O anjo

Pouco passava do meio da tarde. Estávamos sentados na borda da pia onde os animais, ofegantes, paravam para beber, sorvendo, quase em silêncio, grande quantidade de água da Fonte das Três Bicas. O Verão ia sufocante. O sol lá estava, bem alto, uma auréola baça em redor. No alcatrão, as ondas de calor produziam a ilusão de labaredas, era preciso semicerrar os olhos para ver ao longe. A aldeia parecia, àquela hora, um fantasma silencioso: paredes brancas, trânsito quase nenhum, uma ou outra pessoa, esquiva, caminhava, aproveitando as sombras, escassas. Só nós estávamos ali, meia dúzia de rapazes, o mais velho talvez tivesse nove anos. Para combater o calor púnhamos a cabeça debaixo das bicas, ou mergulhávamos, com prazer, as pernas na pia, enquanto os animais não chegavam.

Ao longe, na curva da estrada, rente ao canavial, começou então a aparecer, aos poucos, uma carroça diferente. Ao aproximar-se, pudemos ver melhor: um casal, três rapazes e uma rapariga. Mais atrás, com um rafeiro ao lado, caminhava o rapaz mais velho. A mulher e as outras crianças vinham em cima da carroça, sobre uma cobertura de lona escura, já esburacada. Dos lados da carroça pendiam panelas, uma escada, cordas, madeiras e outros apetrechos. E, no cimo de tudo, por detrás da mulher e das crianças, uma coisa extraordinária: um feixe de moinhos de papel, uma infinidade de cores, girando, girando, enquanto a carroça avançava.

Logo que chegaram junto à pia, a mula farejou a água e pôs-se a beber, em longos goles, víamos-lhe os músculos do pescoço, a funcionar. Moscas em volta, a assentarem no dorso da mula, a picarem-na, e ela a tentar afastá-las, com estremeções na pele castanha, ou com o rabo, inquieta, e nós a olharmos para tudo aquilo. Surpreendidos com a aparição, começámos a rodear a carroça. Toda a nossa atenção ia agora para a descoberta, em pormenor, daquela família. Fomos dizendo uns para os outros: “devem ser do circo”. Traziam escadas, duas bolas grandes, cordas grossas, cabos de aço e mais uma data de coisas que nunca tínhamos visto. O homem disse: “Arlindo, vais por essa travessa… lá ao fundo, no largo, é que vamos botar a tenda… aguentas lá, ouviste?” Arlindo era o rapaz mais velho. Saiu dali e levou os moinhos, mais o rafeiro, que o seguia, correndo, mas era como se fosse aos saltinhos. Enquanto o Arlindo caminhava, os moinhos rodavam um pouco, era uma lindíssima girândola de cores, sob o sol abrasador.

Fui a correr para casa de meus avós, no Rio das Patas, onde estava há dois dias. Contei ao meu avô tudo o que vira e ele disse “são os saltimbancos”, e explicou-me que era “um circo mais pequeno”, e que à noite íamos lá ver, que ele gostava. E assim foi. À noite houve espectáculo. Os pais tocavam e cantavam, os rapazes mais pequenos faziam contorcionismo e a menina tocava tambor e também cantava. O Arlindo trabalhava com as bolas enormes e também atravessava um arame grosso, colocado na horizontal entre grandes estacas, assentes no chão, ele passava bem alto, mesmo por cima das nossas cabeças. Tinha uma grande vara nas mãos, os braços abertos, era assim que se equilibrava lá em cima, os pés parecia que acariciavam o arame, enquanto se movimentava, primeiro deslizando milímetro a milímetro, a seguir em passinhos curtos, depois mais largos, mas firmes, seguros, sempre com o toque do tambor em fundo, e eu a respirar de alívio quando chegou ao fim do arame. Então pôs um sorriso no rosto, levantou um braço, bem alto, e o público, até ali suspenso, rompeu em aplausos vibrantes. Houve muitas palmas para a família de artistas, e sobretudo para Arlindo, a quem o pai, no fim da sua arriscada viagem pelo arame chamava repetidamente, em alta voz e em linguagem de circo, “El Arli, o anjo do arame!…”. O povo, olhos postos no pequeno anjo, deixou-lhe por fim, no boné, as moedas da consolação, para o pão do dia seguinte.

Saímos dali e fomos para casa. De noite tive alguns sonhos, à volta das proezas de El Arli e família, e, logo pela manhã, assim que pude, fui até junto da tenda montada pelos saltimbancos. O Arlindo estava a construir moinhos, que vendera quase todos na noite anterior. Pus-me ali, de pé, a observar o que estava a fazer. Levámos algum tempo até chegarmos à conversa, mas depois ele perguntou: “Queres fazer um?…”. “Gostava, mas não sei…”, respondi. O Arlindo sorriu. “Senta-te aqui e vê”, disse-me. Logo de seguida começou a mostrar-me como construía um moinho de papel: a preparação do caniço, o corte do papel, a furação e aplicação do arame, o remate final e a prova – era preciso soprar nas velas, para ver se girava bem, podia ser que o arame estivesse apertado de mais. Ficámos ali quase toda a manhã, o Arlindo muito desenvolto e artista, construindo os mais bonitos e perfeitos moinhos de papel, eu dando os primeiros passos nessa aprendizagem, que havia de ficar, afinal, para toda a vida.

Nunca mais me encontrei com o Arlindo, mas por vezes é como se o visse: um anjo, deslizando graciosamente pelo arame, traz na boca um sorriso, na mão um encantador moinho de papel, que roda, suave, com a brisa da tarde, vai adiantado o Verão.

Manuel João Sá.

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A Família de Saltimbancos. Autor: Pablo Picasso. Data: 1905. Óleo sobre tela. Está em National Galery of Art, Washington, Estados Unidos da América.

Autor: 60emais

Português.

4 opiniões sobre “O anjo”

  1. Remeteste-me para dias da minha infância-…saltimbancos com roupas coloridas acetinadas… com a cabra que se equilibrava numa garrafa de água do Castelo….alguns saltos mortais…
    O encanto do que se apresentava diferente…a magia a esconder pobreza!
    Obrigada!

  2. Eu ainda me lembro de ver no largo da Maria Deolinda mãe do Zeca e Aurélio Faria esses pequenos circos .velhos tempos que é bom recordar. Um grande abraço para ti

  3. Os Saltimbancos, também me recordo de os ver no largo da escola, em S. João da Ribeira, e no largo, onde se situava a mercearia e a taberna, em Alfouvés.
    Naqueles tempos, como demonstra a pintura de Picasso, não eram exclusivos deste espaço geográfico em que nos encontramos. Grande abraço, caro amigo.

  4. Também me lembro bem dos saltimbancos, mas associo-os a muita miséria.
    Mas o artigo é muito bom!

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