Nos 96 anos do nascimento de minha mãe

Daqui a pouco vou estar contigo, mãe. É que hoje é o teu dia, aquele em que vieste ao mundo, do ventre da avó Maria Augusta, para todos Mari Constantina. Tu, a segunda semente desse laço, para sempre, com o avô Toino da Velha, um dos três Pereiras, os outros eram o Manel, Manelote, por alcunha, dançarino e brincalhão, casado com a Landum, e a Ti Mari da Velha, uma “alma danada” de génio e palavra rápida, afiada, que o Ti Manel d’Abrã não conseguia segurar. Hoje, 3 de Junho, cumprem-se 96 anos sobre o dia radioso em que vieste mitigar, pelo menos um pouco, aquela dor profunda da avó, pela partida do seu menino, uns anos antes. O menino que uma doença súbita levou, ainda bebé, mas que nunca mais deixou de estar presente na cabeça da avó Constantina, só depois de o avô partir, tão tragicamente, outra dor maior veio soterrar aquela.

Tenho tantas vezes comigo o teu sorriso, mãe, e isso é o melhor das nossas memórias. Há pouco fui à nossa laranjeira, está um pouco abandonada, libertei-a de uns pequenos troncos velhos e apanhei ainda algumas laranjas, sempre boas, lembras-te, dizia o pai que eram “laranjas de espinho”, com aquela pinta castanha na casca que parecia um espinho, e que a árvore viera da região de Setúbal, que seriam muito boas, as laranjas, e sempre foram. Então, junto à laranjeira, olhei para baixo, por entre o canavial, e lá está o que resta do tanque no terreno que era do João “brasileiro”, e não pude deixar de sorrir quando me lembrei de que, estando tu a lavar aqueles montes enormes de roupa do costume, eu me afoitei para fora do caixote de madeira que o ti Manel fizera, e sumi, de súbito, nas águas do tanque, valeu-me que sempre foste valente, deitaste-te à água, e, num repente, de lá me ergueste, como se fora um coelho puxado pelas pernas ambas, eu que era só ossos, e não estaria agora aqui a lembrar-me disto e a rir-me, como se fosse contigo, se assim não tivesse sido.

Das muitas vezes que me vens à lembrança há também aquelas em que te vejo a correr para o canavial, para arrancares uma cana verde e, com ela, atacares, sem parar, as cobras que, por vezes, no pino do verão, apareciam nas redondezas da nossa casa, era uma luta frenética entre ti e as cobras, até que elas se aquietavam, iam ficando moles, como que pasmadas e, com uma enxada, tu lhes desferias o golpe final, dizias que as folhas das canas eram fatais para elas, que ficavam paralisadas com aquele rebordo cortante que têm, mas se assim é ou não nunca soube, porém, a verdade é que as cobras tinham, às tuas mãos, o destino traçado. Mas, oh mãe, como era possível seres tu a fugir quando, apanhando eu um lagarto, ou um rato, te amedrontava com isso, corria atrás de ti, e então tu parecias uma menina pequena, toda tremendo de medo, a pedir que não te fizesse mal, tu sem força para manteres o comando, para me pores no meu papel de filho, de suposto obediente, sujeito a algo mais do que uma reprimenda?… E quantas vezes, muitos anos depois desse tempo de criança e rapaz, falámos e rimos sobre isto, no entanto, não tantas vezes quantas as que deveríamos?…

Agora vou levar-te flores, mãe, mas eu sei que as não vês, que em nada disso acredito, como sabes. Em 2012 foste embora. Ponto final, como já aconteceu com as outras pessoas importantes da minha vida, e um dia assim será comigo. Ficam as memórias, como se continuássemos cá, é o que dizem. Sim, por vezes são tão nítidas, tão impressivas, que é como se estivesses aqui. Eu sei que tudo o que tem valor deve ser dado e recebido em vida, mas, mesmo que assim seja, hoje vou levar-te flores, talvez uma forma de estar contigo, num abraço. Vou lembrar-me de ti, tu a sorrires, olhos a brilhar, como se estivesses a dar-nos comida, a ver-nos dar os primeiros passos, a ouvires as nossas primeiras palavras, a aprendermos as lições da escola, que para outro dia vão ficar outras memórias, como as dos momentos em que nos viste partir das tuas mãos, que não do teu coração.

Até já.

Manuel João Sá.

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Autor: 60emais

Português.

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