O Vale de Santarém, numa crónica de 1947

O Vale de Santarém, onde nasci, é uma terra cuja “idade” não está ainda determinada. Sabe-se que, como tem sido divulgado, a antiga povoação aparece referida apenas como Vale, Vale de Soeiro Pisão ou ainda de Soeiro Tisão, vindo a adoptar-se posteriormente o nome de Vale de Santarém. Sendo uma povoação que, ao longo dos tempos, veio a conseguir um notável crescimento populacional e um destaque razoável no concelho, foi sobretudo a partir do relevo que lhe foi dado através do romance “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, que passou a ser uma referência particular a nível regional e, depois, nacional. Este relevo adveio não só do facto de o autor situar no Vale o centro da trama amorosa do romance, o qual é um marco único e notável na literatura portuguesa, mas também pelo que deixou, para a eternidade, sobre as suas particularidades. De facto, quando Almeida Garrett escreve, nas “Viagens”, que

O Vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela Natureza; sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada grandioso, nem sublime, mas uma como que simetria de cores, de tons, de disposição em tudo o que se vê e se sente que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração, devem reinar ali um reinado de amor e benevolência. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os prazeres e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por ali o Eden que o homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração”…

chamou a atenção para uma terra que muitos passaram a ter interesse em saber onde ficava e, até, em visitá-la.

Sabe-se que Almeida Garrett, amigo de Luís Augusto Rebello da Silva”, esteve algumas vezes na quinta deste, no Vale de Santarém, conhecida como Quinta do Desembargador, mais tarde chamada, popularmente, Quinta “das Rebellas”. Esse contacto com a realidade das belezas naturais do Vale, permitiu-lhe traçar a admirável imagem que, desde então, constitui o mais belo retrato da nossa terra. Porém, se o Vale de Santarém foi assim descrito por Garrett – a 1ª edição das “Viagens” foi no ano de 1846 – a verdade é que, um século depois, conforme li no jornal Correio do Ribatejo, já um natural do Vale de Santarém – Augusto Oliveira d’ Almeida – traçava outro retrato da aldeia, menos positivo, sob diversos aspectos. O seu escrito, publicado no jornal, em Julho de 1947, faculta diversos elementos para análise, que são um contributo importante para a história do Vale de Santarém, propósito no qual, de forma singela, me mantenho interessado, sobretudo para colocar ao dispor dos valesantarenos e outros, mais informação sobre o nosso passado. Em concreto, Augusto Oliveira d’ Almeida, que nasceu no Vale, como afirma, diz o seguinte, que transcrevo na íntegra, com a ortografia do tempo.

