60emais

2012/05/12

CABRITA, BEIRÃO E BATISTA – TRÊS CAMARADAS DA CART 2573 QUE PARTIRAM

Que havemos de fazer, se não inclinarmo-nos, em homenagem sentida, perante a memória daqueles que connosco viveram os difíceis tempos de guerra, e hoje, sabemos, foram a enterrar?…

Telefonou o Piscarreta, esta manhã. É para lhe dizer que este ano ainda não vou poder estar com a malta, tenho pena, as coisas estão más, não pode ser… foi o que começou por dizer. Depois… e tenho umas notícias chatas para lhe dar… o nosso amigo Cabrita… já partiu… fui ao funeral… mas não é só isso, o Beirão também já se foi… foi há dias…

O Cabrita. Parecia um menino. Um rosto de muita seriedade, responsável até à medula, corpo franzino, parecia que tudo lhe dançava naquela roupagem de camuflado de guerra. Por ser assim, ficou decidido que iria ser o cantineiro, e foi. Nessa missão teve um desempenho excelente, tanto na tarefa como na outra parte, quando lhe cabia aturar os menos fáceis e atravessados engolidores de cerveja Cuca e Nocal. Noutras vezes, o Cabrita dava ânimo aos que iam para o mato, para uma saída mais perigosa, depois confortava-os no regresso, exaustos, estropiados, silenciosos, ausentes.

Quantos pais e namoradas receberam notícias à custa do Cabrita? Sabe-se lá?!… O que nós sabíamos é que era muito procurado por outros que, não sabendo ler, pediam que ele lhes lesse as cartas que recebiam ou escrevesse as respostas.

Veio este problema… dizia-me ele… agora tenho de ver, ano a ano, se posso ir ao nosso convívio, eu gostava, mas… Há dois anos fui a sua casa, no Alentejo, quase à entrada do Algarve. Estava mal. Ainda voltámos a encontrar-nos uma vez, no nosso convívio anual. Agora, partiu.

Partiu o Cabrita, assim como o Beirão, também alentejano . Um poço de vivacidade e de energia, num rosto tisnado pelo sol da região de Castro Verde. O Beirão. Pequeno, sem parança, alegre, o cabelo negro, uma voz forte, bom no cante, como no petisco e seu acompanhamento. O Beirão, no papel de cabo, a dar ordens, à sua secção e mais que fosse, de um modo rápido, directo, seguro, parecia um homem grande.

Ao pé do Beirão não se podia estar triste, que ele arranjava maneira de fazer soltar o riso, a gargalhada, a conversa variada e desabrida. Por isso, quando havia descanso, à volta dele fazia-se uma roda de camaradas bem dispostos.

Na mata, sabia-se que o Beirão era ágil, rápido, felino, o corpo miúdo encobrindo-se na folhagem. Ele, como afinal todos, em cada momento a procurar não ser alvo, que a vida era para continuar, fora dali.

E, há mais tempo, o Batista foi-se embora. A vida pregou-lhe partidas, que nem o seu Vitória alguma vez ousara - que ele era de Setúbal. Estou a ouvi-lo, no comboio, entre Évora e o Cais de Alcântara, a luz das carruagens a acompanhar-nos entre sobreiros e azinheiras, a noite a meio, e ele, a carregar nos erres… meu alferes, daqui por dois anos tamos cá, você vai ver, tamos cá… sou eu que lhe digo, mai nada… depois enfiou novo gole de aguardente no bucho e mais não disse, até ao Setil.

Pois, Horácio Batista, foram mais de dois anos, e nós voltámos. Voltámos todos, quis a sorte que assim fosse. Agora, pouco apouco, a chamada lei da vida vai cumprindo o seu papel. Sabemos que não há nada a fazer. Mas custa o caraças, rapazes. Custa mesmo, a quem cá fica. Até um dia…

Manuel Sá

2012/05/05

MÃE, FALTAM-ME AS PALAVRAS…

Filed under: Minha Mãe — 60emais @ 19:21
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Mãe

faltam-me as palavras

faltam-me as palavras…

dizem que é teu

um dia

mas eu sei

o teu dia é

todos os dias

as noites

as horas

os minutos

as ausências e silêncios

de mim

de nós

longe

porque nos deste

e em ti ficámos

para sempre

tu não nos deixas

não nos deixas

eu sei…

Faltam-me as palavras

Mãe

faltam-me as palavras

e o saber

para escrever de ti

desde o sorriso à mágoa

da alegria à raiva

da poesia à praga

e no entanto

brotou de ti

vida

em catadupas

desde as entranhas

de onde nós

de ti

viemos à luz…

Faltam-me as palavras

Mãe

vão faltar-me sempre

como a todos os filhos

e aos filhos dos filhos

dos filhos

de outras Mães

nesta infindável

eterna

estrada da vida

que Mãe não se define

não se explica

não se ensina

que Mãe…

minha Mãe é

minha Mãe

está lá tudo

e está tudo dito

ponto final.

