Minha homenagem aos naturais do Vale de Santarém que combateram na I Guerra Mundial

“Os cadáveres de soldados, mulas, cavalos e mais fragmentos macabros, são em abundância e em verdadeiro estado de putrefacção. Espalhados à superfície da terra, incomodam-nos, horrorizam-nos. A falta de preparação para enfrentar-se de modo súbito tal situação é a causa do nosso aniquilamento moral… O apetite desaparece… Aqui arrumando-se, ali carregando-se; mais volta para aqui, mais volta para acolá; mais engulhos de enjoo por ter-se topado com uma perna ou uma cabeça a granel, de mistura com a pá ou picareta…”.

(Sobre o dia-a-dia nas trincheiras. Depoimento de Pedro Freitas, soldado sapador ferroviário, português, combatente na I Guerra Mundial. Retirado do livro “Das Trincheiras com Saudade – A vida quotidiana dos militares portugueses na Primeira Guerra Mundial”. Autor: Isabel Pestana Marques-2ª Edição, A  Esfera dos Livros.)

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O horror, nas trincheiras, na I Guerra Mundial – 1914-1918

“França 11 / 7 / 918 

Minha querida madrinha

Às 4 horas da manhã do dia 9 de Abril de 1918 rompe um enorme bombardeamento da parte do inimigo., coisa essa que nós, à primeira vista não estranhámos, visto que já estávamos habituados a tudo isso, mas o prazo nesse bombardeamento foi-se prolongando e as horas foram-se passando, e já depois de o inimigo ter feito grandes tentativas para avançar para as nossas trincheiras e sempre repelido pelo nosso fogo, continua o grande bombardeamento  com tal violência que ao fim de algumas horas o chão estava todo voltado como debaixo para cima, um completo horror, é mesmo inexplicável. Milhares e milhares de infelizes portugueses tinham desaparecido, uns despedaçados pelos ares, outros tinham ficado soterrados para jamais serem vistos. E o feroz inimigo nessa altura consegue avançar, e eu para ver se mesmo assim não ficava prisioneiro fugi por debaixo de água até ao pescoço, mas de nada me valeu porque já era tarde e lá tive que marchar passar a noite toda encharcado… entre portugueses e ingleses éramos 18.000. Colocaram-nos em uma cerca de arame farpado e ali passámos umas 5 ou 6 noites em cima da lama em montão uns em cima dos outros todos os dias nos obrigavam a trabalhar mas sem comer coisa nenhuma estivemos três dias completos. Desde esse dia para cá tem sido uma completa noite escura de tristeza para todos nós. …  Por agora nada mais. Muitas saudades para toda a nossa família…”

(Em carta de João Ferreira d’Almeida, soldado do Regimento de Infantaria 2, natural de Oliveira de Frades, para a sua madrinha de guerra, pouco antes de fugir de um dos campos de internamento alemães. Esta carta foi apreendida pelo Serviço de Censura de Base, não tendo nunca chegado ao seu destino. Retirado do livro “Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial – Frente Europeia 1917/1918- Autor: Maria José Oliveira. Editora: Saída de Emergência).

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O horror, nas trincheiras, na I Guerra Mundial – 1914-1918

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Quantas famílias, por esse país fora, vendo, com infinita tristeza, partir os filhos!… Quantas interrogações, incertezas, silêncios, medos, desânimos, raivas, revoltas, quanto sofrimento naqueles que partiam, para o inferno da I Guerra Mundial, não só na Europa, mas também nas colónias de Angola e Moçambique, pois a Alemanha também tinha pretensões em relação a estes territórios, e foram muitos e terríveis os combates aqui travados, foram muitos os que lá morreram. Depois, lá, em plena guerra, quão brutais terão sido os sofrimentos de toda a espécie em que se viram mergulhados… 

Havendo ainda algumas dúvidas sobre a lista de nomes dos militares nascidos no Vale de Santarém que foram mandados para essa horrível guerra, é possível dizer que dela farão parte:

