CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – A MARIA EUGÉNIA “DOS JORNAIS”

Já é quase noite. O sol escondeu-se por detrás da serra. Pôs-se um céu acobreado, para ali, vejo-o para lá da quinta do Carrascal, por entre os eucaliptos, sentinelas a oeste. A noite há-de torná-los mais negros, não havendo luar não se dará por eles, a não ser pela madrugada. Ainda fico por ali, entre recolher-me em casa ou ficar preso ao rodopio dos besouros, voam, como loucos, em redor da copa da oliveira grande, zu zu zu…, irão desaparecer quando a noite puser tudo mais negro. Na entrada do carreiro, a que chamamos porto, meu pai está a chegar, na bicicleta, o farol oscilante a lançar-me raios de luz contra os olhos. É bonita, a luz. É aquela rodinha do dínamo, a girar contra o pneu da roda da frente, que dá a luz, disse-me o meu pai. Faz um pequeno ruído, sobre o pneu, e é em leque a luz que ilumina o espaço em volta. Meu pai gosta dela, da bicicleta. Saiu-lhe num sorteio, que o Eduardo das bicicletas faz, de vez em quando. É verde, e tem uns traços amarelos, fininhos, ao longo do quadro e umas partes em cromado. E tem um emblema, que é da Ideal Progresso, a casa do senhor Eduardo, que as vende. Também eu gosto dela. Ainda não sei usá-la, nem tão pouco meu pai me deixaria, que sou ainda muito pequeno. Por agora, chega-me estar perto dela e, vá lá, ajudar a limpá-la, aos domingos. Meu pai faz quase toda a limpeza, com trapos. Limpa os raios, os aros, o quadro. O mais difícil é a parte dos pedais e também a cremalheira. Eu só ajudo quando meu pai diz dá aí esse trapo, ou coisa assim. Tantos cuidados é porque a bicicleta é novinha, penso eu…

Tenho quase seis anos. Quando meu pai regressa a casa, após o trabalho, traz a cesta de verga no suporte traseiro da bicicleta. É na cesta que minha mãe põe o almoço para ele. De madrugada, ela cozinha o almoço, que depois põe no tacho, envolvendo-o num pano de lã ou, então, em jornais, para manter a comida pelo menos morna, até ao almoço. Junto ao tacho põe também duas vianinhas e os talheres, tudo embrulhado num pano. É isto, todos os dias, de segunda a sexta. Ao regressar a casa, meu pai encosta a bicicleta à parede da casa, tira a cesta – ouve-se o estalido da mola do suporte da bicicleta – e leva-a para casa. Por vezes, leva outra coisa: um jornal. Na cozinha, que é à entrada, há a mesa grande, onde meu pai, antes de comermos, estende o jornal e depois se põe a ler, com o candeeiro por perto, as sombras nas paredes e no tecto, os nossos corpos disformes, os objectos disformes, a minha mãe disforme, mas movendo-se, que ela é quem se mexe, na azáfama da ceia. Meu pai continua a ler. Ainda tem o boné na cabeça, há-de tirá-lo quando for de cear. Fixa o jornal, passa a mão direita aberta, sobre a página, como se a afagasse, e continua a ler. Depois folheia, entra numa nova página, recosta-se, abre o jornal, pigarreia um pouco – há sempre aquele pigarreio, a certa altura – ou talvez também uma reprimenda, no mínimo com o olhar, ou uma resposta, um sorriso, conforme a situação, mas volta sempre à leitura. Lê em voz baixa. Melhor, quase não se ouve. Mexe os lábios. Bichana. Mas não percebo nada. Peço-lhe para me deixar ler. Passa-me o jornal. Ponho-me também a bichanar, porém com o jornal de pernas para o ar. É a risota geral, de que não gosto. Qualquer dia também vou saber ler o jornal, é a jura que faço.

Agora já tenho bem mais de sete anos, mas ainda não fui para a escola. Vai ser em Outubro. Já sei quase quase andar de bicicleta. Aprendi aos poucos. Tento na bicicleta do meu pai, quando ele deixa, mas é com as bicicletas dos homens da quinta da Fonte Boa que faço grandes progressos, em pleno Verão. Primeiro vou até ao pinheiro grande, com a bicicleta à mão.  Depois faço o caminho inverso, que é um bocadinho a descer, o pé direito no pedal, a outra perna pendente. Ganho confiança, com algumas quedas à mistura. Os homens dizem, a troçar: então, lá aterraste?!… Sorrio, mas continuo. Até que passo a andar com uma perna por dentro do quadro e, algum tempo depois, já com o quadro entre as pernas, mas para isso tenho de encostar a bicicleta à parede e subir, a parede é rugosa e esfarela-me os cotovelos. Subo, começo a andar, porém as pernas são curtas e ainda não me deixam chegar ao selim. Levo mais algum tempo, até conseguir. Vencida a batalha da bicicleta, para quando a leitura do jornal?