 

Em homenagem à Minha Mãe

Em homenagem a Todas as Mães

TODOS OS DIAS

2012/04/18

CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – EM ABRIL, OS HOMENS À CHUVA.

Filed under: 25 de Abril,Vale de Santarém — 60emais @ 19:12

Chuva. Uma morrinha, lenta e longa, e os homens nas tabernas. A cheia a pôr o campo como um mar, as copas das árvores, para lá do chaboco da vala, a dançarem conforme a força da corrente, pela tarde foi o pescador tirar ainda uns do meio do campo, depois quase noite, o vento a varrer tudo e a fazer ondas naquele mar cinzento acastanhado. Uns pontinhos de luz, ao longe, para lá da cheia e do Tejo, o rio agora tragado pela inundação, ali é Benfica do Ribatejo, mora lá uma prima nossa, era o meu pai a dizer…

Os homens. Dias e dias sem poderem pôr pé no campo. Os homens, sem trabalho, sem direito a salário, quando havia cheia era assim. Os homens, mais as mulheres, a procurarem fazer qualquer coisa, na horta, na casa, no quintal… as mulheres a atearem o lume ao cair da noite, pela madrugada, ao almoço, talvez deixe de chover, talvez a cheia passe, o vento mudou, se calhar amanhã isto levanta, se calhar, sim mãe, se calhar, ela a olhar, a sondar os… astros, como dizia, ela animal do campo a farejar, em cata da mudança, mais que desejada, tenho aquele faval todo deitado abaixo, todo acamado, raisparta o tempo…

Os homens. A taberna do Zé Ingês. Em frente, bancos corridos, troncos de árvore serrados ao meio, assentes em pés de madeira, na terra. A chuva, mole mole, a enegrecer os bancos, o alcatrão em frente, lavado, brilhante, a demorarem-se nele os feixes de luz dos faróis dos carros, os pneus a fazerem jeeeee…. e os homens a fumar, à porta da taberna, olhando para o vazio do nada e, lá dentro, nuvens de fumo, cheiro a mofo, a vinho, humidade, conversas poucas, dois jogos de sueca, ruído de cartas nos dedos ágeis, sons ocos de mãos-dedos-murros nas mesas, este foi nosso, porque é que não vieste ao destrunfo?…

Os homens. A chuva mole mole. Os que vêm de algum trabalho trazem capuz-de-saca-de-batatas enfiado na cabeça, corre água em bica até às botas de couro e cardas, na face poisam salpicos, sobre a barba, Ti Zé bote aí o costume… qu’isto tá um tempo dos diabos, s’esta chuva na parar… tá aqui oh Jaquim, o Zé Inglês a pôr o copo de três a jeito, no balcão, por cima a lâmpada embaciada a lançar luz contra o prato de esmalte, estão agora mais iluminados os da sueca.

Os homens, em Abril, à chuva, sem trabalho, sem salário. Qualquer sinal de descontentamento, de suposta agitação e era mais que certo que a pide podia aparecer. Em Abril, ou em Janeiro, ou Fevereiro, ou… No Vale de Santarém como em qualquer outra terra, campo, fábrica, casa… Era assim.

Abril. Como estamos longe desse tempo de noite e mágoa, de sofrimento e medo!…

Abril 2012. Como estamos longe, porém, da nossa assunção como cidadãos, como homens e mulheres políticos, na luta permanente pelo seu presente e futuro?!… pois que novo negrume se abateu sobre a nossa cabeça, sob o comando dos mesmos de sempre?…

2012/03/08

Mulher!

Filed under: Amiga,Avó,Filha,Minha Mãe,Mulher — 60emais @ 13:05

Mulher!

2011/12/31

2012 – O PRIMEIRO DE MUITOS ANOS HORRÍVEIS

Filed under: Cidadania — 60emais @ 19:53

Lá fora, sol de inverno. Porém, a deitar calor suficiente, de modo que aqui, perto da janela, está-se bem.

O calendário, nesta parte do globo, as mais das vezes rima com frio, dias chuvosos, ou nevoentos. Mas, ao que parece, vamos dizer adeus a 2011 tendo o sol por companhia. Oxalá.

E… Vamos então entrar no ano besta. Aquele que, por muitas razões, nunca nos deveria aparecer pela frente como tal, como besta. Mas é assim que vai acontecer. A nós, aqui no rectângulo onde existimos como PAÍS PORTUGAL, há séculos. A nós, Povo que há uns tempos (poucos) uns senhores de cá e outros da estranja andam a apelidar de… esbanjadores, gastadores, calaceiros, incompetentes, porcos, corruptos… e mais uma série de epítetos do mais abjecto que se possa imaginar.

No entanto (e a verdade vai sendo encontrada, esmiuçada, esclarecida… contada por muitos outros) tem sido gente que tem poder (os do dinheiro, os empresários de topo, os dirigentes, os influenciadores – em lobbies, nos corredores, escondidos, secretos, por todo o lado - os governantes incompetentes e seus apaniguados e protegidos e mais uma série de bandidos a coberto desses poderes…) são todos esses que têm feito deste País aquilo em que ele se tornou – um alvo fácil para abandonar à sorte dos mercados, ou seja, dos escondidos vilões e agiotas encartados, protegidos por doutrinas e leis que põem em causa a própria existência de um País soberano.

