Casal da Trolha, o lugar onde nasci

Casal da Trolha, no Vale de Santarém. Assim conhecido por todos, naquele tempo. Nasci aqui, em 23 de Fev 1946, na casa alugada por meus pais, e onde já haviam nascido as minhas duas irmãs: Maria Inocência e Maria Emília. É um local aonde regresso: em pessoa, em memórias, até em sonhos. A casa era à direita, onde está a moto (fotos de 2007). Era de terra batida e tinha uma coluna (uma varola, redonda) de madeira, ao meio. Assim era, então, na maior parte das casas da minha terra. Cortinas, em vez de portas, entre as divisões. Não havia saneamento básico (esgotos) nem lavatórios, banheiras, água canalizada, luz eléctrica… na grande maioria das casas. As vizinhas ajudavam-se. As crianças brincavam no meio do U, formado pelo casal, que era da Sra. Albertina “Vindima” e do marido, o Sr. Ernesto Serrenho. Por detrás moravam os pais da Mariana Sá Patrício, com a sua filha. Eram nossos primos. A casa ainda é da Mariana e dá para a Rua José Matias Júnior, que ali coincide com a Estrada Nacional Nº 3.

Nesse mundo pequenino, onde muito acontecia, a solidariedade dos vizinhos era palavra de ordem. As mães e avós cuidavam das crianças, quando algumas mães tinham de ir trabalhar. A minha mãe dizia-me que a Ana Mirosca andou comigo ao colo, desviando-me da tentação de ir para a estrada, na esperança de que o meu pai surgisse, a conduzir a camioneta do patrão, que era a minha cegueira.

Saindo do Casal da Trolha entra-se na rua que hoje se chama de Rui Sá, também meu primo, da minha idade (fomos às sortes no mesmo dia) que faleceu na Guerra Colonial. Ali nasceu, também, o Rui. O prédio maior desta rua, que tem frente para a Rua Luís Augusto Rebello da Silva, pertencia à família Pedroso, naquela altura. Foi ali que nasceu, anos antes, o chamado Clube (de pessoas de dinheiro, da terra) e também onde houve teatro – a família Munhoz, pais da Eunice Munhoz, e ela própria, criança ainda, actuaram nesse palco, algumas vezes, e viveram esse tempo na nossa terra, na pensão da Mari’ Russa, mãe de João Romão, que foi novilheiro. Foi ainda no espaço do quintal dos Pedrosos que nasceu a Fábrica de Refrigerantes Águia d’Ouro, do Vale de Santarém, sobre a qual hei-de publicar uma síntese histórica.

Tinha eu quase dois anos quando o meu avô materno, António “da Velha”, ao nascer do dia, foi encontrado morto, pela minha mãe, a caminho de casa, nas proximidades da Fonte Boa. A minha avó Constantina ficou a viver só, uns tempos. Depois fomos viver na sua casa. A que é, ainda, a Nossa Casa. Onde nasceram os outros seis irmãos.

A nossa vida dá muitas voltas. A minha começou assim. No Casal da Trolha, cuja designação, até hoje, ainda não consegui decifrar.

Manuel João Sá

Casal da Trolha-Vale de Santarém- 2007  Foto de Manuel Sá.
Casal da Trolha-Vale de Santarém-2007-Foto de Manuel João Sá.
Casal da Trolha-Vale de Santarém-2007-Foto de Manuel João Sá.

Autor: 60emais

Português.

18 opiniões sobre “Casal da Trolha, o lugar onde nasci”

  1. Um grande abraço Amigo Manuel Sá. Gostei imenso desta tua crónica. Tenho ideia de por lá ter passado algumas vezes. Outros tempos . . . Quando escreveres sobre a Fábrica das gasosas Águia de Ouro, não esqueças de mencionar a fantástica (na época) gaiola dos piriquitos, que eram a minha adoração, quando ia, à tardinha, buscar o leite no primeiro andar, mesmo por cima da gaiola. Tinha eu pr’aí sete ou oito anitos.

