Victor Pinto da Rocha, Meu Amigo para sempre!

EM MEMÓRIA DE VICTOR PINTO DA ROCHA, QUE A MORTE LEVOU EM 28 DE JUNHO 2020.

Foi em Outubro de 2012 que me encontrei, pela primeira vez, com Victor Pinto da Rocha, participante, como a sua mulher Regina, no convívio anual dos antigos alunos da Escola Primária Aristides Graça, do Vale de Santarém, que se realizava desde 2011, e a cuja organização eu pertencia. Radicado em Lisboa desde os dezoito anos, eu não sabia ainda do currículo notável dos dois professores que, em Santarém, nos estabelecimentos de ensino mais antigos e prestigiados do nível secundário da cidade, haviam recebido a distinção por parte de alunos, pais e comunidades da região, pela qualidade do seu labor educacional e pedagógico, ao longo de décadas. Não sabia isso e também não sabia que Vítor Pinto da Rocha havia sido presidente da Junta de Freguesia do Vale de Santarém, tendo desenvolvido um trabalho importante nesse domínio, também virado para o apoio ao associativismo e à cultura na nossa terra. Foi nesse convívio, no ambiente emotivo do acontecimento, que assisti às palavras de homenagem à professora Tomásia Rodrigues, escritas e lidas pela sua aluna Regina Pinto da Rocha, e saudadas de modo vibrante pelos presentes. E foi também aí que falei a primeira vez com o casal Pinto da Rocha, que me provocou o desejo de com eles me relacionar daí em diante, tendo em vista um projecto que, há anos, me andava na cabeça.

Ainda em Outubro, realizou-se a I Tertúlia de Poesia do Vale de Santarém, onde nos voltámos a encontrar. A sessão decorreu ao ar livre, no Jardim do Vale e, como havia sido pedido aos participantes, também li um poema que, na altura, a minha prima Mariana Sá Patrício, também presente, me cedeu, para o efeito. Por razões pessoais, saí da sessão antes do seu termino, porém, a vontade de voltar a estar com os dois cimentara-se – eles haviam estado na génese daquela sessão, e isso era revelador da intenção de darem continuidade à sua acção, no domínio da cultura.  

No Vale de Santarém, terra de pelo menos um poeta (João d’Aldeia) e onde outros poetas de grande vulto se juntaram, nas suas tertúlias (Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Bulhão Pato) na Quinta do Desembargador (depois mais conhecida como Quinta das Rebellas, propriedade de Luís Augusto Rebello da Silva, outro destacado homem das Letras) eu via acontecer poesia, por iniciativa de alguns valsantarenos, e logo em ambiente de natureza. Era razão para me sentir feliz e desejar mais, ao mesmo tempo que pensava na possibilidade de, aproveitando a maré, falar com pessoas que pudessem aderir a uma ideia que tinha em mente, há anos: resgatar do possível esquecimento e perda, “coisas” importantes da história do Vale e das suas gentes. Sendo eu natural da nossa querida aldeia, então já elevada a vila, sentia que havia muito a pesquisar, estudar e oferecer aos valsantarenos e outros interessados. O Vale merecia isso: que lhe fosse devolvido o que, da sua identidade e memória colectiva se conseguisse obter, ainda, e para isso era preciso pôr pés ao caminho.

Vieram outros convívios anuais e, aos poucos, comungando ideias e intenções, de que começámos a falar, ia-se impondo a necessidade de contactos mais pessoais entre mim e o casal Pinto da Rocha, contactos esses que se foram intensificando, pelo telefone, ou no Vale, na sua residência. Muitas horas passámos a dedicar ao interesse que o Vale nos merecia – o seu passado, mas também o seu presente e futuro. Trazendo à conversa acontecimentos e figuras do Vale, como muitos outros aspectos das suas particularidades, fomos elegendo temas a trabalhar. Entretanto, já conhecedores de que eu escrevia umas singelas “Crónicas do Vale de Santarém”, que vinha publicando no meu blogue, a Regina e o Víctor perguntaram-me: já pensou em publicar isso?… E aconselharam-me a fazê-lo.

