Memórias, em livro…

Finalmente!… dizem-me, saudando o aparecimento do meu livro, o primeiro que publico, e que é sobre o tempo em que andei na Escola Primária Aristides Graça, do Vale de Santarém, entre 1953 e 1957.

Desde criança que os livros me fascinam. Quando ia à Papelaria Silva, em Santarém, logo após ter entrado para a Escola Industrial e Comercial, sempre que podia ficava a ler as lombadas. Aquele era outro mundo, diferente do dos livros de estudo, também eles com o seu perfume, que comecei a conhecer ainda na Escola Primária. Folhear um livro novo, com “coisas” para aprendermos mais, sentir  o peso, o desenho da capa, as letras do título, o toque, o leve sussurro das folhas de papel impressas, roçagando umas nas outras e, sobretudo, o cheiro daquela tinta, o objecto ainda novo, como que a pedir “abre-me, lê-me, aprende comigo”… era isso que me impelia desde logo a ir por ali fora, quando as lições escolares se sucediam mais lentas, não acompanhando a minha sede de saber.

Na Papelaria Silva, comecei pelas lombadas, fixando títulos e autores, porém, um dia, o Sr.Alfredo, que conhecia o meu pai e já me tinha visto com ele, disse: “queres ver?… podes abrir”. Era um livro de Octave Feuillet, com o título “A vida de um rapaz pobre”. Foi o título que me fez ficar ali, quase a afagar a lombada, e foi por isso que o Sr. Alfredo me autorizou a abrir o livro, de que li uma página, se tanto, pois não tinha dinheiro nem idade para aquela extravagância…  Um dia, alguns anos depois, foi a biblioteca itinerante da Gulbenkian, estacionada como sempre junto à Fonte das Três Bicas, no Vale de Santarém, que me deu a possibilidade de ler esse livro, de que viria, mais tarde, a comprar um exemplar.

Haveria de vir a minha primeira ida à Biblioteca Braamcamp Freire, em Santarém. Foi numa visita de estudo, com a professora de Português a acompanhar a turma e a falar sobre a importância dos livros e das bibliotecas e como poderíamos utilizar aquele espaço para aprendermos mais sobre as matérias das disciplinas. Foi a primeira vez que ouvi falar em pesquisa em livros e jornais, que, não sendo material escolar, eram importantes em termos de aprendizagem. E foi também por via dessa visita e do que depois nos foi dado como orientação para trabalhos a partir da consulta de livros, que cheguei a autores como Alexandre Herculano (Eurico, o Presbítero) e Almeida Garrett (Viagens na Minha Terra) que não mais esqueci.

Depois desse tempo iniciático do contacto com bibliotecas, continuado em férias, na minha terra, através do recurso à biblioteca itinerante (levava sempre alguns livros, com o muito atento conselho do senhor que me atendia, sobre que livros preferir) chegou o tempo de começar a visitar livrarias, sobretudo em Lisboa, onde passei a trabalhar e estudar após os dezoito anos. Foram muitas, muitas horas passadas em livrarias e bibliotecas, por necessidades de estudo, académico ou profissional ou, simplesmente, pelo prazer de ler. Não por necessidade de ocupação do tempo, ou para me entreter, mas para conhecer mais da vida, do mundo, das pessoas, ao mesmo tempo encontrando autores tão diferentes, tão diferentes modos de estruturar as suas obras, tão diferentes modos de dizer…

