O meu primeiro dia de Escola Industrial e Comercial de Santarém

Terminada a 4ª classe, seguiu-se o exame de admissão à Escola Industrial e Comercial. Não foi difícil, que a preparação tinha sido muito boa, com as aulas do professor Costa, no Vale, que eram de segunda a sexta, após o almoço. Não havia escapatória: era dose dupla diária, mas as aulas para a admissão eram mais exigentes, apesar de, aparentemente, o programa ser semelhante. Então, em data que não recordo, em Julho de 1957, foi o exame. Meu pai acompanhou-me na viagem, na camioneta da carreira, que vinha da Isenta e passava pela Fonte Boa. Do Vale de Santarém, salvo erro, só mais três fizeram esse exame: a Manuela Martins, mais tarde conhecida como Manuela “do Vale”, a Glória Vicente, e o Manuel João Carvalho que, dado ser sportinguista e jogar normalmente a extremo-esquerdo, passou a ter, nas escolas de infantis dos Leões de Santarém, a alcunha de “Albano”, nome do excelente jogador dos famosos cinco violinos do Sporting. E foi também por “Albano” que o Carvalho passou a ser conhecido na nova escola.

No exame de admissão, estive numa sala que muito mais vezes iria ser, para mim, de aulas e exames. Era a grande sala a que chamávamos “sala de química”, mas onde tive aulas de outras matérias. Curiosamente, foi ali que fiz a última oral, mas para falar disso ainda faltam muitas outras memórias, que hão-de vir aqui. Ao recordar esse dia, do exame de admissão, como é possível que ainda me lembre do exacto momento de ser chamado, pelo nome, para entrar na sala, e que meu pai me tenha visto entrar, ele sorridente, eu, com um tremor na barriga, com a caneta dele, de tinta permanente, na mão, e também com um lápis, uma borracha, uma régua? E o relógio dele, no meu pulso, pela primeira vez… Como é possível, ainda, que me recorde de ficar sentado, no lugar que me destinaram, mais ou menos a meio da sala, podendo ver janelas à esquerda, por onde entrava o sol límpido da manhã? Como foi possível guardar essa memória, e, também, mais dois pormenores: as carteiras, em madeira, que eram de tampo direito (mandaram-nos pôr o bilhete de identidade em cima da carteira) e, olhando em volta, em vários armários de madeira, e por cima deles, viam-se alguns objectos, como balanças, tubos de ensaio, retortas de alquimista?… Mas sabia lá eu, então, o que aquilo seria?!.. naquela enorme sala, onde havia uma grande mesa, com tampo negro, de lousa?…

Por esses dias, no Liceu de Santarém, também prestavam provas os meus amigos do Vale de Santarém, que tinham andado nas aulas de admissão, e cujos pais haviam escolhido o Liceu para a continuação dos seus estudos. Assim, para além de, terminada a instrução primária, a maioria dos meus amigos da quarta-classe ter parado de estudar – esperava-os qualquer outra actividade, no campo ou numa fábrica, mais dia menos dia – iniciava-se ainda uma certa separação entre os que iam para a o liceu e os que iam para a escola técnica. Na verdade, desde os nossos primeiros anos nessas novas escolas, iríamos reencontrar-nos nos transportes, ou por vezes em Santarém, e, mais amiúde, nos períodos de férias. Se o Reinaldo se mantinha sempre próximo, sobretudo nos tempos de férias, aos poucos foi-se dando distanciação natural para o Fernando Garcês, o Norberto e outros, que entraram no liceu. Em conclusão, aquela quase vintena de rapazes que, em 1957, terminara a quarta-classe, estava, ano a ano, a distribuir-se, naturalmente, por uma série de caminhos para diferentes futuros, no trabalho ou nos estudos. Era assim. 

A 1 de Outubro de 1957, terça-feira, desci do autocarro da camionagem Vinagre, na paragem da bonita avenida da cidade, frente ao hospital. Ia entrar na Escola Industrial e Comercial de Santarém, como aluno. Era cedo e a manhã estava fresca. Levava a pasta de cabedal que o senhor João, correeiro de renome na Fonte Boa, me prometera se eu entrasse na escola técnica. Na pasta, que cheirava tão bem a cabedal novo, somente um caderno, a caneta de tinta permanente e um lápis, além de um papo-seco, com fatias de queijo de Alcobaça, embrulhado num paninho branco, preparos carinhosos de minha mãe. Segui por entre os canteiros que ladeavam a avenida, sempre floridos e com o buxo bem aparado, e fui a caminho da rua que me levaria à praça da Escola. Era já a rua que mais conhecia, várias vezes a havia usado, acompanhado pelo meu pai, como quando do exame de admissão, ou dos retratos para a matrícula na nova escola, na Foto Sequeira – o senhor já tinha alguma idade, era simpático, endireitou-me a cabeça, com um simples toque a duas mãos, depois, por detrás do pano preto, disse-me para eu sorrir, e assim fiquei com aquele meio sorriso, mais timidez que outra coisa, nem ele ter brincado com as pintinhas brancas da minha gravata grená deu para mais. Fiquei assim, pela primeira vez com um fato de casaco e calção, um lencinho no bolso do casaco junto à lapela, onde brilhava também um emblema do Benfica. Uma imagem para sempre. Foi no dia 11 de Junho de 1957, está anotado no verso.

