Livros

O meu primeiro livro tinha uma capa que eu já conhecia: uma menina e um menino, no meio de um círculo, lendo. Era da 1ª classe do ensino da escola primária e, antes de ter sido o meu livro de leituras, tinha-o visto nas mãos das minhas irmãs, Inocência e Emília, que eram mais velhas. Devido ao modo de ensinar da professora, D. Tomásia, as minhas irmãs liam dizendo “escrito à máquina…” ou “escrito à mão”, conforme as letras apareciam como escritas à máquina ou escritas à mão. Esse foi o meu primeiro livro, aquele que desde logo me levou longe, até mesmo a voar, vendo-me num dos aeroplanos que apareciam na “lição” daquele dia, os aeroplanos com a hélice rodando, na imagem e na minha cabeça, e eu dentro deles, tal era o meu desejo de um dia voar e, talvez por isso, o meu pai me tivesse oferecido uma vez um avião pequenino, de lata de “folha de flandres”, comprado não sei onde, que colocou no tronco de uma figueira, como se ali tivesse poisado, especialmente para mim…
Devo ter ficado impressionado também com aquela lição de “quando eu for grande”, onde o Manuel, um dos meninos e meninas que “entram” na conversa, diz que quer ser aviador, para “voar como os passarinhos e ainda mais alto.” Foi aí, nessa página, que acabou o tempo da leitura na 1ª classe, já depois de me encantar também com a “boa dona de casa” que a Emilita prometia vir a ser, “pois era muito esperta e desembaraçada” e gostava de “ajudar a mãe”, coisa que via as minhas irmãs fazerem lá em casa, pois era assim que a lição dava a entender que devia ser a vida das mulheres, tal e qual como as duas primeiras páginas do livro indicam, pois estão cheias de imagens de meninas nas lides da casa, basta atentar nos desenhos, bastante elucidativos do papel das mulheres, na cultura oficial daquele tempo…
Desde aí, quantos livros terei lido?… Quantas alegrias, tristezas, aprendizagens, emoções, revoltas, desencantos, caminhos novos… terei eu encontrado nas páginas das obras que comprei ou me ofereceram? Livros, companheiros de tantas horas… Em paz ou em desassossego. Livros, uma necessidade permanente, que não substituí por qualquer outro objecto para o mesmo fim: o fim de saber mais, de conhecer melhor, e, nesse caminho, me surpreender com a conclusão de que, afinal, tenho ainda tanto para conhecer. Livros, não como entretenimento, não para ajudar a preencher o tempo. Aliás, nem mesmo assim penso quando se trata de ler jornais e revistas, ou de viajar, ou de olhar a Natureza, tudo ambientes propícios à aprendizagem. Aprender, com o fim último de apre(e)nder, ou seja, de integrar o aprendido, acumulando ao que já existe, ou que substitui o que se torna dispensável, ultrapassado…
Não sei dizer do sentimento de surpresa, espanto e felicidade que senti quando entrei, pela primeira vez, na Papelaria Silva, em Santarém e vi, bem alinhados, ao alto, muitos livros nas estantes, ali estive um tempo a ler as lombadas, e uma senhora, vestida de escuro, talvez admirando-se, veio perguntar: “o menino precisa…” e eu, em sobressalto, tranquilizei-a, dizendo “só estava a ler os títulos”… que dinheiro não havia para comprar aquelas riquezas.
Depois haveria de chegar o dia da entrada na biblioteca Braamcamp Freire. À entrada, à direita uma estátua em gesso do “soldado desconhecido”, que impressionava e, subindo ao 1º andar, entraria eu e mais alguns alunos da Escola Industrial e Comercial de Santarém para o mundo mágico dos livros ali guardados, para leitura, para consulta, para aprendizagens… Ali estivemos, ali voltámos mais vezes, para obter conhecimentos para trabalhos escolares, ali me apetecia estar mais tempo, a descobrir o que estava para lá dos títulos, ler histórias de vidas de outros tempos, ver imagens que não conhecia, porém o que nos encomendavam os professores era o que estava no programa…
Também viria o supremo encanto pela carrinha cinzenta da Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian, que aparecia silenciosa, pela tarde, e estacionava próximo da Fonte das Três Bicas, lá no Vale de Santarém, e chegava a minha vez de entrar, e então escolhia, escolhia, levava uma braçada de obras para casa, e encantava-me com tudo, tendo começado com “As Aventuras do Trinca-Fortes”, que era uma versão heróica de Luís Vaz de Camões, segundo a visão de Adolfo Simões Muller, até terminar com “A Vida de um Rapaz Pobre”, de Octave Feuillet.
Livros, bibliotecas, um mundo que me encanta, ao qual dedico o tempo possível da minha vida, com interesse renovado a cada compra, mesmo que seja no alfarrabista ou num mercado de velharias… Livros, naquele formato de objecto físico, com capa e folhas, e frases, e perfumes, com ou sem imagens, mas com retratos de vidas dentro, inventadas ou reais, ou então ensaios, ou memórias, ou poemas, ou… sempre a possibilidade da surpresa, do não lido, do não visto, ou não daquela maneira.
Livros, livrarias, bibliotecas, num tempo de tão grandes mudanças, quando outros objectos, frios, minúsculos, sem o seu calor, perfume e plasticidade do livro, se afirmam como seus substitutos.
Requiem pelo objecto livro?… O tempo dirá.

(No “Dia Mundial do Livro 2020”)

Manuel João Sá.

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Livro da 1ª classe da Instrução Primária, que frequentei na Escola Aristides Graça, Vale de Santarém, no ano lectivo de 1953/54.
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Carrinha da Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian.
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Capa de uma edição de “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett. Edição da Livraria Tavares Martins, Porto, em 1946. EDIÇÃO COMEMORATIVA DO CENTENÁRIO DA PUBLICAÇÃO, que foi no ano do meu nascimento.

Autor: 60emais

Português.

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