Fui às “sortes”…

22 Julho 1966.

Chegou uma carta, com muita antecipação. Também saiu o edital do costume, afixado na junta e noutros locais da freguesia. E, ainda como de costume, quem não soubesse ler ou não tivesse visto o edital, acabaria por saber através da voz popular, nas lojas, nas tabernas, pelas ruas. Aproximava-se o dia das “sortes”, assim chamado pelo povo, ou, mais modernamente dito, da “inspecção militar”. Ou seja, vinte anos depois de terem vindo ao mundo, os rapazes do Vale, como de outras terras, deviam apresentar-se, no dia, hora e local indicados, para serem sujeitos à inspecção militar, quer dizer, inspecção médica, para se concluir da sua aptidão para a vida militar, para a… tropa e, obviamente, para a guerra, havendo. E essa data passou a ser, dali em diante, um marco na vida dos rapazes do Vale, das suas famílias, das namoradas, ou até das mulheres e filhos, se já os houvesse. Assim, como sempre, mas, desde há alguns anos, sob o espectro da guerra colonial.

Ainda era criança quando comecei a saber que havia isso: as “sortes”. Então, os rapazes que eram chamados, no dia marcado saíam, manhã cedo, do Vale, vestidos e arranjados como nunca e, após fazerem a tal inspecção em Santarém, regressavam pelo meio da tarde, em grupo, sendo recebidos em festa pelos seus familiares, pelos amigos e muitos outros, a que se associava sempre o rapazio, desesperado por novidades. Entre foguetes e morteiros, lançados pelo Manuel “Careca” ou outro especialista, o grupo passeava então pelas ruas principais, acompanhado de música de concertina, no mínimo, por entre palmas e outras manifestações de alegria, fazendo muita gente vir às janelas ou ao seu encontro, gritando-lhes vivas, trocando sorrisos, beijos e abraços. Começava assim o primeiro período de multidão que viviam na aldeia, naquele dia especial. Antes disso, e depois da dita inspecção, tinham feito o almoço de grupo, na cidade, num repasto sempre bem regado e de grande exaltação de juventude, uma espécie de carta de alforria que, dizia-se à boca pequena, com malícia, era também o dia especial de “ir às mulheres”, pela primeira vez, para alguns. Na “rua das linheiras”, em Santarém.

Cumprida a passagem, com muitas paragens, pela aldeia, arrumados os foguetes, por enquanto, e posta a música em descanso, era altura de os mancebos recolherem a casa, onde, pelo início da noite, haveria o jantar melhorado, momento especial de homenagem, por parte da família, ao protagonista daquele dia inesquecível. Um dia único, que continuava no baile, na mesma noite, organizado pelos membros do grupo, onde sobressaía a música contratada, sempre brilhante, no espaço enfeitado como de arraial (folhas de palmeira, hera em profusão, além de florões em papel de seda colorido, e outros enfeites vistosos, como balões) as mais das vezes no amplo quintal da Mari Jaquina, ao ar livre. Pela noite dentro, em ambiente de alegria, havia ainda muito para confraternizar, para viver e… para beber. Os mancebos, ombreando com a luz das estrelas da noite, enlevados no aconchego máximo, da aldeia, sobretudo por parte dos seus familiares, e com as mães especialmente vivas, sorridentes, radiantes, orgulhosas, com as suas crias ali, no grande dia do ritual de passagem de rapaz a homem, assim consagrado; as mães, talvez desejando que aquela noite não acabasse, e as namoradas ainda mais, elas nos braços dos seus homens agraciados publicamente, eles em dia de exaltação da sua vitalidade masculina, dançando, dançando, enganchadas as mãos, olhos nos olhos, corpo colado com corpo, tudo em comunhão, tudo em comunhão, sonhos fazendo-os voar, consolidando-se os namoros, ou, então, ali começando, nesse glorioso dia. 

