Olá Pai…

Tenho-te aqui, à minha frente, neste dia que é teu, em particular. Foi há 102 anospai que a Avó Alexandrina lançou para a luz da vida a primeira semente alojada no seu ventre, por mor do seu amor Alfredo, nosso Avô, que conhecemos sempre de bigode e poucas falas, perito na arte da vinha e da enxertia, até de rosas.

Hoje, no cabeço da Fonte Boa há-de estar sol, como gostavas, a acreditar que “os astros”, como a Mãe dizia, isso me fazem prever, olhando daqui, pela janela, esta manhã serena, uma leve aragem, a acamar, talvez, as ervas da nossa vinha, que o Avô Toino da Velha nos deixou, depois de partir, tão inesperadamente, tão misteriosamente, coisa que nunca conseguimos decifrar.

A Mãe também já partiu, mas os vossos Filhos, oito dos nove que deram à vida, por cá continuam, vendo crescer os vossos netos e, sabes uma coisa, já tens mais bisnetos, a sementeira continua…

Para além de estares bem vivo em nós, nas nossas vidas e nas nossas memórias, estás vivo no nosso Vale, não só na rua com o teu nome mas nas memórias das pessoas que, amiúde, me falam de ti, dos ensinamentos e dos exemplos que facultaste, talvez até sem te dares conta: o teu perfil de cidadão activo, decidido, combativo, realizador, no campo associativo e, tanto quanto possível, no campo político, em ambiente em que só a clandestinidade era a solução para continuar a lutar pela Dignidade e pela Liberdade, contra a ditadura. Liberdade que só celebrámos em 25deAbril1974, mas já a havias sonhado tantas vezes, em particular no dia das eleições presidenciais, com Humberto Delgado a vencer no nosso Vale, como pelo País, em tantos lugares, e nessa tarde chegaste a nossa casa e abraçaste-nos, em lágrimas de alegria, a gritar “ganhámos, ganhámos!” e… roubaram-nos a alegria, Pai…

Apesar da Liberdade, apesar da Democracia, continuamos a lutar pela Liberdade, pela Democracia. Sempre!

Um dia destes vou continuar a escrever-te. Hoje, como criança pequena, ainda, em teus braços, ou caminhando ao teu lado, ao vento lanço estas palavras, para estar ainda mais perto de ti, da tua voz, do teu olhar, do teu calor.
Abraço, Pai.

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

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