá nos entregaram, as mães (no meu caso a avó Alexandrina) a cada um o saco para irmos ao “Pão por Deus”, o da minha avó era às riscas amarelo-torrado, verticais, com o atilho em cima, e ela explicou: vais por aí, a todas as ruas, bates à porta, e dizes “Pão por Deus”, e ficas à espera. Se abrirem a porta voltas a dizer “Pão por Deus” e abres o saco, pode ser que dêem alguma coisa, se derem diz obrigado, se não… vem-te embora, e bates a outra porta. Perguntei-lhe: e o que é que vão dar? E ela: se derem, pode ser marmelos, uvas, nozes, amêndoas, castanhas, rebuçados, o que calhar. E alguns tostões… Muitos? perguntei eu. E ela, a rir francamente, depois disse: se te derem um cruzado já tens muita sorte. Um cruzado… eu já sabia, da Escola Primária, era quatro tostões, em duas moedas de dois tostões.
Foi comigo até à cancela de madeira, de acesso à rua, íngreme, de terra batida e buracos tapados com pedras e bocados de madeira e outros materiais inconcebíveis para tal, as enxurradas abriam crateras, e lá fui, ao encontro dos outros rapazes, mais ou menos da mesma idade, pois tínhamos falado dias antes sobre aquela coisa do “Pão por Deus” e a equipa estava formada. Começámos a subir a rua e a bater às portas, umas abriam outras não, a estas jurámos voltar pela tarde. Dada a volta à rua, até ao topo, lá conseguimos algumas colheitas, também sorrisos, perguntas, além de lamentações, “há pouca coisa, o tempo estragou os marmelos”, dizia uma velha enfarruscada, os dentes era mais buracos, muito tristinha, “pró ano é melhor, filhos, vamos a ver, come diz o outro”…
Por ali andámos, até descermos para outras ruas, os saquinhos a encher, até que encontrámos um grupo de rapazes mais velhos, vindos da parte mais a oeste do Rio das Patas, onde dominava o João Ferreira, ás na bola e na atiradeira e ratoeira de apanhar pássaros, que nos disse que nas casas onde não dessem nada nós devíamos rogar uma praga, raistabrasem ou pior, e atirar pedras pró quintal, que era assim que se fazia, de modo que, no preceito de fazer o “Pão por Deus”, que ouvira da boca da avó Alexandrina, estava agora a ser introduzida a novidade do castigo a quem não desse nada, e logo pelo João, filho do Sabino, tão amigo do meu pai, aquilo era coisa muito forte, a lei dos mais velhos. Os outros entreolharam-se, e como para mim era a primeira vez, mostrei, à ordem do João, o que já tinha no saco, o mesmo acontecendo aos do meu grupo. Chegando à zona da “Senhora Gorda”, no Casal de Santo António, o João disse “Oh canitos (ou seja, pequenitos) práli na vão, ca gente já fomos a todas as casas, ouviram?”, e assim foi, achámos que era melhor voltar para trás, ordem do João, estava feita a viagem.
Como rescaldo do meu primeiro “Pão por Deus”, a satisfação de o ter feito, com os meus amigos, o trazer o saco quase cheio, com marmelos, nozes, figos passados, amêndoas, uvas de pendurar, três romãs e dois tostões, quer dizer, meio cruzado, e rebuçados de mentol, que vendia o Gimbrinhas, na farmácia, dádiva de uma velhinha rouca e com o lenço negro tão puxado pra diante que quase só se via a ponta do nariz adunco, a sobressair.
A minha avó quis logo saber como tinha corrido o “Pão por Deus”. Satisfeito, entreguei-lhe o saco e, perante a expectativa do silencioso avô Alfredo, ela deu uma gargalhada de admiração por tanto ter conseguido, e logo quis coscuvilhar sobre quem tinha dado o quê, mas mesmo que eu quisesse explicar não podia, que estava tudo misturado, só lhe falei de quem tinha dado os dois tostões, de quem por sinal não sabia o nome, disse-lhe do pormenor de a senhora ter tirado a moeda do lencinho que tinha no bolso do avental.
A tradição do “Pão por Deus”, também um ritual de passagem que, para mim, aconteceu assim. Andava eu na segunda classe, em 1 de Nov. de 1954, no Rio das Patas, Vale de Santarém. Haveria de vir o tempo em que ficaria a saber, afinal, a raiz e o fim do “Pão por Deus”.
Hoje, no Vale de Santarém, a Comissão de Pais da Escola EB1 está a recuperar o “Pão por Deus”, com a parceria das Associações, uma tradição portuguesa. Em boa hora, bem melhor do que as invasões das culturas dominantes que, a nível universal, nos impingem “halloween’s” e quejandas práticas, que nada têm a ver connosco, a nossa cultura, onde o objectivo comércio/lucro, é que domina e o marketing massivo promove. Enfim…
1 de Nov 2025
