CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – MEU AMIGO MANUEL AZENHA

1955. Outubro. É sexta-feira, dia 7. Não sabemos quem vai aparecer, se uma professora se um professor. Se for um professor, pode ser o Costa. Ando à espera que nos calhe, mas até agora ainda não. Mas ele aparece, pouco antes das duas da tarde. “Boa tarde senhor professor”, dizem as mães, quando ele já está a abrir a porta. O professor Costa diz boa tarde, com voz nítida, vibrante. Corpo como a voz: forte. Ar decidido. Abre um sorriso, em volta. Mostra os dentes brancos, acolhedor, e continua na sua função. Vê-se logo quem manda ali. Os rapazes, quase todos de bata branca, passada a ferro, que estamos no primeiro dia. Somos convidados a dizer boa tarde senhor professor, e dizemos, em coro. Ao lado dele, uma senhora. Alta, maciça, robusta, elegante. Jovem, cabelo loiro, à garçonne. Sorri. Põe as mãos na cabeça de alguns, que também sorriem. Os mais pequenos, da segunda classe, um pouco tímidos. Os repetentes, mais distantes. Vamos entrando. As mães também, mas só ficam um instantinho, começam logo a sair. Porém, uma fica, a conversar, baixinho, com o professor Costa. Depois também sai, mas de caminho procura o filho, e com o olhar diz-lhe adeus. Alta. Morena. Forte. Do campo. A mãe do Azenha. Manuel Júlio Antunes Azenha. Assim. O nome todo. Na bata, escrito do lado esquerdo, bordado a ponto pé de flor. Pouco depois sai o professor Costa. Antes, diz: a professora Maria Adelaide vai ser a vossa professora. Ela a olhar a sala, num relance, com um sorriso. Depois, mais umas palavras do professor Costa, um aperto de mão à professora, que disse meninos levantem-se, e então o professor Costa sai. Voltamos a sentar, à ordem da professora.

Começo das aulas. Nos primeiros dias, o Azenha à procura do norte. Ele é do Vale mas, na primeira e segunda classes, esteve na escola de Vila Chã de Ourique, a que a minha avó Alexandrina há-de chamar, até à morte, de Casal d’Oiro. Cresce-lhe a espuma na boca com a raiva com que diz: aqueles toleirões dos casaldoireiros agora querem ser uma vila… se toda a vida foi Casal d’Oiro… são uns caganeirosos, acrescenta, a ira a tomar-lhe conta da razão, que ela tem vizinhos do Casal d’Oiro nas vinhas dos Marecos e não lhes poupa nada. Atira-se a eles de tal modo que nem o “Crocodilo” a consegue parar. O “Crocodilo”, um façanhudo armado de pau e bigode negro, personagem de má fama, por sinal casaldoireiro, guarda das vinhas, depois de anos atrás das grades, por assassínio. A minha avó a vigiá-lo e a dizer-lhe “se me vais aos pêssegos corto-te as goelas” mas de vez em quando dá-lhe alguns, para lhe atenuar o interesse no rapinanço.

Novidade na terceira classe, além da professora, são aqueles que não conhecemos: os da segunda classe, os repetentes e… o Azenha. Aos poucos, as coisas ajustam-se. O Azenha a abrir-se. Começamos a conhecer-nos. A professora vem do Cartaxo. Por vezes vamos esperá-la à camioneta, ao pé do Manel d’Oliveira. Estrada abaixo, somos pintainhos atrás da mãe-galinha. Mas os que a vão esperar são os da parte de cima do Vale. Os da parte de baixo e de Cadima, estão mais longe e vão direito à escola. Eu venho da Fonte Boa, e sigo logo para a curva do Manel d’Oliveira, passando pelo pombal. O Orlando, pequenino, geniquento, redemoinho em leque junto à testa e outro no alto da cabeça, vem da Torre. Apanha-nos no caminho. O Reinaldo, bem vestido e penteado, risco ao lado, vem da Torre, também. Do Rio das Patas vem o João Ferreira, filho da Gineta e do Sabino. O João Ferreira. Cabelo azeviche, as calças com um perna para cima e outra para baixo, quase sempre. Olhos negros, inquietos, mais prontos para pássaros que para contas e leituras. Anda sempre com a atiradeira, a que noutros sítios chamam fisga. A atiradeira anda no bolso de trás, escondida e, nos outros bolsos, seixos e até esferas, dos rolamentos dos carros. São os projécteis com que alveja, certeiro, aos pássaros, grandes ou pequenos. Do Rio das Patas também surge o Joaquim Júlio, filho do Alfredo da Mari Caseira, voz grossa, andando aos galgões, como o pai. E o Celestino, que entrou para a primeira classe aos dez anos. Andou a guardar cabras e noutros trabalhos. Maior que nós. Moreno, cabelo e olhos negros, encovados. Sereno. Na terceira classe, já parecia o pai de todos. E ainda, do Rio das Patas, o Azenha. Cara de menino. Vivo. Nervoso. No recreio, sempre a procurar alertar os outros. A professora chama, para terminar o intervalo, e ele a ficar nervoso com o tempo que levamos a responder. E insiste… a senhora professora já chamou. Brincamos a tudo, onde podemos. Na estrada de maquedame, frente à escola. Carroças, carros de bois, bicicletas, um carro ou camioneta uma vez por outra, e nós no bate-ficas, ou no botão contra a parede, ou no pião, ou na malha, sei lá. Ou então vamos para a rua rente à praça, que vai dar às hortas do João d’Aldeia. Ficamos logo à entrada, antes de se chegar ao pontão do rio da Eloia, onde um moinho de água está parado, a água a passar e o moinho parado, há anos. O melhor sítio para jogar ao pião e ao berlinde é ali, junto à praça, na rua de terra. De vez em quando estalam zaragatas, que a professora não ouve nem vê, mas é preciso que tudo fique sanado, antes do regresso à sala. O tempo do intervalo a voar, num instante, e o Azenha volta a insistir… a senhora professora já chamou. E é verdade. Lá vamos, para o ralhete.

