Reflexão sobre a pandemia da COVID 19

Esta manhã saímos para uma ligeira caminhada. Sol, uma leve aragem, pelas bermas a Natureza a mostrar-se pujante, nos mais pequenos detalhes, que são os seus, mesmo quando confinada ao que os humanos lhe concedem. De súbito, as maias, flores campestres deste tempo do ano, a chamarem a minha atenção, e eu a voltar atrás, quando, lá no cabeço onde morávamos, as maias eram em quantidade, suportadas por caules frágeis, ondulando, ondulando, com a brisa da tarde, sob as oliveiras, rente à vinha.
As maias. A minha mãe a dizer-me que assim se chamavam porque apareciam ainda antes do mês de Maio, e eu mais não fiz do que acreditar: era a minha mãe que o dizia, e era fácil de aceitar o argumento.
As maias. As maias e todas as flores campestres, aqui, ou em qualquer berma, ou valado, ou campo, em qualquer lugar do nosso planeta. Ninguém as semeia, ninguém as planta: são elas que fazem pela sua vida, e como isso acontece nem sempre os sábios da Natureza o sabem descobrir e explicar. A Natureza tem os seus segredos e “regras”, apesar de o homem tanto a esventrar, dissecar, torturar, sem dó, com ganância, soberba e estupidez. Há milhões de anos que ela se defende, se revolta. Há milhões de anos. E ela não se cansa de nos lembrar que tem de ser respeitada, que não pode ser violentada, que há limites para a sistemática tentativa de ultrapassagem dos limites em que os homens se afadigam, para chegarem cada vez mais alto, mais longe e mais depressa, numa visão de contínua, febril, explosiva e destruidora acção, tendo em vista o TER MAIS, SEMPRE MAIS, em vez do SER MAIS E MELHOR, PARA SI, PARA OS OUTROS E PARA O AMBIENTE NATURAL QUE O RODEIA.
Quem o faz? Quem acomete, diariamente, de modo impensável, furioso, arrasador, sobre a Natureza, quer dizer, sobre o Sistema-Terra e tudo o que nela vive, incluindo obviamente os humanos? Somos todos nós. Todos nós! Uns porque para eles o que há como meta, somente, é o lucro, O LUCRO a qualquer preço: quanto maior, mais depressa, e em mais locais melhor. Por cima de tudo e todos, inclusive dos que supostamente devem governar, cuidando dos recursos e da boa gestão, mas que tantas vezes são marionetas, joguetes, nas mãos dos que querem aumentar, aumentar sistemática e sem barreiras os seus cofres. E, por fim, todos nós, cidadãos em geral, que assistimos e não pomos travões a tão gritantes atentados.
Não estão longe as crises das vacas loucas, as gripes dos suínos, das aves.. só para lembrar algumas das mais próximas dos nossos tempos…
Agora, a pandemia da COVID-19. É ainda incalculável o preço físico, moral e económico desta crise planetária, em que estamos mergulhados. “Nada será como dantes”, ouvimos dizer, mas temos direito a perguntar, a querer saber. No fim de contas temos direito (e o dever) de tomar parte, cada um de nós, no nosso futuro e do Sistema-Terra. Nada será como dantes em quê?… para quem?… como?… que há a fazer, se não DEIXAR-DE-FAZER O QUE, DE MODO TÃO EVIDENTE, ESTÁ A DESTRUIR A NOSSA VIDA E A DO SISTEMA EM QUE VIVEMOS?
Há quem pense e afirme que esta crise nada tem a ver com a acção humana. Que será uma calamidade natural, que nada temos de mudar… E há também aqueles que, a toda a pressa, querem vencer a crise pela retoma da “normalidade”. Mas qual normalidade?… Continuando a fazer o mesmo que antes e da mesma maneira?…
Será que nos vamos deixar seduzir por tal visão cega e febril, deitando fora o que esta crise nos trouxe de potencial de conhecimento e de regeneração, em vez de dizermos BASTA!?…aos mais diversos níveis e lugares do nosso SERMOS-CIDADÃOS? É imperioso não deixarmos perder este período único das nossas vidas, para DEFENDERMOS E QUERERMOS, DE FORMA ACTIVA, AS MUDANÇAS QUE ESTA TERRÍVEL CRISE NOS DIZ QUE SÃO PARA FAZER.

(vieram-me à cabeça estas simples reflexões, após a contemplação das maias – e a memória de quando era criança – subitamente encontradas na berma da estrada, no passeio da manhã).

Manuel João Sá.

Maias

 

Autor: 60emais

Português.

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