Num qualquer “Dia da criança”, ou todos os dias

Nasci em 1946. Antes disso, e durante muitos, muitos anos, ainda, eram tantas as crianças que andavam descalças, na minha aldeia e em milhentas aldeias do meu país!… Não só isso: passavam frio, fome, indiferença, maus tratos. Os seus rostos eram a personificação de um país triste, fechado, miserável, isolado, sem futuro.
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Escola Primária Aristides Graça, Vale de Santarém.
Ainda hoje assim é, noutras partes do mundo, onde, além disso, a guerra e a tirania, sob diversas faces, faz tantas vítimas, e as crianças são as mais frágeis e inocentes.

Se não me esqueço de que, naquele tempo terrível dos meus anos de menino, havia falta de quase tudo, sobretudo de humanidade, também não me esqueço do que progredimos, em Portugal, desde 25 de Abril de 1974 até hoje. E, obviamente, não posso esquecer-me de que, todos os dias, ainda, perto ou longe, há milhares de crianças à beira da morte: pela fome, pela doença, pela guerra, pelo abandono, pela insensatez e loucura dos homens adultos, em particular daqueles que têm o poder nas mãos, ou o querem tomar. Em todo o mundo, as crianças continuam a ser mártires.

É isso que o chamado Dia da Criança me faz lembrar, em primeiro lugar. Sempre! Hoje, com uma visão poética, que é um desejo:

“…que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias
que o reino da bondade dos olhos dos poetas
vai começar na terra sobre o horror e a miséria
que o nosso coração se deve engrandecer
por ser tamanho de todas as esperanças
e tão claro como os olhos das crianças
e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele…”

(Do Poema “O boi da paciência”, de António Ramos Rosa, grande poeta, que nos deixou em 2013).

Isto, apesar de no meu país, ainda hoje, haver tantos que anseiam pelo regresso de um ditador: porque têm medo da liberdade, da capacidade de nos assumirmos civicamente, de construirmos um país diferente para melhor, assente nos nossos desejos e não nos nossos medos e renúncias. 
Há muito país por construir, ainda. Livre, soberano, autêntico.
Manuel João Sá
 

Autor: 60emais

Português.

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