As aroeiras do valado, pela Primavera

Pela Primavera, as aroeiras do nosso valado já se mostravam pujantes de vida. Eram nossas companheiras, ali há muito tempo, desde que o nosso avô António “da Velha” tudo arroteara, para plantar vinha, oliveiras e árvores de fruto. Cresciam no valado, de parceria com silvas e carrasqueiros. O valado fazia de extrema com a estreita estrada, de terra batida, de frente para o ovil da Fonte Boa, a qual ligava com a estrada do “carril”, de caminho para o Vale. É a estrada que hoje tem o nome de Manuel da Silva Sá, meu pai. Ali, onde era o nosso casal, chamava-se “Casal do Cantadeiro”, porque o “Cantadeiro”, que tocava guitarra e animava bailes, no Vale de Santarém, na Póvoa da Isenta e no campo, era nosso antepassado. Era o proprietário daqueles terrenos. Hoje chamam-lhe “Casal Catarino”, mas isso resultou de um engano: não se respeitou a história do lugar.

Tenho o perfume das aroeiras entranhado, desde sempre. Vem-me à memória, quando por elas passo, seja onde for. Esmago as folhas, os frutos, e lá está o perfume intenso, saudável. Lembro-me dos coelhos bravos que se acoitavam nas moitas de erva, junto ao valado, dos ratos e dos sardões que de lá saíam, e de uma cobra gigante, que nos aterrorizava, e que vagueava entre o nosso valado e o terreno do João “brasileiro”. Havia uma figueira enorme, que se entrelaçava com outra, perto do valado. Os pássaros, em bandos, eram fregueses diários das figueiras, até deixarem os figos só com pele, uma casca fininha, o pé agarrado, ainda, aos troncos, por vezes com buracos, viam-se os raios de sol, através dos buracos, ao fim da tarde. Eu subia às figueiras e ficava lá a aguardar os pássaros que, àquela hora, atacavam as figueiras de um modo particular: os papa-figos, os mais vorazes, mas também os mais bonitos, só nessas alturas os conseguia ver de perto, era isso mesmo que eu queria. Pela Primavera os papa-figos faziam os ninhos no único eucaliptal que havia por ali, um pouco abaixo da casinha da família das três gémeas (Ana, Clara, Joaquina) minhas amigas. A casinha ficava a meia encosta, no terreno do “brasileiro” e o eucaliptal era noutra propriedade ao lado, dizia-se que era dos “Garceses”. Íamos ver os ninhos, muito altos, tecidos entre as folhas dos eucaliptos, os ninhos como açafates, as folhas a bailarem ao sabor dos ventos e os ninhos lá em cima, baloiçando, baloiçando… guardando os ovos lá ficava a mãe, depois nasciam os filhos e, todos os anos, a natureza cumpria-se. Aquela colónia de papa-figos, que nidificava no eucaliptal e ali se reproduziam, era certa no ataque às nossas figueiras, todos os anos.

Ontem calhou voltar a estar de novo junto a um mar de aroeiras, carrascos e outros arbustos da charneca portuguesa. E como hoje começa a Primavera… VIVA A NATUREZA. TODOS OS DIAS!

Manuel João Sá

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Autor: 60emais

Português.

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