O Vale de Santarém e as migrações – Crónica 1 – Do “Termo de Lisboa” às herdades do Alentejo

“Desde os tempos mais remotos da Humanidade que acontecem movimentos de pessoas, entre regiões do mesmo país, ou entre países do mesmo continente, ou de diferentes continentes. Tais deslocamentos podem ser temporários ou permanentes, e as causas podem ser diversas: económicas, culturais, religiosas, políticas e naturais, como as secas, os terramotos, as inundações e outras, que além de provocarem grande instabilidade e insegurança, criam situações de escassez de bens alimentares e os terrenos ficam incapazes de produzir.

A migração económica é a que tem maior influência na população. É entendida como o deslocamento de contingentes humanos para áreas onde o sistema produtivo concentra uma maior ou uma melhor oportunidade de trabalho. As guerras, e as perseguições que, por via delas, muitas vezes ocorrem, são também causadoras de grandes migrações, e isso acontece também há muitos séculos.

As migrações que ocorrem dentro do mesmo país chamam-se migrações internas. As que se dão de um país para outro, são as migrações externas, que podem ser entre países do mesmo continente – as intracontinentais – ou de continentes diferentes – as intercontinentais.

Aos que saem de uma região ou país, para outro, dá-se o nome de emigrantes (com e) e aos que chegam a outra região ou país, dá-se o nome de imigrantes (com i). Portanto, quando um português vai para o estrangeiro, ele é emigrante (ao sair do nosso país) mas, para esse país, quando lá chega e aí permanece, ele é designado de imigrante.

Pondo agora a nossa atenção sobre as migrações internas, ou seja, os deslocamentos temporários ou permanentes, de pessoas ou grupos, entre as diversas regiões do mesmo país, elas podem ser:  

  • Migrações das regiões rurais para as a cidades;
  • Migrações das cidades para as regiões rurais;
  • Migrações de umas cidades para outras cidades;
  • Migrações pendulares, que se realizam todos os dias, em que que muitas pessoas saem da terra onde vivem para trabalhar noutra localidade, regressando no final do dia;
  • Migração sazonal, relacionada com as estações do ano: as pessoas saem do local onde vivem, por determinado período, maior ou menor, regressando ao fim desse período”.

Estes poderiam ter sido os apontamentos por mim tirados quando, sendo aluno na Escola Industrial e Comercial, em Santarém, pela primeira vez, na disciplina de Geografia, o prof. Lino Caetano nos falou destes temas, que eu não conhecia, porém, ouvia falar, em minha casa, nos homens que, do Vale de Santarém, em certas épocas iam trabalhar para o Alentejo, assim como dos que, também por essa altura, vinham de longe, e a que chamavam “os caramelos”. Havia ainda as mulheres que, no tempo das vindimas, vinham de certas terras da região Oeste, como Benedita, Turquel e outras, para trabalharem na colheita de uvas dos grandes produtores do Ribatejo, alguns dos quais eram do Vale. No último ano de estudo na Escola, em Santarém, na disciplina de Economia Política, com o prof. Neves, o tema veio de novo à baila e, então, com aquilo que fiquei a saber e o que observava, na aldeia, a minha consciência sobre estes movimentos migratórios aumentou. Logo de seguida, já no Instituto Comercial de Lisboa, novamente na disciplina de Geografia Política e Económica, o prof. Dragomir Knapick (ele mesmo refugiado, por causa da II Guerra Mundial) e, mais tarde, na Faculdade, o conhecimento mais completo destes assuntos, e da sua importância na vida das populações, de um país e de toda a Humanidade, foi um ganho importante na minha formação académica e pessoal. Porém, havia mais… Um mais ao qual volto hoje (e prometo não ficar por aqui) para uma revisita das minhas memórias neste domínio, que abrangem familiares meus, e também acontecimentos desta natureza (migrações internas e externas) onde o Vale de Santarém surge, na condição de ver partir filhos seus, ou na de receber pessoas vindas de outras paragens, como já referi, alguns dos quais acabaram por se fixar na nossa terra.

