Amoreira amiga…

Amoreira… Ao pé de ti, olhando o teu tronco, tenho de parar a contemplar-te, em silêncio, com admiração e respeito. Conheço-te, Amiga. Aqui, como em qualquer parte do Mundo onde te encontre, assim, enorme, como tu és, ou simplesmente um tronquito com raiz, só dez-réis de amoreira ainda, frágil, mas já a projectar vida, seiva, energia, para cumprires o teu papel na vida do Universo. Conheço-te, Amiga. Tu, certamente já estás com muitos anos, Mulher. Um tronco carcomido, como se carregado de crostas de muitas lutas, pela tua grandiosa perseverança, pela vida que teimas em manter, num contributo singelo à Mãe Natureza, aparentemente um pequeno nada, porém tão precioso. Tens uma copa enorme, frondosa, orgulhosa, carregada de frutos, uns já amadurados, outros ainda verdes. Há pássaros voando, cantando, depenicando, felizes, no teu interior. O chão, sob a tua copa, está pejado de amoras negras, tuas filhas, já pisadas, o sumo espalhado, fazendo pinturas a roxo no acimentado em volta… acimentado… que pena… 

Revive em mim um misto de perfumes de antigamente, quando os meus bichos-da-seda clamavam por folhas novas, na eterna azáfama da sua vida, na metamorfose imparável desde o ovo à lagarta, ao casulo e crisálida até à borboleta, para tudo continuar, num ciclo sem fim: após o acasalamento os ovinhos a saírem do ventre das lagartas, elas prestes a sucumbir no sacrifício da sua morte, pelo brotar de nova vida, dentro de meses… e todos os anos eu a ter de ir em demanda de mais folhas, arrancadas à sucapa, uma a uma, das amoreiras da Fonte Boa, com os guardas andando por ali, algumas vezes era pela calada da noite que o conseguia… 

São memórias da minha vida que tu convocaste, para o momento em que te encontrei e te admirei… E as tuas memórias quais serão? Encontro-as no teu corpo: gretado, com sulcos, ferido com golpes de serrote, que ergues ainda, digno, oxalá que por muitos mais anos. Quanta sombra fizeste, nas muitas décadas da tua existência?!… Quantas alegrias deste às crianças que pelo teu tronco treparam, para de ti obterem a satisfação da sua ousadia e gulodice e o alimento para os seus bichitos-da-seda?!… Quantas gerações de velhos sob a tua copa se protegeram dos sóis, cavaqueando, talvez recordando os tempos em que, quando meninos, por ti acima pareciam coriscos em demanda de frutos e de aventura, porfiando no alcançar do triunfo entre pares, pela chegada ao alto, cada vez mais alto, até atingirem a glória de já alcançarem o sol, no topo da tua copa?…

Estás velha, Amiga, mas digna e orgulhosa e eu, orgulhoso de ti… apetece-me abraçar-te e dizer-te: OBRIGADO.

Até breve, Amiga.

Manuel João Sá.

Amoreira
Amoreira-Alhandra-Junto ao rio Tejo. Foto de Manuel João Sá-4Maio2019.

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “Amoreira amiga…”

  1. Obrigado Amigo Manuel Sá, pelo teu escrito sobre a Amoreira. Muito Bonito e oportuno. Pergunto: quantos de nós, quando passamos junto de uma amoreira, ou de qualquer outra árvore de fruto, olhamos para ela com um olhar longínquo e vazio . . .
    Tu não. Vais ao fundo da questão e, manifesta o que sentes no teu olhar, daquilo que nós não nos apercebemos quando olhamos para ela.
    Gostei ! ! !
    Um abraço.
    Luís Mendes

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