Na escola primária, dia após dia, um deslumbramento. Começo a conhecer as letras, os números e até faço desenhos, que são sempre carneiros a pastar, carneiros que parecem cães, dizem-me, pelo meio umas ervas verdes, ou coisa parecida, feitas com os lápis Viarco, de cores. Em pouco tempo já consigo identificar as letras maiores. Minha mãe e minhas irmãs dão uma ajuda e vão-me adiantando nisso. Chego ao fim do alfabeto e começo a ler palavras e pequenas frases, de modo que aventuro-me no jornal. Meu pai a ler o jornal e eu a ver as letras. Ele à mesa, a levantar o jornal enquanto o lê e eu, do outro lado, a mirar as letras, os títulos. Quase não vejo o rosto do meu pai, tapado pelas páginas, mas consigo ver as letras grandes dos títulos das páginas viradas para mim. Começa assim um período novo na minha vida: já sei ler, embora muito pouco, na escola e no jornal, que quase todos os dias meu pai leva para casa, ao fim do dia. O aliciante do jornal é que é grande e todos os dias muda. Fico a saber que o jornal se chama “Século”, e para mim é como se só houvesse aquele jornal, mais nenhum outro.

Sempre que posso tento ler, pelo menos a parte dos jogos da bola. O jornal tem fotografias grandes, com os golos, as balizas, até se vêem as redes, e os jogadores em acção. Na nossa casa somos todos do Benfica. Gosto de ver as fotografias dos jogadores, as caras deles, os corpos no ar, enormes, na luta pela bola, que está ali também, tudo em suspenso, flutuando. Ou então os jogadores no pontapé à baliza e os golos contras as redes, vê-se mesmo, e… tenho pena dos guarda-redes. Gosto muito do Artur, que é alto e tem uma grande peitaça, do Bastos, que aparece sempre de boné, tem mesmo ar de guarda-redes, com aquelas joelheiras grossas, e gosto do Caiado, do Calado e do Águas, que marca muitos golos. É alto, tem o cabelo encaracolado, sorri, tem ar feliz. Vem lá a explicar como acontecem os golos, em cada fotografia. Poder saber um bocadinho do que ali está escrito é uma sensação enorme de domínio sobre o jornal. É outro deslumbramento. Um dia meu pai leva-me a Santarém, para ver um jogo dos Leões. Eu a ver o jogo e a pensar, se fosse eu, como iria escrever aquilo que estava a ver…

Mas agora já cheguei aos dez anos e ando na terceira classe. Há muito que conheço toda a Fonte Boa: a área dos carneiros, dos porcos, das oficinas, dos cavalos e do picadeiro, da vacaria junto ao pinheiro grande, dos edifícios onde mora o director e os doutores e os filhos deles, o laboratório, as secretarias, o cabeço das motas, os silos gigantes, na vertical, o celeiro, onde está o senhor Zé da Cruz, o lagar de azeite, os aviários, o jardim, o campo de ténis, a messe… tanta coisa… e a vacaria nova. E as pessoas que lá trabalham, aquilo dia e noite sempre a funcionar. As pessoas são do Vale, da Isenta, da Atalaia, de Santarém, do Cartaxo… E sei os seus nomes e alcunhas. Percorro aquele espaço enorme, cheio de vida, como se fosse meu, e assim faço por que seja, mesmo não sendo, sobretudo nas férias. Perco-me na pista de corridas de cavalos, e no campo de futebol, verdinho, cercado por sebes de miosporos, aparadas pelo jardineiro, e lá vejo, atrás da bola, o Chico Branco, o Chico Curado, o Manaio, e um da Isenta… todos bons jogadores. Têm um equipamento bonito, e botas e meias a sério. E vou até à tribuna e grito para os cavalos que, invento eu, estão a participar numa prova, eu que conheço muitos e quem monta alguns deles, vou aos estábulos com os filhos do senhor Carvalho, que é o equitador, e andamos de um para outro, a soletrar e fixar os nomes, há os árabes, há os lusitanos, há os puro-sangue ingleses, todos têm o nome e a raça à sua frente, na parede, passamos entre a manjedoura e a parede e fazemos-lhes festas…