A caminho da escola, foi ao passar pelo “canto da cruz” que me veio novamente à mente o que meu pai me havia dito: aqui é o “canto da cruz… se estiveres perdido, voltas para trás e vais até à avenida”. Isso eu percebi, só que não perguntei a razão de se chamar “canto da cruz” – só muitas décadas depois vim a saber que ali, no encontro de quatro ruas, se forma uma cruz latina, com os seus quatro cantos, sendo o topo da cruz a parte que vai até à igreja de Marvila. E foi aí mesmo, junto à igreja, que virei à esquerda, para seguir até à escola. Lá ao fundo, um mar de cabeças de gente pequena, na companhia de alguns adultos. Foi um instante, até me acercar deles, e ali ficar à espera de sermos chamados, mas, num repente, veio uma ordem e começámos a subir as escadas, depois houve a chamada pelos nomes, e novamente entrei para a mesma sala do exame de admissão. Com a sala repleta, por entre o alegre desassossego da altura, irrompeu um senhor de óculos, acompanhado de outros (“são professores”, disse para mim…) que, pouco depois de chegar à mesa grande, começou por saudar todos, sorridente, dizendo depois “sou o director da escola, sejam bem-vindos!” e muito mais: falou de horários, de pontualidade, de ser preciso estudar, de disciplina, dos contínuos… Viria a saber que, após sairmos, outros alunos foram chamados para a mesma sala, onde a conversa terá sido a mesma.

Em seguida, foi tempo de irmos conhecer o espaço de intervalos, uma sala do primeiro andar, depois voltámos à entrada e mostraram as vitrinas e os horários das turmas, e novamente a menina Preciosa, que havia ajudado meu pai a preencher os papéis da matrícula e as fichas para as cadernetas, veio ajudar, veio dizer como funcionava aquilo, do horário, coisa nova para mim, e para muitos. Mas não só isso era novo: vi raparigas e rapazes já muito grandes, levaria tempo a perceber que se tratava dos que tinham entrado no ano anterior, muitos dos quais já tinham treze e catorze anos, tinham estado à espera da abertura da escola, cuja criação era sucessivamente adiada, há anos.

A manhã passou rapidamente, marcada pela excitação sucessiva de todos aqueles novos pequenos momentos, afinal para todos nós, os recém chegados, era o mesmo, e, apesar da tentativa de anotarmos, pelo menos mentalmente, tudo o que era dito, muitas informações se perderam, de tal modo que, nos dias seguintes, me vi a regressar às vitrinas, ao contacto com os contínuos ou a conversar com outros, para não me desorientar naquele novo mundo. Entretanto, combinado que estava que meu pai viria encontrar-se comigo, para irmos almoçar, ficara assente que esperaria por ele junto ao marco do correio. E foi assim que aquele específico ponto, que ficaria na memória de milhares de antigos alunos da nossa escola, começou a entrar na história da minha vida escolar. Meu pai não demorou e, depois de conversarmos um pouco, dirigimo-nos para a casa de pasto “A Floresta”, do senhor João da Frasqueira, no largo logo a seguir ao Jardim da República, frente ao qual também ficava o Regimento de Cavalaria. Chegados lá, o senhor João, baixote, para o gordinho, quis-me conhecer, até me deu um aperto de mão “como os homens”, disse. Meu pai ia lá, com frequência, na volta da venda de refrigerantes da Fábrica Águia d’Ouro, do Vale de Santarém, de modo que foi fácil combinar com ele que eu iria lá almoçar, todos os dias, levando o almoço preparado de casa, só precisava da mesa. Confirmada pelos dois esta solução, o senhor João disse “hoje o almoço é por minha conta”, e foi assim que comi carne guisada com batatas e feijão verde, a que ouvi chamar “carne à jardineira”, e também essa designação foi novidade para mim. Meu pai, padecendo de úlcera renitente, ficou-se por uma posta de peixe cozido, com batatas e cenouras, e bebeu água, enquanto eu fui presenteado com uma gasosa “Aguia d’Ouro”, para minha alegria.

Terminado o almoço, fomos à Papelaria Silva. Meu pai precisava de falar com o senhor Alfredo, que conhecia bem, com o propósito de combinar que eu fosse atendido, quando por lá aparecesse para a compra dos livros e outros materiais, que meu pai iria depois fazer contas com ele. Falaram, e ficou assente.

