Memória breve, do tempo de Páscoa

Naquele tempo em que eu era criança, as amêndoas eram o mais importante, por alturas da Páscoa. Nada mais, além de, talvez, uma comida melhorada.amendoas de pascoa

Muitas amêndoas? Não, só as que era possível, que as posses a mais não chegavam, e a prole era imensa.

Amêndoas coloridas, cheirosas, roliças, com um som único, quando escorregando umas sobre as outras, a caminho do cartucho, de papel também colorido… compradas no meu Vale de Santarém pela nossa Mãe, nas lojas da aldeia: talvez no Artur Tendeiro, ou na D. Conceição, ou, mais tarde, na D. Mercedes. Umas quantas a cada um, por duas vezes, ou assim, e estava cumprida a tradição.

Também havia boas amêndoas na loja do Guedes “de baixo”, por oposição à loja do Guedes “de cima”, eram irmãos, o de baixo com a loja muito perto da histórica taberna do Baeta, o outro na subida para a igreja, um bocado antes da oficina de ferrador do João Cardoso, quando eu por lá passava e ele estava a queimar os cascos das bestas, aquele cheiro único espalhava-se por todo o lado, subia-me às narinas, e lá ficava a morar, um tempo.

Mas, na loja do Guedes “de baixo”, as amêndoas eram mais vistosas, apresentadas a preceito na montra, e, no interior, onde havia prateleiras pintadas de cores suaves, em verde claro e creme, atraentes, as amêndoas tinham lugar destacado. No próprio domingo de Páscoa, a loja estava aberta: era a única que recebia fregueses para as amêndoas, nesse dia. Entrava-se e não eram só as amêndoas de Páscoa, as suas cores e os seus perfumes que nos atraíam: era também o penetrante cheiro a café da marca Joaninha, que ali se vendia, vinha do Nabeiro, de Campo Maior, e assim se chamava em alusão à Joaninha dos Rouxinóis, do romance Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett. Um mimo, em cartuchos com a imagem dela, da Joaninha.

Não passa uma Páscoa sem que me venha à lembrança esse tempo: de quando era criança, mas também, de outro tempo depois, já com os dois filhos, quando íamos à terra da Mãe Cidália visitar os avós, os tios, os primos e… a ribeira da Lajeosa do Mondego, e Celorico da Beira, talvez também a cidade da Guarda, e a serra da Estrela, com neve, se houvesse e o tempo chegasse. Uma viagem de quase 8 horas de automóvel, o mesmo se fosse de comboio, tanto na ida como no regresso, um cansaço bom, que tudo era vivência, experiência, semente de futuro, com vontade de repetir, no ano seguinte…

Memória breve, do tempo de Páscoa.

Manuel João Sá – 13 Abril 2017   

Autor: 60emais

Português.

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