Hoje, o frio…

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Pela tarde, o frio ganhando tons de azul translúcido, a caminhar para o cinzento, está como naqueles tempos em que, eu pequeno, o orvalho da manhã, pousado nas ervas, o sol batendo-lhe de viés, formando gotículas animadas, trémulas, pela brisa do cieiro, ali ficava o dia todo, o chegar da noite vinha e logo depois confundia tudo, até a lua aparecer, esbranquiçada, frio só de a olhar tão longe, nem uma nuvem lá em cima, minha mãe a ir à horta, ali mesmo, a cortar o caule das couves para a ceia, a dizer credo esta noite vai cair uma camada de geada que eu sei lá… talvez mãe, que disso sabe você…

O dia com sol a ser mais pequeno, dizem que vai chegar ainda um com menor duração de sol, que é a 21, antes do Natal, mas o avô António tinha outras medidas, não era mãe?… que era pela sombra da empena da casa que ele media e garantia, sem rebuço, olhando de esguelha a andorinha negra, de cerâmica, posta na parede, mesmo junto ao sítio onde esteve o pau de fileira, que é a 18 que tal acontece, que depois o tempo fica parado uns diazecos, assegurava ele, logo depois o tempo de sol começa a crescer, até que pelo Natal cresce o tamanho de um bico de pardal, os antigos bem diziam, rematava…

Quando assim é, o tempo parece mesmo quieto, mas vamos lá… nada está parado, que os astros movem-se, isto é a minha mãe a esclarecer, que o sete-estrelo, a estrela boieira, uma porção deles, dos astros, para além do sol e da lua, têm caminhos a cumprir lá em cima, no céu, não só se movem, cada um deles no seu próprio caminho, como uns em relação aos outros, como ainda em regiões diversas do firmamento consoante as épocas do ano, sabe-o de os olhar vezes sem conta, discorre de uma auréola, ou do lacrimejar de uma estrela, mas como é que ela vê aquilo, a estrela a lacrimejar?… e logo diz coisas como, esta noite vai gear, ou amanhã está vento de leste, ou vai estar mais calor, ou as trovoadas vêm aí, se não vindimamos vai-se perder tudo.

Há uma taça invertida sobre as nossas cabeças, é o que vemos quando olhamos o céu, lá em cima tantos pontinhos de luz e eu a mirá-los, a noite pôs-se serena, vento quase nenhum, o frio assenta-nos nas costas, e aí se instala, nas orelhas e no nariz já ele pesa há muito, ter de caminhar agora na rua é um que remédio, só mesmo quando necessário, até as galinhas estão anichadas, encostadas umas às outras, junto à palha, no poleiro de baixo, os cães entre o gemer e o ganir, em volta há o ruído lamentoso dos ralos e dos grilos, de resto cheira a nada, as sombras do nosso andar, gigantes, a projectarem-se no branco amarelado das paredes, derivado à luz que sai dos balanços do candeeiro a petróleo, a torcida nova comprada há dias, na loja do Artur tendeiro.

Em casa está-se bem, é o que penso um nadinha antes do regresso ao quente da cozinha, quando uma coruja pia em voo, riscando um rasto, sinistro, dizem, rasando as altas chaminés da quinta da Fonte Boa, e um arrepio cortante me adensa o frio, instalando-se como um estremeção em mim, mesmo nas entranhas e decerto no olhar, preciso de abanar os ombros para me livrar dos medos, que só o retorno à luz e o calor da casa conseguem acalmar.

Lembrar-me eu que, então, como hoje e, quem sabe, daqui por muitos, muitos anos, milhares de seres humanos sem um lar para os abrigar, sem uma luz para os guiar na noite escura dos seus dias, sem um cobertor para lhes aplacar o frio, sem um naco para lhes tapar vazio da fome. Pior ainda quando as guerras sepultam vidas, sonhos, alvoradas por nascer…

Hoje, o frio que faz, trouxe-me de volta o frio da vida. Quando é quase Natal.

Manuel João Sá.

Autor: 60emais

Português.

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