O ano lectivo a passar, rápido. Aprendemos muita coisa. Há uma grande evolução. A professora não se compara. A da segunda classe era rabugenta, mal encarada, ralhava e batia por tudo e por nada. Os da segunda-classe também aprenderam muito. A professora, de nome completo Maria Adelaide Horta Caria, gosta de nós, e nós gostamos dela. Rigorosa, exigente, compreensiva. Tem ar de mãe jovem. Brincalhona, divertida, mas tudo sob controlo. É bonita. Com dez anos e já a querermos namorar com ela, pelo menos em pensamento. Entretanto, há um grupo que se destaca na aprendizagem. Não falamos disso uns com os outros, mas cada um de nós sabe reconhecê-lo: quando ouvimos ler, quando vemos os outros irem ao quadro fazer contas e problemas, quando ouvimos interpretar as lições. O Azenha está nesse grupo. Faz por isso, com afinco, com orgulho. É uma questão de sobrevivência, como quem diz: vim de Vila Chã, mas eu sei disto. Sim, é verdade. Os pais trabalham no campo, numa quinta grande. Aquela zona pertence à freguesia de Vila Chã, e por isso o Azenha tem de ir para a escola de lá. Na primeira e na segunda classes faz muitas vezes esse caminho a pé, ida e volta, vários quilómetros. Tem de ir pela estrada entre vinhas, atravessar a vala do rio Maior na ponte do Ferreira, subir a encosta até Vila Chã e, terminada a escola, regressar a casa, com tudo o que o tempo der: chuva, vento, frio, trovoadas, calor. Apanha molhas de ficar como um pinto, que o guarda-chuva não aguenta. Seca-lhe a roupa no corpo, enquanto está na escola. Adoece. Recupera. Adoece. Recupera. Atravessa trovoadas e outros medos. Mas tudo faz para proteger a mala com as coisas da escola. Nas cheias, ir à escola é impossível. Entre chegarem as enxurradas e o caminho ficar capaz, passam dias. A escola lá longe, e ele a faltar. Por isso, atrasa-se, porque não assiste a algumas aulas, por vezes mais de uma semana seguida. Pede os cadernos a outros e copia tudo, que tem de estudar, que tem de recuperar. E consegue. O tempo melhora. Pelo caminho, os pássaros fazem-lhe companhia e, antes da primavera, já colecciona ninhos: ali é de melro, ali é de pintassilgo, ali é de toutinegra. O cão vem esperá-lo, no regresso à quinta, mesmo que chova. O pai há muito a querer morar no Vale, mas ao patrão não convém. Até que, perante a pressão, o patrão cede. Passam a viver na casa que têm no Rio das Patas, pouco depois da “Senhora Gorda”, para lá da parte a que chamam de rio de cima. Por isso, na terceira classe, o Azenha entra para a escola do Vale. Nenhum de nós o conhecia.

O ano avança. Já deixámos para trás os grandes frios do inverno. Melhor assim, que alguns pouca roupa vestem e, nos pés, nem sempre há botas, nem vão ser precisas, quando o sol aquecer mais. A Páscoa, à porta. Daqui a nada, é Maio. Mas em Abril, muita chuva. Por vezes, nevoeiro. Venho da Fonte Boa e, lá do cabeço, há dias em que o Vale não se vê. Nevoeiro cerrado. Lá de cima, só se vê a torre da igreja, o cemitério e a estrada para o Cartaxo. E eu a descer, pelo carreiro, as botas cheias de lama, de greda escura. Limpo-as, como posso, nas ervas, nas valetas, por onde a água continua a correr, até ao ribeiro do nosso Vale, a água a cantar por ali abaixo. De dentro da escola, quase não se vê o muro do Centeno. Cá fora, as pessoas passam como fantasmas. É num dia assim que estamos a treinar, pela primeira vez, para a prova escrita, que há-de vir o dia do exame. Antes, a professora a dizer-nos: têm de trazer uma folha de papel para treinarem para a prova escrita. Depois, mais tarde, a preparar-nos sobre o que devemos levar, no próprio dia do exame: uma fita vermelha de cetim no braço esquerdo. E também o livro de leitura, a pedra de ardósia e a pena, mais um caderno de folhas em branco, um lápis, uma borracha. Tudo embrulhado numa folha de papel de cera, de cor azul, atado em cruz, com outra fita vermelha, de cetim. É a substituição da mala de cartão ou de pano, para o dia do exame. É a tradição. As mães ajudam, que elas já sabem como é. Se alguma não sabe dos pormenores, vai perguntar às vizinhas. É preciso ir de bata branca, lavada, passada. A professora a dizer-nos isto tudo, mas também outras coisas: que devemos ler outra vez as lições. Que, para treinarmos, devemos ler em voz alta, para os nossos pais. Que devemos escolher uma lição e sabê-la muito bem. Não só ler mas interpretar, e volta a dizer o que é isso, interpretar. Que quem vier de Santarém, para nos fazer a prova oral, pode perguntar se queremos escolher uma lição e depois vai fazer perguntas sobre o que está nessa lição, ou na que calhar, se não for essa, porque pode dizer: abre na página tal. Mas, não fiquem nervosos se assim for. Leiam alto, respondam sem medo, vai correr tudo bem… Fazer cópias, saber de cor a tabuada, aplicá-la nos problemas, e antes disso, também na prova escrita. Estejam tranquilos, que vai correr bem…

