Retrato de quando era rapaz

De nós, conhecemos o antes. O que de nós recordamos do que passou. O que de nós recordamos do que fomos. Porém, fomos mais do que isso: fomos o que não vimos de nós, mas outros viram. Fomos o que não vimos de nós e os outros também não viram. Fomos. Assim acontece sempre. Com todos. Com tudo, acerca de tudo.

As fotografias, a que então chamava retratos, e os outros também, levam-me até lá, muitas vezes. Ao passado, mais ou menos longínquo. Recordo-me de alguns desses tempos, e até dos momentos precisos, em que estou, nos retratos. Ainda tenho essa capacidade de recuar no tempo e de colocar-me lá, quase como se estivesse na acção, naquele dia, para aquele acontecimento, sendo protagonista ou simplesmente participante, porque há aqueles acasos em que aparecemos acidentalmente numa fotografia ou num vídeo, e nada fizemos para isso. Há umas décadas apareci num grande jornal, mas não fiz nada para que tal acontecesse: bastou-me estar no lugar em que um fotógrafo do jornal fez uma foto, para ilustrar não sei o quê, na baixa de Lisboa, e pronto, lá fiquei eu em grande plano, para a eternidade, sentado no banco corrido de uma rua, a ler um jornal. Só soube disso quando, há cerca de três anos, alguém me mandou a página do jornal e, de surpresa, me vi lá.

Neste retrato, em 1957, eu tinha 11 anos. Andava na quarta-classe, e o professor era o Fernando Costa, que deixou nome no Vale de Santarém, pela qualidade da sua meritória acção pedagógica. Houve um dia em que ele nos disse que haveria de vir à escola um senhor para fazer retratos a quem quisesse. Retratos individuais. Que era preciso vestirmos a melhor roupa para esse retrato, e que poderia ser sem bata. Que deveríamos falar com os nossos pais, porque ele queria saber quem ia ser fotografado e, também, que os retratos eram pagos e que o senhor só viria se houvesse alguns interessados. Cheguei a casa, contei à minha mãe e ela disse: quando o pai vier falas isso com ele. E assim foi. No dia seguinte disse ao professor Costa que sim, que meu pai tinha dito que dava ordem para eu tirar o retrato.

No dia combinado, fui mais aperaltado. A camisola vinha do Natal. Fora presente, naquele ano, e que bom que era ter roupa nova como presente de Natal!… A camisola, de gola alta, era de lã, malha grossa. Foi comprada em Santarém. Tinha essencialmente duas cores: uma barra branca, no peito, o resto era em cinzento claro. Além disso losangos, que se mostravam num só ponto, a branco. Losangos, uma figura geométrica de que eu gostava e ainda gosto. Do que se não vê, lembro-me de ter vestido camisola interior, de usar calções de lã, para o castanho e, nos pés, botas de pele de fina, castanha, com virola em cima, onde se viam uns buraquinhos, na própria pele, e umas meias em castanho, também.

No quadro de ardósia, grande, por detrás, o professor havia desenhado figuras geométricas. Era esse o enquadramento de fundo. Sentado à secretária, entre as mãos seguro o livro de leituras, o “FINALMENTE”. À minha esquerda, o globo terrestre. À direita, um caderno. Encostado à parede, atrás de mim, o banco corrido, para o qual o professor nos mandava, em grupos de seis, para as chamadas orais. Fiquei assim, depois de o fotógrafo ter feito as recomendações e me ter dito para sorrir um pouco, mas não deu para tanto. Fiquei assim, entre a tensão e a aparente serenidade.

Olho-me, sessenta e dois anos depois, e reconheço-me. Terei feito tudo para estar bem, para pelo menos parecer bem, para não defraudar as expectativas, embora se tratasse apenas de um retrato, mas isso era tão importante naquele momento!… Um retrato num dia único, na escola, antes de terminar o ano lectivo, antes do exame da quarta-classe e da entrada na escola técnica de Santarém. Depois viria muito mais: a partida para Lisboa, para trabalhar e estudar, a entrada na tropa, a guerra colonial, o casamento, o regresso ao banco, o nascimento dos filhos, o seu desenvolvimento, ano a ano, a sua partida de casa, a caminho dos seus futuros pessoais e familiares…

Aqui estou. Este sou eu. Quer dizer, é o meu retrato, uma imagem de mim, naquele tempo, naquele dia. Depois, uma vida de construções, umas grandes e outras mais pequenas, de sonhos e realidades, de apostas na busca de percurso sólido e capaz, de novos estudos, de afirmações vitoriosas e de algumas derrotas. E de perdas: de familiares, de amigos, de alguns projectos, de alguns sonhos…

Um dia após outro, há que caminhar. Porque há mais sonhos a alimentar-me e objectivos para concretizar. Assim será.

Manuel João Sá

16 Abril 2019.

Eu_NaEscola_11anos

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “Retrato de quando era rapaz”

  1. Lindo menino, com vida cheia e feliz, abençoado por pais amorosos.Boas cepas dão boas uvas e boas uvas dão bons vinhos.

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