Rancho Folclórico do Vale de Santarém

Rancho Folclórico do Vale de Santarém. Um histórico do Ribatejo e de Portugal. 

Foi uma “revolução”, uma enorme e fresca aragem, na nossa nossa terra quando, sob a batuta e entusiasmo de Viriato Ferreira (do Vale) e com o incentivo e apoio de Celestino Graça (de Santarém) desde a primeira hora, começou o movimento da constituição do Rancho. Eu teria uns 10 anos, portanto… 1956.

Como sempre, os “a favor” e os “contra”. Como sempre, pais e mães a dizerem “a minha filha pode ir” ou “a minha filha nem pensar!”. E, além de Viriato Ferreira, uma figura notável: a inimitável, entusiasta e sabedora Mari Narcisa, ela a primeira líder popular do grupo, ela que sabia as modas e sabia dançar e, as que não sabia bem, tinha de ir saber junto das mulheres mais velhas do Vale. Quanto aos homens, era tudo mais fácil. Além do Zé “Farelo”, fantástico a dançar e na alegria que transmitia ao grupo, exímio no fandango, outros, da sua idade e mais novos, haveriam de se juntar, entusiastas, sem ser necessário, aparentemente, terem o sim dos pais. Ensaios, mais ensaios, noite fora, ou aos fins de semana. Como sempre, também, interrogações, dúvidas, avanços e recuos, e invejas, ditos e mexericos, mas depois, um grande orgulho, e muitos aplausos.

E foi a estreia. E foi mais e mais espectáculos… “hoje há Rancho!” e o Vale acorria. “O Rancho vai aqui, ali, acolá… o Rancho vai à Feira do Ribatejo!…”, e o Rancho venceu tudo, com solavancos pelo meio, até hoje. Lembro-me de nomes e de rostos. E das modas, e de apreciar como dançavam. Do Manel Narciso, familiar da “”alma” do Rancho, a Mari Narcisa, ele também um faiscante bailarino (mais que dançador) a arrancar aplausos em todo o lado, sempre; a cantadeira, Maria Emília Libório, numa voz forte, cristalina, das entranhas, a levar o Rancho aos limites do frenesim, e o seu par na voz, o marido, Manuel Rodrigues  a temperar, na voz masculina, mais pausada, a marcar os batimentos; e o Moisés, na “quarta” de vinte litros, a marcar o compasso – se está certo, o termo que eu uso; e o acordeonista, que era do melhor. E os ferrinhos, e a cana, sempre a bater, a bater, e… a pandeireta?… e aquele grupo todo, em palco elevado ou ao rés-do-chão, as saias a rodopiar, as pernas de mulheres e homens a gerarem coreografias vertiginosas, pernas abertas, ou juntas, ou quase entrelaçadas, distantes ou próximas, dançam de roda, de roda, e outras vez, e outra vez; os corpos ao sabor das cabeças, que lá, na cabeça, estava e está o mando dos corpos, na repetição, brilhante, do repetido, do repetido, repetido nos ensaios, vezes sem conta; sapatos e botas a bater, ou então a afagar o solo ou a madeira do palco, conforme o momento da dança, conforme o que mandava a moda (dizia a minha avó materna, Maria Constantina, que ela sabia dançar tudo, foi por ela que soube que havia a “moda de dois passos”…) desenhos de corpos como que suspensos no ar, alegria nos olhares, poder nos braços, graciosamente em arco, ou apertando o par, ou largando-o com jeito, com sentido, mas tudo em milésimos de segundo a acontecer, e gotas de suor a descerem pelos rostos, afogueados, e eu a vê-los, reluzentes, zás, e zás, num movimento único, por vezes uma fahazita, já se sabe… mas aquela gente, enlevada, num frémito popular, em uníssono, num arrebatamento (é possível?) personificando a nossa terra, a levar-nos à alegria, ao prazer, ao sorriso, também feito de lágrimas, por boas razões, por ser uma vitória: uma construção na terra, para a terra, no Vale de Santarém, no Ribatejo, depois pelo País, e, depois por muitas terras do Mundo Europeu, pelo menos. E palmas, muitas palmas!…

O que disse, é uma breve imagem do Rancho, só isso. Muito mais houve, até aqui: muitas dezenas de dançadores, e também músicos, ensaiadores, dirigentes. E muitas centenas de actuações. E o prestígio e o nome do Rancho continuou… levando o nome da terra, por aí.

O Rancho Folclórico do Vale de Santarém sempre me arrebatou e comoveu: pelo que foi, desde que nasceu; pelo que semeou, e que vem até aos nossos dias. Esta semente, que veio a dar frutos até ao presente, só pode ter futuro. É o que desejo, sinceramente.

Rancho Folclórico do Vale de Santarém. Um histórico do Ribatejo, aqui, nas fotos abaixo,  em duas das suas formações: a 1ª de há uns tempos,  a 2ª mais recente.

Manuel João Sá

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Rancho Folclórico do Vale de Santarém
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Rancho Folclórico do Vale de Santarém

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “Rancho Folclórico do Vale de Santarém”

  1. Bem explicito que a segunda formação não mais respeitou a verdade do trajar…as saias vermelhas e curtas que o Estado novo definiu como “tipicas”falsificam a imagem…
    Gosto da narrativa vivíssima! o esforço de constituir um rancho e iniciar uma prática!

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