25 de Abril sempre, todos os dias

 

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Salgueiro Maia, o capitão que tudo deu, e nada quis, após o triunfo do 25 de Abril. Ele, aqui com os seus homens, no dia que foi o primeiro do princípio da minha / nossa Liberdade.  

 Não passo esta noite sem um grande e profundo sentimento: o de que valeu e vale a pena ser livre, senhor do seu espaço e do seu tempo. Porque houve um tempo em que, meu pai, minha mãe, minha família, quase todas as famílias na minha terra – o Vale de Santarém – não podiam sequer falar: de que a vida estava cara, de que ganhavam pouco, de que não havia trabalho, de que trabalhavam de sol a sol, de que quando havia cheias, e não podiam ir trabalhar para o campo, não auferiam qualquer compensação… Era assim, na minha terra, no nosso País: no continente, nas ilhas, nas colónias. Não podiam falar nisso, porque havia quem logo fosse contar, e a PIDE vinha e prendia. A minha avó foi presa só porque, estando o mercado da aldeia em construção, ter dito numa loja que, se queriam mais dinheiro, depois do que o povo já tinha dado, que o fossem pedir aos ricos da terra.

Não posso deixar de pensar que nasci e cresci nesse clima horrível, de repressão e medo; que havia exploração (sim, exploração! concreta, autêntica) na minha terra e por esse país fora. Que houve um cerceamento de todas as liberdades cívicas e políticas. Que o país pertencia a um núcleo de privilegiados, que tudo faziam e desfaziam a seu belo prazer, com o maior desprezo pela população em geral. Que houve uma guerra (colonial) que teria sido evitada, se tivessem querido; que essa guerra mobilizou a nossa juventude e que, além das consequências nefastas para o país e sua juventude, atrasou uma resolução capaz, equilibrada, pacífica, absolutamente possível, em vez da guerra e da descolonização que, nas circunstâncias em que aconteceu, seria sempre mal-sucedida, como foi.

Não posso esquecer-me de tudo o que antecedeu o 25 de Abril, e que conheci, porque nada do que passou a existir depois foi, sequer, minimamente próximo desse reino horrível da miséria, do terror, da ausência de liberdade, da incapacidade de nos assumirmos como pessoas livres, com direito a voz, com direito a acertar e a errar e com direito inalienável a contribuir para o futuro individual e da(s) comunidade(s) em que nos inserimos. 

Por tudo isso eu sou, claramente, um militante da liberdade, dos ideais do 25 de Abril, da defesa da democracia, do progresso civilizacional, de um regime que não queira voltar a políticas e práticas ditatoriais, tenha ele as roupagens ou invólucros que tiver. E, ser militante desta opção, significa que não me condiciono a que, neste actual quadro sociopolítico em que actualmente vivemos, assista ao que os diversos poderes pensam (inclusive os politico-partidários) decidem, praticam, na expectativa (paralisação sistemática) de que vão fazer bem, e estão sempre a fazer bem. Não. Eu tenho de ser cidadão consciente, activo, interventivo, no presente e futuro da(s) comunidade(s) em que me insiro, para além de estar atento e activo em relação ao presente e futuro do meu país. Se o não fizer, não cumpro o meu papel de cidadão que quer um país melhor. Ausento-me da minha responsabilidade: a nível local, regional, nacional. É por isso que, em algumas sociedades, há milhões de pessoas que desacreditam numa visão de progresso civilizacional, e preferem admitir uma solução que entendem ser preferível: a de terem alguém (Trump, Le Pen, por exemplo) com uma suposta visão e prática protectoras, mas cujo ideário político é um regresso ao passado, que já sabemos o que nos deu.

Sim, pelos ideais de liberdade e democracia do 25 de Abril. Sem dúvida, mas também pelo aprofundamento do progresso do país, em todos os domínios, e pela participação, social e política, dos cidadãos, nesse objectivo.


Manuel João Sá

 

Autor: 60emais

Português.

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