A caminho da Escola Industrial e Comercial de Santarém

1957. Estou na quarta-classe. Fernando Costa é o professor, um nome que já tem história na escola primária do Vale de Santarém. Meu pai não foi seu aluno, mas meu tio João sim. Dele se diz que é exigente, rigoroso, disciplinador. Que quem leva a exame fica sempre bem. Da sua qualidade tenho provas todos os dias, desde o princípio do ano lectivo. Corresponde ao que me disseram meus pais e outras pessoas da nossa terra. As aulas são vivas, interessantes, exigentes, sempre em crescendo, dia após dia. Tem duas classes, na sala: a segunda e a quarta. 

Com a nossa chegada à quarta classe, abre-se a possibilidade de continuarmos depois a estudar, mas para isso temos de ter aulas específicas. Logo ao começar o ano escolar, o professor Costa fala-nos nisso e explica como será. Diz para falarmos com os nossos pais e que, quem quiser essas aulas, pode depois falar com ele e que já tem alguns interessados. Meu pai diz que sim. Outros pais também, e forma-se um grupo, talvez de doze. Começamos a ter aulas específicas depois do almoço, numa salinha ao lado da sala principal. As aulas da admissão, que é assim que lhes chamamos, acabam por ser para os rapazes cujos pais têm mais posses. De algum modo, vou tendo a percepção de que aquilo é uma diferenciação que começa a fazer-se, e ficam de fora alguns que até são melhores alunos do que outros que estão nessas aulas. Por exemplo, o Azenha e o Celestino ficam de fora, com pena minha.

As aulas são das duas da tarde às cinco. Não temos carteiras, mas uma mesa grande, sobre o comprido. Estamos todos sentados em volta da mesa e o professor Costa está no topo, logo à entrada. Há um candeeiro, do tipo prato de esmalte, suspenso na vertical, e mais uma lâmpada na parede. Mesmo assim, a iluminação é fraca e, no inverno, ainda é pior. Como a sala ao lado está a funcionar, acabamos por ouvir o que lá se passa, assim como eles talvez oiçam a voz do professor Costa, que tenta falar mais baixo do que quando está connosco, na sala principal. Um dia há um tumulto na sala ao lado. A professora não deve estar a conseguir resolver o problema. De súbito, o professor Costa levanta-se, abre a porta que dá entrada para a sala e dá um berro. Faz-se um silêncio imediato. Ele avança pela coxia entre carteiras, quase até à coluna, que fica a meio da sala, e vai olhando à esquerda e à direita. Pela porta entreaberta vejo que a professora está um pouco aflita, a mão na cabeça. O professor vai ao seu encontro e, chegado lá, volta-se para as classes. Alguns de cabeça baixa. Ele diz, com um voz muito forte: a senhora professora e eu não queremos que isto se repita, ai de vós… Ouviram?… Continua o silêncio. Ouviram? Então eles foram respondendo “sim, senhor professor”. A coisa fica por ali. O professor Costa regressa ao nosso espaço, afogueado, uma ruga na testa. Nem uma palavra. Recompõe-se e retoma, mais devagar, a nossa aula.

Nas aulas da admissão repetimos os conteúdos da quarta-classe, mas há outros temas que temos de estudar. O professor Costa trouxe uns cadernos de folhas verdes, impressos, com perguntas. Terminado um caderno, recebemos outro. Algumas perguntas são de resposta múltipla, ou verdadeiro/falso e porquê, outras são para desenvolver. Também temos de preparar temas e falar sobre eles. Na parte de aritmética, geometria e cálculo fazemos muitos exercícios. Estamos sempre numa grande dinâmica e o facto de o professor estar ali, muito junto de nós, e o grupo ser pequeno, leva a grande rendimento individual. De certo modo, também aumenta o conhecimento entre nós. Quando estamos nas aulas da quarta classe sinto que não posso falhar nada, porque sou um beneficiado com as aulas da admissão. Não posso falhar e não tenho razões para isso. Vejo, com tristeza, que outros não estão a ter as mesmas possibilidades, e os resultados vêem-se, na quarta classe. Dos que não estão nas aulas da admissão, de facto só o Azenha e o Celestino se destacam.