    1. Obrigado amigo Luís. Fazes bem em me lembrar esse pormenor, que tanto tenho recordado como tenho esquecido. Assim, com a tua referência, mais seguro vai ficar nas minhas anotações. Agradeço a tua atenção ao que escrevo e os teus comentários. Desejo a melhor saúde, nestes tempos complicados. Recebe um forte abraço.

    2. Manuel, sou mais novo 10 anos. Conheci o casal da trolha muito bem porque nasci na Torre bem perto do casal da Trolha.
      As recordações que tenho desse lugar são as de eu ir ver os desenhos animados a casa do Mauricio que ficava ao fundo do casal. Essa família tinha a amabilidade de deixar os miúdos carenciados invadirem-lhe a casa para verem televisão.
      Obrigado pela tua excelente cronica, fez-me ser de novo criança.
      Bem ajas amigo.

      1. Amigo Figueiredo, agradeço o teu comentário. O senhor Maurício, uma pessoa que muito fez pelo Vale, pelas suas gentes. Não era da nossa terra mas teve essa alta virtude. Bem merecia uma homenagem do Vale, pelo que, não tendo sido feita em vida, há-de ser feita postumamente. O testemunho que aqui dás mostra como era: isso era mesmo dele. Um abraço.

    3. Caro Amigo Luís Mendes, o meu agradecimento pelo teu comentário, por duas razões: porque tiveste a amabilidade de me enviar a tua colaboração; porque me lembras um detalhe que, talvez se não fosses tu, eu iria esquecer. Ora, quanto a colaboração eu penso, neste domínio, que quando divulgamos alguma coisa que escrevemos, do que pensamos e pensamos poder ser interessante, para outros, se há retorno, seja de que natureza for, isso é para mim uma colaboração, que devemos agradecer, respondendo. É o que estou a fazer. Mas, há mais um factor importante que não posso esquecer: com a colaboração que vier de quem me lê, eu posso melhorar não só o que tiver escrito e divulgado, como o que vier a escrever. É o caso. Porquê? A gaiola dos periquitos ficava por debaixo da varanda, longa, de onde se via não só o espaço em frente, para o pátio, para a garagem das camionetas, a zona das vacas e das galinhas e da estrumeira, que havia em frente, e a zona da fábrica das gasosas e laranjadas; mais do que isso, dali via-se o pinhal no cabeço em frente, pinhal que que na altura ainda era propriedade de Ginestal Machado, e onde existia aquilo a que chamávamos uma guarita (ou marco geodésico) e para onde eu e os meus irmãos nos deslocávamos para, havendo cheias no campo, admirarmos dali o imenso “mar” de água barrenta que, durante muitos dias, por vezes um mês ou mais, ali se quedava, impedindo os trabalhos dos homens no campo, condenando-os à míngua, à fome das suas famílias. Ora, um dia, o meu pai disse-me: “nunca abras esta porta, que os periquitos podem fugir”. Como os periquitos eram muitos e tão bonitos, não resisti: um dia quis ter um nas mãos. Esse querer resultou numa pequena tragédia. Eu tinha 9 anos. Por enquanto fico-me por aqui… Direi o que mais houver em futura oportunidade. A terminar: foi mesmo muito importante o teu comentário, Luís. Forte abraço.

  2. Mais um testemunho. É sempre interessante perceber como as coisas se vão orientando e definindo até chegarem à situação em que as encontramos. Quando começamos a tomar consciência do mundo, damos como certa essa realidade. O que veio antes e como se chegou ali começa por ser inquestionável. Conhecer as histórias ajuda a desconstruir essa visão, talvez cómoda, mas também, num certo sentido, egoísta e míope, e a ganhar uma perspetiva mais ampla e útil. Obrigado

    1. Olá filho, companheiro nestas redescobertas de pequenos pedaços da minha vida, antes de a nossa família nuclear se ter constituído e desenvolvido. Pouco mais de setenta anos nos separam do tempo a que a crónica se refere, e no entanto até pode parecer que foi há muito. Essa missão, por esta via (das crónicas/memórias) ou outra, vou continuar enquanto vida lúcida houver. Porque sinto a necessidade de o fazer; porque poderá ter interesse para outros. Oxalá.

