Uma viagem inesquecível

1950.

9 de Julho. Tenho pouco mais de quatro anos. De manhã, muito cedo, saímos de casa da avó Alexandrina, no Rio das Patas. Descemos a rua de terra batida, cheia de crateras no Inverno, mas é Verão e até parece normal. Vou pela mão do tio João, que leva uma cesta, com um farnel, que a minha avó preparou, na noite anterior, de coelho guisado, pastéis de bacalhau, pão, pêssegos “carecas”, damascos e ameixas, e também uma garrafa de vinho, a que o meu avô aplicou uma rolha, quase torneada, com o seu canivete predilecto. Na cesta segue ainda uma pequena toalha, aos quadrados vermelhos e brancos, e dois copos de esmalte. Antes de virarmos à direita, olho para trás e a minha avó está lá em cima, junto à cancela, e diz-me adeus. Vamos a caminho da camioneta, que é do Vinagre. Chegamos perto da Fonte das Três Bicas e lá está ela, em vermelho escuro, com uns tons de cinzento a todo o comprimento. É bonita, tem faróis grandes e os estofos em grená. Já lá estão outros homens. Só homens, que nos saúdam, quer dizer, o meu tio e eles apertam as mãos, com vigor, dão abraços que parecem combates de palmadas, a mim dizem-me graças, eu sorrio, é o costume. Não vejo outros rapazes. O motorista anda numa azáfama, a meter as cestas na camioneta e, a certa altura, pergunta se está toda a gente e há quem, com um papel na mão, diz que sim. Começa aí a excursão. Não sei para onde vamos, mas sinto-me bem, sentadinho junto à janela, do lado direito da camioneta. O meu tio vai ao meu lado e fala muito, com este e aquele, e todos querem saber porque é ele que vem comigo e não o meu pai. Não oiço as respostas, ou não as compreendo, mas a mim ninguém me disse que poderia haver uma razão para ser assim; o meu pai só me havia comunicado, uns dias antes: o tio João está cá, vai haver uma excursão depois de amanhã e tu vais com ele, foi assim.

Depois de o meu pai me ter dito que ia a uma excursão, a minha mãe começou a preparar a roupa para mim. Era simples: havia os calções, a camisinha creme, as meias, os suspensórios, a boina, as botas e um casaquinho de malha, se fosse preciso, mas já era Verão e o calor só amainava para a noite. No dia anterior o meu pai foi-me levar a casa da minha avó, para dormir lá e seguir logo cedinho, com o meu tio, a caminho da camioneta. Nessa noite dormi com ele, no quarto e na cama que havia sido dele e do meu pai. Foi muito cedo que a minha avó nos chamou e me pôs em alvoroço, dizendo que ia ver coisas muito bonitas, que depois lhe havia de contar, e que me apressasse para as torradas e o café, entretanto ajudou-me a vestir e calçar e disse: agora não te sujes…

Depois de Santarém, as conversas aumentaram e andavam homens de pé, enquanto o motorista não lembrou que se a polícia de trânsito visse ia ser o bonito e o meu tio explicou-me porquê. Durante a viagem ia-me entretendo com o que os meus olhos viam, pela primeira vez, mas também com essas conversas, em alta voz, era como se os homens estivessem num arraial. Fosse porque tinha madrugado ou pelo cadenciado do motor, acabei por adormecer, só acordando quando a camioneta parou e os homens começaram a sair, para irem a uma pequena fonte, para beberem água ou para uma mijinha, na parte de trás do valado, foi o que me disse o meu tio, perguntando-me se também queria. Acabámos por ir mais adiante e entrámos numa taberna: para mim veio uma laranjada, para ele um copo de vinho branco, dos mais pequenos, tal e qual como o meu avô Alfredo gostava. Foi no regresso à camioneta que perguntei ao meu tio se faltava muito e os outros homens, mangando comigo, começaram a dizer que só chegávamos lá de noite, mas eu disse que o que trazíamos na cesta não iria chegar, que sabia muito bem o que a minha avó lá tinha posto, não dava para almoçar e cear… Os homens riam-se e o meu tio ainda mais, às gargalhadas, como era costume nele.