Enquanto faz avançar a quarta-classe, o professor Costa está sempre a dedicar atenção à segunda, nas duas filas ao nosso lado. São mais pequenos, a progressão é mais lenta, mas tudo corre bem, que ele consegue gerir as duas classes na perfeição. Estão sempre todos ocupados e quase não há distracções. Na quarta classe, em particular, o ritmo não abranda. Vamos aos mapas de Portugal, das ilhas adjacentes e das colónias e, a certa altura, aquilo está tudo na ponta da língua: os rios, os afluentes, as serras, as praias, as lagoas, os cabos, os caminhos de ferro, os ramais e um sem número de coisas úteis, como as produções e os minérios. O professor leva-nos para a rua, logo pela manhã, e é lá que aprendemos os pontos cardeais: faz-nos abrir os braços, esticar o braço direito, apontar para o lado do sol – o oriente. Depois, diz, no seu oposto, aquele para que a aponta a mão esquerda – o ocidente. Rodamos várias vezes, repetimos, repetimos, e aprendemos. Os pontos cardeais, os nomes que têm, mas também os que ficam entre eles. Nas ciências sabemos do corpo humano, dos animais, das plantas, das enxertias, e também sabemos das rochas e de tantas coisas mais. Alguns têm mais dificuldades e trocam, por exemplo, a classificação dos tipos de caule das plantas com as partes em que se divide o corpo humano, e isso é trágico, que o professor Costa fica muito zangado, e não sai dali enquanto aquilo não estiver apreendido. Há dias difíceis. Aprendemos sobre a higiene do nosso corpo. Manda pôr as mãos em cima da carteira e inspecciona as unhas. No dia seguinte temos de aparecer com as unhas cortadas e limpas. Também nos vê as orelhas. Vê o cabelo, que pode haver piolhos. Na semana seguinte temos de aparecer com o cabelo cortado e lavado. É uma corrida aos barbeiros. O meu barbeiro, o Sr. Frederico, diz logo: o professor Costa todos os anos faz isto, assim é que é. No dia do regresso com o cabelo cortado e lavado, o Ruço da Mari Meilitra leva o cabelo brilhante de mais e isso chama a atenção do professor Costa. Vê-o com a cabeça a luzir, e vá de lhe cheirar o cabelo. Cheira a azeite. O Ruço a justificar-se de que não tinha fixador, que então pôs azeite, que já lhe começa a descer para a testa… Foi mandado imediatamente à fonte das três bicas, para lavar o cabelo, com sabão azul.