  3. Esta crónica, como outras da mesma pena, tem sempre interesse como reconstrução histórica da memória do nosso Vale. Eu nasci no Casal da Abelha, a menos de 100 metros do Casal da Trolha, e, nesses tempos, a realidade era a mesma. Penso que esta e outras crónicas, já publicadas no 60 e mais, davam um belo e necessário livro sobre o Vale de Santarém…

    1. E o Casal da Abelha também tem muito que contar, Reinaldo. O tempo chegará. Com as minhas memórias ou as de outros (tuas, por exemplo) se falará desse outro pequeno microcosmos do nosso Vale, que não pode ser esquecido, de modo nenhum. Abraço, amigo.

  4. bravo amigo Sà . Vou-te fazer uma confidencia nao conhecia o local onde viveste pois sempre pensei que moravas nos locais da Fonte Boa e a mesma, para nos putos do sud era un outro territorio como o rio das Patas Casal da Abeille etc etc !! Obrigada pour fazeres reviver as historias da memorias !! ! PS— Como dizem os nossos amigos Franceses !!! TU as un bon langage et une sacré Plume !!! un grande Abraço Americo Marques

    1. Amigo Américo Marques, aos poucos vamos acrescentando pontos, a recordar o que fomos e fizemos, por onde andámos, tanto quanto a memória o permite, embora por vezes possamos já trocar acontecimentos, datas, sequências, pessoas, lugares. Mas, na verdade, nasci no Vale e não na Fonte Boa. Nasci nesse lugar do Casal da Trolha, ao qual fiquei ligado para sempre. Por sorte, um lugar cheio de história, mas vá lá, qual o lugar do nosso Vale que não está cheio de história? E, como dizes, o Rio das Patas, o Casal da Abelha, e da Trolha e a Fonte Boa, sobretudo, podiam ser considerados lugares longínquos pelos que viviam mais no centro do Vale, melhor dizendo, na linha que seguia ao longo da estrada e do ribeiro, onde se concentrava a maioria das casas, até Cadima. Havia também o Casal do Vinagre, que também é de referir. Qualquer dia, calha. Um forte abraço. Obrigado.

  5. É sempre bom recordar e principalmente escrever sobre essas memórias. Acabamos, nós, de fazer uma viagem ao passado, com as descrições dos lugares, com o nome das pessoas e, por mérito seu, até quase sentimos a atmosfera e os cheiros dessa altura. Muito bom!
    Abraço Sr. Sá
    Nuno

    1. Aos poucos, com o máximo de “realismo” possível, as memórias vão dando conhecimento do que fomos, onde, como, com quem, quando, porquê… Carregamos um saco de “coisas” às costas, que já não nos abandonam, enquanto as recordarmos, e isso tende a dar outro retrato de nós, para os outros. Além disso, também nos revisitamos, e nem sempre é fácil fazê-lo e escrevê-lo, pois nem tudo é feliz, positivo: o saco tem de tudo. Mas enquanto vida houver, o caminho é em frente. Fica algo de nós para os outros, incluindo os filhos, os netos, a família. Um abraço, Nuno.

  6. Num espaço periférico do Vale, o Casal do Trolha… Quem diria tão cheio de vida e de história pois não deixa de documentar o imperativo caminhar do tempo, não escapando às memórias que fazem o nosso passado. No caso, as memórias do meu caro amigo Manuel Sá. De Manuel Sá e não apenas… Por lá passou, há não muitos anos, a cultura da terra à força de braças e de suor, o doloroso testemunho da guerra colonial, o associativismo classe “A”, a improvável presença de Eunice Munhoz nos seus primeiros passos de uma excepcional carreira. Um mundo rural que a industrialização haveria de terminar numa aceleração do tempo que hoje ainda nos surpreende e assusta. O enigmático poste de madeira no centro da casa parece um elemento estranho e singular, cujo significado poderá radicar na noite dos tempos. A pergunta sugerida, logo no princípio do texto, teve resposta no último §… Será que o tempo calará para sempre este (pequeno) mistério? Possivelmente, se o nosso Manuel não foi capaz de encontrar!