Foi ainda antes da hora do almoço que nos aproximámos do destino, assim pensava eu. Depois de umas curvas, a camioneta a seguir mais devagar, à direita um rio e, mais adiante, os corpos dos homens a elevarem-se, pelo menos de pescoços esticados, mais conversa, olha aqui!… olha ali!… e seguimos à direita para uma ponte sobre o rio, estacionando ainda mais à direita, num largo.  Já chegámos!… disse o motorista. Abertas as portas, os homens começaram a sair e combinaram o que iam fazer a seguir. Uns queriam ir dar uma volta, para ver os  monumentos, havia quem quisesse ir ver o convento, outros queriam andar de barco, no rio, outros queriam ir logo almoçar, no jardim, outros perguntavam quando é que se ia para o “castelo de bode”, e eu, no meio daquilo, olhando, ouvindo, tentando perceber onde estava e para onde íamos, porém, à cautela, de mão dada ao meu tio, que era a minha primeira vez numa série de coisas: a primeira viagem com o meu tio, em vez do meu pai (mas porquê, com o meu tio?…); a primeira vez com tantos homens e nenhuma mulher, como era possível?… e era também a primeira vez que ia ali, um sítio que estava ainda sem saber como se chamava, até que, até que… seguimos para o lado do jardim, por decisão do meu tio, que levava a cesta do farnel e, pela sua atitude resoluta, outros nos seguiram, porém, ao caminharmos sobre uma pontezinha, a caminho do jardim, uma coisa fantástica me atraiu: uma roda gigante, de madeira, girando e carregando água nos seus baldes, parecia mesmo, mas em ponto bem maior, a roda da azenha do rio da Quinta, que o meu pai me mostrara, pela primeira vez, algum tempo antes. Ainda quis ir ver mais de perto, mas o meu tio, com energia, logo me disse: depois de almoço voltamos aqui.

Sentados sobre a relva, protegidos pelas altas árvores, junto ao rio, que ali chega ziguezagueando, com ruído forte ao transpor os açudes no seu leito, passámos o tempo do almoço em volta da nossa toalha, onde o meu tio pôs, com cuidado, aos poucos, tudo o que a avó Alexandrina havia colocado na cesta. Não faltavam os garfos e facas, não faltavam os guardanapos brancos, de pano, não faltava um canivete, para a fruta. Em redor, mais grupos da nossa camioneta, e, entretanto, passeando, outros grupos de outras excursões, de modo que foi-se fazendo conversa entre os pequenos grupos, e começaram a fazer retratos, havia até um senhor que andava por ali, a fotografar quem quisesse. Foi depois de arrumarmos na cesta tudo o que restava que alguns começaram a perguntar: então não vamos dar uma volta de barco?… Regressámos à camioneta, para lá deixarmos a cesta, e voltámos ao jardim para a viagem, no rio, em barcos que se alugavam, à hora. Alugados dois barcos, para os quais entraram, com entusiasmo, e talvez um copito a mais, diversos interessados, foi o início de uma experiência que me ficou para sempre: porque foi a minha primeira viagem sobre as águas; porque pouco faltou para naufragarmos, pensava eu, apesar de se ver o fundo, ali mesmo, e os peixes luzirem, sob os raios de sol, na água límpida, em vertiginosos raides, como se contentes por nos verem ali, em tão alegre e ruidoso passeio. Retirado do barco que tinha a maior lotação, no qual um garrafão passava frequentemente de mão e os alegres convivas faziam adornar a frágil embarcação, puseram-me ali perto, sentado na relva, a recuperar do cagaço, meio nauseante, até que o meu tio mandou chegar à borda e veio ter comigo, não fosse haver problemas, disse-me ele, e logo na primeira vez que me tinha a seu cargo.

Recuperado da tormenta, que meteu enjoo e tudo, foi num banco de ripinhas vermelhas que fiquei um tempo, a ver a roda gigante, sempre a girar, e eu de novo com vontade de a ver mais de perto, enquanto o meu tio, deitando ao ar o fumo do cigarro, com deleite, continuava na conversa com o “Xerife” e o “Garrafão”, alcunhas, já se vê, e de vez em quando dava-me indicações com a mão, para aguardar: já lá vamos… já lá vamos ver o moinho… O tempo a correr, o sol a mudar de posição, as árvores a não servirem de protecção, ali, e foi então que decidi procurar outro banco de ripinhas vermelhas, onde me sentei, porém, foi mais forte do que eu: avancei até à roda gigante, e ali me deixei ficar, silencioso e atento, a olhar os pormenores daquilo tudo, a minha paixão pela água, quem sabe, talvez a começar ali. Estava eu neste êxtase, pela beleza imponente daquele quadro da natureza, quando o senhor dos retratos me aparece de frente, e zás, assenta em mim o olhar e a sua máquina de fole, assim fiquei apanhado para a posteridade, surpreso, olhar tímido, e foi mesmo ele que acabou por me levar ao meu tio e aos companheiros de viagem, que já gritavam pelo meu nome, procurando-me em todo o jardim, e eu ali tão perto, encantado com o movimento da roda da azenha…