O professor Costa ensina-nos a respeitar os mais velhos. Como os devemos ajudar, que um dia também chegará a nossa vez de precisarmos dessa ajuda. Como devemos conversar com outra pessoa na rua, dando-lhe a direita. Como devemos escrever uma carta, um vale postal, um telegrama, e traz impressos para termos esse treino. A certa altura começa a fazer chamadas orais, da seguinte maneira: pede-nos para pormos o banco corrido entre o quadro e as carteiras, depois chama este, aquele, mais aquele, até chegar a seis, que é o número de alunos que podem ficar sentados no banco. Ele senta-se numa cadeira, à nossa frente, mas por vezes levanta-se e anda de um lado para o outro. Começa a fazer perguntas sobre qualquer matéria: hoje pode ser de história, amanhã de ciências, de zoologia, de geometria, de geografia. Outras vezes, vamos ao quadro. Passa a pergunta de um para o seguinte, quando alguém não responde logo. À primeira falta de resposta ainda não há sanção, mas à segunda já entra ralhete, à terceira pode ser pior. Todos passam pelo banco das perguntas, mais do que uma vez, e para alguns é complicado. Mais tarde, aproximando-se os exames, faz uma tabela, na qual estão datas e os temas das chamadas orais. Mas introduz uma novidade, que anuncia: os melhores alunos vão ter um prémio, que não diz qual é. Mas informa que os melhores alunos, que sejam do Benfica, do Sporting e do Belenenses, vão receber o prémio. Portanto, todos nós, somos concorrentes ao prémio, e temos de dizer que somos de um desses três clubes. Por isso deduzimos que vai haver três prémios, para os três melhores alunos, um de cada clube. Ele pergunta a que clube pertencemos, nós dizemos e ele toma nota. Fica uma folha com a letra dele, ao lado da tabela que tem as datas das chamadas orais, que também tem o nome do clube de cada um. Lá vamos outra vez para o banco corrido. Todas as semanas há chamadas e até mais do que uma vez por semana. Andamos sempre a consultar a tabela, mas não sabemos quem vai para o banco, a seguir. As matérias são todas aquelas que já demos na quarta-classe. Ele faz as chamadas e tira notas, mas nunca nos diz quem vai à frente. Estamos quase a chegar aos exames e pelo meio ainda temos de voltar a treinar para a prova escrita. O fim do concurso aproxima-se e o professor Costa começa a fazer selecção dos melhores. Há um ambiente de intenso trabalho e até parece que as nossas cabeças estão em alta rotação. Chega o dia das últimas chamadas orais. Então, chama seis para o banco corrido: o Celestino, o Garcês, o Norberto, o Reinaldo, o Sá e… o Azenha. É uma prestação global de grande disputa entre nós, uns a sobressaírem numas coisas, outros noutras. Grande parte da manhã naquilo, sem desfalecimentos, o professor Costa num entusiasmo galopante a cada nova pergunta, a cada nova resposta. Estamos esgotados. O concurso termina. De seguida o professor Costa tira os prémios de dentro de um saquinho de papel e mostra um de cada. O prémio é algo que nunca vi, nem sei para que serve. Mas é bonito. Em metal amarelo, com uma calote onde está o desenho de uma bola de futebol, na parte convexa e, sobre ela, o emblema do clube: o Belenenses, o Benfica, o Sporting. Da calote sai uma pequena corrente, que termina numa argola, a qual tem uma mola, para abrir e fechar a argola. Depois o professor tira mais prémios, iguais aos anteriores. Agora já tem seis na mão. Afinal são dois de cada clube, mostra ele. E foi assim a distribuição: os dois do Sporting, para o Celestino e o Reinaldo, os dois do Benfica para o Norberto e para o Sá, os dois do Belenenses, para o Garcês e também para o Azenha que, embora sendo do Sporting, não podia ficar sem prémio, que a sua prestação foi de grande nível. Por fim, o professor Costa ensinou: isto é um porta-chaves, e eu fiquei quase na mesma, que tal coisa, além de não fazer parte dos meus conhecimentos, também não era uma das minhas necessidades de então, pois não tinha quaisquer chaves para lá meter. Quem quiser pode colocar no passador do cinto das calças, disse por fim o professor Costa, e assim foi. Pendia, com vaidade minha, dos meus calções ou calças, em dias de festa. Desapareceu, talvez dois anos depois, numa ida às nêsperas, no quintal da Mari Pintora. Quando ela deu por isso, começou a gritar. Fugimos, saltando o caniçado. Ficou lá o prémio…

