Benfica-Sporting no Vale de Santarém e outras memórias sobre futebol

O Mário do Benfica chorava sempre. O Benfica estava a ganhar, ele chorava. O Benfica estava a perder, ou a empatar, ele chorava. Acabado o jogo, fosse qual fosse o resultado, o Mário chorava, tipo “baba e ranho”. Andava ali, frente à taberna do Baeta, de um lado para o outro, a remoer, para dentro, as incertezas dos resultados, copos de tinto e lágrimas à mistura, a telefonia em altos berros, roufenha, o senhor Baeta a sintonizar melhor, o Artur Agostinho a dar o cenário como ninguém, os adeptos em grande algazarra, ou a baterem palmas, ou num urro de estremecer tudo e, no Vale, alguns a enfernizarem o ambiente em volta do Mário, mas o José Águas, cabecinha d’oiro, a saltar para mais um golo soberbo na baliza adversária, e o Mário a dizer “vês, vês, eu não te dizia…”, como a convencer-se de que íamos ganhar, “tá quase, tá quase pá…”, vá de chorar um pouco mais, o jogo acabava, o Benfica ficava quase sempre a ganhar, mas o Mário continuava por ali, lágrimas nos olhos, parecia uma criança, feliz, rosto encarniçado, mais para o vermelho cor das camisolas do Benfica.  O Manel Careca, outro benfiquista, bem se afadigava, com paciência, na sua vozinha tremida e aflautada, em consolar o Mário, mas era o mesmo que chover no molhado. Aquilo era uma doença… 

Era muito diferente, na expressão, a doença do Rifa, que era do Sporting, zangava-se se o Passos deixava passar a bola entre os enormes pés que se dizia que ele tinha, “aquele corno tem pés de alicate…”, e zangava-se se o Carlos Gomes fazia uma grande estirada, mas era mais para a fotografia, afinal era golo, dava saltos de corça se o Albano, pequenino, fintava todo o mundo pela extrema esquerda, e metia a bola, direitinha direitinha, para a cabeça do Travassos e era mesmo golo, e isso passava a irritar ainda mais o Mário do Benfica. Por vezes andava por ali o João Carvalho, do Sporting, que fazia por não dar muito nas vistas, que ele não era de tabernas, mas gostava de estar pronto para a festa de rua se o seu clube ganhava, de modo que era mais um a atazanar a cabeça do Mário, mesmo que nada dissesse, sobretudo em dia de jogo entre os dois grandes rivais. Silencioso, sem se deter entre o grupo, frente à taberna, o João Carvalho tinha especial prazer em saborear os golos dos “cinco violinos”, com um meio sorriso, para não ferir consciências rivais, porém, se o seu Sporting perdia, remetia-se a casa, na rua principal e, dizia-se, fazia descarregar as amarguras da derrota sobre a mula: dirigia-se ao estábulo e não descansava enquanto não assentava umas fueiradas no lombo da quadrúpede, coitada, já que não podia dar umas arrochadas nos jogadores do Sporting. Seu filho, Manuel João, que viria a ser um exímio futebolista, com a alcunha de “Albano”, tal o seu virtuosismo, também sportinguista, haveria de suportar as brincadeiras dos amigos, a propósito dos eventuais tratos dados à mula, em dias de derrota clubística, mas outros, do Benfica e do Sporting, tinham outras formas de expressar incontidas alegrias ou tristezas, incluindo estas, para alguns, o jejum, os copos ou os maus tratos lá em casa…

