Em memória de João Manuel Caeiro

Percorro com o olhar as fotografias, da primeira à quarta-classe, e tu estás lá, como eu. Andámos nas mesmas classes, ao mesmo tempo, mas só me apercebi do teu “problema” na segunda-classe, quando te vi a correr menos que os outros, quando reparei que, para te movimentares, fosse a andar, a subir escadas, ou a correr, levantavas demasiado as pernas, e tudo era mais lento em ti, precisavas de inclinar o corpo para o lado contrário da perna que levantavas, ao caminhar. Levei algum tempo a perceber, depois levei algum tempo a aceitar. Não fiz perguntas, mas fiquei como quando, uma vez, num dia de festa na aldeia, vi uma mulher do Vale a empurrar um carrinho, como se fosse de bebé, porém um bocado maior e, lá dentro, um rapaz mais velho do que eu. Não fiz perguntas, mas minha mãe, um dia, quando com ela passei por essa senhora a empurrar o carrinho, disse-me do que se tratava, e essa era a primeira vez que me deparava com alguém assim, tão nitidamente inferiorizado fisicamente, que além disso também não conseguia falar, só emitia uns sons estranhos, e apresentava um aparente sorriso permanente, mas indiferente, distante, parecendo estar num mundo muito próprio e muito longínquo.

Na segunda-classe ainda conseguias entrar na maior parte das nossas brincadeiras, ao intervalo, fosse a jogar ao berlinde ou ao pião. Íamos para as traseiras da praça, fazíamos as nossas rodas para o jogo do pião e, ainda muito pequenos, ali passávamos em grande disputa aqueles breves minutos do recreio, jogando os piões sobre a pianinha, empurrando-a da nossa argola, desenhada no chão, para a argola da outra equipa; enquanto o pião de cada um de nós rodava na nossa mão, era tempo de o arremessar sobre a pianinha, para a movimentar para dentro da argola dos adversários, quando o conseguíssemos ganhávamos o jogo, se não fossem eles a chegarem primeiro, com a pianinha, à nossa argola. Eras muito bom nisto, e eu admirava-te, porque, embora com dificuldades, punhas no jogo grande empenho e eras eficaz, assim como no berlinde, já na segunda-classe jogavas quase sentado, pois era melhor para o teu equilíbrio, mas eras muito certeiro, e ficavas muito feliz. Pior começou a ser na terceira-classe, quando as dificuldades aumentaram, e no berlinde já te arrastavas um pouco, para além de sentado arrojavas-te, para não deixares de jogar e manteres a tua qualidade e participação. Começou também na terceira-classe a tua função como guarda-redes nos jogos de trapeira, onde o João Ferreira te aceitava para tal, pois ele era o melhor a jogar à bola, e costumava dizer “eu sozinho contra vocês os todos”. Assim era a maioria das vezes, tu punhas-te na baliza, que era entre duas pedras, no campo improvisado na estrada de macadame, e quando era preciso até te deitavas ao comprido entre as duas pedras, mas não era golo, e isso é que importava.

Elefantíase, era esse o nome da tua doença, a mesma de que padecia, há anos, teu irmão António, mais velho do que tu, já então numa cadeira de rodas. Mas esse era um nome que só mais tarde viria a conhecer; o que sabia era que nos dávamos bem, que lamentava que não pudesses ser fisicamente igual aos outros, porém eras de aproveitamento normal na escola, como a maioria. Tua irmã, a Esmeralda, de cabelo loiro, longo, não tinha o vosso problema: era sã fisicamente, também sorria embora menos que tu, e dava-se bem com a minha irmã Nelita, que haveria de partir muito cedo, aos vinte e quatro anos. Vocês moravam numa casinha onde mais de uma vez me levaste: ficava naquela pequena elevação de terreno frente à casa dos Noronhas, na estrada para a estação. Na minha memória estão ainda vossos pais, teu pai vestido de escuro, com a machada ao ombro, todos os dias com o ar de quem procura resistir ao infortúnio dessa doença, que tomou conta de ti e do António e vos fragilizou, dramaticamente, para sempre.

Após terminada a quarta-classe eu segui para a escola técnica, em Santarém, e comecei a ficar um pouco distante do teu percurso pessoal, mas soube que, não podendo movimentar-te e, aos poucos, com a perda de massa muscular, tudo ficou mais difícil, pelo que tiveste de continuar a vida numa cadeira de rodas. Isso foi quando eu já trabalhava e estudava em Lisboa, depois haveria de ir para tropa e para a guerra colonial, até que nos reencontrámos no Vale, num dia em que o Virgílio Pereira te ajudava, empurrando a cadeira, apoio que recebias de alguns amigos. Nesse tempo já vendias cautelas e, como era de esperar, também me habilitei, mas que importava o prémio?… O que importou foi que estivemos ali à conversa, ao pé da taberna do Leirião, depois tomámos umas cervejas, fumámos, e entrámos na recordação de muitas histórias da nossa vida comum, como aquela de termos ido ao leite à vacaria da Fonte Boa e eu insistir em te levar ao Vale no suporte da bicicleta, só que, na descida, com velocidade a mais e muitos balanços, espalhámo-nos, as bilhas voaram, cada um de nós foi para seu lado, a bicicleta galgou a valeta e ficou enfiada nos miosporos, enquanto o leite se havia derramado no macadame. Foram tais os danos nos nossos corpos que sempre falávamos disso quando nos reencontrávamos; recordo, como se fosse hoje, a dificuldade que tive em sair da cama na manhã seguinte, pois os joelhos, tão cheios de escoriações, haviam colado ao lençol durante a noite. Valeu-me minha mãe, que trouxe um pano húmido e, a custo, conseguiu descolar-me o lençol dos joelhos, a troco de eu lhe dizer o que tinha acontecido: foi assim que soube a razão de eu ter ido duas vezes buscar leite à vacaria, e a bilha estar amolgada, de lado…

