No combro da vala, na quinta-feira da espiga…

Um dia, não sei quando, minha mãe disse: hoje é dia da espiga. Só sei que era pequeno e que, aquilo dito, nada mais aconteceu. Mas no ano seguinte, repetida a lembrança do dia, que era “dia da espiga”, fiquei a saber algo mais, porque minhas irmãs, mais velhas, haviam ido ali, em volta do quintal, no cabeço da Fonte Boa, para colherem o que, segundo a tradição, se devia colocar no “ramo da espiga”, que era a “coisa” própria do dia, como os coscorões e os velhoses no Natal, as fatias paridas na “senhora das candeias”, ou as amêndoas na Páscoa. E lá fui também, para obter as espigas de trigo, debaixo da oliveira grande, e também os malmequeres, o ramo de oliveira, o rosmaninho, o tronquinho da videira, e por fim, por serem mais mimosas e deverem sobressair, as papoilas, bem vermelhas. Talvez algum pormenor falte, mas cada um de nós esmerou-se, nessa aprendizagem, que para mim foi a inicial, em fazer o mais garrido e equilibrado ramo da espiga, terminado com um atilho de junca, que havia sobejado, ao meu pai, de amoiroar a vinha. Os ramos ficaram uns dias em cima da mesa da “casa de fora”, ainda verdejantes, até que depois foram guardados, a secar, pendurados numa porta, deviam manter-se assim, esperando a sua rendição por novos, que no ano seguinte iria haver mais um “dia da espiga”. 
Todos os anos a tradição se fui cumprindo, assim como as fogueiras “nos santos”, e a queima da alcachofra, para ver se o amor era correspondido, já que, quanto ao ramo de espiga, o desejo era de que o ano fosse de boas colheitas, e nisso se esperava que os sóis, os ventos e as chuvas fossem nem de mais nem de menos, mas exactamente o necessário. 
Os anos passaram (os anos vão sempre passando…) e, com a adolescência, veio o desejo: havia um grupo que, continuando a tradição, ia para a borda da vala (rio Maior) passar o “dia da espiga”. Convidado, lá fui. Com “as coisas” que era necessário levar, além do desejo de estar e ser protagonista no grupo, sempre consegui gasosas e laranjadas da Fábrica Águia d’Ouro, do Vale de Santarém, mais dois chouriços comprados no Carlos do talho e uns ovos cozidos, que minha mãe preparou, a gosto.
Pelo início da tarde, encontrámo-nos no largo do Manel Jaquim, e, a pé, com as cestas para a merenda, rumámos ao combro da vala, virando para a direita, onde havia a casinha do guarda-rios, um pouco mais para diante foi onde amoitámos. Com aquilo que levámos, a merenda, tipo “piquenique” (o termo ainda era recente, entre nós) foi na borda da vala que gozámos o dia, com a água correndo, mansamente, ali aos nossos pés, com conversas, risadas e brincadeiras próprias de adolescentes: raparigas e rapazes entregues a si, alguns talvez pela vez primeira, que os pais sabiam, do seu tempo de também assim fazerem, que aquele era mesmo um dia inicial, sob muitos aspectos. Um dia de ritual de passagem para outra fase da vida. Mais “dias da espiga” se iriam passar, sim, enquanto adolescentes, mas aquele primeiro haveria de ficar, na memória, para sempre. Foi perto do anoitecer que regressámos ao ponto de partida, ao largo do Manel Jaquim. Todos os anos as espigas de trigo, os malmequeres, a flor amarela, de perfume inebriante, nos ramos das oliveiras, o rosmaninho de flor arroxeada, cheirando a charneca, os frágeis ramos e folhas das videiras, a anunciar colheitas fartas, e as papoilas vermelhas, pujantes de vida… me trazem esse primeiro dia da espiga em grupo e, lá no cabeço da Fonte Boa, a minha mãe, a deliciar-se, a ver-nos de ramos de espiga nas mãos, felizes, como certamente com ela terá acontecido quando, um dia, ainda criança, começou a saber continuar a tradição…

Manuel João Sá

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Ramo de espiga-Foto de Manuel João Sá 10Maio2017

Autor: 60emais

Português.

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