Naquele tempo, no Vale, não se falava do Futebol Clube do Porto. Ninguém, que eu conhecesse, era adepto do Porto. No entanto, era um pouco estranho, porque houve épocas em que o Porto teve equipas de grande nível, com jogadores de imenso talento, e isso era audível, se assim se pode dizer, nos relatos durante os jogos e, depois, nos comentários aos jogos, nos jornais desportivos “A Bola” e o “Mundo Desportivo” – onde escrevia o valesantareno Nuno Mota – jornais que costumava encontrar na barbearia do Sr. Frederico, e era um prazer estar ali, a saborear aqueles artigos de gente que sabia apreciar futebol.  Em certa épocas, a qualidade da equipa do Porto foi tal, que acabei por fixar a linha, como se dizia. Jogavam em sistema WM, ou seja, além do guarda-redes, três defesas, dois médios, e cinco avançados, sendo dois extremos, dois interiores e o avançado-centro -, como quase todas as equipas, então. Alguns grandes jogadores, mas sobretudo uma equipa coesa, ganhadora, a da década de 1950: Pinho (guarda-redes), Virgílio, Miguel Arcanjo e Barbosa (defesas), Luís Roberto e Monteiro da Costa (médios), Carlos Duarte, Hernâni, Noé, Teixeira e Perdigão, os avançados. Hernâni era o maestro, o cérebro, como também se dizia, mas Carlos Duarte era um perigo pela extrema-direita, veloz e fortíssimo. Toda a linha avançada marcava golos, e essa era uma das marcas que o treinador,  Dorival Yustrich, brasileiro, conseguiu implantar. Um dia meu tio João levou-me a um Benfica-Porto, no estádio da Luz, que o Benfica ganhou. Foi numa tarde de domingo, no Inverno, cheia de sol, mas fria e ventosa, em que a bola parecia uma bicha de rabiar, fugidia e de efeitos imprevistos, tocada pelo vento. Hernâni era o único que sabia que fazer, entre vinte e dois jogadores: a bola vinha endemoninhada, mas ele, atarracado e peitudo, pernas arqueadas, um pouco fortes para atleta, acolhia a bola com meiguice, dominava-a com classe, colava-a à relva com saber, escondia-a dos adversários, rodando sobre si, e saía a jogar, de tal modo notável que até uma portista, cheia de cachecóis azuis, como os seus olhos, e argolas enormes nas orelhas, ali ao pé de nós, gritou o tempo todo, até enrouquecer: “anda Arnâni, qu’és o mestre da bola!”. E era.

O Belenenses… o grande azul de Lisboa, e também de Portugal. Onde as referências, na minha cabeça, vêm desde Pepe, e do que dele me foram dizendo os mais antigos: o melhor jogador português de então. Figura do Belenenses, desde 1926, da selecção e do país, partiu de forma trágica com apenas 23 anos. Uma morte que pode ter custado outras glórias ao clube do Restelo. Mas não só: José Pereira, o “pássaro azul”, guarda-redes, e as torres de Belém, quatro defesas: Feliciano, Capela e Vasco Oliveira e, noutras versões, com Serafim das Neves, garantiam a solidez defensiva do Belenenses, durante várias épocas a defesa menos batida. E depois, génios, como Vicente, Dimas, Di Pace e, acima de todos, Sebastião da Fonseca Lucas, aliás, “Matateu”. O célebre “Matateu”, o “terror dos guarda-redes”. Há uma pequena publicação antiga, do tipo “Ídolos do Desporto”, que tem na capa o grande Matateu num dos seus célebres pontapés de tesoura: todo no ar, as pernas num movimento de tesoura, o pé (esquerdo ou direito) esticado, acertando em cheio na bola, e o ar determinado, plástico, belo, do executante, parecendo antever que vai atingir o objectivo do jogo – o golo!… Uma imagem que guardo, a sépia: em papel e na memória. O Belenenses, clube dos meus amigos Freitas de Carvalho, da Fonte Boa-Estação Zootécnica Nacional. Uma família, com o pai Freitas de Carvalho no comando, equitador na EZN, cujos filhos, António José, João José, José Emílio e Maria do Carmo-Micá, eram, além de meus amigos, grandes belenenses. E há quanto tempo não nos reencontramos, amigos!?…  

Outras equipas chamavam a minha atenção, como o Sporting de Braga, onde, durante anos, os irmãos Mendonça (João, Jorge e Fernando) com o Jorge em maior plano, eram uma dor de cabeça para o Benfica. Lembro-me de grandes jogos entre os dois clubes, sempre renhidos, até que o Jorge Mendonça, um jogador de grande nível, foi transferido para o Atlético de Madrid, onde conseguiu grande êxito. Outro clube do mesmo nível, naquelas décadas de 1950 e 1960, como ainda hoje, o Vitória de Guimarães, onde triunfaram jogadores como os irmãos Pinto, um dos quais haveria de seguir para o Porto, e os brasileiros Edmur e Caiçara, grandes referências históricas do clube.

