O dia em que “a senhora de Fátima” andou pelos céus da Fonte Boa

Manhã de sol luminoso, céu limpo, muito azul. Adivinhava-se calor, pela tarde, depois talvez uma aragem de nordeste, era o costume. No princípio das férias grandes, os dias corriam calmos, ainda faltava muito até eu ter de regressar à escola, em Santarém. Minha mãe na vinha, a encapoilar, não fosse o sol crestar os cachos, já bem arroxeados. Eu, por ali, a ajudá-la, e nisto a ver a avó Constantina, mais acima, especada, a olhar o céu. Morena, magrinha, de lenço na cabeça, toda vestida de negro, desde a morte do avô. Especada, as mãos caídas, uma sobre a outra, no avental. Ali, recortando-se no horizonte azul do céu, perto do sobreiro grande, que tinha uma raiz enorme, saída da terra, onde nos sentávamos e brincávamos, como no dorso de um cavalo. Maria Constantina continuava especada, mirando e remirando o céu, e por isso eu aproximando-me dela, devagarinho, os pés tateando, sem ruído, o chão que ali fazia de estrada, e, lá bem no alto, uma coisa, luzindo, a mexer-se, a movimentar-se para a nossa direita, em linha recta, parecia ter umas asas abertas, deixava um rasto, como de fumo branco, finíssimo à saída, que depois se alargava um bocado, e minha avó a dizer “ai nossa senhora, ai nossa senhora, ai nossa senhora”, ela a entrelaçar as mãos, a levantá-las ao céu, a baixá-las, a levantá-las, e nisto eu a dizer: avó, avó, mas o que foi… mas que é aquilo, que é aquilo…

Abalei a correr até minha mãe e já ela vinha a subir a vinha, logo comecei a dizer-lhe: mãe, a avó… mas ela não parou, foi a correr, pernas curtas e vigorosas, chegou num instantinho ao pé de minha avó, que perdera o marido tinha eu pouco mais de dois anos, minha mãe muito aflita, pois que, por vezes, encontrávamo-la longe de nós, longe de tudo, decerto com o pensamento e o coração nesse dia trágico em que o avô António foi encontrado sem vida, pela manhã, junto ao barranco do “bico d’areia”, no terreno da ti Mari da Velha, depois de sair da taberna do Zé Inglês, mas não chegou a casa, seguiu-se uma noite de angustiadas buscas, nunca ninguém conseguiu explicar o que aconteceu, na verdade. Então, ao aproximar-se de minha avó, minha mãe afrouxou o passo, foi olhando para o lado do céu onde o rasto daquela coisa já era mais visível, e ficou também ela absorta, olhando, olhando, e pôs-se a dizer… mas que será aquilo… se calhar é algum sinal, mãe, um sinal… eis senão quando, já era largo o rasto deixado no céu por “aquilo”, surge em sentido contrário outro “aquilo” por entre o rasto, ou seria o mesmo que havia voltado para trás, vinha um pouco mais baixo, pelo menos era o que parecia, então aparece a ti Mari da Velha, vinda da casa dela, no seu andar despachado, aconchegando o lenço à cabeça, mas muito apanhada pela emoção, a dizer ah Maria, já viste os céus Maria?… e tu Emília?… ai, já viram os céus?… ai o que aí virá, e o mê Manel na tá cá, o alma danada ainda na chegou, ai jasus senhores… e vá de rezar logo de seguida uma salvé-rainha, de joelhos no chão e tudo, e o tudo era as mãos enganchadas uma na outra e os olhos postos no céu, para o lado onde “aquilo” passava, bem no alto, devagarinho.