Podemos votar, mas quem manda cá são os mercados, ou seja, gente sem rosto, que durante anos encorajou o zé-povinho a comprar, comprar, comprar… endividar-se, endividar-se, endividar-se… até à exaustão do sistema, e agora somos nós a aguentar a dívida monstra, anos a fio vamos tê-la pela frente. Ah, e não se esqueça, já nos avisaram que nunca mais se voltará ao tal “esbanjamento”.

Muito está ainda por saber. Mas o que já sabemos é que estamos nas mãos desta gente, e que também estamos nas mãos dos credores internacionais, quer dizer, de uns indivíduos e seus grupos de interesses que manipulam a seu jeito e depois arranjam formas de os zés-povinhos dos países mais frágeis terem que pagar, até ao seu empobrecimento em amplos aspectos da sua vida – todos ou quase todos - os tais “desmandos” para que haviam sido entusiasmados.

Há MUITOS MESES escrevi por aqui que precisávamos, URGENTEMENTE, de uma nova, diferente, afirmativa assunção de cidadania política de cada vez mais seres viventes neste país, de modo a que não continuássemos a ser arregimentados para situações em que, tanto partidos, como governantes, autarcas, caciques locais… como influenciadores de opinião pública, nos encaminhassem para políticas criminosas, de becos sem saída, de falsas soluções para o nosso futuro próximo.

Basta lembrar o que Cavaco andou a defender: autoestradas e mais autoestradas, corte e abate de vinhas e outras culturas, abate da frota pesqueira, transformar o país numa zona de serviços… que seríamos a Califórnia da Europa. Mas como ele, dezenas e dezenas de arautos da facilidade, afinal políticos sem préstimo, a não ser com sentido no interesse particular ou de grupo e no negócio e no argumento de ocasião, para vencer eleições e perpetuar ou reconquistar o poder, pelo poder. 

2012. Ano horrível? Sim, será, decerto, mas não será o único: será antes o primeiro de um continuum que não sabemos onde irá parar e como. Por culpa de quem tem tido o poder, de quem fez cursos superiores e, sobretudo, se esperava que tivesse capacidades para imaginar, perspectivar, planear e realizar investimentos, públicos e privados, que dessem um sentido ao País, que não fosse este de caír no abismo, na banca-rota, na chacota internacional.

Culpa de políticos, sobretudo dos dirigentes dos partidos – do chamado arco do poder (PS, PSD, CDS) – que não aprenderam nada, depois que se viram com o brinquedo PORTUGAL nas mãos. São uns incapazes, uns garotos, uns submissos, sem chama, sem nível, sem alma. Não servem nem para gerir uma empresa, quanto mais para gerir um País.

Culpa de muitos dirigentes, a diversos níveis, da administração pública central e local, que se orientaram muito mais para serem correias de transmissão de partidos e de grupos de pressão partidários, em vez de cuidarem da coisa pública, do bem comum, do interesse do cidadão, com uma acção independente, assente na justiça e não nos favorecimentos, nos truqes, nas falcatruas, nas cunhas…

Culpa de empresários, sem qualidade, sem formação, sem interesse pelo País senão enquanto chavão para enganar tolos, para manipular e arregimentar seguidores. Culpa de empresários e negociantes sem escrúpulos que, em conluio com dirigentes políticos centrais e locais, muitas vezes mais não fizeram do que transferir bens rústicos, urbanos e capitais para os seus cofres e património privados, defraudando o erário público.

É claro, culpa da massa anónima, generalizada, da população, que confiou até ao indizível em quem elegia: para Belém, para o governo, para a autarquia, para… Ou seja, a grande maioria, os sem-poder, afinal os mais fracos de entre todos, têm a culpa de não terem sabido dizer ALTO AÍ! BASTA! e de não terem agido em consequência, contudo não seriam esses, nós, os sem-poder formal e poltíco-financeiro, afinal a grande maioria, a poder alterar, inverter, o rumo dos acontecimentos. Porém, é essa grande maioria anónima que está já a suportar a canga do défice, da dívida, da afronta do esbanjamento, do “viver acima das posses”, que os tratantes com poder, de todos os matizes, vêm agora dizer que “não podia continuar”… 

2012. Cá estamos, à espera que ele chegue. Pela primeira vez na minha vida, como certamente na vida de muitos portugueses, o ANO NOVO surge com um  manto de espesso nevoeiro, que não é atmosférico, mas sim um espesso negrume que se espalha nas nossas vidas, sobretudo na vida dos mais frágeis e desprotegidos. Parece nada de bom se divisar neste horizonte breve de um ano, e o mesmo se espera dos anos que se seguem. Coragem, sabedoria, solidariedade concreta, são palavras-força que, por mim, tentarei levar por diante. Mas, ainda mais, a assunção de uma atitude cívica activa, uma atitude política enquanto cidadão que não pode ficar indiferente perante os caminhos que o nosso País está a levar. 

