Os primeiros dias na Escola Industrial e Comercial de Santarém

Se no primeiro dia de escola, em Santarém, tudo foi novidade, a que teria de responder depressa, para não “ficar para trás”, que era uma das minhas preocupações – não ficar para trás, não perder o que estão a dizer-nos, não me desligar dos outros, perdendo-me entre escadas e andares e salas, ouvir as ordens, as informações, tirar apontamentos, se não souber, perguntar… – nos dias seguintes aconteceriam muitas coisas, engrossando em quantidade e diversidade o caudal da nova vida, como um rio que corre, por vezes sereno, por vezes em redemoinhos… “mantém-te à tona, mantém-te à tona, mantém-te calmo”, eu, dez-réis de gente, a Primária para trás, o professor Costa, exigente, mas um firme professor, como um aconchego, só um professor e não cinco, mas agora, um por cada disciplina: Matemática, Português, História, Desenho, Trabalhos Manuais. E, nessa altura, tanta preocupação – que agora é coisa que parece ridícula – os horários, o toque da campainha, a entrada na sala, a aula de cinquenta minutos – e eu sem relógio, mas quem é que tinha relógio?!… – e novo toque da campainha, por fim saída da aula, dez minutos de intervalo, na rua, no largo em frente, e de súbito novo toque da campainha, outra aula, de outra disciplina, mas noutra sala – mas onde é que ela fica?… vá de querer saber, vamos todos de roldão perguntar ao primeiro contínuo que aparecer, ou a um do segundo ano, são uns calmeirões, devem saber, penso eu, mas não digo, só pergunto pergunto, até que encontramos e entramos, o professor a olhar, como se fôssemos pardais a franquear a porta, empurrando-nos uns aos outros, cada um a procurar poiso, perdidos naquele novo espaço, na primária era tudo mais fácil, estávamos sempre no mesmo lugar, agora era assim, depois o professor a fazer a chamada, o nosso nome a ser dito em voz alta, a afirmação do ser, pequenito ainda, a gritar “presente!”, e como é diferente a voz, o modo, o jeito, o corpo, a vestimenta, o levantar-se e o sentar-se, os tempos de o fazer, a relação com os outros depois de o fazer, o olhar a esperar acolhimento noutro olhar, talvez aprovação, talvez não, talvez timidez, talvez ousadia, talvez destemor, talvez…

Serenas, a maior parte das vezes, as primeiras aulas também tinham esse desabrochar da turma, uma charneca humana que éramos, só rapazes, porém como flores a germinar, vindos de uma auréola de trezentos e sessenta graus em volta da cidade, com um núcleo maior que dali era, e isso notava-se. Era o que eu concluía, num certo à-vontade, no, pelo menos aparente, domínio do espaço e do modo de nele se moverem os que, além disso, vestiam melhor, ou era impressão minha, mas era claro que eu tinha botas de cabedal grosso, com sola de cabedal grosso, com atacadores de cabedal grosso, e meu pai, depois de igual lembradura do senhor Manuel sapateiro, ali à cabine, no dia em que lá fui para as levantar e levar logo, nos pés, me ter dito: agora não te esqueças, de vez em quando besunta-as com sebo, aqui, aqui e aqui… E eles, de Santarém, mas talvez não só, de sapatinhos… era a minha inveja a vir ao de cima, e invejar sempre foi feio, deixa-te disso, és como és, vestes e calças como podes, ponto final.

Na minha turma, dois do Vale de Santarém: eu e o outro Manuel João, ele talvez com dois anos a mais, tinha feito a admissão à nossa escola antes de mim, mas só entrou naquele ano lectivo de 1957/58. Mais vezes virá a estas minhas crónicas, mas agora ficamos por aqui, quanto ao meu amigo, que mais tarde há-de ser mais conhecido por “Albano”. Entretanto, alarga-se bastante o meu mapa do conhecimento das terras à volta de Santarém. Terras e lugares como Pombalinho, Vale de Figueira, Mato de Miranda, Vila Chã de Ourique, Alcanhões, Azóia de Baixo e de Cima, Almeirim, Alpiarça, Fazendas de Almeirim, Tapada, Ribeira de Santarém, Secorio, Perofilho, Alfange, Portela, Pernes, Tremês, Cartaxo… e muitas outras, saltam para o meu painel de aprendizagem, através dos protagonistas que são meus colegas, na minha turma ou na outra, do primeiro ano do Ciclo Preparatório. Alguns conhecem-se, andaram juntos na primária, e isso liga-os mais, pelo menos naqueles primeiros tempos, como é natural: fazem viagens juntos, de ida e volta, e isso fortalece as suas relações, enquanto… se mantiverem no mesmo ano, na mesma turma, e enquanto não houver arrufos. Como há alunos no segundo ano do Ciclo, e alguns deles são das mesmas terras de outros que acabam de entrar, isso também é uma ajuda na integração dos mais novos, porém, para mim e para o meu amigo, futuro “Albano”, essa hipótese não existe e a solução é andarmos mais juntos, tanto mais que só nos viemos a conhecer na data da entrada na escola, eu só sabia do que meu pai me dizia: de ele ter uma bicicleta pequena, de cor verde, e que era do Sporting e jogava nas “escolas” dos Leões de Santarém, foi assim que me preparou para o nosso primeiro encontro, na escola.

Há nomes que ficam desde logo gravados na minha mente. Não só os nomes, mas as feições, o modo de andar, a voz, os trejeitos, o modo de ser, o sorriso, as brincadeiras, e mais não sei dizer, mas cá ficaram, moldando um retrato vivo de cada um, em minha mente, até ao ponto de por vezes sentir que estão aqui, à minha frente, e ainda somos rapazes, naquele primeiro ano na nossa escola. Naquele tempo não sabia que iria ser assim, nem saberia prevê-lo – estava longe de saber pensar nesses termos. Mas foi. Vocês estão cá, Rui Mota Anacleto, Domingos, Rui Martins, Malaca, Hélio, José António, Carriço, Armindo, Russo Mota, Neca, Abegão, Jarego, Poeta, David, Parreira, os dois Pereira Gomes, um de Santarém, filho do “Chocolate”, e outro de Pernes. E o “Albano”, naturalmente. Vocês e muitos mais. A memória irá ajudar-me a trazer-vos aqui, garanto!…

E as raparigas?… Sim, o seu tempo há-de chegar, também, aqui.

Manuel João Sá

EICS-1957-58 1º Ano
A minha turma do 1º ano, no segundo ano de existência da Esc. Industr. e Comercial de Santarém-Ano lectivo 1957/58.

Autor: 60emais

Português.

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