Os homens dos porcos recebem um jornal todos os dias da semana, mas não ao sábado e ao domingo. É o Século, que também é o jornal do meu pai. Mas há também A Bola e o Record e, por vezes, o Mundo Desportivo, mas estes, que são sobre desporto, não saem todos os dias. Quem leva os jornais até à Fonte Boa é uma mulher: a Maria Eugénia dos Jornais, mãe do Eduardo das bicicletas. Vai busca-los à estação, chegam de comboio, de Lisboa. Ela vai lá aí pelas sete e tal, depois começa a entregar jornais pelo Vale acima. Ele é nas tabernas, ele é em algumas lojas, ele é nos barbeiros, também nas casas de algumas pessoas que recebem o jornal todos os dias, pois pagam para isso, enfim, vai fazendo a distribuição conforme as encomendas e, por vezes, vende alguns de ocasião, pelo Vale, mas tem de manter jornais para os fregueses certos. Jornais e algumas revistas. É assim, faça chuva ou sol. Dou mais pelo seu trabalho nas férias da escola. Terminada a tarefa no Vale, ela vai até à Fonte Boa, e aí faz uma distribuição que apanha praticamente todos os serviços. Em dias de muito calor, ladeira acima, no seu passo meio apressado, chega afogueada, a meio da manhã. Faz isto há anos. Foi a sogra, a Guilhermina “Sapateira”, que a antecedeu na missão. Terá sido a Guilhermina a iniciar esta venda? Uma coisa é certa: interessa-me muito o trabalho da senhora Maria Eugénia dos jornais, que sabe que eu espero por ela, na zona dos porcos, para logo começar a ler assim que ela chega, se os tratadores dos animais estiverem ocupados nas suas rotinas diárias. Sento-me então por ali, costas contra uma parede, atiro-me primeiro aos jornais da bola, leio tudo o que posso e, no Século, também vou primeiro até às páginas da bola, depois passo para as “palavras cruzadas” e para “veja as diferenças”. Gosto daquilo. Por vezes detenho-me noutros temas, mas não sei muito bem entendê-los. Mas tento. Nas “palavras cruzadas” gosto da luta por encontrar a palavra e, como não há soluções, vou ver no jornal do dia seguinte como devia ter respondido. Aprendo muito assim. Há campeões nas “palavras cruzadas”, na Fonte Boa.

Até que, estando uma manhã no rio da quinta, esperando que minha mãe acabasse de lavar a roupa, outras mulheres também na faina, a Maria Eugénia dos jornais aproxima-se e diz-me, apontando para todas: vá, lê o que está aqui, para esta gentinha… que eu vou à Fonte Boa, já volto. E pus-me a ler, devagar. Um engasganço aqui, outro ali, mas lá fui indo. Era a notícia de uma menina que tinha sido roubada e que a mãe procurara por todo o lado. Nem a polícia a conseguia encontrar. Porém um dia, numa feira, ela viu a menina, já com mais idade, tendo-a reconhecido por um sinal que tinha no pescoço e, a partir daí, conseguiu voltar a ter a filhinha nos seus braços. Eu a ler a notícia e as lavadeiras paradas, a escutar, ares de espanto, algum medo, lágrimas nos olhos, algumas a dizerem “ai Jesus, minha querida menina” e coisas assim, uma delas foi logo ver a filha, ainda pequenina, dormindo tranquila sobre uma manta, com um pequeno lençol por cima, à sombra do salgueiro, ali mesmo ao lado. Foi uma prova oral a sério.

Agora já tenho catorze anos. Ando na escola técnica em Santarém e, nas férias, sem nada que fazer, grande parte do tempo é passado no Vale, com os amigos, que também nada fazem. É um período que me incomoda, quem me dera que as aulas recomeçassem… Mas ainda falta muito. Acontece que, de manhã, a senhora Maria Eugénia dos jornais, quando me encontra, sabe bem que estou à espera de poder ler o Século. Uma ou outra vez diz-me: ficas aí com este, quando eu vier para baixo dás-me. E é assim, só que não posso amarrotar muito o jornal, nem fazer as palavras cruzadas. Mas arranjo solução: vou ao senhor Frederico, o meu barbeiro, que todos os dias recebe jornais. Vou pela tarde. Os jornais estão em cima de uma mesinha, ao fundo da sala. Passo ali horas, sentado, a ler, a fazer as palavras cruzadas, também conversamos, quando não há clientes, só temos por mirones aquelas figuras talvez dos lados da Ásia que, num quadro grande, com os seus turbantes enormes e vestes longas, nos olham com ar perscrutador, um bocado intimidativos, assim eu os vejo desde criança. Ou então recorro ao senhor Joaquim da loja,  que também recebe o Século, é um ás nas palavras cruzadas, mas tem um adversário à altura: o Manuel João Carvalho. Até fazem “corridas”, cada um com o seu jornal. Quem terminar primeiro, ganha. No dia seguinte, se lhes der na gana, voltam à corrida, com outro problema de… palavras cruzadas.