No dia do exame aparecemos assim. Bonitos. Brilhantes. As pessoas vêem-nos passar, a caminho do exame, e dizem coisas bonitas, mas também… vejam lá se não trazem uma raposa… que é a mesma coisa que dizer: vejam lá se ficam mal no exame… Aparecemos como combinado, mas nem todos. Um ou outro não traz as fitas, o embrulho bonito, e o brilho que isso dava, que os pais têm mais dificuldades. A prova escrita é breve. Só uma tarde. Mesmo assim, nervos. Até me enganei numa conta e tive de a repetir. A prova oral é que leva mais tempo, que é preciso chamar cada um dos alunos. Primeiro ler a lição, depois responder ao examinador, sobre o que a lição diz. O Azenha leu bem alto, como ninguém, mesmo se um pouco nervoso, mas aquilo era natural nele. Depois a professora, que veio de Santarém para examinar, fez-lhe diversas perguntas, a que respondeu sem demora e com acrescentos: falou da vida do campo, do que lá se fazia, das tarefas do pai e da mãe. Dizia isto e sorria, um sorriso nasalado e saltitante, que sempre teve, os olhos muito vivos. Chega a vez dos problemas. Levanta-se rápido e vai até ao quadro. A professora dita o problema, ele a escrever no quadro e o giz a partir-se, mas continua. Num instante resolve tudo, com espanto da professora, tal que o manda logo sentar. Está feito o exame. O Azenha também já está na quarta-classe. Antes dele, estive eu sentado na mesma carteira, frente ao júri. A professora disse: abre na página… tal. A lição era sobre as mondas. Foi bom: era curta e falava disso, das mondas. Por acaso esse trabalho, de mondar, foi o primeiro da minha mãe, depois de fazer a quarta classe. Tinha treze anos. Antes tinha andado aprender para modista, mas desistiu, para tristeza de minha avó. Desistiu porque queria ganhar dinheiro, como as amigas, que já andavam a trabalhar e compravam coisas e guardavam para o enxoval, e ela nada. Tinha-me falado de tudo isso, e de ter andado nas mondas, e eu acabei por meter esses pormenores nas minhas respostas, o que foi bom. Terminadas as orais, a nossa professora felicita-nos e deixa entrar as mães, algumas até assistiram. Um fim de dia único. Estamos na quarta-classe. Dias depois é a despedida da professora Maria Adelaide. Começam aí as saudades. Não mais nos iremos encontrar com ela.

As férias grandes. Longas. A certa altura, eu desejoso de regressar à escola. Entretanto, meu pai começa a aprender a pescar. Vai com outros homens para a vala e eu acompanho-o. Junto à vala está-se bem. Começo também a aprender a pescar e gosto. Fora isso, desço do cabeço ao Vale, de vez em quando. Vou a casa dos meus avós, no Rio das Patas, ou vou ter com os meus amigos: o Reinaldo, o Chico Vassalo, o João Ferreira, que é o chefe de um grupo de ataque a tudo o que é pássaro, no qual me incluo, mas não tenho artes para a função. Desforro-me na armação da rede aos pássaros. Apanho de tudo: pardais, verdelhões, pintassilgos, milheirinhas, tentilhões, trinca-pinhões, popas, pintarroxos, até gaios, melros, rolas, mas poucos. Vou para os lados dos Covões, ou para a Topinha, na Fonte Boa, ou para os olivais do Zé Luís, onde há uma horta, na zona baixa. Passo dias junto a bebedouros, à espera dos pássaros, com as redes armadas. Levo pão, água e fruta. Estou escondido por detrás de arbustos. Alguns esconderijos sou eu que monto. É uma mortandade. Coisa selvagem. Proibida. A guarda venatória a aparecer de surpresa, por duas vezes. Topei-os ao longe. Na primeira vez o meu cão sentiu e começou a ladrar. Ainda consegui levantar as redes e safar-me, numa correria, barreira acima, por entre matos, pelo lado contrário de onde apareciam. Da segunda vez, em local diferente, foi correr e deixar as redes. Não houve mais tentativas nesse verão. Em meados de Agosto, a colónia balnear, no Estoril. Um oásis. Duas semanas. Esse tempo passa, mas ainda há Setembro pela frente, até ao regresso à escola. Ando de bicicleta, que os homens que trabalham na Fonte Boa me emprestam. Foi ali que aprendi a andar, com a perna por dentro do quadro. Agora, mais crescido, já chego aos pedais, mas não me posso sentar no selim, ainda é muito alto. Ando assim, sobre o quadro, para um lado, para o outro, a pedalar, e os homens dizem que ando à gafanhoto, e riem-se. Vou até ao portão da saída para a Isenta, por vezes afoito-me um pouquinho na estrada de maquedame, mas depressa volto para trás, não venha a guarda republicana e estou em maus lençóis. Outras vezes ando a brincar com os filhos dos doutores da Fonte Boa, que até têm bicicletas pequeninas, onde me deixam andar. Mas eles não conseguem subir às árvores, nem fazer outras coisas, de que eu sou capaz. Fazemos corridas, a pé. Montamos uma pista, no jardim, tipo corta-mato, todo-o-terreno, com subidas, descidas, varas atravessadas para termos de saltar por cima e eu ganho sempre. É uma espécie de revanche da minha parte. O pior é que estragamos os canteiros, e o jardineiro fala com os doutores e ficamos proibidos desta modalidade. É pena, que gostávamos daquilo e mais: eu ganhava sempre. Mas por outro lado não sei nem posso nadar na piscina, nem jogar ténis, no campo que há para isso. O máximo que posso é ver e ir apanhar as bolas que passam a rede. Volto aos meus amigos, no Vale, porque tenho de ir à nossa horta, nas Rebelas, todos os dias, para regar. Aproveito e estou com o Reinaldo, ou o João Ferreira, ou o Orlando, ou outro, mas não vejo o Azenha, a não ser quando voltamos à escola, para o início da quarta-classe. O Azenha e o irmão, António, estão sempre muito recolhidos, perto dos pais, no Rio das Patas, ou no campo, penso eu. Não andam aos pássaros à rede, tenho a certeza.