Aos que me acompanharam no ano de 2011, um obrigado, e um desejo de muita sáude. Cá estamos. Para continuar!

Manuel

2011/12/23

O NATAL EM TEMPOS DE TRISTEZA

Filed under: Aprendizagens,Boas memórias,Natal,Vale de Santarém — 60emais @ 19:07
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O Franco passava por nós, mas era como se não existisse. A bem dizer, lá na terra muitos já não o consideravam pessoa. Eu próprio, rapaz, via-o como alguém que andava pela estrada, mas que parecia já não ser deste mundo. Não se via a falar com quem quer que fosse, ou era o que eu pensava. Dizia-se: olha, ali vai o Franco, e mais nada. Descalço, pés grandes, com os dedos inchados e avermelhados pelo frio, ou pela inclemência do calor do alcatrão, o Franco dobrava as esquinas com os seus os olhos encovados, metido nas suas vestes compridas de andrajo, quase sempre curvado, ainda mais porque esguio, sobressaíam-lhe os poucos dentes negros entre a barba hirsuta, trazia porém bastas vezes um pau ou uma pequena enxada às costas, e lá pendurado um molhito de erva, a caminho de uma coelheira de alguém, que lhe pagava pelo trabalho semanal. Uns tostões, para o tabaco e para o vinho.

De onde viera?… a que família pertencia?… porque andava ele, por ali, sem casa, sem um trabalho regular?… porque tinha ele de dormir onde calhasse, as mais das vezes atrás dos valados, ou num palheiro, ou numa casa abandonada?… quase sempre com vinho a mais dentro dele, levando-o a longos períodos de ausência de si, do mundo, de tudo?…

Foi numa véspera de Natal que, subindo o carreiro da aldeia para casa, comecei a ouvir um som que tanto podia ser de um ser humano como de qualquer outro animal. Era um som profundo, que parecia situar-se entre dois pontos, um máximo e um mínimo, com grande intervalo entre eles. Era um ronco demorado, poderia dizer-se que traduzia uma agonia lenta. 

A noite começara a cair. O dia estivera cheio de sol, apesar de frio. O céu pusera-se de azul a caminhar para violeta, os ramos dos sobreiros recortavam-se no horizonte em tons de ciclame, como se fosse um ecrã de cinema para a natureza toda, no cimo da encosta subia ao ar o fumo na chaminé da nossa casa, era minha mãe  já a acender o lume para tratar da ceia.

Fui-me aproximando. À esquerda o valado onde as madressilvas apareciam sempre primeiro, a seguir o canavial, por onde corria o regato que eu tinha de transpor, de um salto. O ruído crescia por detrás do valado, de modo que se ia tornando mais nítido, mais cavernoso à medida que avançava. Parei. Por momentos até me pareceu que o ruído desaparecera, mas logo depois o quer que fosse mexeu-se, o som deixou de ser como até ali. Esbatera-se. Tremi um pouco. Por detrás do valado, lenta, lentamente, ergueu-se a custo uma figura negra, ainda mais negra pelo contraste derivado ao contra-luz, eu estava virado para o poente, onde havia ainda uma réstea do sol que se fora.

Quem está aí, foi a pergunta, numa voz profunda e rude. Seguiu-se um pequeno silêncio, depois: sou eu, respondi, porém sem dizer quem assim falava. Fiquei onde estava. Um melro, que àquela hora sempre aparecia por ali nos últimos cantos do dia, esvoaçou entre oliveiras, e quedou-se, silencioso, num ramo. Mas quem é que está aí? voltei a ouvir, numa voz um pouco menos rude, talvez mais próxima, se calhar a sentir-se segura perante o pequeno tamanho de quem tinha pela frente, do lado de lá do silvado. Também eu serenei um pouco, deixando de apertar o pau que, para me proteger na volta a casa, deixava sempre escondido sob o carrasqueiro do caminho. Foi então que ele disse, numa voz um tanto calma, profunda: tá bem, já sei quem tu és, rapaz… és o filho daquele casal, lá em cima, não é?… sou sim senhor, respondi…

Passou um tempo pequeno que pareceu então enorme. Ficámos calados, frente-a-frente, cada um do seu lado do silvado, e foi então que eu disse para mim “é o Franco”, aquele que para os outros já não era pessoa, aquele que até o rapazio atacava com ditos, com investidas para lhe tirar o gibão quando caminhava, cambaleando, como se fosse um pipo de vinho, sujo e esfarrapado. 