CRÓNICA DE JULHO DE 1947, DA AUTORIA DE AUGUSTO OLIVEIRA d’ALMEIDA, NATURAL DO VALE DE SANTARÉM

“Na verdade, esta alegre e pitoresca aldeia, onde fui nado e creado e fiz, há uns bons sessenta e cinco anos, o meu curso inferior de letras, soletrando o livro de Monteverde e decorando o Manual Enciclopédico, é um lugar «privilegiado pela Natureza», onde cantam rouxinóis e… «não fazem ninho os milhafres». Tão privilegiado que tem resistido a todas as investidas do Progresso! As suas antigas ruas, travessas e azinhagas, orladas de piteiras, manteem, com admirável galhardia, a beleza dos areais reluzentes, poeirentos de verão e lamacentos no inverno!… Eram assim há um século e continuam no mesmo estado de conservação, desafiando os engenheiros e calceteiros a que se atrevam a modernizá-las.
Não havia nada «grandioso» na época em que Almeida Garrett descreveu esta aldeia. Hoje há, pelo menos, a grandiosa Estação Zootécnica Nacional, instalada na Quinta da Fonte Boa… Pois é verdade. O Vale de Santarém, que foi cantado por Almeida Garrett e habitado por Luiz Rebello da Silva, é um lugar privilegiado pela Natureza, estando, por isso, incluído na zona de turismo… Os seus dois mil habitantes pagam, de sorriso nos lábios, pesadas contribuições ao Estado e à Câmara Municipal, recebendo, como compensação…as visitas dos curiosos que, de quando em vez, aparecem aqui à procura da decantada janela a que assomava a «Joaninha dos olhos verdes» cuja beleza fez dar voltas ao miolo do saudoso autor das «Viagens na minha Terra».
Feliz povoação esta… O vizinho Casal do Ouro, que existia quase ignorado no meio de um olival árido e monótono, está prestes a conquistar foros de cidade. As antigas azinhagas, intransitáveis, que conduziam à povoação, foram transformadas em largas avenidas. As suas ruas e travessas estão regularmente pavimentadas. O seu comércio tem-se desenvolvido extraordinariamente.
O Vale de Santarém… continua… a ser «um lugar privilegiado pela Natureza» ! … É que os conterrâneos da famosa «Joaninha dos olhos verdes» entreteem-se a ouvir cantar os rouxinois e não pedem melhoramento algum à Câmara Municipal ou ao Estado. Já assim era nos recuados tempos da Monarquia… Quando havia eleições para deputados aparecia aqui o candidato Mariano de Carvalho a pedir votos, prometendo uma estação de caminho de ferro nesta aldeia, estação cujo local foi várias vezes escolhido. Dias antes das eleições, chegavam a parar os comboios no sítio da Califórnia, para embarque e desembarque de passageiros. E os eleitores lá iam de longada até Almoster, dar o seu voto ao Mariano… Este, um belo dia, viu quase perdida a eleição, por terem os eleitores do Cartaxo votado no seu conterrâneo Marcelino Mesquita. Salvaram-no da derrota os votos de Rio Maior, que lhe custaram bom dinheiro… Nesse ano os eleitores do Vale de Santarém abstiveram-se de votar. Foi então que o famoso politico fez a estação do caminho de ferro nesta aldeia, para arreliar os «cartaxeiros». Tempos que já lá vão…
Não quero terminar esta ligeira crónica, rabiscada à sombra do velho «pinheiro das areias», sem lembrar aos meus conterrâneos a conservação daquela secular árvore, que deve ser, se ainda o não foi, considerada de interesse público. A-pesar-de ter sido mutilado pelo ciclone de 1941, o velho pinheiro das areias é uma das árvores mais lindas do país, na sua espécie. Já resistiu a numerosas crises de falta de combustível e eu acho que praticaria um imperdoável acto de vandalismo quem o mandasse destruir. Até a nómada raça de ciganos condenaria um tal acto. É que aquele velho pinheiro foi sempre a pousada mais cómoda e económica que as várias tribus de ciganos encontraram na sua passagem por esta povoação. Ainda eu era «menino e moço» e já os ciganos se acoitavam sob a copa daquela frondosa árvore. Ali faziam êles as suas festas pantagruélicas, manducando a carne de algum suíno que morria por doença e cujo dono mandava enterrar nas areias mais próximas… A garotada da aldeia assistia àquelas festas com grande interesse e notava que os ciganos nunca adoeciam por ter comido carne morrinhosa… Bons tempos de outr’ora !…
Vale de Santarém, Julho de 1947
Augusto Oliveira d’ Almeida”.

Muito há, nesta crónica de Augusto Oliveira d’ Almeida, natural do Vale de Santarém, que suscita o meu interesse e que, portanto, vai continuar a ter a minha atenção, no âmbito das pesquisas que venho fazendo. Por agora, ela aqui fica, para conhecimento dos valesantarenos e outros interessados. Há uma pergunta que se me põe: quem foi Augusto Oliveira d’ Almeida? Vou saber.

De notar que, Casal do Ouro, é, hoje, Vila Chã de Ourique.

Antes de fechar esta publicação, e acreditando no que nela se diz:

  • A constatação de que, em 1947, como aliás antes, a Câmara Municipal de Santarém pouca atenção dedicava ao Vale de Santarém e, também, os valesanternos pouco exigiam;
  • No entanto, numas eleições realizadas muitos anos antes, no tempo da monarquia (data a pesquisar) os valesantarenos reagiram perante o poder, fizeram uma abstenção geral às eleições, e assim conseguiram ganhar a estação de caminho de ferro, que os políticos adiavam sistematicamente;
  • A Estação Zootécnica Nacional, criada na Quinta da Fonte Boa, constituiu uma obra grandiosa, de que, hoje, resta… uma vergonha;
  • O Pinheiro das Areias, secular, como refere o cronista, era já em 1947 uma árvore notável, de tal modo que fala em considera-la “de interesse público”, devendo ser protegida; já quando Augusto Oliveira d’ Almeida era criança – portanto, antes de 1900 – a zona do velho pinheiro era “a pousada mais cómoda e económica que as várias tribus de ciganos encontraram na sua passagem por esta povoação”.

Voltarei a estes temas, da história do meu / nosso Vale de Santarém.