Na quarta classe calha-nos o professor Costa. Até que enfim!… o Costa. Fernando Jaime Soares Costa, o mais conhecido nesta altura, na terra. É a segunda vez que está no Vale. Antes esteve anos seguidos. O professor Faria também tem nome, mas agora já não está no Vale. Foi dar escola em Benfica do Ribatejo, dizem. O professor Costa é agora quem manda mais na escola, diz a minha mãe, e eu concluo que ele vai lá estar anos e anos. É uma espécie de chefe, penso eu. Há professores que estão um ano, dois, mas depois são substituídos. Com o professor Costa não vai ser assim. Ele dá sempre aulas de manhã. Vem de Vila Chã de Ourique. Entramos às oito e meia, talvez, e saímos ao meio dia e meia. Há uma mistura de sentimentos, quando temos a certeza, no primeiro dia de aulas, de que finalmente… temos o professor Costa. Os mais velhos diziam: deixa lá, que p’ró ano tens o professor Costa, aí é que tu vais ver!… Ainda por cima, os repetentes dizem o mesmo. É para meter medo, penso eu. Há quem tema e há quem fique satisfeito. Para outros, tanto faz. Na sala estão também os mais pequenos, os da segunda classe. Eles ficam nas duas filas à nossa direita e nós logo à entrada, também em duas filas, ao longo da sala. O professor Costa impressiona. A forma como fala, como anda na sala. Por vezes vai até ao fundo, entre as carteiras, sempre a falar. A falar e a olhar para nós. Parece ter olhos de lince. Fala de tal modo que todos o ouvem, onde quer que esteja. Quando fala, quando explica, é claro. E, além disso, vibra com o que diz. Por exemplo, quando lê, põe sentimento na leitura. Uma frase é como uma onda, na boca dele. Uma palavra não é só a palavra: acrescenta-lhe entoação, vida. Ele diz: uma frase tem que ser lida como se estivéssemos a falar, como se fosse um teatro. Mas quando se zanga o seu olhar muda. Fulmina. Um olhar que me aconselha: tens de estudar bastante e não podes fazer asneiras. Na quarta-classe há muito mais coisas a aprender. O livro de leituras é o “Finalmente”, como teve a minha mãe. Algumas lições até já as sei, que ela me contou. O caderno de problemas é o 1111 – mil cento e onze. Também a minha mãe o teve. Os problemas são difíceis. O resultado do primeiro problema é… 1111. O resultado do último também é… 1111. Temos a geografia, as ciências naturais, a história. Quando o professor Costa fala das dinastias, das batalhas, fá-lo em tom forte, vibrante. Estamos mesmo a ver as batalhas, o decepado com a bandeira nos dentes, e tudo, o Camões a nadar e a salvar Os Lusíadas… Fico impressionado. Admiro o professor Costa. É tal e qual como meu tio João me contou, embora o meu tio só o tenha tido até à terceira classe, que depois foi para o campo. Um dia, já rapaz forte, o professor Costa quis castigá-lo e ele, apanhando a janela aberta, saltou, e nunca mais apareceu na escola. O professor Costa ainda chamou lá a minha avó, mas ela disse-lhe que estava a ser muito difícil mantê-lo na ordem, que o melhor era ir trabalhar, que era para aprender. E assim foi. Depois o meu tio arrependeu-se, mas já era tarde: a minha avó não deu o braço a torcer, olha quem?!… Só fez a quarta após a tropa, quando quis ser chofer, depois de vir de Cabo Verde, onde esteve destacado, no tempo da segunda guerra mundial. Apesar de tudo, na escola ele era o tesoureiro: o professor Costa entregou-lhe a gestão da caixa escolar, tipo mealheiro. Essas economias serviam para comprar os cadernos, lápis e outras coisas, para os mais necessitados.

Há outra novidade. Com a nossa chegada à quarta classe, abre-se a possibilidade de continuarmos depois a estudar, mas para isso temos de ter aulas próprias. Logo ao princípio, o professor Costa fala-nos nisso e explica como será. Diz para falarmos com os nossos pais e que quem quiser pode depois falar com ele. Que já tem alguns interessados. Meu pai diz que sim. Outros pais também, e forma-se um grupo, talvez de doze. Começamos a ter aulas depois do almoço, na salinha ao lado da sala principal. As aulas da admissão, que é assim que lhes chamamos, acabam por ser para os rapazes cujos pais têm mais posses. De algum modo, vou tendo a percepção de que aquilo é uma diferenciação que começa a fazer-se, e ficam de fora alguns que até são melhores alunos do que outros que estão nessas aulas. Por exemplo, o Azenha e o Celestino ficam de fora, com pena minha. As aulas são das duas da tarde às cinco. Não temos carteiras, mas uma mesa grande, sobre o comprido. Estamos todos sentados em volta da mesa e o professor Costa está no topo, logo à entrada. Há um candeeiro, do tipo prato de esmalte, suspenso na vertical, e mais uma lâmpada na parede. Mesmo assim, a iluminação é fraca e, no inverno, ainda é pior. Como a sala ao lado está a funcionar, acabamos por ouvir o que lá se passa, assim como eles talvez oiçam a voz do professor Costa, que é forte. Um dia há um tumulto na sala ao lado. A professora não deve estar a conseguir resolver o problema. De súbito, o professor Costa levanta-se, abre a porta que dá entrada para a sala e dá um berro. Faz-se logo um silêncio medonho. Ele avança pela coxia entre carteiras, quase até à coluna, que fica a meio da sala, e vai olhando à esquerda e à direita. Pela porta entreaberta vejo que a professora está um pouco aflita, a mão na cabeça. O professor vai ao seu encontro e, chegado lá, volta-se para as classes. Alguns de cabeça baixa. Ele diz, com um voz muito forte: a senhora professora e eu não queremos que isto se repita, ai de vós… Ouviram?… Continua o silêncio. Ouviram? Então eles foram respondendo “sim, senhor professor”. A coisa fica por ali. O professor Costa regressa ao nosso espaço, afogueado. Nem uma palavra. Recompõe-se e retoma, mais devagar, a nossa aula.