Então vou até lá acima, disse eu, mas fiquei um pouquinho ainda, como se esperasse a anuência dele. O Franco nada disse. Vi que o corpo se lhe arqueou um pouco e a cabeça se fixou no chão, pois eu via-o agora menos bem do outro lado do silvado. Foi então que eu quis dizer “boa noite senhor Franco”, mas não cheguei a falar, porque foi ele que me disse: vai, vai, que a tua mãe se calhar vai fazer os coscorões… vai… só te queria pedir que nunca mais me chamasses Franco… isso é uma alcunha que me puseram, não sei porquê… o meu nome é Luís… Luís, ouviste?!… 

Sim, senhor… Luís… então… senhor Luís… boa noite. Dito isto voltei-me para o carreiro e iniciei o regresso a casa, levando as palavras do Franco… senhor Luís… na cabeça. Ao entrar, minha mãe afadigava-se junto à chaminé, as panelas para a ceia ainda debaixo do lume do fogão a lenha, mais tarde iria  ela pela noite dentro a estender a massa, a recortá-la com o rodízio, para a fritar e assim conseguir os estaladiços coscorões de massa fina e saborosa, com que sempre nos brindava.

O Franco, o senhor Luís, foi o primeiro sem-abrigo que conheci. Sem-abrigo, classificação que naquele tempo não existia. Um desgraçado, era assim que se dizia. Decerto, todos os seus dias seriam tristes, infelizes. Os seus dias de Natal seriam ainda muito, muito mais infelizes. 

Ao longo da vida, este acontecimento veio-me à memória imensas vezes, sobressaindo a lição de dignidade que o senhor Luís me soube dar. Agora, neste PRIMEIRO NATAL EM TEMPOS DE TRISTEZA por que passamos, aqui neste nosso País, veio-me à memória novamente esta enorme lição de vida. Agora, quando tantos se vêem encaminhados por alguns para a miséria, numa escalada vertiginosa, aterradora, que ninguém sabe como vai evoluir e como e quando vai parar… se parar. 

Apelemos pois para a dignidade e a honra em nós e encontremos os caminhos, as forças e as acções para não nos deixarmos sepultar em vida. 

Manuel

2011/12/16

MEMÓRIA DE UM NATAL NA GUERRA

(Em memória dos ex-militares da Companhia de Artilharia 2573 que já faleceram. E como saudação de Natal a todos aqueles que partilharam comigo esses difíceis e incompreensíveis dois anos e alguns meses de guerra em África).

1969. Aproxima-se o dia de Natal. Estamos em Angola. Somos quase duas centenas de rapazes, com um rapaz um tudo-nada mais velho, que só tem 25 anos. É o comandante. Tem o posto de capitão e fez o curso da academia militar. Para além dele, profissionais do exército só há mais dois sargentos. Os restantes são civis transformados em militares. Para servirem a pátria, dizem. Para combaterem o inimigo, dizem. Para combaterem os terroristas, dizem.

Saímos de Lisboa há meses. Quase duzentos, mas muitos ainda  adolescentes. Muitos ou a grande maioria. Estivemos em preparação, alguns meses. Fizemos exercícios, deram-nos armas, aprendemos a dar tiros, a cercar o inimigo, a fazer emboscadas, a atacar de surpresa, a atirar a matar, a transportar feridos, a fazer a retirada e… a voltar a atacar.

Um dia partimos de Évora, rumo a Lisboa. Era de noite. De fora vinha cheiro a carris de caminho-de-ferro e a orvalho. E no comboio, um cheiro a azedo, de madrugada tresandava a vinho e a suor. E a tabaco. O comboio devagar, quilómetro atrás de quilómetro, a luz das janelas projectada no silêncio. Silêncio e árvores a sumirem-se, na escuridão daquela noite, em pleno Agosto.

O sol foi-se levantando. Chegámos a Lisboa. O Vera Cruz à nossa espera. Desfilámos. Entrámos no navio. Lágrimas. Em nós e no cais, em Lisboa toda, no país inteiro, ao partirem mais uns milhares para a guerra. O ronco surdo de motores, vindo das entranhas do navio, seguido de um ronco profundo, um silvo trágico, como se anunciasse desgraças por vir. Partíamos. Lágrimas, braços, corpos, lenços… tudo a dizer adeus, adeus, adeus… Depois, a costa a esfumar-se, e a seguir só mar e céu, mar e céu. Onze dias, dia e noite, dia e noite. Tristeza. Angústia. Náusea, vómito, cansaço, por fim… terra.

Agora estamos cá. O Natal vem aí. Para nós e para muitos milhares que estão aqui, em Angola. E também para os que estão em Moçambique, Guiné, São Tomé e Príncipe, Timor. Nós a defendermos a pátria, dizem, e os nossos pais, irmãos, namoradas, mulheres, filhos… à espera. Nós na garganta, corações apertados, à espera do Natal. Como vai ser diferente este ano, para nós e para eles!…

O capitão decidiu que o destacamento que está na serra vai ter visita de Natal. Nesse dia, sairão da base duas secções para irem estar com eles. O capitão também vai. Estão lá nove militares, sob o comando de um furriel. Têm um posto de vigia. Vivem numa clareira, no cimo da serra. De noite ficam em grutas cavadas no chão, protegidos por troncos de árvores, terra e folhas de alumínio. Nada de luz, nem o mais leve sinal ou descuido – nem petromax, nem fósforos, nem isqueiro, nem cigarro. Em volta, só mata, mata… Árvores gigantescas, zonas impenetráveis, escorregadias, húmidas, onde o sol não entra. E os animais, como loucos, a gritar… E as sentinelas aguçando olhos e ouvidos para a escuridão.