Até ao exame, em Santarém, foi um instante. Era sabido que quem o professor Costa levasse a exame da quarta iria ficar bem. Manhã de muito sol e nós a caminho, bonitos de bem vestidos e penteados, que nossas mães cuidaram de tudo. Saímos do Vale na camioneta da carreira e fomos para a escola do exame, com nossas mães. O professor Costa estava à nossa espera, e fez logo uma chamada, para ver se estavam todos. E estavam. Depois uma professora chamou um a um. Entrámos. Lá dentro fomos preenchendo as carteiras vazias. Já lá estavam rapazes de outras escolas, que não conhecíamos. Depois da porta fechada, uma senhora começou a falar, a dizer como ia ser a prova escrita e que não podíamos falar a partir dali, que se quiséssemos alguma coisa levantávamos o braço e uma professora ia falar connosco. Depois entregam-nos papel e uma folha com informações para o exame. Dias antes andámos a treinar para a prova escrita, a arrumação dos títulos na primeira página, tudo direitinho, equilibrado, sem borrões de tinta, logo se veria se no próprio dia sairia tal e qual. Fizemos muitos ditados, cópias, redacções, problemas e desenhos. Lemos muitas lições e também escolhemos uma, como no exame da terceira classe, para o caso de na oral nos dizerem: escolhe uma lição de que gostes. Até pus lá uma folhinha de louro, que apanhei na curva das Rebelas, a marcar a lição que escolhi. Era sobre os transportes. Mas isso era para a oral. Para o exame escrito levei a caneta de tinta permanente do meu pai. Andei a treinar com ela, antes, nas provas escritas de preparação, na nossa escola, e em casa. Era uma caneta Wearever, bonita. Também levei o tinteiro Quink e um mata-borrão novo, verde-escuro. Levei lápis novo, número 3 e borracha, azul de um lado, vermelha do outro, com uma camada branca ao meio. Na sala, a luz a entrar da esquerda, por janelas grandes. Cada um em sua carteira. Um professor e duas professoras, que não conhecíamos, por detrás de uma mesa, num estrado. É o júri, eu a pensar. Em frente, o quadro negro. Começámos. Uns ruídos próprios do momento. Folhas a roçagarem umas nas outras. Cabeças um pouco inquietas, depois a acalmia. Silêncio. Atiro-me àquilo. Faço a primeira página: os títulos, o meu nome, a data. Tudo copiado do que as professoras escreveram no quadro. A seguir, na segunda página, era o ditado. Foi o professor do júri a ditar, devagarinho. Depois foi fazer a redacção, a seguir as contas e os problemas. Pelo meio, momentos de transpiração. Os professores do júri a virem até nós. Param aqui, param ali, a ver, a ler o que estamos a escrever. Cochicham com um ou outro de nós, sobre o que estamos a fazer, ou quando há uma pergunta. A certa altura o professor do júri diz, alto: meninos, não podem olhar para o lado. A minha mãe já me tinha dito que quando fez o exame da quarta também disseram o mesmo. De súbito, eu a perguntar-me: e as raparigas, alunas da D. Tomásia, onde estão elas a fazer exame?…

Talvez tivesse havido um intervalo antes da parte dos problemas ou do desenho, mas não posso garantir. O certo é que, terminada a prova escrita, o professor Costa aparece logo, a saber como tinha corrido. Juntamo-nos à volta dele. Lá fomos respondendo, para ele e para as mães, e ele fica descansado. No meu caso foi o meu pai que apareceu. Traz uma pombinha de Santarém, uma banana e uma gasosa. Fala comigo e com o professor Costa. Estou confiante. Mas só me apetece é ir embora, que o exame foi cansativo e eu quero ficar sossegado, na nossa casa, na Fonte Boa. Regressamos ao Vale na camioneta da carreira, que nos deixa aqui, ali, conforme o sítio que mais calha a cada um. Meu pai desce logo na paragem frente à loja da dona Mercedes, que ele vai voltar ao trabalho. Eu desço na paragem do Manel d’Oliveira, depois sigo para casa, a pé, pelo carreiro, como tantas vezes, passando pelo olival, pelo pinhal, pelas terras do João brasileiro, até chegar ao casal, no cabeço. Muito calor. O casaco pendurado por um dedo, sobre os ombros, como os homens. O nosso cão a vir esperar-me, rabo a dar a dar. Minha mãe anda na vinha. Ponho o casaco e as outras coisas em casa, e vou logo ter com ela. Pergunta-me como correu, e fica descansada com as respostas. Dá-me de comer, que já tinha preparado. Fico relaxado e com sono. Depois de dormir, vou até ao pinhal da Fonte Boa, sozinho, e aí comecei a pensar no que estava para acontecer: o meu tempo de escola no Vale vai acabar. O meu futuro vai passar por outras paragens. Uma certa nostalgia, no regresso a casa. Ainda fazia calor, mas o sol já estava baixo. Os seus raios cruzavam o ar, inclinado-se, sobre os troncos dos pinheiros.

