Os alunos da noite

Naquele tempo, terminadas as aulas do dia, ia eu para a avenida, para aquele desafio de apanhar boleia. Umas vezes juntávamo-nos, outras vezes separávamo-nos. A estratégia, porém, nem sempre resultava, pois os condutores tanto levavam um só como, com surpresa, levavam todo o pessoal.

Ainda hoje tenho matrículas e carros na cabeça. Por exemplo, aparecia o GI-20-40, que era um Fiat, ou o IE-13-17, que era uma carrinha Austin, e tinha boleia pela certa. Às sextas vinha do Entroncamento um cabo da tropa, num Renault pequenino, pintado de verde, de grelhas atrás , e era… trigo limpo. Íamos a correr, a porta abria para a frente e nós, às vezes cinco, a enfiarmo-nos no carrito, e lá íamos, Padeiras abaixo.

Tanto podíamos ter sorte de imediato, como ter de esperar… esperar. Nos dias de menor sucesso, a hora da última camioneta a chegar e eu, ali, com outros, a desesperar, a esticar o dedo, a fazer o sinal e… nada. Então, vindos dos lados do Cartaxo, de Vila Chã de Ourique, do Vale de Santarém… começavam a chegar à cidade os alunos da noite. Iam para a Escola. A nossa Escola Industrial e Comercial de Santarém.

Subida das Padeiras

E eu, que maldizia o estar ali, à boleia, a procurar poupar uns dinheiritos… ficava vencido pelo  querer daqueles homens, alguns ainda jovens que, de bicicleta, faziam aquele caminho, para irem à Escola. De bicicleta. Outono, Inverno, Primavera, Verão. E eles, com chuva, vento, frio, calor, cansaço, sono, fome… eles a subirem as Padeiras, depois de subirem e descerem outros pontos da estrada, eles com as pastas de cabedal, na bicicleta, junto ao suporte traseiro, ou enfiadas no quadro… e depois, terminadas as aulas, pontos, exames, eles a voltarem a casa. Com chuva, vento, frio, calor, cansaço, sono, fome. E no dia seguinte, tudo a acontecer outra vez. Trabalho, viagem para Santarém, aulas, regresso a casa…

Eles, vindos dos lados do Cartaxo, de Vila Chã de Ourique, do Vale de Santarém… e de tantas outras aldeias e lugares, trezentos e sessenta graus em volta de Santarém, eles de bicicleta ou de motorizada, eles com o sacrifício a comandar a vida. Eles em busca de mais saber, de um emprego melhor, de uma vida diferente. Eles, a caminho do sonho. Após, todos os dias, desde manhã até à ida para a Escola, labutarem para o ganha-pão, seu e da família, tudo tão difícil…

Então, eu ali à boleia, a maldizer a sorte, cada vez menos carros para esticar o dedo para o sinal da praxe, eu ali e a ver aquele homem da minha terra, que todos os dias, sol ou chuva, trabalhava no campo, ia a casa mudar de roupa e se punha a caminho da minha Escola… aquele homem, bem mais de 40 anos, as mãos calosas da enxada e de outras alfaias, subia as Padeiras e lá ia ele a caminho da Praça Visconde Serra do Pilar…

Este homem chamava-se Manuel Martins Ferreira. Natural do Vale de Santarém, amigo de meu pai e de meu tio. Fez o Curso Geral de Comércio na minha Escola, no tempo mínimo de 6 anos que o curso durava. Este homem só teve dificuldades a Caligrafia, porque as canetas escorregavam nos calos que tinha nos dedos… este homem, disseram-me, mesmo assim teve 13 a Caligrafia, todas as outras notas foram superiores… este homem, exemplo como tantos outros homens e mulheres, ALUNOS DA NOITE da minha Escola Industrial e Comercial… deixo-lhes aqui uma homenagem… tardia, mas sentida, profundamente sentida, profundamente sentida…

Manuel João Sá.

(Esta crónica também foi publicada no blogue Alfageme Santarém, dos Antigos Alunos da Escola Industrial e Comercial de Santarém, em 30 Jan 2011).

Autor: 60emais

Português.

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