Nas aulas da admissão repetimos os conteúdos da quarta-classe, mas há outros temas que temos de estudar. O professor Costa trouxe uns cadernos de folhas verdes, impressos, com perguntas. Terminado um caderno, recebemos outro. Algumas perguntas são de resposta múltipla, ou verdadeiro/falso e porquê, outras são para desenvolver. Também temos de preparar temas e falar sobre eles. Na parte de aritmética, geometria e cálculo fazemos muitos exercícios. Estamos sempre numa grande dinâmica e o facto de o professor estar ali, muito junto de nós, e o grupo ser pequeno, leva a grande rendimento individual. De certo modo, também aumenta a possibilidade de conhecimento mútuo. Quando estamos nas aulas da quarta classe sinto que não posso falhar nada, porque sou um beneficiado com as aulas da admissão. Não posso falhar e não tenho razões para isso. Vejo, com tristeza, que outros não estão a ter as mesmas possibilidades, e os resultados vêem-se, na quarta classe. Dos que não estão nas aulas da admissão, de facto só o Azenha e o Celestino se destacam.

Enquanto faz avançar a quarta-classe, o professor Costa ainda tem de dedicar toda a atenção à segunda, nas duas filas ao nosso lado. São mais pequenos, a progressão é mais lenta, mas tudo corre bem, que ele consegue gerir as duas classes na perfeição. Estão sempre todos ocupados e quase não há distracções. Na quarta classe, em particular, o ritmo não abranda. Vamos aos mapas de Portugal, das ilhas adjacentes e das colónias e, a certa altura, aquilo está tudo na ponta da língua: os rios, os afluentes, as serras, as praias, as lagoas, os cabos, os caminhos de ferro, os ramais e um sem número de coisas úteis, como as produções e os minérios. O professor leva-nos para a rua, logo pela manhã, e é lá que aprendemos os pontos cardeais: faz-nos abrir os braços, esticar o braço direito, apontar para o lado do sol – o oriente. Depois, diz, no seu oposto, aquele para que a aponta a mão esquerda – o ocidente. Rodamos várias vezes, repetimos, repetimos, e aprendemos. Os pontos cardeais, com todos os nomes que têm, mas também os que ficam entre eles. Nas ciências sabemos do corpo humano, dos animais, das plantas, das enxertias, e também sabemos das rochas e de tantas coisas mais. Alguns têm mais dificuldades e trocam, por exemplo, a classificação dos tipos de caule das plantas com as partes em que se divide o corpo humano, e isso é trágico, que o professor Costa fica muito zangado, e não sai dali enquanto aquilo não estiver apreendido. Há dias difíceis. Aprendemos sobre a higiene do nosso corpo. Manda pôr as mãos em cima da carteira e inspecciona as unhas. No dia seguinte temos de aparecer com as unhas cortadas e limpas. Também nos vê as orelhas. Vê o cabelo, que pode haver piolhos. Na semana seguinte temos de aparecer com o cabelo cortado e lavado. É uma corrida aos barbeiros. O meu barbeiro, o Sr. Frederico, diz logo: o professor Costa todos os anos faz isto, assim é que é. No dia do regresso com o cabelo cortado e lavado, o Ruço da Mari Meilitra leva o cabelo brilhante de mais e isso chama a atenção do Costa. Vê-o com a cabeça a luzir, e vá de lhe cheirar o cabelo. Cheira a azeite. O Ruço a justificar-se de que não tinha fixador, então pôs azeite, que já lhe começa a descer para a testa… Foi mandado imediatamente à fonte das três bicas lavar o cabelo, com sabão azul.