Talvez tenha sido a minha avó Constantina (Maria Augusta Martins, de seu nome) a falar-me, pela primeira vez, de pessoas que saíam do Vale de Santarém, para trabalhar noutros lugares. Isso aconteceu em altura que não posso precisar. Tinha eu pouco mais de dois anos, quando meu avô materno, António Pereira “da Velha” (e “da Velha” era alcunha) foi encontrado morto num pequeno barranco, a caminho de casa, situada no cabeço da Fonte Boa. Devido a isso, a avó Constantina passou o resto da vida com aquele trágico fim do marido na cabeça, de tal modo que, rompendo o silêncio e tristeza que carregava, de vez em quando punha-se a falar dele, com os netos mais velhos, contando, entre outros acontecimentos, sobre quando ele tinha ido trabalhar para lugares longe do Vale, implicando ausências grandes, que chegavam a ser de meses.

Desses relatos, e do que acontecia antes e durante essas migrações internas, vim a fixar que meu avô e outros homens do Vale iam para “o termo de Lisboa”, onde diversos trabalhos os esperavam, recebendo uma “féria” (pagamento em dinheiro) superior à que era praticada na sua aldeia. Como não havia especialistas nestes trabalhos, em quantidade suficiente, “às portas” da capital, os patrões optavam por mandar escolher entre os melhores, no Ribatejo, e o Vale de Santarém era bem conhecido nesse campo – tinha gente muito boa para o trabalho agrícola. Estas tarefas, em que predominava o trabalho manual, exigiam uma permanência continuada nesses lugares distantes, e podiam ir da ceifa de cereais (trigo, centeio, cevada) até à fase da debulha, ensacagem e obtenção dos fardos, na prensa da debulhadora, até à apanha da azeitona e subsequente poda e limpeza das oliveiras. Era, portanto, um conjunto de actividades que, pela sua sequência, exigia um contingente regular, fixo durante meses, de pelo umas dezenas de homens em propriedades grandes, podendo, terminado o trabalho numa delas, passarem para outra, normalmente de menores dimensões, até que as necessidades de mão-de-obra, ali, estivessem satisfeitas e, então, voltavam a casa, no Vale.

Ora, era nestas áreas de trabalho que o meu avô Toino da Velha (como era mais conhecido no Vale) mais se destacava e, por isso, passou a ser ele, a partir de certa altura, o escolhido para seleccionar os que deveriam ir com ele para tais zonas de trabalho, nas quais alguns ficavam ainda mais tempo, em virtude de outra necessidade: após a colheita da azeitona e a limpeza das oliveiras, vinha a poda e enxertia nas vinhas de encosta, que por ali havia em grandes espaços, também e, nessa função, os homens do Vale davam cartas, igualmente, e meu avô era o mestre, dizia minha avó. Recordando para nós, e alimentando o seu orgulho por isso, contra a desdita da perda do marido, contava que “os outros, mais novos perguntavam-lhe: S’Toino, como faz isso tão perfeito!?… e ele, que não respondia logo, dizia depois… então, aprendi com os mais antigos!…”.  Assim, apesar de nunca ter ido à escola (e por isso tanto se empenhou em que minha mãe fizesse a quarta-classe, o que aconteceu, “com distinção”) meu avô ganhou aí papel de destaque nessa migração interna, talvez nas décadas de 1920 e 1930, que levou dezenas de trabalhadores do Vale até ao “termo de Lisboa”, designação que, ouvida pela primeira vez da boca da avó Constantina, só bem mais tarde consegui identificar, pois minha avó falava que seria “para lá de Vila Franca, para os lados de Alverca, por aqueles montes, até aos Olivais” e que iam de comboio, quase de madrugada, e iam busca-los à estação, em galeras, para irem para os barracões, como se fosse tropa, era lá que passavam esses meses, desde o fim do Verão até ao Inverno, e pelo Natal já estavam no Vale, regressavam também de comboio, até as mulheres e os filhos os iam esperar à estação”…

Para esta crónica, mais informação vim a obter, na internet, sobre o “Termo de Lisboa”, que, no século XVIII, era a expressão usada “para situar (pelo menos a norte) a ‘fronteira’ entre Lisboa e o Ribatejo, e é definida por dois obeliscos mandados construir por D. Maria I em 1782, que limitavam o princípio e o termo de Lisboa e o sul daquela província. Estes obeliscos estão situados na entrada da cidade de Alverca do Ribatejo a cerca de 17 km de Lisboa, e pode vê-los na estrada nacional nº 10 no caminho de Alverca para Lisboa, junto à povoação da Verdelha (freguesia da mesma cidade)”, conforme diz Anabela Adónis, em

https://geneall.net/pt/forum/6607/termo-de-lisboa/#a6799.