Nos dias seguintes voltamos à escola, mas em regime pouco normal, só para fazer revisões. O professor Costa tem boas informações sobre como nos correu a prova escrita e nos últimos dias passa a insistir mais com aqueles que poderão ter maiores dificuldades na oral. Nas aulas da admissão faz o mesmo, pois os exames à escola técnica e ao liceu são logo a seguir ao da quarta classe. Eu vou fazer exame para a escola técnica, foi o que decidiu o meu pai. É visível que o professor Costa está seguro de que vai correr tudo bem, porque não se zanga quando falhamos alguma coisa e agora falhamos muito menos. Parece ter mudado nesse pormenor, mas talvez seja para nos deixar mais tranquilos, embora não deixe de apertar connosco. Alguns não foram ao exame da quarta, porque o professor Costa disse que não estavam preparados, e era verdade. Têm de repetir a quarta classe. Com alguns isso vai acontecer pela segunda vez, e são estes casos que me causam maior tristeza. Estes já não vêm à escola, agora têm de esperar pelo novo ano. Por outro lado, há rapazes que não foram inscritos para a admissão à escola técnica ou ao liceu, porém são muito bons alunos, dos melhores, casos do Azenha e do Celestino. Talvez pudessem ter sido inscritos, dizia eu, que o valor das aulas, a pagar ao professor Costa, não era elevado. No entanto, meu pai lembrou que as aulas de admissão eram para os que iam continuar a estudar… não para os que tinham de ir já aprender um ofício, para começarem a ganhar algum dinheiro… que a maioria das famílias muito precisava. E aproveitou para dizer: e tu vê lá, que se não passares na admissão, vais logo trabalhar.

As provas orais chegaram. Já tínhamos a experiência da terceira classe, mas agora era mais difícil e numa escola de Santarém. O professor Costa, nos últimos dias antes das orais, deu conselhos sobre como devemos estar nesse dia: ouvirmos muito bem as perguntas, não termos precipitações a responder e, e se tivermos dúvidas, pedir: senhor professor, desculpe, pode repetir?… Não tenham receio, estejam concentrados e não se ponham a chorar… avisou. Naquele dia minha mãe chamou-me cedo, mas eu já estava acordado. Pôs o café com leite e a torrada na mesa da cozinha e foi fazendo outras coisas. Não falámos muito, até que as minhas irmãs mais velhas se levantaram, para irem trabalhar, talvez para a fábrica dos sapatos. Depois foi a altura de me vestir. Era o mesmo fatinho, o que havia, de calção e casaco, por cima de uma camisa creme. O fato já um pouco apertado. Talvez por isso, meu pai disse: se tiveres calor, despe o casaco. Desta vez fui apanhar a camioneta do Vinagre, que vinha da Isenta, e passava por dentro da Fonte Boa, ao pé do laboratório. Ficou combinado assim com o professor Costa, que eu iria na camioneta da Isenta.  Entrei, disse bom dia e sentei-me. Meu pai havia-me dado dinheiro para o transporte e, pela primeira vez, fui eu a pedir o bilhete. Uma viagem diferente, até ao Vale. Nas paragens seguintes foram entrando outros rapazes da nossa escola, que tinham oral no mesmo dia. Eu estava logo a seguir aos primeiros bancos, à direita, e do lado da janela. Algumas mães acompanhavam os filhos. Desta vez minha mãe disse que iria lá ter. Depois de chegarmos a Santarém, fomos todos juntos para a escola onde seria o exame. Éramos um bom grupo, com as mães ao nosso lado. O professor Costa estava à nossa espera, junto à escola. Naquele dia faziam oral, além de mim, o Azenha, o Norberto, o Reinaldo, os irmãos gémeos Baeta da Graça, o Melão, o Orlando, o Manuel Júlio, e mais alguns. Outros, como o Ângelo, o Celestino, o Joaquim Júlio e o Garcês, tinham feito oral no dia anterior. Tinha corrido bem. Fomos chamados, um a um, para dentro da escola. As mães foram autorizadas a entrar depois. Os professores do júri, os mesmos da prova escrita, estavam no estrado, por detrás da secretária deles, todos de bata branca. Nós, não. Fomos autorizados a mostrar as nossas vestimentas. As orais seguiram a ordem alfabética. Assistimos a dificuldades, engasganços, da parte de alguns, mas nada de grave. Recuperaram. Quando chegou a minha vez, o coração abanou um pouco. Estava afogueado e a professora começou logo por perguntar se estava com calor. Descansei-a. Disse “não senhora professora”, mas estava um pouco nervoso, isso sim. A gravata, graná às pintinhas brancas, apertava. Ou seria o casaco? Entretanto, a professora tinha as folhas da minha escrita na mão, como fizera com os outros. Abriu, virou, revirou e disse: então, vamos lá, escolhe uma lição. Devagarinho, abri na página marcada, o canto um tudo nada dobrado. Entrei na leitura, com voz alta, devagar, para me tranquilizar, e assim aconteceu. Vieram as perguntas sobre os transportes, as comunicações e aquilo foi canja, como dizíamos entre nós. Interpretação, dividir orações, sujeitos, predicados, complementos directos… tudo fácil. Terminou com “paupérrimo”, superlativo absoluto simples de pobre. Logo a seguir os problemas: um que metia horas, minutos e segundos e o pagamento de não sei quanto à hora a um trabalhador, durante um certo tempo; outro em que era preciso calcular volumes e havia um cone, à mistura. A seguir os mapas. Coisa pouca: o sistema galaico-duriense e a linha do Oeste. Por fim, o corpo humano: os ossos da mão e do pé, e a particularidade do dedo grande, e mais não sei quê. E ainda, a enxertia por mergulhia, como era. Estando tudo a correr bem, foi com alívio que ouvi “parabéns, está terminado o teu exame, podes ir sentar-te lá atrás”. Então, sem mais, foi o que fiz, e vi minha mãe, sentada na sala, um sorriso bonito no rosto. Chegara a tempo de assistir à parte final do meu exame.