  1. ANTÓNIO CUSTÓDIO (“Toinico”) – Soldado
  2. ANTÓNIO CUSTÓDIO (“Mariganga”)- Soldado
  3. ANTÓNIO DA SILVA VARGAS – Soldado
  4. ANTÓNIO DOS SANTOS – Soldado – Sapadores Mineiros
  5. ANTÓNIO PEDRO – Soldado
  6. CARLOS DA SILVA CANHA – Soldado – Regimento Infantaria 16
  7. FAUSTINO DA CRUZ – Soldado – R.A. 1
  8. FAUSTINO FERREIRA VALADOR – Soldado – Regimento Artilharia 1
  9. HENRIQUE AUGUSTO DE MATOS – Soldado
  10. J. ARTUR GUEDES – Soldado
  11. JOÃO ALMEIDA SEARA – Tenente de Infantaria
  12. JOÃO DA SILVA MACHADO – 1ºCabo – Regimento Artilharia 1
  13. JOÃO MONTEIRO – Soldado – 1º. Esq. Reg. Cavª 4
  14. JOAQUIM AUGUSTO DE ALMEIDA – Soldado
  15. JOAQUIM DOMINGOS – Soldado – Regimento Infantaria 16 
  16. JOAQUIM LOPES – Soldado – Regimento Infantaria 16 
  17. JOAQUIM MARTINS DA PIEDADE – Soldado – 2º. Esq. Reg. Cavª 4
  18. JORGE MANUEL HEITOR – Soldado
  19. JOSÉ BARBOSA – Soldado – C.A.P. 
  20. JOSÉ DA SILVA CASEIRO – Soldado
  21. JOSÉ DE AZEVEDO – Soldado
  22. JOSÉ MATIAS JÚNIOR – Soldado 
  23. JULIO GODINHO – Soldado
  24. MANUEL FRANCISCO SERRANHO – Soldado
  25. MANUEL GONÇALVES – Soldado
  26. MANUEL MONTEIRO – Segundo Cabo
  27. MANUEL TOMÉ – Alferes do C.A.
  28. MANUEL VALADOR – Soldado – Reg. Obuses de Campanha
  29. SABINO GOMES FORTES – Segundo Cabo

(Abaixo, as fotos a que tive acesso, e que agradeço aos familiares dos ex-combatentes referidos. Outras publicarei, se me forem facultadas).

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António Custódio (“Toinico”) – ao centro, em baixo. Do Vale de Santarém. Esteve na I Guerra Mundial.
António da Silva Vargas-VS
António da Silva Vargas – Do Vale de Santarém, já em idade avançada. Esteve na I Guerra Mundial.
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Joaquim Domingos. Do Vale de Santarém. Antes de ir para a I Guerra Mundial.

Destes homens, ainda conheci alguns, já com avançada idade. Conheci-os não pelos seus nomes, mas pelas alcunhas. Um deles, António Custódio, o “Toinico”. Vivia na zona do Rio das Patas, na mesma rua onde moravam os meus avós paternos, que depois do 25 de Abril recebeu o nome de Rua 1º de Maio. Foi num dia de festa, lá ao cimo da rua, do lado esquerdo, no quintal da casa do “Toinico”. Era dia de casamento. Lá estive, com outros rapazes, fomos em busca de receber pelo menos um rebuçado, pois era costume os noivos os distribuírem pelas crianças .

E foi nesse dia de muita alegria que, para meu espanto, para além do “Toinico”, dei com a figura inesquecível do “Mariganga”, alcunha de um dos jovens que o nosso Vale viu partir para aquela guerra. Era então um homem ainda vigoroso, forte. Ostentava um farto bigode, que sobressaía da barba por fazer, há muitos dias, ou era já residente. Falava ele, para todos, do que vira e passara na guerra, desde a vida nas trincheiras, à fome, ao frio, ao efeito dos gases que tiveram de suportar e, já certamente um pouco tocado pelos calores do vinho bebido, lá vieram à baila também, retiradas do meio dessas memória terríveis, algumas situações caricatas que havia vivido, porventura com algo de fantasioso, as quais repetia pela aldeia amiúde, e que ficaram na memória de muitos. O “Toinico”, mais contido, torneando embora algum exagero por parte do “Mariganga”, acenava com a cabeça ao que ele dizia, abraçando-o, como a um irmão. Foi nesse mesmo dia que ouvi falar, pela primeira vez, na “grande guerra”, longe porém de entender o por quê e a magnitude horrível dessa tragédia. Foi ali que soube que aqueles dois valesantarenos, então jovens, haviam estado lá. E foi mais tarde que, aos poucos, fui sabendo, de conversas ouvidas, que outros homens do nosso Vale também tinham vivido essa desumana experiência, um dos quais o “Buer”, outra alcunha que guardei na memória, e com quem, infelizmente, nunca falei, apesar de o ver passar e de ouvir: olha, ali vai o “Buer”… esteve na guerra.

