NOVA CRÓNICA DAS FOGUEIRAS

Não sei quando começou, na minha vida, o fascínio pelas noites das fogueiras. Não sei quantos anos eu tinha, quando vi acontecer a primeira, a de Santo António, lá no cabeço da Fonte Boa, onde morávamos, no Casal do Cantadeiro, a que mais tarde vieram a chamar Casal Catarino, erradamente, e assim ficou – mas isso há-de ser tema para outra crónica…

Às minhas duas irmãs mais velhas terá acontecido o mesmo: antes do dia em que alguém lhes disse “é o Santo António” – talvez os meus pais, ou os meus avós, ou os vizinhos, quando ainda morávamos no Bairro da Trolha, em pleno Vale, e a Mariana “Mirosca”, nossa vizinha, me carregava de vez em quando, eu com pouco menos de dois anos, mas muitas peles e um ar enfezado, que parecia não chegar a rapaz, segundo dizia a avó Constantina.

Sim, só alguém destes grupos, naquele jeito natural e irreprimível de passar a tradição, terá posto as minhas irmãs, sem elas darem por isso, no centro dessa festa popular, feita de antecedentes – ter antes conseguido o rosmaninho e outros pequenos arbustos aromáticos dos campos, na época, juntar tudo num local, pegar-lhes fogo, naquela precisa noite, enchendo o ar de fumo cheiroso, depois clarões de labaredas vibrantes, altaneiras, tudo estralejando em redor, não só a fogueira mas as bombas compradas na loja e, como coriscos, as bichas de rabiar em volta de nós, para, quase no fim, quando as labaredas mais quietas, os valverdes, atiçados, colocarem um deslumbre intenso em redor, aparecendo fugazes pinturas nas paredes ou no chão, aos nossos pés, desalojando as sombras da noite, subindo fosfenas e “velhas” rumo ao céu negro e, nos rostos de sorriso afivelado e gargalhada escancarada, turbulências de tons faiscantes, do azul ao verde intenso, ao amarelo passando a vermelho, a roxo, todas as cores, enfim, e um perfume de pólvora e rosmaninho queimado, misturando-se, envolvendo todos num inebriante estado de vibração humana – crianças, jovens, adultos, velhos, todos irmanados – na ligação à charneca que ali se queima, por tradição, na quase passagem da Primavera a Verão, na exaltação da vida, afinal num ritual vivido como pagão, somente, que ninguém ao certo sabia por quê, o ritual a passar: natural, orgânico, de pais para filhos, para vizinhos, para… quem viesse ao chamamento irrecusável da festa.

Lembro-me de que meu pai chegou a ir ao rosmaninho connosco e nos disse como se fazia tudo. Ou só disse como se fazia, mas não chegou a ir ao rosmaninho? Ou foi a Mari da Velha, nossa tia avó, que ensinou tudo isso? Ou minha avó, Mari Constantina? Ou minha mãe? Não importa: ficámos a saber e fizemos. Os irmãos mais velhos passaram o saber aos mais novos. Íamos ao rosmaninho ao pinhal da Fonte Boa, armados de sachos e sacholas. E também íamos ao pinhal do Ginestal Machado, que mais tarde passou para a Fonte Boa, e que a minha tia dizia ser do “Ginastal”, e era lá que íamos, junto à guarita, ver as cheias, no campo do Vale, um mar barrento, para lá da Ponte de Asseca, a perder de vista.

O rosmaninho do pinhal fazia-se grado mais tarde, por ter sombra, enquanto o dos terrenos charnequentos espevitava mais cedo e ficava mais esgalgado. O do pinhal estava ainda um pouco verde no Santo António, por isso fazia mais fumo, mas o perfume era mais intenso, entrava pelas narinas, demorava-se nas roupas, ficava na pele. Eu gostava mais do rosmaninho do pinhal. Trazíamos também alecrim e tufos de estaladeiras, com as suas pequeninas flores, quase roxas. Nas sacas de linhagem, que íamos encostando umas às outras, – sete, pelo menos, era a conta habitual – depositávamos as esperanças de uma fogueira forte e prolongada, misturando alguns cavacos e pinhas, para as labaredas finais, mansas, ficarem ali, com nossos desejos de para sempre, e nesse fim de festa havia ainda a queima da flor azulada da alcachofra – se no dia seguinte espigasse, o amor era correspondido .

Meu pai comprava bombas, valverdes, bichas de rabiar e até chegou a comprar foguetes. Do cabeço da Fonte Boa, lá no casal do Cantadeiro, lançávamos sobre o Vale, julgávamos nós, com a nossa vaidade ao de cima, a mais colorida e estrondosa fogueira de Santo António, que a de São João já era mais pequena e, a de S. Pedro, era uma coizita sem jeito, só para fechar o ciclo. Um dia meu pai, naquela mania de lançar as bombas umas atrás das outras, despachou uma para o tanque do sulfato de cobre, com que iria sulfatar a vinha, no dia seguinte. O estrondo foi enorme, mas maior foi a projecção de sulfato de cobre na alvura da parede da casa: ficou uma pintura inesperada, como uma mancha telúrica, digna de um pintor, que se foi esbatendo e revelando nuances, entre o azul leve e o verde desbotado, até desaparecer, mais tarde, a poder de caiação sobre caiação, após as vindimas, que era a altura, antes das grandes chuvas. 

