Memória da Feira dos Santos, do Cartaxo

Lá íamos, em família, sempre a contar com o que era esperado, mas também aguardando alguma novidade. Era no centro da vila, com o bulício e o ruído do costume, as barracas carregadas de artigos para a venda, naqueles dias febris de feira, de encontros, de surpresas, de muitos olhares para um mar de gente que vinha de todos os lados, trezentos e sessenta graus em redor estava ali, outros de mais longe. Uma misturada de vozes, de corpos, de cores, de sons dos altifalantes, os do Circo Mariano puxando pelas palmas do “generoso e inimitável público” para o trapezista que subia, subia, subia para o mais alto, lá, junto à lona, os tambores a rufar, a rufar, o trapezista preparado no corpo e na alma para o número mais arriscado e fantástico da sua vida, em busca da satisfação dos presentes, em busca da ovação, em busca do pão.

Há sacas de castanhas por vender, mas também as há lançando ao ar o fumo que vem dos assadores, e os seus perfumes cercam-nos sem cessar e ardem-me os olhos; há nozes como que pintadas a verniz, reluzentes, sob o manto feérico das luzes pendentes, nozes e amêndoas a dizerem-nos “levem-nos, que hoje é dia de pão-por-Deus”; também figos passados, dos pretos aos moscatel e outros pequeninos, amarelinhos, “estes são do Algarve”, diz o homem, apontando; há as barracas de brinquedos, que são de lata de folha-de-flandres, cheios de cor, desde as cornetas aos apitos, das camionetas da carreira aos triciclos, das carroças, com cavalo e tudo, às ‘caminetes’ de carga, das máquinas de costura aos ferros de engomar, das cozinhas às panelinhas de ir ao lume, no fogão, que também lá está. Há os piões, as fieiras, os pífaros, que são de barro pintado de branco, com argolas às cores, que não tarda nada um ou mais hão-de cair por ali, logo se partem, solta-se a choradeira e, “Tás aqui tás a levar uma estalada, raça do cachopo!..”

Cada criança é um mundo de desejos, vai daí “Oh mãe, olha aquela boneca tão linda mãe!…já viste?!…” e a mãe “Sim, já vi, mas o tê pai é que manda!…” e a cachopita lá se atreve, encosta-se ao pai, nada diz, olha a boneca, olha para o pai, olha a boneca, olha para o pai, num olhar suplicante… “Pronto, tá bem”, solta o pai a pergunta desejada: “De qual gostas mais?” e é assim que a menina ganha uma bonequinha, de faces rosadas, de papelão revestido a cores, que a tornam quase humana, a bonequinha sorri para sempre e vai entrar no sonho da menina, esta noite, pois há uma irmã que não tinha…

As barracas das botas e sapatos estão mais adiante, e por ali também se mostram as dos fatos, das samarras e dos safões, e as dos bonés e chapéus para a cabeça, que as dos chapéus para a chuva hão-de aparecer também. Foi por aqui que, anos mais tarde, ganhei uma samarra, fartei-me de experimentar, era suave e quente a gola de pele de carneiro, para o castanho escuro, e dizia o homem “Vá rapaz, olha-te aqui ao espelho, estás ou não todo pimpão?!…”, enquanto a mulher dele, esganiçando-se, voz rouca, apresentava a mercadoria ao público passante: “Veja bem, o senhor aí, veja, apalpe, experimente a qualidade dos nossos artigos, veja aqui, ó freguês!”

Foi aqui, na Feira dos Santos, que comi pela primeira vez frango de churrasco, assim dito por quem nos convidava para a barraca de comes-e-bebes, e foi uma geral do dito para toda a família, mais os refrigerantes e outros acompanhamentos, que era preciso preparar para a ida ao circo, já era grande a chinfrineira que vinha pelo altifalante: “Caros senhores e senhoras, comprem aqui os bilhetes para o Cirreeeeco Marrriano!… o mais antigo de Porreeeeetugal!… é às tantas horas a segunda sessão do nosso maravilhoso espectáculo!”

E lá fomos. Lá fomos ao circo, numa noite única, a findar um dia memorável. Na histórica Feira dos Santos, do Cartaxo. Em 1957.

Manuel João Sá.

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “Memória da Feira dos Santos, do Cartaxo”

  1. Comentários por mail:

    Mais uma vez obrigada pelas tuas memórias, que são também as minhas…
    Ir ver o circo ao Cartaxo, na Feira dos Santos, e voltar para casa a pé pois já não havia “caminete” para o regresso. Nesse tempo não havia medo de sermos assaltados na estrada.
    Ai que saudades!!!!!
    Mil abraços.
    Ana Maria Rebello Teixeira.

    Em Mangualde também há Feira dos Santos, feira que se realiza desde o ano de 1681, no 1º fim de semana de novembro. Lá estaria no próximo fim de semana para comer as boas febras de porco e as deliciosas morcelas assadas nos assadores, nas tendas que se estendiam pelos largos da terra e para comprar castanhas, jeropiga, maçãs de bravo de Esmolfe, nozes, avelãs etc, etc, o que provocava sempre discussão para se poder trazer tudo para Lisboa. Este ano ficaremos apenas com o sabor do que a família nos consegue mandar, o que é muito bom neste ano atípico. Um abraço.
    Amália Esteves.

    Gostei muito, Manuel Sá.
    Um abraço.
    Maria Manuela Garrido

    Olá Manel.
    Li e revi-me. Muito bem conseguido. Parabéns. Um abraço
    Manel Louro Branco

    Muitas e boas recordações e também os cordões de pinhões…
    Grande Abraço e muita saúde
    José Leirião.

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