Na serra, os homens são abastecidos uma vez por semana, se as viaturas chegam lá acima. Se chove muito, em vez de subirem, escorregam, escorregam… e voltam para trás. Talvez no dia seguinte, ou no outro, ou no outro… quem sabe.

Vai ser dia de Natal. Na base, a companhia vai ter rancho melhorado. No refeitório iremos pôr ramos de laranjeira e palmeira, que na minha terra também se enfeitam assim os fontanários. E talvez os cozinheiros saibam fazer bolo-rei, por certo sabem fazer rabanadas. E talvez seja possível encontrar vinho do Porto… talvez. E talvez a noite seja de paz, e o nosso inimigo não seja nada disso…inimigo… e nós… nós não queremos mais do que paz!…Paz.

Manuel

O refeitório, enfeitado com ramos de laranjeira e palmeira, para o almoço do dia de Natal. Songo-Uíge. Natal 1969.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Destacamento militar na Serra de Uíge - Angola 1969/70 - Os militares dormiam em buracos, na encosta, com coberturas de terra, madeira e folhas de zinco

2011/11/10

O TEMPO DAS CASTANHAS

Filed under: Boas memórias,Minha Mãe,Vale de Santarém — 60emais @ 22:36
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Foto de Wikimedia Commons / English Wikipedia; Foi candidata a "Picture of the Year 2006"

Comprava-as na loja da Dona Conceição, a minha mãe. Chegavam aí umas três semanas, se tanto, antes do São Martinho, em sacas de linhagem. Vinham para nossa casa num cartuxo de papel pardo, com umas riscas vermelhas na vertical. O cartuxo era colado no fundo com uma massa, que o meu pai jurava ser de cimento, para tornar o cartuxo mais pesado. Assim, dizia ele, pagamos mais pelas castanhas. Pelas castanhas e por tudo o que fosse pesado naqueles cartuxos…

Todas as lojas tinham castanhas à venda. Algumas punham-nas bem à vista, de modo que, reluzentes, parecendo polidas até, quase as ouvia dizer ”leva-nos”. E a Dona Conceição, onde também se compravam os melhores cadernos de duas linhas para as cópias, vendo-me olhar com apetite para a saca dizia-me… tira duas ou três. Tenho na memória o que se seguia: um tempo longo, desde o descasque à retirada da película que cobria o fruto, até à mastigação, o lento saborear da castanha crua… Ainda tinha bons dentes, claro.

A minha mãe trazia sempre erva-doce, num cartuxinho em formato de cone, que a Dona Conceição fazia num farete, enquanto continuava a falar, os dedos a moldarem o papel, num afago, a darem-lhe a forma que saía na perfeição, depois a  ir com o copo à caixa de madeira, para tirar os pequenos grãos, a lançá-los no cartuxinho e depois a dobrar a ponta, e pronto… oh Emília, já está!… 

Tínhamos um assador de barro, com buracos, que meu pai tinha comprado na Feira dos Santos, fazia uns anos, num dia aborrecido, de névoa e chuva mole, em que até andámos no carroussel. Minha minha mãe ia sempre resgatar o assador daquele abandono de mais de nove meses, dado que era usado só meia dúzia de vezes, no tempo das castanhas.

O assador escapou um dia das mãos de alguém, de modo que se quebrou, mas ainda servia, apesar de ter perdido uma asa e ter levado arame a segurar os bocados. Funcionou assim alguns anos, mas um dia desapareceu, foi substituído por um tacho de alumínio, onde se fizeram uns buracos. Dali em diante havia sempre quem dissesse… no tempo do assador de barro  ficavam mais saborosas… Mas havia também quem dissesse o contrário. Foi assim que se formaram três grupos: o dos que gostavam mais do assador de barro, o dos que gostavam mais do tacho e o dos que… para eles era indiferente.

Mas a especialidade lá de casa eram as castanhas cozidas com erva-doce. Era nesta modalidade que a nossa mãe apostava. Lavava muito bem as castanhas, dava-lhes um golpe não muito profundo com o canivete de cabo branco, e punha-as no tacho, com um pouco de sal. Só quando estavam prestes a levantar fervura é que lhes deitava a erva-doce. Para mim, até poderia haver outros preceitos, mas se a minha mãe fazia assim, era assim mesmo que ficava melhor, até porque o sabor era… fantástico.

Comíamos as castanhas devagar, para as saborear bem, mas mesmo assim elas desapareciam depressa, isto porque o rancho era grande. A certa altura ganhávamos autorização para um gole de água-pé, que fazíamos no nosso pequeno lagar. À medida que íamos crescendo tínhamos acesso a mais goles, de tal modo que, sorrateira como a água-pé costuma ser, pregava-nos alguns calores inusitados. Uma noite, água-pé e castanhas, umas cozidas e outras assadas, fizeram tal estrago na rapaziada que no dia seguinte a solução foi… muito chá de  macela. 