O professor Costa ensina-nos a respeitar os mais velhos. Como os devemos ajudar, que um dia também chegará a nossa vez de precisarmos dessa ajuda. Como devemos conversar com outra pessoa na rua, dando-lhe a direita. Como devemos escrever uma carta, um vale postal, um telegrama, e traz impressos para termos esse treino. A certa altura começa a fazer chamadas orais, da seguinte maneira: pede-nos para pormos o banco corrido entre o quadro e as carteiras, depois chama este, aquele, mais aquele, até chegar a seis, que é o número de alunos que podem ficar sentados no banco. Ele senta-se numa cadeira, à nossa frente, mas por vezes levanta-se e anda de um lado para o outro. Começa a fazer perguntas sobre qualquer matéria: hoje pode ser de história, amanhã de ciências, de zoologia, de geometria, de geografia. Outras vezes, vamos ao quadro. Passa a pergunta de um para o seguinte, quando alguém não responde logo. À primeira falta de resposta ainda não há sanção, mas à segunda já entra ralhete, à terceira pode ser pior. Todos passam pelo banco das perguntas, mais do que uma vez, e para alguns é complicado. Mais tarde, aproximando-se os exames, faz uma tabela, na qual estão datas e os temas das chamadas orais. Mas introduz uma novidade, que anuncia: os melhores alunos vão ter um prémio, que não diz qual é. Mas informa que os melhores alunos, que sejam do Benfica, do Sporting e do Belenenses, vão receber o prémio. Portanto, todos nós, somos concorrentes ao prémio, e temos de dizer que somos de um desses três clubes. Por isso deduzimos que vai haver três prémios, para os três melhores alunos, um de cada clube. Ele pergunta a que clube pertencemos, nós dizemos e ele toma nota. Fica uma folha com a letra dele, ao lado da tabela que tem as datas das chamadas orais, que também tem o nome do clube de cada um. Lá vamos outra vez para o banco corrido. Todas as semanas há chamadas e até mais do que uma vez por semana. Andamos sempre a consultar a tabela, mas não sabemos quem vai para o banco, a seguir. As matérias são todas aquelas que já demos na quarta-classe. Ele faz as chamadas e tira notas, mas nunca nos diz quem vai à frente. Estamos quase a chegar aos exames e pelo meio ainda temos de voltar a treinar para a prova escrita. O fim do concurso aproxima-se e o professor Costa começa a fazer selecção dos melhores. Há um ambiente de intenso trabalho e até parece que as nossas cabeças estão em alta rotação. Chega o dia das últimas chamadas orais. Então, chama seis para o banco corrido: o Celestino, o Garcês, o Norberto, o Reinaldo, o Sá e… o Azenha. É uma prestação global de grande disputa entre nós, uns a sobressaírem numas coisas, outros noutras. Grande parte da manhã naquilo, sem desfalecimentos, o professor Costa num entusiasmo galopante a cada nova pergunta, a cada nova resposta. Estamos esgotados. O concurso termina. De seguida o professor Costa tira os prémios de dentro de um saquinho de papel e mostra um de cada. O prémio é algo que nunca vi, nem sei para que serve. Mas é bonito. Em metal amarelo, com uma calote onde está o desenho de uma bola de futebol, na parte convexa e, sobre ela, o emblema do clube: o Belenenses, o Benfica, o Sporting. Da calote sai uma pequena corrente, que termina numa argola, a qual tem uma mola, para abrir e fechar a argola. Depois o professor tira mais prémios, iguais aos anteriores. Agora já tem seis na mão. Afinal são dois de cada clube, mostra ele. E foi assim a distribuição: os dois do Sporting, para o Celestino e o Reinaldo, os dois do Benfica para o Norberto e para o Sá, os dois do Belenenses, para o Garcês e para o Azenha que, embora sendo do Sporting, não podia ficar sem prémio, que a sua prestação foi de grande nível. Por fim, o professor Costa ensinou: isto é um porta-chaves, e eu fiquei quase na mesma, que tal coisa, além de não fazer parte dos meus conhecimentos, também não era uma das minhas necessidades de então, pois não tinha quaisquer chaves para lá meter. Quem quiser pode colocar no passador do cinto das calças, disse por fim o professor Costa, e assim foi. Pendia, com vaidade minha, dos meus calções ou calças, em dias de festa. Desapareceu, talvez dois anos depois, numa ida às nêsperas, no quintal da Mari Pintora. Quando ela deu por isso, começou a gritar. Fugimos, saltando o caniçado. Ficou lá o prémio…

Até ao exame, em Santarém, foi um instante. Era sabido que quem o professor Costa levasse a exame iria ficar bem. Manhã de muito sol e nós a caminho, bonitos de bem vestidos e penteados, que nossas mães cuidaram de tudo. Saímos do Vale na camioneta da carreira e fomos para a escola do exame, com nossas mães. O professor Costa estava à nossa espera, e fez logo uma chamada, para ver se estavam todos. E estavam. Depois uma professora chamou um a um. Entrámos. Lá dentro fomos preenchendo as carteiras vazias. Já lá estavam rapazes de outras escolas, que não conhecíamos. Depois da porta fechada, uma senhora começou a falar, a dizer como ia ser a prova escrita e que não podíamos falar a partir dali, que se quiséssemos alguma coisa levantávamos o braço e uma professora ia falar connosco. Depois entregam-nos papel e uma folha com informações para o exame. Dias antes andámos a treinar para a prova escrita, a arrumação dos títulos na primeira página, tudo direitinho, equilibrado, sem borrões de tinta, logo se veria se no próprio dia sairia tal e qual. Fizemos muitos ditados, cópias, redacções, problemas e desenhos. Lemos muitas lições e também escolhemos uma, como no exame da terceira classe, para o caso de na oral nos dizerem: escolhe uma lição de que gostes. Até pus lá uma folhinha de louro, que apanhei na curva das Rebelas, a marcar a lição que escolhi. Era sobre os transportes. Mas isso era para a oral. Para o exame escrito levei a caneta de tinta permanente do meu pai. Andei a treinar com ela, antes, nas provas escritas de preparação, na nossa escola, e em casa. Era uma caneta Wearever, bonita. Também levei o tinteiro Quink e um mata-borrão novo, verde-escuro. Levei lápis novo, número 3 e borracha, azul de um lado, vermelha do outro, com uma camada branca ao meio. Na sala, a luz a entrar da esquerda, por janelas grandes. Cada um em sua carteira. Um professor e duas professoras, que não conhecíamos, por detrás de uma mesa, num estrado. É o júri, eu a pensar. Em frente, o quadro negro. Começámos. Uns ruídos próprios do momento. Folhas a roçagarem umas nas outras. Cabeças um pouco inquietas, depois a acalmia. Silêncio. Atiro-me àquilo. Faço a primeira página: os títulos, o meu nome, a data. Tudo copiado do que as professoras escreveram no quadro. A seguir, na segunda página, era o ditado. Foi o professor do júri a ditar, devagarinho. Depois foi fazer a redacção, a seguir as contas e os problemas. Pelo meio, momentos de transpiração. Os professores do júri a virem até nós. Param aqui, param ali, a ver, a ler o que estamos a escrever. Cochicham com um ou outro de nós, sobre o que estamos a fazer, ou quando há uma pergunta. A certa altura o professor do júri diz, alto: meninos, não podem olhar para o lado. A minha mãe já me tinha dito que quando fez o exame da quarta também disseram o mesmo. De súbito, eu a perguntar-me: e as raparigas, alunas da D. Tomásia, onde estão elas a fazer exame?…

