“Em minutos tudo se transformou em fumo” – A lucidez e a coragem da minha amiga Manuela Marques

Novamente, nos terríveis incêndios deste ano, vidas e bens têm sido transformados em cinzas. Desta vez, em Dornes, também a casa da minha amiga Manuela foi devorada pelas chamas. Aqui trago a crónica que enviou aos amigos. A manifestação sublime da sua clarividência, da coragem que a habita, e que, continuamente, demonstra, na sua vida. 

CRÓNICA DE MANUELA MARQUES10341571_887187911307658_5577375650826663026_n

Em minutos tudo se transformou em fumo.

O estado da matéria, a aparente coisa palpável, a forma como a reconhecemos, é pura ilusão.

Aprendemos o ciclo da água…mas não chega; não aprendemos os outros ciclos do existir. Os estados físicos criados pela matéria inerte que se constitui em objectos para nos alimentar a segurança, são apenas aspectos transitórios de estruturas moleculares tão resistentes como… um pau de fósforo.

A humanidade insiste na ilusão, vive dela e para ela, apesar da ameaça do nuclear que reduz a poeira qualquer pedaço de betão ou ferro.

Uma casa, um carro, propriedades variáveis na forma e no preço, até no apreço em que as temos, são matérias tendentes a serem decompostas (como nós próprios).

Aspiramos à perenidade, por isso nos multiplicamos, mas dum modo geral, vamos reduzindo as visões e as percepções. Já deixamos de plantar árvores para os netos…já nem sequer para os filhos. Na voragem dos dias com menos horas, o imediatismo satisfaz o ter para parecer.

Como estamos longe do velho índio que no horizonte contemplava o seu pai, o filho e os filhos de seu filho… como o tesouro de sabedoria transmitido em testemunhos orais de muitas gerações. Tudo mais importante do que as cabanas onde se vivia ou os objectos que os serviam.

Os estados transitórios da matéria que hipoteticamente nos serviriam, são agora o deus a quem servimos. O verbo “ter” louva esse deus à exaustão, presta-lhe culto, e nós servidores dessa substância, atribuímos preços a essa divindade.

A única casa a que chamava “minha”, ardeu num grande incêndio no sábado. Felizmente quem lá estava no momento salvou-se. Interessa agora perante o acontecido dinamizar o sentir mobilizando a energia para o que a vida me está pedindo, já que as várias e inevitáveis interpretações, não são da minha competência. Que sei eu para ler acontecimentos?

Vou manter-me em diálogo permanente com os dias, escutar o que os meus filhos me devolverem dos princípios em que eu os criei.

Com imensa  gratidão dirijo-me aos amigos (alguns com quem já não falava há anos) aos que me telefonaram, ou me mimaram com palavras de conforto, por vários meios, aos que partilharam comigo aquela casa que foi nossa, – dei comigo a confortar alguns dizendo – então era só uma casa…

Nós, os homens e mulheres a existir somos muito mais que matéria. A matéria quando desaparece é mesmo só fumo da realidade que foi. Nós somos repositório de afectos, sentimentos, lembranças, risos, instantes de amor ao outro, partilhas inconfessáveis, gestos de ternura, que ficam a ecoar na história das nossas vidas.

Viva permanece a grande casa do espírito que nos habita!

Obrigado, amiga, pela partilha do todo valioso que há em ti.

Manuel João Sá

 

 

Autor: 60emais

Português.

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