O meu primeiro 1º de Maio livre

UM DIA INESQUECÍVEL para mim e para a maioria dos Portugueses. 1º de Maio de 1974. Estádio da FNAT, actual Estádio 1º de Maio, em Lisboa. Estarei nesta foto, entre colegas bancários, e no meio da multidão. Em liberdade, após o histórico e ainda tão recente 25 de Abril. 
Ali, como por todo o País, esta foi a vez primeira, desde 1926, que os trabalhadores portugueses puderam juntar-se e celebrar o seu dia. O dia em que, POR TODO O MUNDO, mesmo contra os que os reprimem, OS TRABALHADORES têm direito a celebrar, a recordar a sua condição e a exigir melhorias salariais e profissionais, tantas vezes pagando com a vida o exercício desse direito cívico. 
Tinha eu 26 anos e havia regressado da guerra colonial, em Out. 1971. Com essa ainda curta, mas já marcante, experiência de vida, lembrava-me de que, no Vale de Santarém, quando era criança, os trabalhadores rurais haviam feito greves, reprimidas pelas polícias, quando exigiam melhores férias (salários) e trabalho de oito horas, contra o horário de sol a sol, como acontecia, nos campos, por todo o país. Lembrava-me de que, no dia 1º de Maio, no Vale, algumas vezes os homens se juntavam frente à taberna do Baeta, pela tarde, e davam gritos à Liberdade, à Democracia, à República, mas havia sempre pides por ali, e era preciso fazê-lo sem que se soubesse quem o gritava, e por isso faziam um pequeno círculo compacto para não permitir identificar quem o fizesse. Um dia, estando afixado um edital oficial, sobre o horário de trabalho, na porta da taberna do Baeta, edital esse cujo conteúdo não correspondia aos anseios dos trabalhadores, antes mantinha o essencial do que vinha sendo praticado, os trabalhadores do Vale usaram o mesmo processo: juntaram-se, fizeram o grupo e, do meio deles, um saltou e arrancou o edital, que nunca mais lá voltou. Em consequência, a pide apareceu, a GNR começou a fazer mais presenças, a pé e a cavalo, houve chamadas de homens a Santarém, mas nunca se soube quem arrancou o edital.
Hoje, nesta data, não posso deixar de lembrar homens do Vale de Santarém, como Manuel Martins Ferreira (o “Manelzico”, que esteve preso e foi maltratado pela pide) Manuel Sá (meu pai) João Sá (meu tio) José Costa, Joaquim Catalão, José da Cruz (“Caralheta”) e muitos outros que, nesse tempo de miséria e total falta de liberdade e com repressão, levantavam a voz e continuavam a apontar um futuro diferente: a liberdade, a democracia, que conquistámos em 1974. Eles, na nossa terra, como muitos outros no nosso País, estiveram nessa luta. Sempre.
1º de Maio de 1974, no Estádio que havia de passar a chamar-se de 1º Maio. Ali, naquele dia, sob o sol vivo e quente da tarde, ao recordar tudo isso que eu acompanhara ou soubera, pelo meu pai, chorei de grande emoção, mas também de imensa alegria. Um dia único, na minha vida, que há-de continuar assim. Livre. Haja o que houver.

Honrando quem por ele lutou, e o quis livre, Viva o 1º de Maio!

Manuel João Sá.

1º de maio de 1974 - Cópia (400x267)
1º de Maio 1974, no antigo Estádio da FNAT, actual Estádio 1º de Maio.
Ago2007 - 32 (2) (400x288)
Vale de Santarém-Rua Marquesa da Ribeira Grande. As portas de cor verde davam entrada para a Taberna do Baeta, próximo da Fonte de Uma Bica. Era aqui a “praça dos homens”, dos trabalhadores rurais, e foi aqui, também, o local de actos de reivindicação do horário de trabalho de oito horas por dia e outras acções dos trabalhadores.

 

Autor: 60emais

Português.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.