Os jornais. A senhora Maria Eugénia dos jornais. Nunca lhe terei chegado a agradecer a importância da sua atenção para comigo. Ajudou-me a crescer.

Manuel João Sá.

apresentacao1

Autor: 60emais

Português.

15 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – A MARIA EUGÉNIA “DOS JORNAIS””

  1. obrigado Manuel Sà pois fizeste_me reviver un quadro da minha juventude pois me lembro perfeitamente dessa Sra Eugénia como muitas outras que deram a nossa Terra vida et cores lindas da nossa mocidade !! Obrigado !!

    1. Amigo Américo, continuando, enquanto vida (e cabeça e memória houver) cá vamos recuperando aquilo que nos marcou. É agradável partilhar, é agradável ter retorno. Abraço.

  2. Pois é Manuel Sá,
    Vale a pena recordar.
    Sensibiliza-me ver a forma como o fazes e partilhas.
    Com realismo, cheio de sentimentos e admiração por aqueles que fizeram parte da tua vida nos anos da tua juventude.
    Continua.
    Abraço

    1. É assim, amigo, companheiro da escola técnica, de Santarém. As aprendizagens da / na vida, de que afinal nós resultámos, aconteceram em muitos campos, diversos, cada qual com a sua importância. Falo aqui de um deles, no qual a senhora Maria Eugénia dos jornais teve grande importância. Esta crónica é, também, um louvor ao modo como desempenhou essa missão e como me facilitou aprendizagens, talvez ela não se terá dado conta disso. Abraço.

  3. Manuel João , é de facto como descreves..a vida era assim..íamos aprendendo ás nossas custas…e também, com a ajuda dos mais velhos, que nos transmitiam as sua sabedoria…eram os nossos mestres… Os Jornais era outra ferramenta, que nos diziam, que além da nossa terra, existiam outras…e trazia nos noticias desse mundo, que nós desconhecíamos, porque o nosso horizonte era muito curto. , As noticias eram variadas, o jornal O Século e o Diário de Noticias, assim como a Bola, eram enormes, comparados com os de hoje, que são bem mais pequenos, o Record era num formato mais reduzido, . A mulher de quem falas a Maria Eugénia , era a minha Avó …e a Guilhermina Sapateira, suponho, a 1ª Vendedora de Jornais, no nosso Vale, era a minha Bisavó. …Eu nas férias , também ajudava na distribuição…desde ir buscar os jornais , à Estação do Caminho de Ferro…principalmente, quando os jornais não vinham logo todos no 1º comboio…o que acontecia com frequência…o que prejudicava a distribuição…porque o comboio seguinte…só vinha 1 hora depois.
    A minha bisavó e a minha avó..que milhares de Letras deram a ler..não sabiam ler nem escrever…mas lá tinham as suas técnicas de contabilidade…no Deve e Haver…porque havia clientes que só pagavam no final do mês…os jornais, que não eram vendidos
    , eram devolvidos…e mais uma vez aqui, tinha que haver contabilidade…Recebidos – Devolvidos…eram os Vendidos…que tinham que ser pagos.

    1. Muito esclarecedor o teu comentário, Eduardo Almeida, sobre a actividade e pormenores interessantes daquela missão da tua avó Maria Eugénia, na qual também participaste, em criança. Sim, na verdade, com a sua acção, muitas pessoas tinham acesso a mais informação a qual, durante muitos anos também, chegava através das telefonais, que só poucas pessoas tinham em casa, a maioria dos homens ia às tabernas e aí podia ouvir notícias, etc. Uma missão de que, pessoalmente, fui directo e interessado beneficiário. Não mais esquecerei, uma grande aprendizagem para a vida.

  4. Há uns que são profetas ou videntes e fazem projecções para o futuro. Outros, como tu, tem a capacidade e sabedoria de fazer puzzles com os retalhos da vida. Ontem encaixaram uma peça, hoje outra, amanhã, ainda outra e, assim, vão formando o quadro que constituiu a nossa infância. Ler esta e outras das tuas crónicas é como raspar os tachos quando as nossas mães faziam a marmelada ou a geleia. É um prazer que eu pensei ter ficado esquecido nas dobras do tempo. Obrigado, companheiro!
    Nota discordante: Julgo que já há crónicas suficientes para poderem ser lidas num livro, à lareira…

    1. Obrigado companheiro. O teu comentário, com a poesia que a memória desses tempos empresta à tua escrita, tem uma sugestão a que, eu sei, não posso deixar de corresponder, mais cedo que tarde. Vai ser em 2017, podes crer. Abraços.

