A caminho da guerra colonial

23 e 24 Agosto 1969. Fim de semana. Passo-o no Vale de Santarém, na nossa casa, no cabeço da Fonte-Boa. Na família, todos sabem, há meses, que estou mobilizado para a guerra colonial, e que em breve irei partir, para Angola. No dia 25, pela madrugada, digo adeus a meus pais. Digo-lhes que ainda voltarei, para me despedir, mas meu pai, sem nada me dizer, percebe que não é verdade. Minha mãe acredita. Faço o caminho, a pé, atravessando o Vale, até à estação. Faço o caminho a pé, porque assim escolhi. Enquanto caminho, recordo muito da minha vida: os lugares do Vale, as memórias que me ficaram, as pessoas que fizeram e continuam a fazer parte da minha vida. Os ruídos, os perfumes, as ruas, as casas, as vozes, os rostos. Memórias difíceis. Aguardo, na estação, o comboio para Lisboa, onde me vou encontrar com a minha namorada. Depois seguirei para Évora, para me juntar à Companhia. A Companhia de Artilharia nº 2573, formada no RAL3.

Na noite de 26 para 27 de Agosto saímos de Évora, de comboio. Seguimos sem parar, até Vendas Novas, onde o comboio prossegue pelo ramal do Setil, passando por Coruche e Muge, até encontrar a linha do Norte. Pelo caminho, com a manhã a despontar, revejo locais que conheço, em particular a pateira da vala de Azambuja, próximo da estação do Setil, onde passei dias na pesca, com meu pai. Como por encanto, a claridade ainda difusa mostra-me o meu pesqueiro preferido, o salgueiro que me protegia do sol, o local preciso onde assentava a minha cana de pesca. Entretanto, o comboio queda-se antes da estação do Setil, para passar outro com prioridade, na linha do Norte. Depois, já a caminho de Lisboa, há nova pequena paragem em Vila Franca de Xira. Seguimos depois até Braço de Prata e, desviando aí para a direita, continuamos pela linha que circunda Lisboa pelo Norte. A cidade está na sua vida de todos os dias, parece distante, como que insensível ao que ali vivemos, naquele comboio, acenando para quem passa, a caminho da guerra. Queremos dizer isso, mas parece que ninguém nos ouvirá. É uma sensação estranha. Em particular, os rapazes naturais de Lisboa berram, ao passarmos por Alcântara-terra. O comboio, como que a pedido, afrouxa, depois pára um tempo, enquanto não passa para o lado do cais. Continuam os acenos, os gritos, os palavrões. O trânsito automóvel fica parado, para o comboio seguir para o cais de Alcântara, onde o Vera Cruz nos aguarda. É então altura de formar, de ouvir discursos militares, de marchar. A seguir é o tempo do adeus. Há correrias, há apelos, há acenos, há muitos lenços e lágrimas. Despeço-me da minha namorada, que, com duas amigas, aguarda, no cais, que eu a encontre, no meio de milhares de familiares de outros militares. O tempo é pouco para tudo. A tensão é grande. Lá a encontrei, para o abraço longo e apertado, soltam-se as lágrimas e os beijos de despedida. A seguir, a subida, pela escada, para o navio, e a tentativa, ainda, de olhar para trás, para quem nos diz adeus, mas há ordens para não pararmos na escada de acesso. Chegando ao navio, procuro rapidamente a amurada. Ali fico, olhando o cais, acenando, no meio daquela confusão da partida. Por instantes, consigo encontrar quem, do cais, me acena. Logo depois o urro da partida solta-se, uma e outra vez, das entranhas do Vera Cruz. Estou abraçado aos que, comigo, também querem dizer adeus. Mas já é tarde. Pouco passa do meio-dia. Lenta, lentamente, o navio larga o cais. Lá dentro, eu e milhares de camaradas, alguns dos quais não voltarão. 

Minha mãe vai saber, dois dias depois, que já parti. Encerra-se dois dias. Vai para o palheiro da burra, não quer ver ninguém, não quer falar com ninguém. É preciso ir tirá-la de lá. Uma tristeza profunda, até ao meu regresso. Até que regressei e, felizmente, mais nenhum de nós, seus filhos, foi mandado para a guerra.

Mas, entre o partir e o regressar, muito mais há a dizer, nas minhas “Crónicas da Guerra Colonial”.

Manuel João Sá

Vera_Cruz_embarque
Navio “Vera Cruz” – Um embarque de militares, para a Guerra Colonial.

 

 

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “A caminho da guerra colonial”

  1. Meu amigo, não passei por essa experiência mas passei por outras semelhantes, sem lenços nem despedidas, no entanto senti, como acho que também sentiste, aquele friozinho no estômago que era o prenúncio da ida para o desconhecido. África era, naquela altura, a fronteira que delimitava a nossa vida pacata, rotineira, de um futuro incerto, inseguro, imponderável, onde se escondia o espectro da morte. Aguardo, com muito interesse, as tuas futuras crónicas.

    Abraços

    RR

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