Perto da uma, as orais chegam ao fim. Estamos todos cá fora. Aguardamos os resultados, mas estamos tranquilos: apesar de algumas escorregadelas, todos vão ficar bem. Como se diz na nossa terra: não vai haver raposas. As mães estão felizes. Nós estamos muito faladores, uns com os outros, e até exageramos. Já queremos é sair dali, não sabemos bem para onde, mas é a vontade que tenho. É preciso esperar, não saiam daqui, estejam quietos, dizem as mães, mas qual quê?!…. Depois, o professor Costa vem até nós e anuncia: passaram todos, parabéns! Também ele recebe parabéns, e deixa-se envolver na manifestação de alegria que já deve ter vivido muitas vezes. O Celestino, quase da altura do professor, está ao seu lado. Ele, mais velho, porque entrou mais tarde para a escola, irá voltar para pastor de cabras? E os outros, os que não continuam a estudar, irão já para uma oficina? No meio daquele turbilhão de felicidade, uma professora vem entregar papéis ao professor Costa. Chega finalmente a confirmação: ficámos todos bem. Depois disso, o professor Costa diz que ainda vai haver uma aula especial. E diz a data e a hora. Fica combinado. Despede-se de nós, com um grande sorriso. Já tirei há muito o casaco e é minha mãe que o segura. Ela fala com outras mães e, aos poucos, vamos saindo dali. Depois, num instante, cada um vai para seu lado, e minha mãe diz: deixa lá, nós vamos para o jardim. Pouco depois, no jardim da República, bem perto do coreto, sentamo-nos num dos bancos, de ripas vermelhas. Minha mãe abre a cesta de verga. Tira o tacho, envolto em papel de jornal, para manter o calor. Por cima, a toalha, de quadrados brancos e vermelhos. Cheira-me a carne guisada com batatas, ela sabe que eu gosto muito. Tira os pratos, os garfos, as fatias de pão, e a toalha, que estende sobre o banco. Ela de um lado da toalha e eu do outro, almoçamos assim. Devagar, à sombra das árvores. Falando um pouco, sobre o exame, e sobre como quando foi o exame dela, na quarta-classe, era professora a D. Leopoldina Augusta de Carvalho e Conde. Falando sobre as colegas dela, como a Estrudes do Artur Tendeiro, a Estrudes do João Vítor, a Maria Virgínia, outras. No fim do almoço ainda comemos maçãs leirioas, da nossa vinha. Fomos apanhar a camioneta da Ribatejana, à travessa do Postigo e regressámos ao Vale. Fizemos o caminho pelo açude, entrámos pelo olival do Garcês, e subimos ao cabeço, pelo carreiro da tia Mari da Velha, que aparece, junto à casa dela. Fica muito sorridente por saber que tudo tinha corrido bem. Na altura, comigo a crescer, já ela me parecia pequenita, mais do que sempre fora, e foi pendurada no meu pescoço que meu deu muitos e repenicados beijos. Depois, entrámos em nossa casa. Pela tarde fora foi a descompressão, a satisfação de todos, pela passagem no exame.

