João d’Aldeia voltou por um dia à sua horta… e entre nós vai ficar, para sempre.

Aconteceu História, no dia 24 de Junho, no Vale de Santarém. Graças a João d’Aldeia, o poeta da nossa terra que, finalmente, começamos a conhecer. Foi na festa em sua homenagem, no 23º aniversário da elevação do Vale a Vila, promovida pela Junta de Freguesia. O homem e a sua obra, em trabalho e comunicação de Vítor Pinto da Rocha, membro do Grupo Vale de Santarém-Identidade e Memória, estiveram connosco, numa sala esgotada, com muito interesse dos participantes, e a presença de Dona Júlia Pacheco, uma das netas do poeta, que foi um enorme prazer conhecer. Um dia inesquecível, para mim e para muitos mais.

É natural que ainda não tenhamos consciência das consequências positivas deste acontecimento, que foi a realização da sessão, depois de o Grupo Vale de Santarém-Identidade e Memória se ter constituído e ter escolhido o nosso poeta – a sua vida, a sua obra – como dos primeiros temas a trabalhar, no âmbito dos objectivos traçados. O que se seguiu, depois da nossa primeira reunião em 15 Nov. 2015, foi a pesquisa sobre o poeta e a sua obra, onde quer que ela pudesse ter sido publicada, em jornais, principalmente, pois mais não se sabia situar. Com esse trabalho de pesquisa e o que, depois, mais se conseguiu obter, foi possível a comunicação referida, a partir da qual a obra de João d’Aldeia ganha dimensão pública, que irá ter ainda outra repercussão, impensável até aqui. 

Não deixa de ser curioso que o poeta tenha voltado à sua horta. Na verdade, na zona da vila onde hoje está situado o edifício da Junta de Freguesia, e onde foi apresentada a comunicação, ficava a famosa horta do Sr. João Nogueira – o poeta João d’Aldeia. Era ali, beneficiando das águas do ribeiro que ainda hoje corre, e da fertilidade das terras defronte, um autêntico nateiro prenhe de vida, cercado de salgueiros, silvados e canaviais, para acautelar os males dos ventos e fazer sombras, que o hortelão, do mais sabedor que havia na função, trabalhava a terra, fazia as sementeiras e posturas, em organizados canteiros, cuidava do crescimento das hortícolas e das primícias e mimos, como os morangos, em que era único, exímio, orgulhoso e amante. Morangos vermelhos, carnudos, perfumados, que trazia da horta e oferecia, como fazia com a sua poesia. A terra os dava, às gentes do Vale ele os oferecia. Frutos como poemas, poemas como frutos. A terra (natureza e aldeia) dava-lhe o sustento: na horta e nos temas para a sua poesia; isso ele devolvia à terra, ofertando produtos da sua horta e versos da sua veia literária, feitos de elogios, galanteios, lamentos, tristezas, sonhos e amores clandestinos.

João d’Aldeia que, um dia, era eu criança, me mandou chamar para, no seu lúgubre espaço de vida pré tumular, me ler o que escrevia, numa letra de mão trémula, deixada a custo, a tinta azul, no maço de papel um pouco enrolado, enegrecido pelo tempo, ou pelas agruras da sua própria existência ali, ao cimo da escada íngreme, o corpo abandonado, um pouco soerguido no que lhe servia de leito, uma luz difusa a entrar pela janela, de onde mirava o largo da fonte das três bicas, e, depois de ler os versos, a perguntar-me, pouco audível, se havia gostado e eu, após um silêncio, ignorante, a dizer que sim, pela rima; o poeta a dizer-me que desejava que alguém ficasse com os seus versos, e a pôr humildade no seu desejo, como quem diz:  isto não vale nada, mas é o que tenho para deixar, gostava de o deixar a quem mo guardasse… 

Passaram quase seis décadas, após esta visita, a segunda, ao último reduto de vida física do poeta, que, certamente, a vida interior terá continuado, talvez até ao último suspiro, quem sabe?… Em 1961 partiu o homem. Em 25 de Novembro, era sábado. Nada soube sobre ter falecido, nada soube sobre o enterro. Na semana seguinte, ouvi dizer: morreu o João Nogueira. Um silêncio enorme, uma impotência completa: aquele que me quisera ter por companhia, por tempo tão breve, por duas vezes, para me contar da sua amada poesia e que fazer com ela, já tinha partido, antes de resolver o seu desejo, pensava. No Correio do Ribatejo saiu um poema, de um amigo seu, em sua homenagem, que começava assim: “O vate morreu, o Vale está de luto, Não mais será cantada a Joaninha…”. Anos a fio, os versos, gravados na minha memória, foram surgindo sempre que o poeta me vinha à cabeça: a sua voz, o seu porte, o seu olhar, as nossas duas conversas no seu lúgubre espaço de vida.

Um profundo silêncio se foi instalando acerca do destino da sua obra, após a sua morte, anos a fio. Enquanto isso, a sua imagem não se esfumava: era como se o visse na fonte das três bicas, pelo inverno, encafuado no seu sobretudo pendão, muito coçado, ele alto no corpo e no porte, já a corcovar, mas ainda imponente, de olhar profundo, brilhante, sedutor, voz possante mas doce, convincente; ou no seu leito, o espectro do fim, porém sereno, como se o último poema ainda estivesse por nascer das suas entranhas, do seu nateiro de vida.

