Que havemos de fazer, se não inclinarmo-nos, em homenagem sentida, perante a memória daqueles que connosco viveram os difíceis tempos de guerra, e hoje, sabemos, foram a enterrar?…
Telefonou o Piscarreta, esta manhã. É para lhe dizer que este ano ainda não vou poder estar com a malta, tenho pena, as coisas estão más, não pode ser… foi o que começou por dizer. Depois… e tenho umas notícias chatas para lhe dar… o nosso amigo Cabrita… já partiu… fui ao funeral… mas não é só isso, o Beirão também já se foi… foi há dias…
O Cabrita. Parecia um menino. Um rosto de muita seriedade, responsável até à medula, corpo franzino, parecia que tudo lhe dançava naquela roupagem de camuflado de guerra. Por ser assim, ficou decidido que iria ser o cantineiro, e foi. Nessa missão teve um desempenho excelente, tanto na tarefa como na outra parte, quando lhe cabia aturar os menos fáceis e atravessados engolidores de cerveja Cuca e Nocal. Noutras vezes, o Cabrita dava ânimo aos que iam para o mato, para uma saída mais perigosa, depois confortava-os no regresso, exaustos, estropiados, silenciosos, ausentes.
Quantos pais e namoradas receberam notícias à custa do Cabrita? Sabe-se lá?!… O que nós sabíamos é que era muito procurado por outros que, não sabendo ler, pediam que ele lhes lesse as cartas que recebiam ou escrevesse as respostas.
Veio este problema… dizia-me ele… agora tenho de ver, ano a ano, se posso ir ao nosso convívio, eu gostava, mas… Há dois anos fui a sua casa, no Alentejo, quase à entrada do Algarve. Estava mal. Ainda voltámos a encontrar-nos uma vez, no nosso convívio anual. Agora, partiu.
Partiu o Cabrita, assim como o Beirão, também alentejano . Um poço de vivacidade e de energia, num rosto tisnado pelo sol da região de Castro Verde. O Beirão. Pequeno, sem parança, alegre, o cabelo negro, uma voz forte, bom no cante, como no petisco e seu acompanhamento. O Beirão, no papel de cabo, a dar ordens, à sua secção e mais que fosse, de um modo rápido, directo, seguro, parecia um homem grande.
Ao pé do Beirão não se podia estar triste, que ele arranjava maneira de fazer soltar o riso, a gargalhada, a conversa variada e desabrida. Por isso, quando havia descanso, à volta dele fazia-se uma roda de camaradas bem dispostos.
Na mata, sabia-se que o Beirão era ágil, rápido, felino, o corpo miúdo encobrindo-se na folhagem. Ele, como afinal todos, em cada momento a procurar não ser alvo, que a vida era para continuar, fora dali.
E, há mais tempo, o Batista foi-se embora. A vida pregou-lhe partidas, que nem o seu Vitória alguma vez ousara - que ele era de Setúbal. Estou a ouvi-lo, no comboio, entre Évora e o Cais de Alcântara, a luz das carruagens a acompanhar-nos entre sobreiros e azinheiras, a noite a meio, e ele, a carregar nos erres… meu alferes, daqui por dois anos tamos cá, você vai ver, tamos cá… sou eu que lhe digo, mai nada… depois enfiou novo gole de aguardente no bucho e mais não disse, até ao Setil.
Pois, Horácio Batista, foram mais de dois anos, e nós voltámos. Voltámos todos, quis a sorte que assim fosse. Agora, pouco apouco, a chamada lei da vida vai cumprindo o seu papel. Sabemos que não há nada a fazer. Mas custa o caraças, rapazes. Custa mesmo, a quem cá fica. Até um dia…
Manuel Sá




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