João d’Aldeia, poeta do Vale de Santarém

João d’Aldeia, ou seja, João da Silva Nogueira, poeta do Vale de Santarém. Vem-me à memória, de vez em quando e, sempre que leio os seus versos, em azulejo, na nascente da Fonte da Joaninha, retomo a pergunta: será que os valesantarenos, eu próprio incluído, irão algum dia querer saber quem foi, na verdade, e conhecer melhor a obra deste seu poeta?

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João da Silva Nogueira, o poeta João d’Aldeia, natural do Vale de Santarém (1879-1961)

Conheci-o pessoalmente, quando era criança. Perto da Fonte das Três Bicas, estava eu com meu pai, e era domingo. Enquanto falavam, eu só apreciava, tanto quanto a idade me permitia fazer. Depois, já em rapaz, falámos, também no mesmo largo. Um dia, da janela, perguntou-me: “queres ler o que ando a escrever”? E assim foi: subi as escadas, íngremes, escuras, bafientas, até ao andar de cima, que era onde passava a maior parte do tempo. Mostrou-me então alguns dos seus poemas, que me leu, numa voz serena, mas cansada. Da última vez em que estive em sua casa, estaria a partir, e tudo em redor assim estava: crepuscular, silencioso, inerte, na agonia lenta, a caminhar para o fim.

Sei que mostrou os seus poemas a outras pessoas e outros rapazes da minha idade, no Vale. Naquele tempo, porém, estava eu longe de entender que era poeta, poeta a valer. Escrevia aquelas coisas, em pequenas folhinhas de papel, amarrotadas, numa letra pequenina, inclinada para a direita. Trazia-as enroladas na algibeira do casaco, e mostrava-as a alguns. Rimava, aquilo que eu lia, é verdade. Mas isso estava ainda longe do meu entendimento, do meu saber apreciar, pelo conteúdo e pela forma. Mas sim, era poeta, a caminho do fim da vida, que a doença, a velhice e a solidão já o minavam há muito. O largo da Fonte das Três Bicas foi, no Vale, o seu espaço preferido. Alto, curvado, quase sempre de casaco, no inverno com um sobretudo escuro, muito coçado, e de chapéu, conversava com todos, com afabilidade, com interesse e saber. Costumava estar de mãos atrás das costas, enganchadas. Sempre com um sorriso sedutor, mostrava um olhar que acolhia, brilhante, mas profundo, que ia para lá da circunstância, conservando o que terá sido um comportamento de galanteador, que eu haveria de comprovar, nos poucos versos que dele vim a apreciar, mas já mais tarde.

E lá partiu, em 1961. Sem a admiração pública que merecia. Antes pelo contrário, havia um ambiente que lhe era desfavorável, no Vale de Santarém. É que, em plena ditadura, afirmava-se republicano, e mostrava-o. Fazia até questão de ter sempre uma pequena bandeirinha de Portugal, na janela do 1º andar, virada para o pequeno largo da Fonte das Três Bicas, local de passagem de muita gente do Vale, o tal ponto onde observava as pessoas e ali colhia imagens, ideias, quadros, inspiração para os seus poemas. Falava sobretudo com aqueles que sabia serem oposicionistas. Sem medo, no dia da comemoração da implantação da República, assim como no 1º de Maio, punha a bandeirinha de Portugal bem à vista, fora da janela. E os situacionistas e a polícia política – que tinha agentes no Vale – não gostavam disso… que ele fosse claro na sua afirmação contra o regime.

Com uma poesia aparentemente simples, ligada aos temas da terra, da natureza, da vida das pessoas, cantando o amor, a mocidade, a mulher, os seus encantos, espera ainda, lá onde estiver, que o Vale o conheça, e faça conhecer o que nos deixou. Era, e é, a maior homenagem que podemos tributar-lhe. Ele, que tão bem cantou o Vale. 

Manuel João Sá.

Joaod'Aldeia-Poema
Publicado no jornal “Correio do Ribatejo”

 

 

 

 

Autor: 60emais

Português.

Um pensamento em “João d’Aldeia, poeta do Vale de Santarém”

  1. Eis aqui uma bela crónica e uma homenagem sentida e merecida, que te agradeço!
    Conheci o poeta João d’Aldeia e também estive no sótão onde ele escrevia … e vivia. Tudo me impressionou vivamente, a simplicidade da sua vida, a sua afabilidade e o facto de sr poeta. Um dia, escreveu e dedicou-me um poema, que a minha professora da 3ª. classe gostou tanto, que ficou com ele e nunca mais mo devolveu. Envergonhado e profundamente triste lamentei-me ao poeta que, magnânimo e condoído, me escreveu outro. Também este, misteriosamente, me seria roubado.
    João d’Aldeia deveria ser mais reconhecido e não ser esquecido pelas pessoas do Vale de Santarém, porque ele foi, na realidade, grande!

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