Vendo isto, o Joaquim Adelino, que era da Póvoa da Isenta, maioral nas ovelhas da Fonte Boa, saiu do ovil e veio até à estrada de baixo, ainda lá morava, mesmo no meio do macadame, outro enorme sobreiro que, anos mais tarde, um raio possesso, numa trovoada seca, de horas, haveria de queimar para sempre, fomos lá ver por onde entrou a descarga, cheirava a lenha e cortiça queimada, mais não vimos. O Joaquim Adelino, chegando debaixo do sobreiro, repuxando o bivaque azul da farda para trás, olhou também para o céu, na altura em que “aquilo” ia agora na direcção oeste, o sol, forte, mostrava-o a brilhar, no meio de uma certa auréola no contraluz, e, por onde passava, continuava a deixar o mesmo rasto esbranquiçado, finíssimo à saída, depois ia-se alargando, alargando, passando, aos poucos, a uma espécie de nuvem comprida. Pensava o Joaquim Adelino que sim, que por vezes apareciam sinais no céu, e minha mãe corroborou, que ela sabia interpretá-los, pois sempre acertava com o tempo que ia fazer à custa desses saberes, que vinham do pai dela, sim, talvez fosse um sinal, porém daqueles nunca vira, ao que a ti Mari da Velha disse logo: não Jaquim, o que é vou-te dizer… e embargava-se-lhe a voz e nada saía de dentro dela, e nós à espera, que coisa que saísse da boca dos outros tinha sempre réplica dela, e por isso era melhor esperarmos. Estávamos naquilo e, lá muito alto, “aquilo” continuava o seu caminho, por cima da Fonte Boa, até parecia que tinha alguma fixação na zona, olhando bem, mesmo na vertical, viam-se como que umas asas, bem abertas, sempre na mesma posição. Estávamos naquilo, quando o Joaquim Adelino disse: eu vou lá acima, perguntar ao senhor Mariano, da secretaria, que ele deve saber dessas coisas… o senhor Mariano, de voz grave, sempre bem cheiroso, já com uma barriguinha, o cabelo negro puxado para trás, era do jeito do cabelo ou do fixador brylcreem, também me pareceu que ele era capaz de dizer o que seria “aquilo”. Mas a ti Mari da Velha, vendo partir o Joaquim Adelino, foi-se chegando mais à avó Constantina, que já queria era recolher ao seu quarto, em casa, e ia-lhe dizendo, baixinho: Maria, é capaz de ser a senhora de Fátima… estamos aqui tão pertinho, na achas Maria?… e dito isto entrelaçou mais uma vez as duas mãos, e minha mãe, ouvindo-a, começou a dizer… mas oh senhores, será?… se estivesse ali o Brás ferrador ia lá perguntar-lhe se ele já tinha visto… o Brás ferrador, que tinha aprendido com o Zé Queijeiro, distinto ferrador também do Vale, que na Fonte Boa dava cartas na arte de ferrar animais, desde cavalos, éguas, burros, até bois de puxar os arados ou os carros… mas não, não havia ninguém naquela altura na oficina dos ferradores. Partira o Joaquim Adelino em busca de informações da superior cabeça do senhor Mariano e, como por magia, “aquilo” já desaparecera lá para o longínquo oeste, para os lados da quinta do Carrascal, passara mesmo mesmo por cima dos eucaliptos, ali na extrema da quinta com a taberna da Palmira, onde alguns da Fonte Boa costumavam abafar as mágoas em copos de três, e os passantes, de outras origens, alguns com o faro apontado a outras intenções mais sublimes e privadas da carne, demandavam companhia, por vezes.  

Foi neste quase pós-acontecimento que a ti Mari da Velha continuou a garantir que teria sido um sinal da senhora de Fátima, e agora que viria aí, perguntava-se, mirando o céu, mais respeito que medo, adiantando… que bonita ia ela, a senhora de Fátima, mas o que vai trazer não sabemos… temos de esperar, queira deus que não seja coisa má, credo… e minha avó foi para o seu quarto, e eu a pensar: agora vai acender as velas e rezar à santa Bárbara… santa Bárbara bendita… como em dias de trovoada, mas não era o caso, e por isso, voltei a pensar: talvez ela encontre outra reza para… “aquilo”. Minha mãe voltou à vinha, eu só bastante depois, porque, entretanto, fui para as traseiras da casa e pus-me a olhar o Vale, debaixo da oliveira grande, e por lá adormeci, a tensão à vista “daquilo” pusera-me quebradiço, e o sono tomou conta de mim. Durante o resto do dia, até à chegada das minhas irmãs e do meu pai, não mais se falou no caso, nem chegaram informações do senhor Mariano, via Joaquim Adelino, porque o senhor Mariano afinal estava fora e, na secretaria, ninguém tinha visto “aquilo”. Pela tarde, já corria a brisa, minha mãe e minha avó juntaram-se na faina de encapoilar e eu fui ajudando, a minha cabeça, porém, sempre a dizer-me: “aquilo” não era santa nenhuma… mas o que seria?… e daí não conseguia passar.