Foi já pela tarde que regressámos ao Vale. Enquanto meu pai voltou ao trabalho, eu fazia o caminho até ao cabeço da Fonte Boa, para o primeiro de muitos regressos a casa, na história da minha vida de estudante, na Escola Industrial e Comercial de Santarém.

Manuel João Sá

17436042_1853502781531182_1001043718652787172_o
Edifício da Praça Visconde Serra do Pilar, em Santarém, onde foi instalada a Escola Industrial e Comercial. Funcionou aqui até 1969.
IMG_20170714_204749
A foto para o Bilhete de Identidade, tirada em 11 Junho de 1957, na Foto Sequeira – Santarém.

 

Autor: 60emais

Português.

6 opiniões sobre “O meu primeiro dia de Escola Industrial e Comercial de Santarém”

  1. Fico espantado com a riqueza de detalhes de um tempo já tão antigo. Eu, que sou muito mais novo (!!!), não consegui memorizar tanta coisa…
    Bela crónica, amigo.

  2. A menos que os anos o venham contrariar, estou como o amigo Reinaldo – tenho sobretudo memória de sentimentos ou estados de espírito, mais do que de detalhes, e ainda assim nem sempre definidos. Ao contrario, as tuas crónicas são postais muito ilustrados, daqueles que se recebiam ou escreviam nas férias quando era miudo. Só que falam de um outro tempo, o que só lhes acrescenta interesse e novidade. Ainda bem.

  3. EU, ARMANDO CARDOSO, ENTREI PARA ESTA ESCOLA EM 1959, E TIDO ESTE RELATO FOI IDENTICO AO QUE PASSEI.
    FOMES RECEBUDOS PELO DIRETIR DA ESCOLA DR. CHAMBEL, SEMORE COM CARA DE POUCOS AMIGOS, MAS HAVIA OUTROS MUITO BONS QUE FIRAM GRANDES REFERÊNCIAS NA NOSSA EDUCAÇÃO E CRESCIMENTO, DRA. FERNANDA FÉRIA, DRA. CANOVA NO CANTO CORAL, PROFESSOR SCHIAPA, QUE NOS DAVA UNS CAROLOS QUANDO ESTÁVAMOS DISTRAÍDOS, AS AULAS DE GINASTICA COM O PROFESSOR FÉRIA OPROFESSOR DE DACTILOGRAFIA E DE CALIGRAFIA, GRANDE MESTRE… GUERRA DA SILVA
    BONS TEMPIS, BOAS RECORDAÇÕES ATÉ MUDARMOS DEPOIS PARA A NOVA ESCOLA.

  4. E verdade, Amigo Manuel Sá. Também eu andei na Escola Industrial e Comercial de Santarém. Ao lado do quartel de Bombeiros. Recordo muitos dos pormenores que relatas na tua crónica. Inclusive o marco do correio. e a contínua, a Dona Preciosa. Este nome fez-me um clic no cérebro, ao recordá-lo agora. Também, quando dizes que fostes à Papelaria Silva (quem é que não a conheceu ?) E eu, pequeno, encostado à montra do lado do Largo Sá da Bandeira, onde se podia observar a pequena tipografia . . . ver aqueles operários a fazerem coisas que eu achava estranho: tirarem umas coisas pequeninas das gavetas com muitas divisórias. e juntá-las numa «coisa» que tinham na outra mão . . ., ver a máquina a cortar um maço enorme de papel de grande formato . . . e sem esquecer outro operário, que punha e tirava folhas de papel, uma a uma, com uma precisão certeira, para que ficasse no sítio exacto, e sem entalar a mão . . .
    — Quem é que havia de adivinhar, que eu . . ., iria ser . . . tipógrafo. Foi a profissão da minha vida. (mais ou menos 46 anos) Ofício bonito. Aprendi quase todas as fases de confecção de trabalhos gráficos. Desde a composição manual e mecânica, impressão, corte e vinco, dobragem mecânica de folhas em obra de livro e revista, colagem a quente, fotografia, fotolito e montagem, guilhotina, acabamentos, etc., etc., etc.
    — E porque as memórias da tua adolescência de estudante, são, também, semelhantes ou com algumas ramificações, de tudo o que outros anónimos também temos em comum, e que recordamos quando delas temos conhecimento, e dizemos para nós: «isto também se passou comigo» ou «lembro-me desta passagem ou deste acontecimento».
    Um grande abraço.

    1. Amigo Luís, agradeço a tua participação, revelando que, afinal, tendo sido aluno na nossa EICS, que haverias de deixar, para continuares noutra escola, tens também muitas e boas memórias desse tempo. Curioso esse encontro precoce com as artes da tipografia, que viria a ser, mais tarde, a tua área de trabalho. A vida é uma caixinha de surpresas. Abraço.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.