  5. Concordo com o comentário do Reinaldo Ribeiro.
    José Eduardo Tavares Cabral

    1. Obrigado José. Fazes parte dessas memórias. Tu, tua mana Maria João, as manas Ralo, a Nené, os manos Carvalho (que já não vejo há tantas décadas) e, assim, sabe-me bem partilhar convosco o que a memória convoca para o presente, pois sinto-me gratificado. É para continuar. Obrigado,. Abraços.

  6. Meu caro e amigo Manuel Sá: Hoje, pela primeira vez, ao ler a tua crónica, houve um «clic» na minha memória, que fez relembrar as coisas antigas que passei no Vale, enquanto aí morei. Vou muito rapidamente relembrar um pequeno episódio (que ainda há dias contei à minha neta e que lhe causou uma gargalhada enorme)
    «• Quando íamos para lunto do choupo – grande – lá para os lados da Quinta da Bica, junto à passagem de nível, para pedirmos boleia para Santarém (pois, ali, na curva onde os carros abrandavam, era sempre certo….) uma vez, ia eu e outro como eu de quem não recordo o nome, íamos sempre pedindo boleia com a mão fechada e o dedo polegar bem levantado, fazendo movimentos com o braço, passou o sr. – que tinha uma mercearia no largo da fonte de uma bica, ao lado do sr. Joaquim Louceiro – que dava pela alcunha de REBAQUE. Parou a sua imponente «D. Elvira» e disse-nos: «Não vos dou boleia porque as vossas mães não gastam da minha loja !!!!» E lá seguiu a sua viagem. Nós ficámos arreliados com aquela atitude e, lá fomos andando, andando e, quando chegámos à Quinta da Bica, estava lá o Sr. Rebaque parado, com um pneu furado, à nossa espera, para nos pedir ajuda para a operação que se impunha: a troca do pneu! Dêem-me aqui uma ajudinha que eu vos dou boleia até Santarém….
    Ao que respondemos: Não lhe damos ajuda nenhuma, porque as mães não gastam da sua loja. E seguimos o nosso caminho, e ele ficou a bufar e a estrebuchar e a dizer mal do azar que teve naquela manhâ.

    1. Obrigado pelo comentário, amigo Luís Mendes. Tão oportuno como certo o provérbio bem português, que no Vale também se usava, com a formulação “cá calharás!”, ou seja, “cá se fazem cá se pagam!”. Abraço.

  7. Comentário de José Marcelino, por mail:
    Mais uma vez obrigado pela tua crónica…foi como ver um filme do Manuel de Oliveira, com aqueles miúdos do Anikibobó ou ver um quadro com natureza VIVA…
    Espero que transportes para um livro, como pede um teu companheiro daqueles tempos…
    Ficarei aguardando, com muita expectativa

    Um grande abraço

  8. Comentário de Ana Maria Rebello por mail:
    Que memórias…..que saudades…..
    Memórias dos que ficam para contar…., saudades dos que partem.

    Obrigada
    Ana Maria

  9. Este texto, em particular – se me for permitido – é dirigido ao colega JOSÉ EDUARDO B. TAVARES CABRAL. (B de Belchior, certo?)
    « • Meu companheiro de carteira, por onde tens andado???? Não é por nada e é por tudo. Há tantos anos que pergunto por ti e te procuro e agora vejo o teu nome neste rol de crónicas e recordações da infância de todos nós. Caramba! Como o mundo é tão pequeno e, por vezes é tão grande !. Lembro-me bem da tua irmã [a Maria João] de quem guardo na memória uma imagem muito nítida. De ti também. Do João José Freitas de Carvalho, do Rebelo, do José Augusto Neves, do Margal Pereira, Do Florindo, do Garcês……. e de tantos outros….
    Foi à pouco, no último encontro dos antigos alunos da Escola do Vale de Santarém – na Fonte Boa – que o companheiro Manuel Sá me disse algo sobre ti….. e que espevitou ainda mais a vontade de nos voltarmos a encontrar. Até lá, no próximo encontro, ainda temos tempo para que se possamos organizar a vida, para estarmos PRESENTES. Espero e fico a aguardar por Setembro de 2017. Um grande abraço para todos.»

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