Porém, outra informação, também na internet, diz-nos que o “Termo de Lisboa” surgiu muito mais cedo (criado em 1385, no tempo de D. João I) e compreendia um vasto território a Norte e a Ocidente da capital, do qual faziam parte muitas vilas, aldeias e lugares, sob sua administração. O território abrangido no “Termo de Lisboa” foi sofrendo alterações várias, ao longo dos tempos e, com a formação de concelhos, viria a extinguir-se em 1852, embora a designação se viesse a manter por décadas, como se prova pelo facto de minha avó referir, tão facilmente, que o nosso avô tinha ido, muitas vezes, maltesar, como também se dizia, para aquela região… do Termo de Lisboa.

Ver mais, sobre “termo de Lisboa”, da autoria de Maria Máxima Vaz, em 

https://www.google.pt/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwih36j1xObYAhXCtBQKHZNOAFMQFggoMAA&url=http%3A%2F%2Fodivelas.com%2F2010%2F02%2F20%2Fo-termo-de-lisboa%2F&usg=AOvVaw3Kux66TWVLVvk87GL5LbC3

Meu avô tomaria parte, ainda, noutra migração interna, a partir do Vale de Santarém, também com homens do Vale. Conhecidas as suas competências nas actividades agrícolas para os patrões do Termo de Lisboa, incluindo a sua capacidade de manajeiro, viria a ser convidado para dirigir trabalhos em searas entre Coruche e Raposa, no Ribatejo e, especialmente, a supervisão da debulhadora. Dizia minha avó que era “uma grande propriedade, onde o teu avô era o intrepce da debulhadora” termo que, estando já a estudar em Santarém, fui ver se aparecia no dicionário, mas, o mais próximo que encontrei foi intérprete, de modo que, voltando a perguntar-lhe do que se tratava, fiquei a saber que era a palavra que usava para “a pessoa que mais sabe, o especialista, o artista…”. Portanto, o meu avô era o intrepce na debulhadora e, explicou a minha avó, estava sempre a ver o que se passava, se a debulhadora estava a ser alimentada continuamente, ou seja, se os que estavam no chão mandavam os molhos de trigo lá bem para cima, para serem agarrados, com as forquilhas ou uma espécie de arpões, ou até com as mãos, pois se assim não acontecesse a debulhadora estava a trabalhar em seco e desperdiçava-se tempo e carburante da máquina que movimentava as grandes correias, que por sua vez faziam trabalhar a debulhadora, que tinha “agarrada a ela” a enfardadeira, por onde saíam os fardos todos bonitos, bem apertados com arames. “O teu avô tinha que dar fé disso tudo, ah pois não!…” e mais dizia a minha avó que uma vez ia havendo um grande desastre, porque um homem que estava lá em cima, na debulhadora, caiu para dentro dela, e foi um dos que mandava os molhos de trigo para cima que começou a gritar e deu o alarme, conseguiram então parar a máquina de fazer funcionar a debulhadora, e o homem saiu de lá todo arranhado, foi por pouco que não houve uma morte…

Minha avó nunca foi ao Termo de Lisboa para visitar o seu Toino, mas, quando ele estava nas eiras, para os lados da Raposa, afoitou-se. Não sabia como o marido iria reagir, que ele era um bocado avesso a isso, mas ela tinha um alibi: outras mulheres, que também tinham lá os maridos, e como ela era a mulher do intrepce, começaram a pedir-lhe que as acompanhasse numa visita, mais ou menos a meio do período em que eles estariam longe. Que seria uma surpresa. Que eles haviam de gostar. Que levariam coisas da terra: pão, chouriço, boa carne de porco, até podiam levar galinha guisada, ou coelho com arroz, talvez arroz-doce, talvez vinho do Vale, talvez uma garrafinha de aguardente… que diabo, elas também estavam cheias de saudades e as crianças… até podiam levar uma ou outra… Que naquele dia os maridos não iam precisar de caldeira, de espetar a burra de ferro, de deitar a caldeira ao lume, ali com lenha de sobreiro ou azinho, e de cozer batatas ao rebolão, a acompanhar toucinho entremeado, quem sabe?…