Última referência para um clube mítico, o Lusitano de Évora. Do tempo em que, tendo saído do Benfica um avançado de grande gabarito, chamado Du Fialho, natural de Cabo Verde, após uma intervenção cirúrgica e, ao que se dizia, por ter aparecido a concorrência de jogadores mais jovens… foi jogar para o Lusitano. Ora, em 27 de Outubro de 1957, exactamente na primeira deslocação do Benfica a Évora, após a transferência de Fialho, para defrontar o Lusitano, o resultado foi de quatro a zero. Quem ganhou? O Lusitano. Fialho, além de Flora, Batalha e Cardona, fizeram a cabeça em água ao Benfica, onde José Águas e Mário Coluna e outros grandes jogadores marcavam o ritmo, mas não conseguiram, nesse dia, um golinho que fosse, na baliza do grande Vital. No próprio relato do jogo, já se foi falando de vingança do Fialho, que destroçou, pouco a pouco, com os seus companheiros, a equipa do Benfica, superior, à partida. Mas, no dia seguinte, a imprensa era ainda mais contundente. Foi a partir daí que fiquei a admirar esse grande clube, O Lusitano Ginásio Clube, de Évora, de tal modo que guardei na memória, e aqui permanece, até hoje, uma das suas linhas: Vital, Teotónio (ou Polido), Falé e Paixão, Olmedo e Garcia, Quinito, Caraça, Batalha, Fialho e José Pedro.

De regresso ao Vale de Santarém… passava-se na rua principal, aos domingos e, de dentro das tabernas, saíam os sons inconfundíveis dos relatos, de modo que era possível passar da taberna do Isidro, à do Farelo, à do Zé Inglês, à do Baeta, à do Manel Jaquim, à do Zé Pego, ou então, para falar também de outras, ir até à do Jaquim Cabreiro, ou da Maria do Padre… e os golos e outras incidências iam alimentando o imaginário de quem só ouvia e esperava que o seu clube ganhasse. Grande parte do Vale – homens e rapazes, é claro – vivia nesses dias, nas tabernas ou perto, um acontecimento comum, com diferentes expectativas, consoante o seu clube, e depois de festejos momentâneos ou tristezas, ficava a discussão nos ares, ou a retirada, silenciosa, menos feliz. Tudo porque era só ali, nas tabernas, que havia telefonias. Era ali que se ouviam os relatos e comentários de Artur Agostinho, de Amadeu José de Freitas, de Lança Moreira, de Vítor Ferreira de Melo e outros grandes, desse tempo, dos relatos radiofónicos. E, para entreter, ou para ajudar a temperar os nervos dos radiouvintes, havia as mulheres que, nas proximidades das tabernas, vendiam castanhas assadas, ou rebuçados, ou tremoços, ou pevides. Ou então, enquanto os relatos ecoavam pelos ares, alguns jogavam ao chinquilho, ou à sueca. Aparentemente, para não sofrerem… ou sofrerem menos.

Eu tinha, no Vale, grandes amigos, rapazes da minha bugalhada, adeptos do Benfica e do Sporting. Alguns já partiram, infelizmente: Azenha, Orlando, Joaquim Rafael, Helder. Ensinou-me a vida, bem cedo, que as rivalidades clubísticas não podem, nunca, estragar as amizades e, felizmente, assim foi, sempre. Não sei como, mas aconteceu: da parte deles e da minha. O João Ferreira foi, e é, um desses amigos. É benfiquista, filho de um grande amigo de meu pai e de meu tio João. Como irmãos, e tratavam-se assim. Viviam desde crianças no Rio das Patas – o Sabino, pai do João, lá muito mais para cima. Já partiram, também, os três. A amizade entre eles ajudou, e muito, a cimentar a nossa. Íamos jogar muitas vezes para uma pequena área aberta num pinhal que era da quinta de Rebello da Silva, junto à levada, da parte de cima das hortas, as mais das vezes com uma grande bola de trapos, pois era difícil arranjarmos uma de borracha e, uma de “catchumbo”, com pipo e tudo, isso então era uma miragem. Esse nosso campo era uma maravilha: plano, com alguma erva, parecia que era relvado, até gastarmos a erva toda com as nossas jogadas, de pé descalço. Tinha duas oliveiras, que faziam de baliza, numa das pontas e, pelo meio, outra oliveira, mais pequena, que dizíamos ser o defesa da equipa contrária. Tínhamos de a fintar, mas algumas vezes batíamos contra ela, com a cabeça, uma vez caí redondo e fiquei esfolado na cara, andei dois dias de mão na cara, para meus pais não verem, mas eles tinham olhos de lince, e lá tive de contar que… o defesa central da equipa adversária não se tinha desviado para eu continuar a jogada, e pronto…