Antes da data prevista, para a ida “às sortes” dos rapazes do meu ano, já eu tinha pensado maduramente no assunto. Os tempos iam difíceis: com a guerra colonial, primeiro na Índia, depois em Angola, Moçambique, Guiné, e com a mobilização de jovens militares para estes e outros territórios coloniais, entretanto convertidos pelo regime político em “províncias ultramarinas”, que papel me cabia, desde logo, quanto ao que fazer no dia das “sortes”? Naquele tempo, não se tratava já, como alguns anos antes, da situação de fartura de rapazes para as necessidades das forças armadas, pois estávamos em guerra. Quando, nesses anos, não havendo guerra, a política foi de escolher só os melhores, os mais fortes, os mais aptos, os eleitos, fisicamente, para “a tropa”, para ocuparem as vagas existentes, isso obrigava a um sorteio – daí o termo “ir às sortes” – para que, entre esses, os eleitos, os apurados, ficasse decidido quem iria. Assim, de entre os apurados, havia aqueles a quem o sorteio ditava que iam “fazer a tropa”, e os restantes, de entre os apurados, ficavam livres dessa obrigação. Mas, além dessas hipóteses, havia duas outras: a dos que ficavam de espera – para voltarem a nova inspecção – e os que eram considerados inaptos, por razões de saúde, de falta de altura, ou outras, tidas como incapacidades para a entrada na vida militar. E estas últimas eram, em regra, situações menos felizes, para os próprios e seus familiares.  

Mas esta não era a situação que se me deparava. Por isso, pensando no cenário de guerra que vivíamos, foi meses antes que tomei a resolução de falar com alguns rapazes do meu ano, com um objectivo muito concreto: o de lhes propor não fazermos qualquer festa no dia “das sortes”, dado o facto de não ser de alegria, de felicidade, esse acto que nos conduziria certamente à vida militar e à muito provável participação na guerra colonial, a qual já semeara a morte e a incapacidade física entre muitos portugueses, até aí – do Vale, logo em 1961, a guerra ceifara a vida a João Amaro, em Angola. Essa conversa, que foi sendo feita com o Reinaldo, o Joaquim Júlio, o Orlando, o Joaquim Rafael, o Rui Sá, o Azenha, e eventualmente com um ou outro mais, bastou para ganhar desde logo a adesão da maioria: nem roupa especial, nem música, nem foguetes, nem baile. Estaríamos lá, no dia e, terminada a inspecção, iríamos almoçar em grupo. Somente, e chegava. Havia, porém, uma etapa a cumprir: cada um de nós teria de informar os pais e restantes familiares, e pedir-lhes que compreendessem as razões da nossa decisão. E assim foi. Dado tal passo, com algumas tristezas e receios pelo meio por parte de familiares, a verdade é que, pensámos então, as reacções negativas não teriam sido significativas: nem dos familiares, nem da população.

Chegaria o dia 22 de Julho. Estávamos nos 20 anos. Havíamos entrado na escola primária em 1953. Esse tinha sido o nosso primeiro encontro e, agora, iríamos concretizar o segundo, mas do modo que havia sido combinado. Uns foram de camioneta da carreira, outros de motorizada, e também houve quem, trabalhando em Santarém, tivesse saído da oficina para ir “às sortes”, envergando o seu “fato de macaco”. O serviço militar de recrutamento era no Regimento de Artilharia nº 6. Entrámos em grupo, após termos dito à sentinela ao que íamos. Depois do controlo dos nomes, passámos, em fila, à zona de acesso ao local específico onde a inspecção ia acontecer. Mandaram-nos despir, já com instruções e voz de tipo militar. A roupa de cada um ficou onde podia ser, e foi nessa altura que o Azenha teve de deixar o seu fatinho novo por ali, e ficar, como todos, nuzinho, para a dita inspecção. Surpreendidos, uns, encolhidos, outros, nervosamente activos – a tentar encobrir a timidez – outros ainda, cada qual a viver a incomodidade do momento, lá fomos avançando, em fila, a qual já contava com outros jovens que não conhecíamos e, atrás de nós, outros vinham já a pôr-se a jeito, para a mesma função. Talvez um capitão-médico, um alferes, um sargento e um enfermeiro, seria esta a composição da equipa que conduzia a inspecção, a qual fluía, com algumas tiradas militares e graçolas, próprias para o momento, ainda mais contando com a situação de inferioridade psicológica que ali vivíamos. Concluída a sessão, ficámos todos apurados. Portanto, a tropa e, provavelmente, a guerra colonial, faziam já parte do nosso futuro, a partir dali.