Foi em 2018 que, com outros, resgatámos a memória do poeta. Como uma missão. Com outros e para outros, os Vale Santarenos e quem mais quiser, cumprindo como que um regresso ao leito do homem que me mostrou algo da sua criação profunda e me disse “desejava ter alguém a quem deixar isto”, e “isto” era o cerne da sua essência, semeada em forma de poesia em folhinhas velhas, gastas, fininhas, ou em papel pardo ou restos de folhas de caderno de cópia, de uma linha. Como posso falar disto sem me emocionar profundamente, sem ir até às lágrimas, pois que sou eu, o rapaz de doze anos, que nada compreendeu do apelo do poeta, mas que o ouviu e admirou, no seu profundo abandono, no mais decrépito espaço da sua finitude terrena, ele prestes a voar até ao espaço etéreo, sublime, dos criadores… sou eu, com outros amigos, movidos pela força vivificadora, imanente, da sua criação poética, sim, somos nós que ajudamos a que ele regresse à sua terra, à nossa terra, afinal, à sua horta, onde merece estar, como se tratando ainda das sementeiras para o corpo e o espírito.        

Agora está entre nós, o Amigo João d’Aldeia. Aquele que foi perseguido, abandonado e esquecido, voltou ao Vale de Santarém, pois que a família doou à nossa terra a sua obra. Em público, em directo, ali mesmo, na parte final da sessão de homenagem que lhe era prestada, já cumprida a excelente apresentação da comunicação “João d’Aldeia, poeta do Vale de Santarém”, por Victor Pinto da Rocha, quando a sua neta, Dona Júlia Pacheco, entregou ao Vale de Santarém, na pessoa do presidente da Junta de Freguesia, tudo o que havia na posse da família, da autoria do poeta. Inesperado. Surpreendente. Único. A justificar um AGRADECIMENTO PROFUNDO, ETERNO, dos Vale Santarenos. Mas justo, sem dúvida. O Vale de Santarém, “pátria de rouxinóis e de madressilvas”, disse Garrett, foi também a pátria da poesia de João d’Aldeia, inicada ainda em tempo de criança. Um orgulho enorme, e uma responsabilidade a assumir, desde a primeira hora, que exige dedicação, saber e competência, para corresponder à missão que nos é entregue. Que temos de assumir com elevação e sentido de cidadania. Completamente.  

Ou seja, como disse outro poeta, António Ramos Rosa, já falecido – por acaso também muito pouco citado, conhecido, lembrado, tratado – … “A vida é uma vitória que se constrói todos os dias…”. Aconteceu História. Foi uma vitória.

Sim, estou feliz! 

Manuel João Sá.

(Vídeo da reportagem do Correio do Ribatejo, em…)

 

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João António da Silva Nogueira – Poeta João d’Aldeia. Nasceu no Vale de Santarém, em 1879, onde faleceu, em 1961.

 

Autor: 60emais

Português.

4 opiniões sobre “João d’Aldeia voltou por um dia à sua horta… e entre nós vai ficar, para sempre.”

  1. Comentário por mail:
    Victor Manoel Damas Pinto da Rocha
    Obrigado em nome do João d’Aldeia, em nome do Vale e dos valessantarenos, muito obrigados em nosso nome pessoal
    Parabéns por mais uma óptima crónica histórica.
    Um abraço de muita amizade,
    Gina e Victor

  2. Comentário por mail:
    Obrigado Manuel por continuares empenhado na valorização do nosso Vale e em nos deliciares com as teus textos contadores de historias de personagens cujos feitos contribuiram para escrever a História do nosso Vale.
    Um Abraço
    José Lelriao

  3. Obrigado ao Manuel Sá e a todos, que com afinco e serenidade tudo fizeram para que esta homenagem a João d’Aldeia tivesse o final um feliz e merecedor. Os Vale Santarenos estão de parabéns por tudo, neste caso, em relação a João d’Aldeia.
    Era eu menino da segunda classe, aluno do Sr. Professor Costa e, recordo que, à porta da sala de aula, de vez em quando, surgia o Poeta João Nogueira, a pedir licença para interromper a aula e, para mostrar ao Professor Costa, os seu último poema, ou texto sobre um qualquer assunto de interesse, escrito num papel enrolado e amachucado, que tirava do bolso do sobretudo. Recordo, que ficava inerte, no cimo dos dois degraus da sala, enquanto o Professor Costa, com toda a atenção, lia e analisava tudo o que lia, num ambiente de total silêncio, como se só estivessem os dois dentro daquelas quatro paredes. Recordo também, que havia um aluno na nossa turma que dava pelo nome de «Armando», e julgo que era seu neto ou sobrinho. Já não lembro qual o parentesco. Para ele e, se ainda está entre nós, vai um grande abraço.
    Um abraço para todos
    Luís Neves Mendes

    1. Obrigado, Luís, pelo teu comentário. É uma revelação importante, a que fazes, a qual vem acrescentar um pormenor que é revelador da qualidade da relação entre esses dois homens que, ao tempo, para os alunos, a escola e o Vale de Santarém, assumiram papel de relevo, em condições muito difíceis, e que agora é possível avaliar e, por isso, um e outro estão entre os notáveis que a nossa terra homenageou, justamente, em tempos mais recentes.
      Sem dúvida que o teu comentário vai ter interesse para o que vai ser editado em livro, tanto mais que é algo que desconhecíamos, até ao momento. O meu/nosso muito obrigado, pelo teu contributo para este trabalho, que assim é cada vez mais do Vale de Santarém, e para os Vale Santarenos.

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