Talvez tivesse havido um intervalo antes da parte dos problemas ou do desenho, mas não posso garantir. O certo é que, terminada a prova escrita, o professor Costa aparece logo, a saber como tinha corrido. Juntamo-nos à volta dele. Lá fomos respondendo, para ele e para as mães, e ele fica descansado. No meu caso foi o meu pai que apareceu. Traz uma pombinha de Santarém, uma banana e uma gasosa. Fala comigo e com o professor Costa. Estou confiante. Mas só me apetece é ir embora, que o exame foi cansativo e eu quero ficar sossegado, na nossa casa, na Fonte Boa. Regressamos ao Vale na camioneta da carreira, que nos deixa aqui, ali, conforme o sítio que mais calha a cada um. Meu pai desce logo na paragem frente à loja da dona Mercedes, que ele vai voltar ao trabalho. Eu desço na paragem do Manel d’Oliveira, depois sigo para casa, a pé, pelo carreiro, como tantas vezes, passando pelo olival, pelo pinhal, pelas terras do João brasileiro, até chegar ao casal, no cabeço. Muito calor. O casaco pendurado por um dedo, sobre os ombros, como os homens. O nosso cão a vir esperar-me, de rabo a dar a dar. Minha mãe anda na vinha. Ponho o casaco e as outras coisas em casa, e vou logo ter com ela. Pergunta-me como correu, e fica descansada com as respostas. Dá-me de comer, que já tinha preparado. Fico relaxado e com sono. Depois de dormir, vou até ao pinhal da Fonte Boa, sozinho, e aí comecei a pensar no que estava para acontecer: o meu tempo de escola no Vale vai acabar. O meu futuro vai passar por outras paragens. Uma certa nostalgia, no regresso a casa. Ainda fazia calor, mas o sol já estava baixo. Os seus raios cruzavam o ar, inclinado-se, sobre os troncos dos pinheiros.

Nos dias seguintes voltamos à escola, mas em regime pouco normal, só para fazer revisões. O professor Costa tem boas informações sobre como nos correu a prova escrita e nos últimos dias passa a insistir mais com aqueles que poderão ter maiores dificuldades na oral. Nas aulas da admissão faz o mesmo, pois os exames à escola técnica e ao liceu são logo a seguir ao da quarta classe. Eu vou fazer exame para a escola técnica, foi o que decidiu o meu pai. É visível que o professor Costa está seguro de que vai correr tudo bem, porque não se zanga quando falhamos alguma coisa e agora falhamos muito menos. Parece ter mudado nesse pormenor, mas talvez seja para nos deixar mais tranquilos, embora não deixe de apertar connosco. Alguns não foram ao exame da quarta, porque o professor Costa disse que não estavam preparados, e era verdade. Têm de repetir a quarta classe. Com alguns isso vai acontecer pela segunda vez, e são estes casos que me causam maior tristeza. Estes já não vêm à escola, agora têm de esperar pelo novo ano. Por outro lado, há rapazes que não foram inscritos para a admissão à escola técnica ou ao liceu, porém são muito bons alunos, dos melhores, casos do Azenha e do Celestino. Talvez pudessem ter sido inscritos, dizia eu, que o valor das aulas, a pagar ao professor Costa, não era elevado. No entanto, meu pai lembrou que as aulas de admissão eram para os que iam continuar a estudar… não para os que tinham de ir já aprender um ofício, para começarem a ganhar algum dinheiro… que a maioria das famílias muito precisava. E aproveitou para dizer: e tu vê lá, que se não passares na admissão, vais logo trabalhar.

