Nos 46 anos do regresso da guerra colonial

15 de Outubro de 1971.

Pela madrugada, chegamos ao largo de Lisboa. Com vida, felizmente, enquanto outros chegam do lado de lá, da vida. No dia anterior, foram dadas instruções à Companhia para o que havia a fazer: preparar as malas, não esquecer nada, esperar ordens para a saída do Vera Cruz. As orientações estão dadas. Oficiais e furriéis sabem que fazer. O sargento Esteves tem a lista do pessoal da Companhia e já tratou de tudo o que é necessário. Eu tenho outra lista. À medida que o navio avança, Lisboa vai-se tornando próxima, menos difusa, a costa de Sintra-Cascais já ficou para trás, vamos passar de novo por debaixo da ponte, depois o cais, vai ser um tudo nada, mas tão diferente da partida. Vamos acostar. O navio inclina-se para o cais, porque nos precipitamos, nervosos, ansiosos, para a amurada. Lá em baixo, os nossos familiares. Gritos, palmas, acenos de alegria. Lá há-de estar a Cidália, com o bebé. E os meus pais. Vou abraçá-los, enfim!… E vou ter o meu filho, Sérgio Pedro, nos braços. 

Segue-se um tempo longo, até o navio acostar, devidamente. E outro tempo longo, ou foi o que me pareceu, até começarmos a sair. Ah! Pisar o cais, de novo! Um enorme frémito de alegria, o coração a pulsar mais. Na escada, ainda, enquanto desço, olho a multidão. Lá estão eles, lá estão eles! … Momento único, indizível, mal me contenho no torvelinho das emoções, e logo, quase em corrida, a procura dos familiares, os beijos, os abraços, as lágrimas e o filhote a olhar-me, a inocência no meio da exaltação da felicidade, da vida, agora em paz. Correrias. Chamamentos. Uma certa confusão. Às tantas, aquilo parece um arraial, com polícias por aqui e por acolá. Todos querem ter os seus nos braços, mas muitos ainda têm de esperar, até chegarem a casa, bem longe dali. E, no entanto, é preciso partir, de novo. Ainda. Ir até Évora, para entregar a Companhia, que é o que me cabe fazer, a seguir. Para pôr um ponto final neste ciclo da vida de cada um de nós. Mais abraços, mais beijos e… até logo, ou até amanhã, logo direi. As viaturas militares aguardam-nos: vamos partir para o RAL3, para o acto final da nossa missão, enquanto militares.

Agora, já estamos em Évora. Para lá do meio da tarde, o sol a descer no horizonte. Há uma poalha a coar o sol, para poente, e os rapazes, já sem a farda, estão em fila, mas em arco: a fila está ali, naquela espécie de formatura do fim da vida militar, pois não há fardas, e não há qualquer alinhamento. As sombras dos quase ex-soldados, assim alinhados, projectam-se no cimento do piso das instalações e vêm até mim, até aos meus pés. Eu, pelo contrário, ainda estou fardado, que me cabe continuar a comandar a Companhia, na ausência do capitão, que ficou em Luanda. Os rapazes, só um pouquinho mais novos que eu, que tenho vinte e cinco anos, estão ali para a entrega dos pertences militares: farda, botas e boina. Já não vão ser-lhes necessários. Essa entrega, além do recebimento de um documento, em papel de cor verde, que atesta a passagem de cada um à “peluda”, são os últimos actos formais da sua vida militar. Depois disso, estão disponíveis para o regresso a casa. Às suas famílias e amigos. Às suas terras. Hão-de ir de comboio, ou de autocarro, ou talvez alguns familiares estejam lá fora, para lá da porta de armas do quartel, para os receber.