    1. Caro amigo Fernando Pita Soares, muito agradeço o seu comentário. De forma precisa e sintética toca todos os pontos que a minha memória do lugar, e da vida que dele soube, desde garoto, foi possível resgatar e partilhar, para o presente e para sempre.
      De facto, naquele U de casas e de vidas, um mundo aconteceu, ao longo de décadas, e tanto haverá que eu não soube, não vi, não vivi. Talvez venha a acrescentar algo mais, mas quem me dera saber a resposta para a pergunta: Casal da Trolha… da Trolha porquê? Já muitas vezes perguntei, e a resposta não vem. Vou continuar.
      E quanto ao Casal da Abelha… da Abelha porquê? E o Casal do Vinagre… do Vinagre porquê? Quanto ao poste no meio da casa: era para segurar o telhado, de telha vã, claro. Havia outras casas antigas no Vale onde existia esse poste. Em conclusão: há um mundo por saber, sobre o muito que o Vale de Santarém foi e hoje ainda nele existe, à espera de explicação. É por aí que vou continuar: eu, com outros. Forte abraço.

      1. Caro amigo Manuel Sá… está, assim, o caso clarificado que o poste de madeira afinal desempenhava a prosaica função de sustentar o tecto da casa.
        Todos lemos alguma coisa aqui e ali, e tanta tralha fica ao desbarato arquivada nas gavetas reconditas do nosso cérebro. Ao ler o seu excelente texto, vá lá saber-se porquê, fiz associação a coisa há muito lida em “O Sagrado e o Profano” (Mircea Eliade) a propósito da sacralidade de habitações pré-industriais. Casas que dispunham, ao centro, de um poste de madeira que era concebido como uma escada que conduziria ao céu e que era assimilado ao Pilar Cósmico ou à Árvore do Mundo.
        Concepções ultrapassadas, que a racionalidade dos nossos tempos e a ascensão das religiões monoteístas não se compadeceram com conceitos que recusavam a linearidade do tempo e o que isso implica na relação do homem com a Natureza.
        Obrigado pela atenção que teve em responder ao meu comentário.
        Aí vai outro abraço… forte como o anterior

      2. Caro Amigo Fernando Soares, agradeço o seu comentário, no qual evoca o homem da cultura, filósofo, cientista das religiões, relembrando uma das suas obras fundamentais, “O Sagrado e O Profano”, que foi nela me iniciei, sobre o Autor. E fez bem lembrar a particularidade que cita, do poste de madeira, pois era detalhe (da maior importância, aliás) que eu já não recordava. Mais uma vez relevando o valor da partilha, para conseguirmos bases para avançarmos no conhecimento do Mundo que fomos e, também por aí, melhor compreendermos o que somos e, naturalmente, almejando sermos melhores, enquanto Comunidade Internacional. Utopia, talvez, mas desistir não deve fazer parte do sermos pensantes, aprendizes de viventes. Com um obrigado, e também o meu abraço.

  7. Manuel, sou mais novo 10 anos. Conheci o casal da trolha muito bem porque nasci na Torre bem perto do casal da Trolha.
    As recordações que tenho desse lugar são as de eu ir ver os desenhos animados a casa do Mauricio que ficava ao fundo do casal. Essa família tinha a amabilidade de deixar os miúdos carenciados invadirem-lhe a casa para verem televisão.
    Obrigado pela tua excelente cronica, fez-me ser de novo criança.
    Bem ajas amigo.

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