Viria ainda o ano em que, na Fonte Boa, também os filhos dos doutores e de outros, de cargos superiores, quiseram saltar à fogueira, que seria a sua primeira vez e, para isso, tinham de ir ao rosmaninho. Houve quem lhes dissesse que estivessem descansados, que o rosmaninho iria aparecer, mas eles, apesar da oferta dos tratadores, queriam fazer a coisa a preceito – estavam mesmo interessados em colher o rosmaninho. Como a prática era nenhuma, decidiram contactar “um especialista”, e foi assim, com este título de ocasião, que o Tozé Carvalho, filho do equitador Carvalho, se me dirigiu, para me convencer a assumir a função de condutor do grupo, do qual faziam parte também o irmão João José, assim como os irmãos José e Maria João Cabral, as manas Ralo e a Nené Monteiro. Havia duas carrocitas, puxadas por burritos, que foram postas à nossa disposição. Pela tarde, armados de material próprio, assim como de farto lanche, acondicionado numas cestinhas de verga, partimos para a faina, em espaços que já havia identificado, como especialista, nas proximidades do pinhal, mas na zona das encostas da Topinha. A tarde foi proveitosa, dando até para ir às nêsperas, junto aos tanques, e depois um salto até às cerejas, na base da encosta contrária. Carregadas as duas carroças, foi quando descíamos, rumo à estrada de regresso, que uma se virou, numa dobra da encosta, e assim ficou algum tempo, o burrico de pernas para o ar, movimentando freneticamente as pernas, no vácuo, até juntarmos forças e o pormos com os pés no chão, ficando em condições de prosseguir. Pela noite, enquanto houve rosmaninho, também daquela vez houve fogueira de Santo António, mesmo em frente do edifício principal da EZN-Fonte Boa, era director Joaquim da Silva Portugal, a quem o pessoal havia alcunhado de “careca”, por razões óbvias, mas muito respeitinho, que o homem não era para brincadeiras.

Um dia – há sempre um dia – as coisas não correram bem, na fogueira da família. Andámos dias seguidos na colheita de rosmaninho. Foram mais, dessa vez, as sacadas que conseguimos, tendo descoberto que, para os lados do Zé do Canto, para os Covões, havia manchas de bom rosmaninho, bem alto, que crescia perto das tufeiras, ali onde o Ti Manel d’Abrã tinha ido arrancar blocos, à picareta, para a construção da barraca da burra branca, um animal esgalgado, ar trombudo e imprevisível, que até mordia os desprevenidos. Muitas sacas de rosmaninho seria, à partida, sinal de bem-sucedida festa, com os condimentos do costume: bombas, valverdes, bichas que até parecia que nos perseguiam para onde quer que fugíssemos, talvez um foguete e muitos saltos de todos nós, com nossos pais a verem e a gritarem CUIDADO, para não nos queimarmos. Mas foi isso exactamente que aconteceu: em cima da fogueira, surgindo em sentidos opostos, o António e o João chocaram, tendo o João rolado, completamente, sobre o braseiro que se formara. Uma tragédia. A família em choque, enquanto o João, em enorme sofrimento, era levado a toda a pressa para o hospital de Santarém, em busca da solução, que felizmente foi possível. Muitos meses depois dessa noite, que era para ser como todas as noites da festa popular das fogueiras, lá no casal do Cantadeiro, meu irmão João iria recuperar completamente. 

As memórias dessas noites fantásticas das fogueiras dos santos populares permanecem em mim. Houve uma noite em que a tragédia quebrou a festa. E foi para sempre. A vida, no mais exaltante e no seu contrário. E nós, nela. Por enquanto…

Manuel João Sá.

 

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Foto de Manuel João Sá.

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “NOVA CRÓNICA DAS FOGUEIRAS”

  1. Comentário enviado por Mariana Sá Patrício:
    “Fogueiras. Em grupo rapazes, raparigas, homens, mulheres, crianças, íamos todos em grupo para o pinhal do Pina ao rosmaninho, cantando. Era alegria, amizade, convívio Na Torre uma parga enorme de rosmaninho espalhava seu cheiro à distância. Finalmente a fogueira se acendia, uma roda enorme, cantava-se de mãos dadas, mais união; a fila para saltarmos, nessa altura a mistura de cheiros confundia cabelos chamuscados, a depilação feita, o cheiro a fumo nas nossas roupas, era mais puro e melhor que qualquer perfume, hoje de marca, avó Vieira ia apagando as alcachofras, todas em monte, cada uma com a sua, e íamos queimar, e dizíamos: alcachofra florida, florida te apanhei, se meu Amor me quiser bem, florida te encontrarei… Uma boneca em papel, recheada de bombas, estourava por todo o lado, o pinheiro de alto, e nós, Oh! patego, Olha o Balão!…

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