Cá fora, após nos voltarmos a juntar, seguimos para o restaurante do Vieira dos Frangos, à entrada da Rua do Postigo, onde decorreu o almoço. Aí sim, comemos e bebemos a contento, de tudo um pouco, fumámos demais, falámos do que vivêramos, ficámos acalorados e emocionados, como era previsível e desejável. Trocámos memórias dos nossos tempos de escola primária, jurámos continuar a encontrar-nos, sempre que possível, no Vale, ou onde quer que fosse. E, quando a tropa viesse… e quando fosse de irmos para a guerra, se assim tivesse de ser, que a sorte nos protegesse. Isto dissemos, naturalmente, longe ainda do dia em que, na verdade, alguns de nós tiveram mesmo de ir. E nem tudo correu bem.  

Terminaria aqui esta crónica, se…

Alguns meses depois, estando a trabalhar e estudar em Lisboa, desde Dezembro de 1964, fui ao Vale, o que acontecia pelo menos uma vez por mês. Meu pai escrevera-me e perguntava-me quando iria fazer uma visita à família. Quando tal acontecia – escrever-me – era certo e sabido que tinha algo especial a dizer-me. Fui ao Vale, e foi então que vim a saber que, da parte de algumas pessoas, tinham andado a ser feitas perguntas sobre quem havia tomado a iniciativa de não se fazer a festa das “sortes”; que, com ele, também teria havido essa conversa, porém não por parte das pessoas “perigosas” – termo que usou – pois que essas (da PIDE) não se atreveriam a falar com ele directamente, para esse efeito, no Vale – teriam de usar outra via, mais drástica, mas tal não veio a acontecer. O que veio a acontecer, é que todos nós fomos à tropa, e, quase todos à guerra colonial. Do nosso ano, perdeu lá a vida o Rui Sá. Além do Rui, mais três, de outros anos. Outros, ainda, voltaram com incapacidades diversas, cuja vida teve de voltar a ser reequacionada, reajustada, face a tais consequências.

Que a nossa vida continue, o melhor possível, em todos os domínios, camaradas de um tempo único. Onde, ir às “sortes”, já deixara de ser a ingénua, feliz, exaltante etapa da nossa juventude, para a etapa seguinte: ser adulto. Um tempo que, felizmente, passou, mas só porque houve outro acontecimento notável, de redenção nacional: o 25 de Abril.

Cumprimos. Não fizemos a festa, que nada havia, então, para festejar. Faltou-nos, mesmo assim, uma foto. Isso sim, faltou. Viemos a reencontrar-nos, há alguns anos, num almoço, relembrando o dia em que entrámos na nossa escola primária, pela primeira vez. 7 de Outubro de 1953. Entretanto, aos poucos vamos partindo. Custa. Mas é assim, a vida, não é?…

Manuel João Sá.

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Militares do Vale de Santarém que faleceram na Guerra Colonial. Minha homenagem.

 

 

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “Fui às “sortes”…”

  1. E, meu amigo, apesar de terem passado mais de 50 anos, lembro-me bem desse dia e das emoções sentidas, que tão bem descreveste. A tua sugestão para não festejarmos a ida às “sortes” tem sido um motivo de orgulho para mim (e creio que para todos), por ter feito parte desse grupo pioneiro. Afinal, não havia nada para festejar!

  2. Verdade, companheiro. Foi uma surpresa, tipo “bomba”, numa terra onde este dia era muito vivido. E onde, sabia-se, e veio a confirmar-se depois, a PIDE estava bem instalada. Abraços.

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