Depois do óbvio ralhete, seguiram-se outros retratos, e ainda fomos a um café onde os homens continuaram a beber, outros compraram coisas para oferecerem às mulheres e aos filhos. De regresso à camioneta, foi preciso esperar por alguns, depois foi o início do regresso, durante o qual todos queriam contar o que tinham visto, o que tinham feito, e demorámos pouco tempo até à paragem seguinte. Perguntava eu ao meu tio: e agora, onde vamos?… Ele olhou para mim, ainda estávamos no nosso banco e disse: vamos ver uma coisa que nunca viste… A camioneta estacionada, fomos saindo e alguém começou a dizer o que íamos ver… Castelo de Bode… uma barragem, uma grande barragem, e eu… mas o que é uma barragem?… já muitas excursões ali tinham ido, de muitos pontos do país, dizia o senhor, e aqui está ela, e apontava, façam favor… e nisto começou a dizer muitas coisas sobre aquilo, que eu ainda não sabia o que seria, mas a expectativa estava criada… Avançámos por uma estrada, ainda havia alguns trabalhos por ali, mas era mesmo uma coisa grande, muito grande, tiveram que me pegar ao colo para ver de um lado e doutro, e para que servia aquilo?… E como é que fizeram uma coisa daquelas, tão grande, que tudo o que eu conhecia, podendo ser grande para a minha compreensão, não tinha nada a ver com aquilo?… nem os prédios da Fonte Boa, nem o silo maior da Fonte Boa, nem a ponte do Vale… como era possível?…

Foi no regresso que o meu tio me foi explicando alguns pormenores sobre o que era uma barragem, porque estava ali, naquele sítio, que havia uma central, que se usava a queda da água do rio que por ali passava para fazer electricidade, e eu… hã?… fazer electricidade… com água?… O regresso continuou sob o signo da surpresa e da aprendizagem, misturada com pão e chouriço às rodelas, uma surpresa escondida na cesta, era o que sobrava, para nós dois, do farnel preparado com carinho pela avó Alexandrina. Foi ainda o tempo de o Lobato, que tão vivo havia estado no barco ao lado, passando o garrafão de cinco litros de tinto de mão em mão, estar já aquietado, dormia e ressonava alto, no banco de trás, competindo com o ruído do motor. Adormeci e só dei por termos chegado ao Vale quando o meu tio me acordou. Era noite. As luzes da rua principal, anémicas, puseram à mostra um grupinho de mulheres que vinham esperar os seus homens. O meu pai também já lá estava. Ele e o meu tio conversaram um bocado, sorrindo muito os dois, já depois de o meu pai me beijar e me perguntar se tinha gostado. Disse-lhe que sim, mas também a pensar que o meu tio poderia contar-lhe do susto que lhe preguei, mas tal não aconteceu. Seguimos os dois para a nossa casa, no cabeço da Fonte Boa, pelo carreiro do costume, enquanto o meu tio, chegando ao Pombal, fora para casa da minha avó, no Rio das Patas. Foi quando virámos para a vinha da tia Mari’ da Velha que o meu pai me começou a dizer que tinha nascido naquele dia um menino, que se ia chamar António, meu irmão. Estava explicada a razão de eu ter feito aquela excursão com o meu tio, a Tomar e ao Castelo de Bode.

Manuel João Sá

001 - Cópia (2)
9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. Passeio de barco no rio Nabão
001
9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. No jardim de Tomar.
001 - Cópia
9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. João Sá, Manuel João Sá e “Xerife”, no jardim de Tomar.
001 - Cópia (3)
9Julho1950-Excursão do Vale de Santarém, a Tomar e Castelo de Bode. Um grupo dos excursionistas, no jardim de Tomar.

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “Uma viagem inesquecível”

  1. Ora aí está uma bela crónica com cheiro de infância e bem documentada com fotografias. Eu, nessa altura, só tinha ido a Valada ver o Tejo…

  2. Brilhante. Foi para mim uma enorme satisfação ter podido aceder a este texto maravilhoso.
    Obrigado Sá.

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