Um a um, calmamente, os militares aguardam a sua vez. Chegam ao ponto onde têm de entregar tudo aos sargentos, que são eles que recolhem o fardamento e o calçado. Depois, saudações de despedida. Desajeitadamente: encaminham-se para este, para aquele, entregam-se a abraços longos, sentidos, quem sabe se para nunca mais. Há despedidas silenciosas, outras com palavras, outras com palavras descontroladas, em alta voz, quase gritos, para soltar ao vento a emoção do momento. Vêm até mim, quase todos, e têm dificuldade no adeus, sobretudo quando me olham e vêem que, também eu, estou nas lonas: não sei por que não choro, mas é o que me apetece. Quem sabe quando os poderei voltar a ver? Com alguns é tudo mais difícil. Os do meu pelotão são mais demorados, no adeus. Conhecemo-nos há mais de dois anos e meio, e foi com eles que vivi a maior parte desse tempo. Preparámo-nos para a guerra, desde Março de 1969, em Évora. Partimos em Agosto. Fizemos a viagem, até Luanda. Dias depois de chegarmos, mandaram-nos para o Songo, quarenta quilómetros a norte de Uíge, então Carmona. Vivemos juntos tudo o que a guerra nos exigiu. O Vicente e o Gregório, furriéis, comandaram, comigo, o pelotão. Com um e com outro, o adeus é longo. Fazemos promessas de reencontro… qualquer dia, qualquer dia… Sabemos os nomes, havemos de saber os números de telefone, basta ir à lista telefónica… Com os cabos e soldados, há um mar de abraços, mas com alguns é muito difícil. O Valadas, meu guarda-costas, quase não quer ir embora. Anda ali, de volta de mim, e eu sem saber que fazer, na demora do adeus. Mas, em rigor, fomos todos guarda-costas uns dos outros, todo o tempo. Há os outros, ou seja, todos os demais do meu pelotão. O “Sines”, o “Noventa mil”, o Duarte, o Emídio, o Viana, o Ramos pequenino, o Jota Mendes, o André Guerreiro, o “Pula janelas”, o trio Albano, Costa e Espada, o Lampreia, o Piscarreta, o Colaço, o Saraiva, o Silva, o Matos, o Inácio, o Guerreiro, o Moutinho, o Guilherme “Bedford”, o Serrano, o Valentim. Ando sempre com um papelinho no bolso, com os nomes do meu pelotão, e vou guardá-lo. Mas vêm também até mim outros que vão partir: os furriéis, os soldados, os clarins, os enfermeiros, os dos géneros, os cozinheiros, os mecânicos, os condutores, os de transmissões… e, para todos, abraços, abraços, até qualquer dia…

Já há poucos na placa de cimento, à espera de vez, para entregarem o que resta, materialmente, da sua vida militar. O dia esteve quente. Na viagem desde o cais, em viaturas militares, viemos rindo, cantando, fumando, bebendo, imaginando o dia seguinte, sabe-se lá mais o quê. O sol claro, por vezes com grossas nuvens a prometerem mudança, acompanhou-nos até Évora, mas agora corre uma ligeira brisa, ali. Despeço-me dos três outros alferes: Castro, Rocha, Silva, com as mesmas promessas: qualquer dia encontramo-nos… Tenho a máquina de fotografar, que tantas fotos fez, ao longo da nossa vida na guerra, mas esqueço-me. É tarde, quando me lembro. Faço ainda uma foto, mas, de súbito, concluo que estou quase só. Mais um abraço, mais um até qualquer dia, e agora sim, só resto eu e o sargento Esteves. Ele ainda vai ficar por ali, a conferir “as coisas”. Eu, com um vazio enorme, fico um tempo sem saber que fazer. Sim, ainda tenho de ir amanhã ao Comando: o ponto final na minha vida como militar. Sim, depois vou para casa, finalmente!

Talvez um dia a gente se reencontre!…

(Perdeu-se a última foto…)

(O primeiro encontro de convívio da CART 2573 foi no dia 18 Outubro 2003)

15 Outubro 2017

Manuel João Sá

 

 

 

 

 

Autor: 60emais

Português.

5 opiniões sobre “Nos 46 anos do regresso da guerra colonial”

  1. Comentários por mail:

    Manuel Sá. Muito grato pela inesperada viagem ao passado. São tantas (todas?) as coincidências com a minha vivência (esta no Natal de 1967 e também no Vera Cruz) que as lágrimas apareceram sorrateiras. Abraço do alferes Ramos.
    José Batista Ramos

    Belo texto. Ainda hoje não consigo perdoar a quem destruiu física e psicologicamente uma geração de jovens portugueses. Abraço.
    José Luís Cruz

  2. Comentário de José Cabral:

    Obrigado por partilhares isto também comigo.
    Os oficiais e furriéis do meu Batalhão BCAÇ 4910 também nos encontramos, menos de uma vez por ano.
    O comandante esteve sempre connosco até que morreu há 2 anos.
    Dos soldados vem sempre só 1, que vem do Funchal de propósito ( os soldados eram todos da Madeira ).
    Estivemos no Leste, em Gago Coutinho ( a zona do malogrado Savimbi ), depois no Luso e por fim em Luanda uns meses.

  3. bravo amigo manuel pois é essa verdade mas uma coisa que nunca esquecerei durante a minha vida ! foi esse dia no cais antes de entrar para o Niassa ouvir um grande malandro et parasita do clergé que veio dar-nos a bençao ao nome de uma religion imaginaria mas muito comercial et universal; que poderia-mos matar (inocentes) a dez mil kilometres uma populaçao que falava a mesma lingua que a minha , que ao fin de contas foram eles os grande terroristas das colonias (Portuguesas) desculpa mas foi un desabafo pois a religiao contribuio a essa tragedia da mocidade Portuguesa !!!!

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