Entretanto, aqui ficam algumas imagens relacionadas com os autores e alguns dos assuntos referidos na crónica transcrita.

Manuel João Sá.

luis_augusto_rebelo_da_silva_1
Luís Augusto Rebello da Silva
51s5nt6zfll
Uma das obras de Rebello da Silva

slide_2

scanner_20161103
Uma das edições das célebres”Viagens na Minha Terra”
casajoaninha
Quinta do Desembargador, no Vale de Santarém, ou Quinta das Rebellas – “Casa de Joaninha”. O que restava do edifício, há cerca de 30 anos. Agora, está por terra.
OLYMPUS DIGITAL CAMERA
Pinheiro das Areias, no Vale de Santarém, como era em 2015.
img_20160326_181010
Pinheiro das Areias, no Vale de Santarém, após o vendaval do início de 2016.

Autor: 60emais

Português.

9 opiniões sobre “O Vale de Santarém, numa crónica de 1947”

  1. Ora aqui está um documento, aparentemente credível, que procura dar umas pinceladas de realismo na vida do Vale de Santarém, em contraponto ao romantismo de Almeida Garrett.
    Como contemporâneos da crónica de Augusto Oliveira d’Almeida sabemos bem que as condições de vida na aldeia, naquela época, não eram seguramente tão românticas…
    É de louvar, no entanto, o trabalho de pesquisa do Sá que nos irá trazer, seguramente, outros documentos interessantes sobre a história da nossa terra, pois, creio, que as figuras gradas da terra devem ter deixado escritos relacionados com o Vale de Santarém.
    Obrigado amigo

    Reinaldo

  2. Obrigados por mais uma inédita notícia de 1947 sobre o Vale.
    Texto muito curioso e com um certo toque de ironia muitas vezes. «Lugar privilegiado pela Natureza, disse Garrett, «tão privilegiado que tem resistido a todas as investidas do Progresso», diz o autor; «as ruas eram assim há um século e continuam no mesmo estado de conservação»; «estando por isso incluído na zona de turismo» (esta ultrapassa-nos, – que zona de turismo? e já se falava em 1947 em zona de turismo!?; «os conterrâneos da Joaninha não pedem melhoramentos à Câmara Municipal ou ao Estado». Etc.
    Este Augusto Oliveira d’Almeida era filho da D. Amália de Oliveira e de José de Almeida (José de Valada), vivia com o irmão mais velho, Evaristo Almeida, na casa de esquina oposta à farmácia.

    1. Aqui está a resposta à pergunta que tinha feito, sobre Augusto Oliveira d’Almeida. Sim, um novo contributo para sabermos mais sobre o Vale de Santarém, amigos Vitor e Regina Pinto da Rocha. Vou continuar. Agradeço o comentário e a informação. Até breve. Abraço.

    2. Está correcto a filiação mas neste altura (1947), o tio Augusto estava casado em Alpiarça e o Evaristo de Almeida vivia em Lisboa casado com uma filha do Boturão.

      1. D. Arnaldina, a Tuna Académica da Universidade de Coimbra preetende uma foto do ex tuno Castelão de Almeida, filho de Augusto Almeida. POde ajudar????

  3. Bom dia.
    Antes de mais quero felicitá-lo por manter o blogue com informação sobre a sua terra. Deveria ser colocada em livro! Vim “cair-lhe” quando procurava informação sobre a antiga Estação Zootécnica Nacional. O senhor sabe de algum livro ou outros blogues que tenham informação sobre ela, antiga e actual? Muito obrigada!
    Cumprimentos.

    1. Agradeço a sua vista e o comentário. Sobre a EZN actual não sei se há algum livro. Há um livro com (talvez) duas dezenas de anos, segundo soube, mas ainda não o conheço. Eu próprio tenho intenção de escrever sobre a EZN-Fonte Boa, recordando algumas das minhas vivências relacionadas com a EZN, nos meus tempos de criança e adolescente, pois vivia perto, e conheci o suficiente da vida da Estação e das pessoas que lá trabalhavam. Até agora, no meu blog, tenho algumas crónicas em que isso aparece, mas não é ainda o que tenho em mente fazer. São, “ao correr” das memórias, algumas pinceladas. Como eu tenho, no meu blog, uma etiqueta de EZN-Fonte Boa, pode ser que consiga, por essa via, chegar ao que escrevi e que inclui essas tais pinceladas. Disponha. Abraço. Obrigado.

      1. Muito obrigada. Vou procurar pelo blogue, então.
        Continuação de boa escrita. Cumprimentos.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.