Em 2014, após contactos preliminares, iniciei um conjunto de conversas com algumas pessoas que me foram sugeridas, visando genericamente obter “histórias de vida e contributos para a história do Vale de Santarém”. Tal iniciativa, que atingiu um conjunto razoável de participantes, muito interessados (incluindo Regina Pinto da Rocha) deu contributos que canalizei para eventual organização a criar, a qual pudesse acolher esse material, a trabalhar e divulgar. Ao longo deste percurso, continuando as conversas com o casal Pinto da Rocha, foi ganhando força a ideia de que precisávamos de nos encontrar com outras pessoas que, acolhendo já igualmente as nossas ideias e propósitos, quisessem avançar para uma pró-associação de natureza cultural. E foi assim que, em Novembro de 2015, se reuniu um grupo de interessados neste objectivo, na sequência do qual, em 2018, haveria de surgir a fundação da Associação Cultural Vale de Santarém-Identidade e Memória.

Entretanto, ainda antes da criação da Associação, já Victor Pinto da Rocha estava de corpo e alma entregues a João da Silva Nogueira, o Poeta João d’Aldeia, uma paixão que tinha desde criança, e que agora ganhara toda a sua energia e criatividade. Este havia sido um dos temas eleitos pela pró-associação, e o Victor tinha agora o Homem e o Poeta sob aturado e pormenorizado estudo, ao mesmo tempo vivendo a emoção da descoberta. Recorrendo aos materiais que há muitos anos vinha obtendo, em dedicadas pesquisas, aos quais, entretanto, se foram juntando alguns outros, que lhe chegavam de diversas mãos e fontes, foi dando forma ao seu trabalho, do qual fez uma apresentação brilhante, no dia 24 de Junho de 2018. Foi uma sessão memorável: porque finalmente, pela excelente qualidade do conteúdo apresentado, começávamos a conhecer João d’Aldeia, o Poeta do Vale de Santarém – o homem e os traços fundamentais da sua obra; e também porque nesse mesmo dia, na sala da Junta de Freguesia, quase a findar a sessão que ali decorreu, a D. Júlia Pacheco, neta do Poeta, teve a inesperada, notável e reconhecida acção de, em representação da família, entregar ao Vale de Santarém toda a obra de João d’Aldeia. O Vale, eternamente grato, merecia-o, e, por essa via, se cumpria o que o Poeta havia escrito, num soneto datado de 20 de Abril de 1949, dizendo sobre o destino desejado para os seus versos:

«A aldeia os inspirou – da aldeia são:

Ofertando-os, oferto o meu coração

A este lindo Vale – meu berço amado.»

Victor Pinto da Rocha, com o seu amor ao Poeta, e com o trabalho que realizou e ali deu a conhecer, foi o genuíno símbolo de confiança para que a obra de João d’Aldeia ficasse bem entregue, ao Vale de Santarém, tal como a sua família decidiu, satisfazendo o desejo do Poeta.

Cumprida esta etapa, e tendo sido impossível (por ter sido sujeito a uma cirurgia à vista) a apresentação do seu livro “João d’Aldeia, Poeta do Vale de Santarém”, numa sessão do Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, já Victor Pinto da Rocha se dedicava a outros trabalhos que, igualmente, há muito faziam parte da sua carteira pessoal de interesses, no âmbito da cultura, os quais iria publicar, sendo alguns deles sobre personagens relacionadas com o Vale de Santarém. Na última vez em que falámos, recentemente, pelo telefone, na circunstância tão impeditiva e perigosa que a pandemia nos tem feito viver, disse-me que um desses trabalhos estava em fase de conclusão, e que iria depois dedicar-se a outras figuras do Vale, sobre as quais já trocáramos ideias, e eu até tinha elementos novos para lhe dar para isso.