Alguns dias depois foi a aula especial, de que falara o professor Costa. Foi de conselhos e de despedida. Mais conselhos para a vida. Pela última vez, transpusemos aquela porta. O mestre estava à nossa espera. Depois das saudações, sentámo-nos. Agora já o via como um amigo, e não só como professor. Era um orgulho. Estava emocionado, e nós também. Por momentos, houve um longo silêncio, o que não era costume. Depois dos parabéns, ele começou por lembrar o que é aprender, da importância de aprender, que é preciso esforço, que é preciso trabalho. Que a vida é assim e que esperássemos isso, sempre, que não caíam as coisas do ar. Que dali em diante tínhamos de honrar a escola, porque todos iriam ficar à espera de que fôssemos bons trabalhadores. Que não nos esquecêssemos do que aprendêramos na escola, que ia ser muito útil. Que devíamos continuar a aprender, principalmente os que não podiam continuar os estudos. Que devíamos ler jornais, e livros, se pudéssemos. Que nas profissões que tivéssemos iríamos ser postos à prova e que nos devíamos servir do que aprendêramos. Que ele ia estar atento ao que íamos fazer. Que éramos os homens de amanhã, e que ele tinha muito orgulho nisso. Que estava disponível para nos atender, se o quiséssemos procurar, para qualquer necessidade. Que, mesmo que não tivéssemos essa necessidade, podíamos fazer-lhe uma visita, quando passássemos por ali, que a porta estaria aberta.

Foi mais longa, a última aula, mas isto foi o principal da conversa. Lembro-me de que os que iam continuar a estudar ainda tiveram algumas sessões de revisões. Mas, nesta aula de despedida, que foi da parte da tarde, havia uma atmosfera de muita emoção. Estava a ser difícil terminar. Parecia que não queríamos sair dali. Então o professor Costa abriu os braços e, aos poucos, cada um de nós foi até ele. Um abraço, ao professor. Pela primeira vez. Os que acabavam de se despedir iam-se encaminhando para a porta, mas pareciam querer ficar ainda. Depois sim, fomos saindo, e cada um foi à sua vida. Acabava assim aquela razão maior que nos juntara pela primeira vez: a escola primária. Estava para breve o exame de admissão à Escola Industrial e Comercial de Santarém.

Manuel João Sá

17 Abril 2017.

(Esta crónica inicia o ciclo das que vou dedicar às minhas memórias da Escola Industrial e Comercial de Santarém, a qual frequentei entre 1957 e 1964, onde fiz o Curso Geral do Comércio e a Secção Preparatória de Admissão ao Instituto Comercial de Lisboa, no qual entrei em Outubro de 1964).

2016-slide-publicar
Escola onde fiz a instrução primária, de 1953 a 1957, ano em que entrei na Escola Industrial e Comercial de Santarém.

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “A caminho da Escola Industrial e Comercial de Santarém”

  1. É sempre bom ler as tuas crónicas, porque elas são um ‘acariciante’ regresso ao (nosso) passado.
    Por me recordares de coisas que estavam escondidas no baú das memórias, eu te agradeço, amigo.

  2. Não consegui tirar os olhos… for ler de uma assentada e esperar por mais… que ternura ver desfilar o tempo ao contrário. Todos fomos crianças ao ler-te! Mais, quero mais!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.