Minhas irmãs vieram de trabalhar na fábrica dos sapatos e, pensava eu, iam falar sobre “aquilo”, que eu até estava ansioso, mas, mesmo após a nossa insistência, apesar de espantadas, nada sabiam dizer, e, tendo chegado a nossa casa a ti Mari da Velha, ouvindo tal vazio da parte das minhas irmãs, logo se pôs a dizer: pois claro, lá em Fátima, no princípio, também só os pastorinhos é que viram a senhora, só mais tarde é que o povo todo a viu, menos os hereges, os de Judas Iscariotes, e, isto dizendo, acrescentou três vezes “t’arrenego” e depois fez o sinal da cruz… e, terminada esta peregrinação interior, pôs-se a garantir que nós, os poucos que víramos “aquilo”, na Fonte Boa, éramos tal como os pastorinhos, os escolhidos pela senhora, e que, estivéssemos descansados, que no dia seguinte iria à igreja falar com o senhor padre Nobre, e que talvez o marido, o ti Manel d’Abrã, sempre de longas barbas brancas, e a quem na aldeia chamavam “deus-nossenhor”, fosse com ela, pois o caso não era para menos, ainda que só uma vez por ano ele subisse até à igreja, que era na noite de Natal, para a “missa do galo”, no resto do ano tinha outra religião: a pesca de enguias ao remolhão, no “rio da elóia”, no que era o mestre, no Vale de Santarém.

Estava-se nestas trocas de argumentos e suposições, quando chega meu pai a casa e, vendo como que uma inesperada assembleia em volta de caso bicudo, vá de perguntar sem perguntar, que era coisa que ele fazia muito bem, só com o olhar, sem largar o olhar do outro, e pronto, estava tudo dito: tínhamos que ir avançando, pelo menos aos poucos, sobre os motivos que motivavam o seu entreolhar de sábio e intimidante perguntador. Dito, mas um pouco aos baldões, o que tínhamos visto, com a ti Mari da Velha naquela irredutível dedução de que teria sido uma aparição da senhora de Fátima, levantando até os olhos para o céu, mais propriamente para o tecto da nossa cozinha, então meu pai, senhor do conhecimento que tinha sobre “aquilo”, despachou-se a esclarecer, com um sorriso à mistura, que tinha lido no Século, jornal que lia na barbearia do senhor Frederico, que “aquilo” seria um avião a jacto, que já os havia em Portugal, que andavam até a fazer exercícios, aviões esses que deitavam fumos, mas que as pessoas não se deviam amedrontar por isso… e então fez-se um silêncio, logo seguido de muitos “então mas”, e outras formas de nos querermos certificar mais sobre o assunto, e continuou-se ainda com a conversa, mas a ansiedade acalmou, minha avó regressou ao seu quarto, porém a ti Mari da Velha ainda disse: ná, eu vi muito bem os braços da senhora, bem abertos… aquilo era um sinal… espera Manel, que logo verás. Meu pai ainda lhe disse: amanhã posso trazer o jornal, que você até sabe ler – e era verdade, que a ti Mari da Velha ainda fizera a segunda-classe – mas era tarde, pois já ela saía, como que à pressa, para sua casa, cinquenta metros mais abaixo, lá no Casal do Cantadeiro, a que, mais tarde, passaram a chamar, erradamente, Casal Catarino. Até hoje. Mas isso é outra história, que ficará para nova crónica. Qualquer dia.

Manuel João Sá – 8 Maio 2017

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Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “O dia em que “a senhora de Fátima” andou pelos céus da Fonte Boa”

  1. Comentário de Maria Regina e Vitor Pinto da Rocha, por mail:
    Parabéns por mais esta belíssima crónica em que há uma mistura de fé e de crendice. A tecnologia aqui pregou uma partida à fé. Descreveu tudo tão bem que só lhe pedimos que continue. Ficámos a conhecer novos termos, pessoas, hábitos de trabalho, mais vivências da nossa terra a não deixar esquecer,
    Obrigado. Um abraço amigo.
    Maria Regina e Victor

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