Crónica dos lençóis secando ao sol

Sol. A brisa da tarde a fazer ondular os lençóis, ao de leve. Os lençóis erguem-se, um tudo nada, chegam a um ponto limite, como uma onda, serena, breve, depois descaem, quase como se fosse já na cama a altura de os lançar, forma-se uma pequena camada de ar a sustê-los e eles, docemente, a pousarem, no colchão. Paus assentes na parede, alguns fincados em pequenas reentrâncias das velhas pedras, gastas, enegrecidas, umas plantas esguias, a nascerem, viçosas, nas suas gretas, e um pardal a aproveitar as sementes de milhã, pendentes da haste, a arquear mais com o pardal, atrevido, lá em cima, a banquetear-se. Passam turistas e ficam a admirar o quadro, e vá de fotografar. Uma prática de antanho, a resistir à voracidade dos tempos, das modas, da vertiginosa onda tecnológica. Uma prática simples, singela, pobre; porém útil, funcional, natural, única, para quem a usa, ainda. 

Ali, naquele quadro, minha mãe a olhar a sua roupa, a ondular ao vento, lá em cima, no nosso casal, no cabeço da Fonte Boa, para os lados do Vale de Santarém. A roupa, imensa, fruto de trabalho enorme; a roupa pendente, no arame brilhante, de tão usado, tantos anos, mãe, e as molas de madeira a partirem-se, uma vez por outra. Ou as mulheres do Vale, ou de outro qualquer lugar do meu país; nos seus quintais, nas suas janelas, nas suas varandas, nas suas barracas; entre estacas, entre árvores, de um muro para o telhado, de qualquer coisa para qualquer coisa… as mães, as filhas, as meninas a aprenderem para mulheres casadas, para mães, avós… a pendurarem a roupa da casa, depois de lavada; lavada nos ribeiros, no tanque da horta, no poço da vizinha, na levada, ou debaixo da ponte-de-arcos-velhos-gastos, de um rio que não vem no mapa dos turistas, por enquanto. 

Vêm-me à cabeça as mães, em África; eu na guerra colonial, em Angola; eu o inimigo, com a G3 aprontada, a ver as mulheres, mães com filhos enrolados num pano, dormindo no seu dorso, elas para cima, para baixo, entre a roupa posta, numa espécie de ceira de entrelaçado de folhas; a roupa, depois de lavada na água da cascata, a ser posta no arame, esticado entre dois paus plantados no chão do povo, da sanzala; outros paus pelo meio a esticar, a fazer subir o arame, e assim estava montado o mesmo utensílio, para o mesmo fim, porém o cenário… o cenário era tão diferente…

Não controlamos a memória, mãe, tu bem sabes, falámos disso tantas vezes… Por isso, tem que vir à tona o que, aparentemente sem razão, dela eclode, como semente em campo fértil.

Manuel João Sá

18 Junho 2018.

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Foto de Manuel João Sá. 18 Julho 2018.

Autor: 60emais

Português.

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