Há alguns dias que venho comendo castanhas. Assadas, cozidas, sabem-me sempre como naquele tempo. E hoje até consegui comprar uma garrafa de água-pé, mas de modo um tanto clandestino. O rótulo diz Vinho de Mesa Rosé. Disse-me o vendedor que não se pode ter água-pé à venda. Coisa estranha, quando se trata de um produto natural, obtido por processos semelhantes aos do vinho… E soube-me muito bem, a água-pé, mais as castanhas, neste tempo da tradição  de S. Martinho, apesar dos dias negros e de miséria que vão chegando.

CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – REENCONTRO E CONVÍVIO AOS 65 ANOS

Foi-se aproximando o dia. 30 de Outubro. Antes das 10 da manhã e já a Engrácia esperava, com o marido, que chegassem as raparigas e rapazes da sua idade. E, aos poucos, eles foram aparecendo: o Sá, o Garcez, o Reinaldo, a Silvina, o Baeta, a Vitorina, a Maria Adelaide, o Melanda, o Azenha. Um pouco mais tarde chegaram o Joaquim Rafael, a Manuela Martins e o Isaac Lopes. E, uns atrás dos outros, vários momentos de reencontro, de sorrisos, de abraços, de perguntas: como estás, quantos filhos tens… e netos?… que tens feito?… eh pá, há quantos anos a gente não se via?… E as memórias: vocês lembram-se daquela vez…

Apareceram até dois jornalistas. Queriam fazer reportagem. Queriam saber a razão daquele reencontro, qual era o programa, o que recordávamos daqueles tempos. E nós, sem deixarmos a prioridade das nossas conversas, lá íamos respondendo.

Veio a Dolores, filha da Adelaide, que tratara com a Junta de Freguesia do acesso às instalações da Escola. Trazia a chave. Logo depois transpusemos o velho portão de ferro. Por momentos, a minha cabeça muitos anos atrás, quando só era possível espreitarmos, da parte de fora, as meninas que brincavam no recreio. E, logo ali, à direita, a grande porta de madeira, que servia de pano de fundo às nossas fotografias anuais. Vinha um senhor, trazia aquela máquina enorme, abria o tripé, que firmava no chão, a máquina ficava quase pronta para o retrato, depois era só ele pôr a cabeça dentro duma manga preta, ficávamos um tempinho em pose e, num repente, um clique. Assim ficávamos, para sempre, ligados àquele momento único, irrepetível. Rostos. Olhares. Roupas. Batas brancas ou camisetes, ou camisolas. Casacos, alguns. Nos pés, talvez sapatos, ou botas. Ou nada.

A emoção de entrar na minha escola, tantos anos depois. Lá está ainda a coluna ao meio da sala e, junto a ela, era onde ficava a secretária dupla que o Reinaldo lembrou, ali mesmo, de nós dois partilharmos com outros. No canto da sala, à direita, a secretária dos professores. Lá vi eu a doce Maria Augusta, da 1ª classe, mais a velha rabujenta e violenta da 2ª classe, e também a bem torneada e risonha Maria Adelaide Caria, da 3ª classe e, por fim, o Mestre, o professor Costa, a ensinar-nos como só ele sabia, desde os problemas do caderno 1111 – mil cento e onze – até às guerras com os espanhois, que ganhámos sempre, pelo menos na versão daquele tempo. E, na parede da direita, o molho de atiradeiras que, uma vez encontradas em alguns de nós, o professor Costa pendurava no prego grosso, espetado bem lá no alto.

Subimos a íngreme escadaria de madeira, curvando lá em cima à esquerda, e entrámos no espaço onde viviam a Dona Tomázia e o Senhor Rodrigues. Depois, seguindo pelo corredor, a escola das raparigas. Sala ampla, inundada de luz, agora vazia, em início de obras. No entanto, eu a ver onde ficava o quadro. Na mesma parede, ao lado direito, a Dona Tomázia, uma vez por ano, projectava aquele filme com a história da velha que rolava dentro de uma cabaça, para fugir à perseguição do mau da fita.

A sessão começava sempre com uma prelecção da Dona Tomázia, que incidia sobre o bem-fazer, obrigação de todos, quem o não fizesse seria sempre castigado. Na minha memória, a máquina de projectar. Velha, ruidosa, por vezes partia-se a fita, uma, duas, três vezes, mas a sessão chegava sempre ao fim. Fim que era sempre o mesmo. Porém, para mim e para as minhas irmãs, que acompanhei em pelo menos duas sessões, esse foi o primeiro filme das nossas vidas. Inesquecível.

Encaminhámo-nos depois para o cemitério, para a homenagem anunciada aos que já partiram. Relembrámos com saudade os professores e os alunos que a morte já levou, deixando flores nas campas dos que repousam no Vale: Dona Tomázia, Lurdes Cassiano, Rui Sá e Francisco Vieira (falecidos na guerra colonial) e Ângelo Carvalho. Da mesma idade, embora sepultado em Caldas da Rainha, recordámos o Orlando Rodrigues.