Entretanto, ao longo dos anos, solicitado por exigências profissionais, fui produzindo catadupas de comunicações, propostas, programas, manuais, apresentações… naquela linguagem marcada pela imperiosa necessidade de vender as ideias, interna e externamente, para servir lógicas de mercado orientadas para objectivos… comerciais, de negócio, de serviço ao cliente, de reestruturação e mudança, de competição, de marketing, de… Pelo meio, como fuga que a mente impunha, e em resposta a uma necessidade que parecia desaparecida mas que regressava em força, via-me a pegar em folhas de papel, para nelas deixar pensamentos, apontamentos breves, memórias de outros tempos, mas também notas sobre coisas que via acontecer, na rua, por exemplo. Pensei algum dia em publicar isso? Não. De cada vez que entrava numa grande livraria (foram desaparecendo, já poucas existem) sentia a mesma atracção de sempre, com um respeito enorme por aquela imensidão de vida, ali, mas longe de mim a ideia de que, algum dia, poderia vir a pensar publicar fosse o que fosse. Até que…

Fui juntando os papéis e, a certa altura, reencontrei mais uns cadernos, com coisas escritas por mim, há muito, algumas por acabar. O fim da ligação ao banco onde trabalhava e a passagem a um regime livre, como formador e consultor, abriu nova oportunidade para continuar a escrever, de vez em quando, sobretudo memórias relacionadas com o meu tempo da escola primária, a adolescência e juventude e a participação na guerra colonial. Um dia, inesperadamente, recebi um convite para mandar para o jornal “O Almeirinense” aquilo que eu quisesse, em jeito de crónica. Foi a minha amiga Zália, que é de Almeirim e que trabalhava no jornal, que me disse algo como: “A redacção do jornal gosta do que escreves… manda para lá… quando quiseres” e foi assim que passei a ter, durante alguns anos, uma colaboração algo irregular, com o título genérico de “Coisas da Vida”. Foi assim que comecei a ter os meus primeiros leitores, recebendo, uma vez por outra, apreciações, sugestões, perguntas, às quais procurei responder da melhor forma. Depois, quando criei este meu blogue, fui transpondo para aqui parte do que havia escrito, com maiores preocupações, dado que aumentava o universo de potenciais leitores. Foi um período longo de maturação, que aliás continua, e tantas vezes me interrogo sobre o que penso e como penso, sobre o que digo do que penso, para ser lido, se é que há, ou continuará a haver interesse no que penso e digo, mesmo que se trate, por enquanto, muito mais de memórias, que são obviamente coisas de passado e isso pouco pode valer…

Foram-me chegando opiniões de… leitores do meu blogue. “Passei a ter leitores, coisa de grande responsabilidade!”, impensável, para mim, há décadas, já que o mais que eu havia tido era muitos leitores das minhas comunicações profissionais, de relatórios e manuais, enfim, conteúdos marcados por objectivos muito distantes dos que entretanto foram ganhando em mim lugar, sentido, urgência, vivência diária. Chegaram opiniões que se colaram a uma pergunta que ia fazendo: será que um dia vou publicar algo do que escrevo?… O quê, quando, como? Opiniões que eram positivas, de amigos e de desconhecidos, e que me interrogavam do seguinte modo: Já pensou em publicar as suas crónicas? Porque não o faz?…

A resposta, por agora, está dada. Publiquei o meu primeiro livro, que é de memórias do tempo de menino da escola primária, na minha terra. Nele também deixo agradecimentos a quem devo o apoio, o conselho, o saber técnico para o pôr “de pé”. O livro é o que é: singelo, breve, autêntico. Certamente com todos os defeitos e algumas virtudes de um primeiro livro. Nele coloquei tudo o que tinha para dizer, tudo o que tinha para dar, por agora, com referência ao tempo e temas desse período da minha vida. E dei o meu melhor, estou certo. Agora (e isto é coisa nova para mim) o livro vai ter vida própria: de mim saiu, vai pertencer a quem o ler, que o fará com a sua específica forma de pensar e de apreciar o que lê. E isso é com cada um, obviamente. Já nada posso fazer pelo que escrevi e publiquei, neste meu MEMÓRIAS – Escola Aristides Graça-Vale de Santarém, que tem lançamento público, na minha terra, em 21 deste mês de Outubro de 2018.

Manuel João Sá

MEMÓRIAS... Capa

Memórias_Lançam_Cartaz

Autor: 60emais

Português.

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