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Em 27 de Agosto de 1969 partia eu para Angola, no Vera Cruz, integrado na Companhia de Artilharia nº 2573, formada em Évora, no Regimento de Artilharia  nº 3. Regressei em 15 de Outubro de 1971, após ter estado em áreas de guerra, nas zonas de Songo e Santa Cruz.

Primeiro na Índia, depois Angola, Moçambique, Guiné: outros palcos de desumanidade e morte, onde milhares de jovens portugueses perderam a vida, entre os quais alguns valesantarenos, numa guerra de que nada percebiam, e que não sentiam como sua, como já acontecera antes a outros, na I Guerra Mundial. Foram anos de enorme sangria na sociedade portuguesa: para além dos que morreram, para muitos foi um adiamento, pelo menos temporário, do seu percurso de vida. Marcas que a memória colectiva dos portugueses guarda, e que, muitos dos que lá estiveram, sentem ainda hoje, de modo particular, nas doenças psicológicas e outras, que daí resultaram. Para si e suas famílias.

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Aproxima-se mais um aniversário da gloriosa revolução de Abril de 1974, que resgatou o País de um longo e tenebroso período da nossa história, permitindo-nos, apesar de algumas dificuldades, manter o rumo de uma sociedade livre, onde sejamos senhores do nosso destino colectivo. Onde a prática da democracia se mantenha e aprofunde, como solução única de regime político que nos interessa. E que essa prática de democracia, em todos os domínios da nossa vida, contribua para o nosso progresso e a paz. Em Portugal e no Mundo. 

No próximo dia 25 de Abril, gozando a liberdade sociopolítica que a revolução nos trouxe, vão reencontrar-se, em cerimónia de homenagem, os cidadãos nascidos no Vale de Santarém, ou noutros lugares, mas ali residentes, que estiveram na guerra colonial. A cerimónia, promovida pela Junta de Freguesia, ganhou justo lugar, há alguns anos, nas comemorações do 25 de Abril na nossa vila, e assim será, estou certo, enquanto memória houver, da parte da comunidade, sobre o que foi esse período das nossas vidas.

Pela minha parte, na qualidade de ex-combatente, assumo o firme propósito de tudo fazer no sentido de que, no ano do centenário do fim da I Guerra Mundial (que se será em 2018) seja prestada homenagem pública, pelos valesantarenos de hoje, também aos valesantarenos que estiveram nessa guerra, inclusive com a colocação de uma placa alusiva, como a que abaixo se encontra.

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Recordar, também por esta via, grandes factos da nossa história colectiva, é um contributo para ajudar a preservar a memória do nosso passado, e um reforço do sentimento de pertença a uma terra que viveu períodos difíceis, que foram ultrapassados, apesar das perdas, e que todos nós queremos ver caminhar rumo a um futuro mais prometedor.

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Vou continuar a pesquisa sobre este tema dos valesantarenos que estiveram na I Guerra Mundial, quer no território europeu, quer em Angola e Moçambique. É um dever de cidadania que assumo, em relação aos ex-combatentes da minha terra, que tiveram essa triste sina, desse modo procurando ajudar a fazer a história desse período tão difícil das suas vidas, das suas famílias e do próprio Vale de Santarém.

Manuel João Sá.

Autor: 60emais

Português.

3 opiniões sobre “Minha homenagem aos naturais do Vale de Santarém que combateram na I Guerra Mundial”

  1. Impressionantes acontecimentos mas também me impressiona como a memória dos homens se encurta…a consciência adormece em rotinas de conforto…

  2. É uma atitude digna de registo homenagear aqueles valesantarenos que participaram nos terríveis conflitos da I e II Guerras Mundiais, na Guerra Civil de Espanha e na longa Guerra do Ultramar, pelo que louvo a tua atitude voluntariosa da preservação da memória colectiva. Todos os que ofereceram a sua juventude (e quantas vezes a vida ou a sua integridade física e mental) merecem o nosso inteiro reconhecimento e respeito.

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