Após a missa seguimos para o restaurante Varanda do Parque, no CNEMA. Aí, já com a presença da Lucília, continuámos o convívio, o primeiro após 58 anos da nossa entrada naquela Escola Primária que, fundada em 1915, ficou com o nome de Aristides Graça, o benemérito que, então, ofereceu o terreno para a sua construção.

O almoço, servido com o agrado geral, constituíu mais um tempo de recordação dos tempos vividos na nossa Escola, onde as trocas de memórias vieram também à mesa, delas comungando todos – os nascidos em 1946 e os seus familiares e amigos.

Ficou bem vincada a satisfação pelo reencontro, assim como a vontade de o repetir no próximo ano, sendo opinião expressa por muitos de que se deverá pensar em alargar o leque do grupo a raparigas e rapazes de outras idades. E a posição dos que tiveram a iniciativa e organizaram este 1º encontro vai exactamente no sentido de que assim deverá ser.

MJSá

Grupo de antigos alunos na visita à Escola Aristides Graça - Vale de Santarém - 30 Out 2011

2011/10/28

CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – HISTÓRIA DA ESCOLA PRIMÁRIA (PARTE 2)

Dona Augusta, professora das meninas durante muitos anos

Meu pai tinha muito desgosto de não saber ler… nem ele nem minha mãe foram à escola, de modo que tudo fizeram para que eu fosse,… isto é a minha mãe a contar-me de como foi a sua vida, naquele tempo, de como um dia foi levada pela tia, para fazer a inscrição e, depois, como passou a conhecer a Dona Augusta, sua professora da 1ª à 4ª classe.

… Não éramos muitas. Lembro-me da Gertrudes, que veio a ser mulher do Artur Tendeiro, aquele que teve a loja… lembro-me da outra Gertrudes… bem, nós cá dizíamos Estrudes, mas deixá-lo… essa outra, que também era muito minha amiga, e que na verdade se chamava… deixa cá ver… Maria Gertrudes Malfeito Vítor… olha era a mãe do João Vasco, quase da tua idade, pois… e quem mais?… eu a perguntar.

Uma pausa. Minha mãe, agora na casa de saúde, a espreitar a vida lá fora, pelos quadradinhos de uma janela, uma palmeira em frente, mais adiante os prédios do outro lado da rua, ainda assim ela a poder prever o tempo… se calhar amanhã vai chover, estou a ver ali um sinal no céu… 

… Espera aí um bocadinho… ai como é que se chamava outra… ah! era a Maria Virgínia, tia da Dina e da Maria João, netas do João Padeiro, isso, isso… éramos tão amigas, amigas mas a valer!… ela coitada também já morreu… já morreram todas, só cá estou eu… e eram mais umas poucas, não me recordo dos nomes… fomos todas ao exame da quarta e ficámos bem… é verdade… 

… a Dona Augusta era um grande professora… foi em Santarém, foi… a minha mãe, tua avó, já se vê, foi lá ter, foi com a tia, mas quando lá chegou já eu tinha feito a prova oral… a Dona Augusta até disse que a mim é que deviam ter dado a distinção, que eu é que merecia, mas não, foi uma da Romeira… a minha professora ficou até zangada com as do júri…

A tarde a caminho do fim, eu à espera e a minha mãe a voltar atrás no tempo… o marido da Dona Augusta era o senhor Conde… tinha uma torrefacção de café em Lisboa… e eu, confundido, a perguntar-lhe Oh mãe, mas esse não era o senhor Aristides Graça… a mãe disse-me outro dia que o senhor Graça é que tinha essa torrefacção… Não, não, ouviste mal… foi a resposta pronta… o senhor Conde é que tinha uma torrefacção em Lisboa, depois montou outra no Vale junto à praça, agora chamam-lhe mercado, naquilo onde morou o Curado, ou ali perto…

Eu a dizer para mim… tenho que emendar a história da escola, mas a minha mãe a continuar… era tão bonita a minha escola, o jardim… havia aquela rua das palmeiras, havia até uma palmeira que tinha umas grandes tâmaras, íamos apanhar as que caíam, eram tão saborosas!… nunca vi nada igual… a Dona Augusta deixava-nos  ir também apanhar laranjas, comíamos ao lanche ou levávamos para casa… quando as laranjeiras ganhavam flor levávamos cestinhas para apanhar… as flores eram para as nossas mães fazerem chá…

… um dia, muitos anos depois, a Dona Augusta foi para a reforma, quem a subsituíu foi a Dona Tomázia… a Dona Augusta deixou de morar no edifício da escola e foi para uma estalagem que havia nesse tempo, entre o Manel d’Oliveira e o João Cardoso, que era ferrador… essa estalagem era de um senhor chamado João Romão… mas a Dona Tomázia protegeu sempre a Dona Augusta, ia lá visitá-la, foi até ao fim da vida… ficou sepultada no Vale… foi a Dona Tomázia que tratou do funeral…

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