Dias Felizes…
Por cá vamos estando, desde que do ventre materno saímos e, na sucessão dos dias e do que eles vão sendo, para cada um de nós e os nossos familiares e amigos, e para o país, deles colhemos: momentos, horas, períodos, fases, acontecimentos para recordar. Normais, difíceis, tristes, exaltantes, felizes, muito felizes, enfim… a vida.
O que os dias da nossa vida nos vão dando, é isso. E também o que nós vamos dando à nossa vida e à vida de outros: sim, aos familiares, aos amigos, à comunidade, ao País, ao Mundo.
Foi bom, tem sido bom, ou antes, por vezes, pelo contrário? Ou seja: de que natureza será o saldo? O saldo, pela avaliação dos outros em relação a nós; a nossa avaliação, em relação aos outros, a maioria das vezes arrasadora; a nossa avaliação, a nós mesmos, julgadores em causa própria, talvez quase sempre benevolentes, outras vezes talvez severos.
Nós, seres humanos carregando o enorme saco de passado, de bom e mau, de positivo e de negativo, muito bom, de assim-assim… um saco que muitas vezes, muitos de nós gostaríamos de largar em qualquer lado, porém ele de nós não se despega. Temos de o carregar, até ao fim da caminhada.
Contar-se-ão pelos dedos das mãos, dizem, os dias felizes das nossas vidas. Ao fim e ao cabo, a felicidade é passageira, rápida, fugaz, esvai-se na vertigem da sucessão dos dias vividos, e nós sempre sempre na mira de “amanhã poderá ser melhor”, pelo menos os que olham o futuro com esperança, com confiança, com alma de quererem melhorar o Mundo. À sua volta, ou mais além. Triste iludido… oiço um grilinho sarcástico, aqui ao lado, a rir-se de mim… Vai-te, grilinho!…
Dias felizes. Sim, tive-os. Tenho-os tido. Os da conclusão das minhas etapas escolares e académicas, desde os tempos da primária, e foram muitos. Como os dos jogos e brincadeiras em que saí vencedor, ou não sendo, os vivi intensamente, pelo puro prazer de estar ali, com outros. Os das aprendizagens sucessivas, acumulando-se, dos pequenos nadas do ser vivente, enquanto rapaz, adolescente. Os dos êxitos dos irmãos. As descobertas, o princípio de algumas amizades para toda a vida. O primeiro dia da minha actividade profissional, aos 18 anos, que durou quase mais 40, e além disso, mais dez como empresário em nome individual. E depois, as actividades associativas, o primeiro livro, o continuar a aprender, voluntário, militantemente. E a errar. E a acertar. E a errar outra vez, e por aí fora. Até hoje. E assim vai ser.
Dia Feliz, o do primeiro amor, como o do casamento. Os do nascimento dos meus filhos e netos. Os do regresso da guerra colonial, a bordo do Vera Cruz, ao cabo de 27 meses em Angola, no total muito mais de três anos de vida militar forçada, de interrupção da vida profissional e pessoal. Dias da guerra colonial, que marcaram e marcam dias: pelas memórias, pelos regressos ao teatro da guerra, a perseguição dos sonhos na mata, as emboscadas, a náusea do cheiro a pólvora, a cada passo o imprevisto, o medo.
E o dia 25 de Abril! E o 1º Primeiro de Maio!
Esse 1º Primeiro de Maio, depois da tal e inesquecível “madrugada que eu esperava, O dia inicial inteiro e limpo, Onde emergimos da noite e do silêncio, E livres habitamos a substância do tempo”, como a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen deixou dito, para sempre, sobre esse seu/meu/nosso Dia Feliz, do 25 d’Abril de 1974. Da Liberdade. Do caminho para a Democracia. De um futuro para construir, e por construir, e ainda o é, mas não já dos negros dias de um passado tenebroso, a que não quero voltar.
Enfim, 1º de Maio, pela primeira vez em Liberdade! Do mais brilhante e imenso sorriso, do grito à lágrima da Felicidade individual, colectiva. Do coração cheio de vibração e de sentimentos de gratidão enorme, eterna, aos que escancararam as portas da Liberdade e semearam caminhos de espanto, para abraços, ideias e obras novas.
Todos os dias, em todo o Mundo, milhões vegetam na mais terrível desgraça. Todos os seus dias são dias infelizes: pela guerra, pela extorsão, pela rapina, pela fome, pela sede, pelas doenças, pelo abandono por parte do resto do Mundo.
O meu 1º de Maio, como sempre, é um Dia Feliz. Desde 1974.
O meu 1º de Maio é um dia em que sempre esse saco de passado dos infelizes volta à minha mente. Eles não têm dias felizes. O resto do Mundo (e sobretudo alguns países donos do Mundo e seus yess) assim querem que aconteça. A História do Mundo é um amontoado gigantesco, descomunal, de ossos e cinzas. E lágrimas, que formaram oceanos e secaram, sem esperança.
O saco que o Mundo opulento e rico traz às costas é hediondo.
Porquê? Até quando?
Viva o 1º de Maio!

1º de Maio de 1974 – Lisboa – Estádio 1º de Maio