Os dias correram céleres e, tão inesperada quanto brutal, chega-me a triste informação do ataque cerebral que acometeu o Amigo Victor, com um prognóstico que não previa hipóteses de recuperação, a que se seguiria o seu falecimento, em 28 de Junho. De então para cá tenho rememorado o que vivemos de muito positivo (somente muito positivo!) nestes poucos anos, desde 2012, que foi quando nos encontrámos, pela primeira vez: o acolhimento afectuoso e sereno do casal, o modo como interpretaram e apoiaram as nossas ideias e se envolveram no que íamos falando e construindo, tanto em termos pessoais como no seio da Associação; a abertura, a disponibilidade, a sinceridade, o conselho, a postura equilibrada, o incentivo e também os  cuidados a ter, de modo a guiar a Associação da forma mais adequada às especificidades da envolvente da comunidade, e conforme padrões de responsabilidade social e de ética, que são essenciais.

Pessoalmente, sinto-me reconhecido, para sempre, pela Amizade que me foi tributada pelo Victor e pela Regina (que me pediram para assim os tratar, sempre…) e que vou guardar em mim e, em especial ao Victor, por me ter deixado extremamente emocionado quando, concluído o seu trabalho de investigação e literário sobre o Poeta João d’Aldeia, me ter surpreendido com apertado abraço, pedindo-me que o considerasse como o irmão que nunca teve. O professor reconhecido, o homem da cultura, o senhor de grande capacidade de comunicação, de fino trato e elevada educação, o cidadão de comportamento humanista e muito respeitado, selava assim, de forma vibrante, verdadeira, para comigo, o sentimento que não mais esquecerei.  

Neste tempo de tristeza e vazio por que passamos, ficam, como faróis, as palavras que costumávamos usar, quando, face ao que nos propuséramos, nos apareciam alguns “ses” e, entre eles, os relacionados com eventuais percalços de saúde, que o correr dos anos poderia trazer. Então, falávamos da urgência em obter, fazer, concluir… porque depois poderia ser tarde. É nisso que vou continuar a empenhar-me, Amigo Victor. Eu e os companheiros da nossa Associação. E, porque continuamos consigo e com a Regina ao nosso lado, vamos pelos caminhos que nos ajudou a trilhar, com o seu exemplo de cidadania, pelo melhor para o nosso querido Vale de Santarém, o Vale do céu azul, intenso, profundo, que, tal como eu, tanto gostava de admirar, essa abóbada esplendorosa, imponente, sobre o verde do chão das hortas e das encostas, como sobre o casario branco, algumas paredes aveludadas a cal, e ainda há pelo ar alguns dos perfumes que os valsantarenos conhecem e amam e os poetas também sentiram e cantaram.

Sim, o nosso Vale merece-o. É por aí que vamos.

Eternamente grato, Amigo Victor.

Seu Irmão para sempre!

Manuel João Sá.

poeta-vale-santarem-joao-silva-nogueira (1) - Cópia

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “Victor Pinto da Rocha, Meu Amigo para sempre!”

  1. Nao conheci esse illustre personnage mas belle hommage do nosso amigo Manuel Sà , os meu sentimentos a Familia

  2. Foi com bastante tristeza que soubemos fo falecimento do Dr. Victor Manoel Damas Pinto da Rocha, pessoa muito convivial e amigo e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Cultural Vale de Santarém-Identidade e Memória..

    Parece-nos incrivel seu faleciemnto atendendo que no decorrer do nosso recente passado almoço celebrando a confraternização dos antigos alunos da nossa velhinha Escola Aristides Graça que teve lugar na Messe da Estação Zootécnica Nacional ( Fonte – Boa ) a 28 Septembro 2019 o Dr. Victor Manoel Damas Pinto da Rocha radiava uma saudável e alegre boa disposição .

    No decorrer desse evento tive o previlégio de confraternizar com o estimado Dr. Victor M. D. P. da Rocha assim como com todos que se sentavam na sua mesa , tendo ele com muita simpatia me autografado um exemplar / livro que constitui a primeira obra editada sobre a vida e a obra do nosso poeta Jão António Silva Nogueira por todos conhecido e estimado como o «João d’Aldeia, Poeta do Vale de Santarém»

    Um pouquinho atrasados, permitam-nos de testemunhar à sua Esposa Sra. D. Regina Pinto da Rocha e Familia nossos Sentimentos e Pêsames pelo seu falecimento

    Adriana Ferreira Roque Tomé
    José Ferreira Tomé ( eng.)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.