Amigo João Caeiro, acontece lembrar-me de ti, de vez em quando. Ouço-te a voz, vejo-te o sorriso, até uma gargalhada, pois eras capaz disso. O teu corpo traiu-te, com essa doença que então não tinha tratamento, causada por um “miserável” mosquito, como é que eu havia de saber uma coisas dessas? As consequências são enormes sobre os vasos linfáticos. E foi por isso que partiste, só o soube muito tempo depois. Partiste cedo demais, como era previsível. Com as dores crescentes, com a incapacidade de suportar a luminosidade, com a perda da respiração. Não deixas de estar a meu lado: quando revejo as nossas fotos da escola primária; quando passo por aquele exacto ponto em que voámos, tal como as bilhas de leite; quando regresso ao convívio anual dos antigos alunos da nossa escola – estamos lá todos. Para sempre, enquanto houver.

Manuel João Sá.

8-AnoLect 1953-54-1ª e 3ª classes-01 (640x409)
João Manuel Caeiro é o 1º, na segunda fila, a contar da direita para a esquerda. Está atrás do Orlando Rodrigues.
9-AnoLect 1954-55-1ª e 2ª classes-01 (640x413)
João Manuel Caeiro é o 2º da fila da frente (sem bata) a contar da direita. Tem à sua esquerda o João Guedes, filho do Sr. Guedes, lojista.
12-AnoLect 1955-56-2ªe3ªclasses (640x409)
João Manuel Caeiro é o 3º, na fila da frente, a contar da esquerda. Está entre o Francisco Vieira (“Chico da Lenha”) e o João Guedes.
16-AnoLect 1956-57-2ª e 4ª classes (640x390)
João Manuel Caeiro é o 3º, a contar da direita, na fila de trás. Está entre o Joaquim Júlio Martins e o António Pedro Oliveira.

 

João Manuel Caeiro e amigas-os
João Manuel Caeiro, com jovens do Vale-Foto cedida por Rosa Tomé.

 

 

Autor: 60emais

Português.

5 opiniões sobre “Em memória de João Manuel Caeiro”

  1. bela homagen ao nosso falecido companheiro muitos momentos agradaveis passamos juntos! os banhos na vala a caça aos passaros com as atiradeiras et posso certificar que era ele o melhor pois tinha uma precisao enorme ! et nao vos falo das laranjas do Ruivo do Mascarenhas etc etc . Obrigada amigo M.J. Sà

    1. Obrigado amigo, pelo comentário. Ainda bem que sempre recordas também esses tempos e, neste caso, algumas particularidades do nosso João Caeiro. Inclusive o facto de ele ter muita pontaria, aliás coisa que tinha na ideia de referir na crónica, mas depois ficou esquecida. Lembro-me bem de que, quando alguns gozavam com ele (o que sempre me feriu a sensibilidade e, por isso, tive algumas pegas com alguns rapazes) ele, que andava sempre com uma pedra no bolso, atirava-a com grande precisão, e chegou a partir algumas cabeças. Não se podendo valer de outro modo, dadas as suas incapacidades físicas, motivadas pela terrível doença, o Caeiro fazia uso da sua pontaria, contra quem lhe fazia mal. Abraço.

  2. Comentário de José Leirião:

    Olá Manuel Sá,
    Espero que te encontres bem em conjunto com a família.
    Obrigado por manteres vivas imagens que não devemos nem podemos esquecer e que na verdade revelam o que fomos e somos.
    Recordo muito bem, embora tenha saído do Vale em 55, do João Caeiro, um rapaz fantástico sempre bem disposto apesar da enfermidade e retenho a imagem dele em cadeira de rodas.
    Sou um leitor atento das tuas histórias e movimentos ecologistas.
    Bem haja.

    Um Grande Abraço
    José Leirião

    1. Amigo e primo José, o meu agrado e agradecimento pelo teu comentário. Há muito que andava para escrever sobre o João Caeiro, nosso colega de escola, amigo, a quem a pouca sorte chegou cedo, com aquela doença. Cumpri agora esse passo, como se cumprisse uma necessidade, uma missão. Grande abraço.

  3. Comentário de Artur Lopes,

    Meu caro conterrâneo,
    Ao ler hoje a tua crónica sobre o nosso estimado João Caeiro não pude deixar de me emocionar com as recordações desses tempos. E, ao percorrer o teu blog 60emais, lendo o artigo “fui às sortes” ainda mais sensibilizado fiquei com a tua descrição rigorosamente, pormenorizada e realista, desses dias únicos nas nossas vidas de então. No meu ano de ir às sortes (1962) fizémos a festa e tudo o maismque descreveste. A Guerra colonial ainda era uma ameaça menor; por isso aquele foi um dia de afirmação e de nos sentirmos admirados.
    Uma vez mais, o meu agradecimento por nos trazeres à memória recordações tão vivas e vividas desses tempos.

    Bem Hajas

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