Juntávamo-nos lá, com o Celestino, a quem a minha avó Alexandrina chamou, sempre, de “Cestrino”. Por vezes aparecia também o “Ganilha”, mas esse era mais tipo ave de arribação: dava uns toques, uns remates, depois ia à vida. E o Vassalo, também, outro sportinguista. E o Fernando, da Palmira, mais um sportinguista. De modo que fazíamos ali grandes jogos: o Celestino centrava, sempre da esquerda, que era o forte dele, passes bem medidos, em arco ou tensos, o João aparecia no hipotético centro da área, havia um ou mais defesas, para além da oliveira pequena, a tentarem contrariar o poder finalizador do João, um matador em potência, e eu, à falta de mais recursos, ficava na baliza, entre as duas oliveiras a fazer de postes, saltando, como um gato, a tirar a bola da cabeça do João, eu arrojando-me ao solo, eu a ir buscar a bola aos pés do João, e muitas vezes não era golo… Mas havia uma coisa notável: era o relato do que ia acontecer, ou de que estava a acontecer, ou do que tinha acontecido, há segundos. O Celestino, sportinguista, enquanto corria, com a bola, junto à extrema imaginária e preparava os passes para o centro da área, punha nele o nome de jogadores do seu clube, e a jogada que ele iniciava e levava por diante, relatava em voz alta e a preceito e a bola podia passar pelo Peres, pelo David Julius, ou por outro grande jogador do Sporting e depois eu ia relatando também, até a bola chegar à zona de acção do João, benfiquista, mas não fazia mal, para aquele caso punha nele nome de jogadores do Sporting, e eu aparecia a defender, com o nome de Costa Pereira, pois claro, e por aí fora, tardes inteiras. Era assim, a não ser que nos desse na cabeça para, desanuviando, irmos aos pássaros, e aí a estrela era também o João, como um dia hei-de contar, ou tomarmos banho no ribeiro, ali mesmo ao lado, ou irmos ao dinheiro, ou seja, procurar moedas nos locais do ribeiro onde as mulheres iam lavar as roupas e, por vezes, dos bolsos das calças dos maridos, nas águas caíam umas moeditas… Curiosamente, mais tarde, o João e o Celestino haveriam de jogar nos Leões de Santarém, na equipa de seniores, e eu na de juniores. Mas a arte deles era bem superior, sem dúvida. E isso era, ainda é, uma honra, para mim.

Não ficam por aqui as pequenas memórias sobre o futebol na minha vida. Escola de formação e de aprendizagem desportiva, mas também para a vida, começou no Vale de Santarém, continuou, como atleta praticante, pelos Leões de Santarém e pelo Grupo Desportivo do Songo, neste caso no tempo da guerra colonial. Mas foi muito para além disso. Até aos dias de hoje, quando em vez das celebrações das vitórias, com respeito pelos que não ganharam, daquela vez, quando os ódios e os desmandos de todo o tipo, com origem em alguns membros de corpos gerentes e outros sem nível, deitam abaixo uma modalidade que podia, e deveria ser, exactamente o contrário. E é isso: o contrário da podridão, da mixórdia, da mentira, que eu desejo. Sempre. 

Quem dera que hoje, no Benfica-Sporting que vai haver, houvesse decência. Elevação. Respeito. Independentemente do vencedor.

Manuel João Sá.

 

Emblema SLBSporting_Clube_de_Portugal_-_Emblema

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “Benfica-Sporting no Vale de Santarém e outras memórias sobre futebol”

  1. Bravo!! pois revivi a minha mocidade graças au teu talento de memoria e de grande escritor (Para quando un livro ?) obrigado e un grande abraço !Felicidades para 2018!!!!

  2. Manuel João parabéns especiais por esta exposição. Quem, como eu, conheceu e lembra todos os referenciados, só pode ficar muitíssimo satisfeito e orgulhoso pelo reviver daquelas memórias, extremamente fidedignas e reais. Um grande abraço.

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