E foi assim que, num domingo, ainda de madrugada, um pequeno grupo de mulheres, em duas ou três carroças, se pôs a caminho, “em cata” de saber onde encontrar os maridos, na tal grande propriedade de uns senhores, para lá da Raposa, mas um  bom bocado antes de Coruche… Minha avó foi na carroça em que também viajou a Maria “do Carlos”, pois o marido fazia parte desse grupo de homens do Vale nessa maltesaria, ou companha, como se dizia, e ela havia sido uma das principais defensoras da ideia da visita aos maridos. Minha avó levou a filha, minha mãe Emília Pereira, que era ainda uma rapariguita, com pouco mais de nove anos. E lá foram, as carroças conduzidas por homens a quem pediram ajuda, tendo chegado ainda antes do almoço, ao preciso sítio de destino, pois levavam na cabeça o nome da herdade e iam perguntando, pelo caminho, onde ficava. A surpresa foi completa. Os homens tiveram almoço melhorado e ainda direito a uma maior paragem nos trabalhos. “Como quem não quer a coisa”, dizia minha avó, a seguir ao almoço, “eles e elas foram conversar um bocadinho mais para longe”, e houve quem dissesse mais tarde, no Vale, que talvez tivesse sido nessa altura que foram lançadas sementes para mais filhos… O regresso das mulheres ao Vale foi, como de costume, o “triste regresso após o fim da festa”. Dizia minha avó que vieram mais silenciosas, que a Maria “do Carlos” e outras até choraram um bocadinho, no regresso, estavam menos habituadas a tais ausências. Foi quando chegaram perto do Casal do Vinagre, ao cair da noite, que começaram a cantar as modas do Vale, e então alguma alegria voltou. Afinal, já só faltava metade do tempo “para eles estarem com a gente, outra vez…”.  

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Para continuar. Com as migrações dos “caramelos”, dos “avieiros”, dos “gaibéus”, as “companhas” de “Patalim”, e outras migrações internas e externas em que, o Vale de Santarém, viu chegar, ou viu partir, trabalhadores que, de uma forma ou de outra, contribuíram para a história e desenvolvimento da nossa terra, e que merecem, da minha parte, há alguns anos, a atenção e o trabalho que, com as minhas possibilidades e as colaborações de alguns – e as memórias que me deixaram meus avós e meus pais – vou procurando resgatar, antes que se percam.

Neste propósito vou continuar, e agradeço desde já os contributos em opiniões, sugestões e críticas que possam transmitir-me, por aqui ou pelo mail manuelpsa@gmail.com, ou ainda ligando-me para o 914 107 011.

Muito obrigado.

Manuel João Sá.

1 (150x84)
Foto encontrada na internet. Debulhadora antiga, em funcionamento. Do lado esquerdo, a máquina que fazia funcionar a debulhadora.
CAVA DA VINHA (150x100)
Homens a cavar uma vinha, disposta como naquele tempo – só muito mais tarde as vinhas começaram a ser aramadas e plantadas de modo planeado para a utilização de máquinas agrícolas, inclusive as da vindima mecânica, que é agora o processo mais utilizado.

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “O Vale de Santarém e as migrações – Crónica 1 – Do “Termo de Lisboa” às herdades do Alentejo”

  1. Amigo, mais uma crónica, imprescindível e importante, para a ‘feitura’ da história da nossa terra. Bem hajas pelo empenho e dedicação que dedicas à causa do Vale de Santarém. Conhecia as migrações dos ‘caramelos’, ‘gaibéus’ e ‘ratinhos’, mas desconhecia as deslocações dos nossos ‘emigrantes’ internos.

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