As provas orais chegaram. Já tínhamos a experiência da terceira classe, mas agora era mais difícil e numa escola de Santarém. O professor Costa, nos últimos dias antes das orais, deu conselhos sobre como devemos estar nesse dia: ouvirmos muito bem as perguntas, não termos precipitações a responder e, e se tivermos dúvidas, pedir: senhor professor, desculpe, pode repetir?… Não tenham receio, estejam concentrados e não se ponham a chorar… avisou. Naquele dia minha mãe chamou-me cedo, mas eu já estava acordado. Pôs o café com leite e a torrada na mesa da cozinha e foi fazendo outras coisas. Não falámos muito, até que as minhas irmãs mais velhas se levantaram, para irem trabalhar, talvez para a fábrica dos sapatos. Depois foi a altura de me vestir. Era o mesmo fatinho, o que havia, de calção e casaco, por cima de uma camisa creme. O fato já um pouco apertado. Talvez por isso meu pai disse: se tiveres calor, despe o casaco. Desta vez fui apanhar a camioneta do Vinagre, que vinha da Isenta, e passava por dentro da Fonte Boa, ao pé do laboratório. Ficou combinado assim com o professor Costa, que eu iria na camioneta da Isenta, como dizíamos. Entrei, disse bom dia e sentei-me. Meu pai havia-me dado dinheiro para o transporte e, pela primeira vez, fui eu a pedir o bilhete. Uma viagem diferente, até ao Vale. Nas paragens seguintes foram entrando outros rapazes da nossa escola, que tinham oral no mesmo dia. Eu estava logo a seguir aos primeiros bancos, à direita, e do lado da janela. Algumas mães acompanhavam os filhos. Desta vez minha mãe disse que iria lá ter. Depois de chegarmos a Santarém, fomos todos juntos para a escola onde seria o exame. Éramos um bom grupo, com as mães ao nosso lado. O professor Costa estava à nossa espera, junto à escola. Naquele dia faziam oral, além de mim, o Azenha, o Norberto, o Reinaldo, os irmãos gémeos Baeta da Graça, o Melão, o Orlando, o Manuel Júlio, e mais alguns. Outros, como o Ângelo, o Celestino, o Joaquim Júlio, o Chico Vassalo, o Chiquinho do Correio e o Garcês, tinham feito oral no dia anterior. Tinha corrido tudo bem. Fomos chamados, um a um, para dentro da escola. As mães foram autorizadas a entrar depois. Os professores do júri, os mesmos da prova escrita, lá estavam, no estrado, por detrás da secretária deles, todos de bata branca. Nós, não. Fomos autorizados a mostrar as nossas vestimentas. As orais seguiram a ordem alfabética. Assistimos a dificuldades, engasganços, da parte de alguns, mas nada de grave. Recuperaram. Quando chegou a minha vez, o coração abanou um pouco. Estava afogueado e a professora começou logo por perguntar se estava com calor. Descansei-a. Disse “não senhora professora”, mas estava um pouco nervoso, isso sim. A gravata, grená às pintinhas brancas, apertava. Ou seria o casaco? Entretanto, a professora tinha as folhas da minha escrita na mão, como fizera com os outros. Abriu, virou, revirou e disse: então, vamos lá, escolhe uma lição. Devagarinho, abri na página marcada, o canto um tudo nada dobrado. Entrei na leitura, com voz alta, devagar, para me tranquilizar, e assim aconteceu. Vieram as perguntas sobre os transportes, as comunicações e aquilo foi canja, como dizíamos entre nós. Interpretação, dividir orações, sujeitos, predicados, complementos directos… tudo fácil. Terminou com “paupérrimo”, superlativo absoluto simples de pobre. Logo a seguir os problemas: um que metia horas, minutos e segundos e o pagamento de não sei quanto à hora a um trabalhador, durante um certo tempo; outro em que era preciso calcular volumes e havia um cone, à mistura. A seguir os mapas. Coisa pouca: o sistema galaico-duriense e a linha do Oeste. Por fim, o corpo humano: os ossos da mão e do pé, e a particularidade do dedo grande, e mais não sei quê. E ainda, a enxertia por mergulhia, como era. Estando tudo a correr bem, foi com alívio que ouvi “parabéns, está terminado o teu exame, podes ir sentar-te lá atrás”. Então, sem mais, foi o que fiz, e vi minha mãe, sentada na sala, um sorriso bonito no rosto. Chegou a tempo de assistir ao meu exame. Entretanto, a seguir foi chamado o Manuel Azenha. Levava um fato para o cinzento claro e, no bolso de cima, do lado esquerdo, um lencinho. A oral dele foi muito semelhante à da terceira classe. Parecia uma batalha. Depois da leitura da lição, em que leu bem alto e bem pronunciado, vieram as perguntas. Era como num jogo de pingue-pongue: parada e resposta, parada e resposta. O Azenha fogoso, decidido. Respondia a tudo, por vezes parecia que ia gaguejar, mas aquilo não era de não saber, mas da pressão, queria responder depressa. Entretanto, com a minha mãe ali ao meu lado, fiquei mais atento a ela e o exame do Azenha foi correndo bem, mas sem a minha atenção, até que que a professora lhe deu os parabéns e lhe disse: pronto, já está. Saiu da sala, estava a precisar de apanhar ar, e eu acompanhei-o. Ficámos um pouco cá fora e não assistimos às orais seguintes. De vez em quando vínhamos espreitar, mas só nos apetecia estar fora daquilo.

Perto da uma, as orais chegam ao fim. Estamos todos cá fora. Aguardamos os resultados, mas estamos tranquilos: apesar de algumas escorregadelas, todos vão ficar bem. Como se diz na nossa terra: não vai haver raposas. As mães estão felizes. Nós estamos muito faladores, uns com os outros, e até exageramos. Já queremos é sair dali, não sabemos bem para onde, mas é a vontade que tenho. É preciso esperar, não saiam daqui, estejam quietos, dizem as mães, mas qual quê?!…. Depois, o professor Costa vem até nós e anuncia: passaram todos, parabéns! Também ele recebe parabéns, e deixa-se envolver na manifestação de alegria que já deve ter vivido muitas vezes. O Celestino, quase da altura do professor, está ao seu lado. Ele, mais velho, porque entrou mais tarde para a escola, irá voltar para pastor de cabras? E os outros, os que não continuam a estudar, irão já para uma oficina? No meio daquele turbilhão de felicidade, uma professora vem entregar papéis ao professor Costa. Chega finalmente a confirmação: ficámos todos bem. Depois disso, o professor Costa diz que ainda vai haver uma aula especial. E diz a data e a hora. Fica combinado. Despede-se de nós, com um grande sorriso. Já tirei há muito o casaco e é minha mãe que o segura. Ela fala com outras mães e, aos poucos, vamos saindo dali. Depois, num instante, cada um vai para seu lado, e minha mãe diz: deixa lá, nós vamos para o jardim. Pouco depois, no jardim da República, bem perto do coreto, sentamo-nos num dos bancos, de ripas vermelhas. Minha mãe abre a cesta de verga. Tira o tacho, envolto em papel de jornal, para manter o calor. Por cima, a toalha, de quadrados brancos e vermelhos. Cheira-me a carne guisada com batatas, ela sabe que eu gosto muito. Tira os pratos, os garfos, as fatias de pão, e a toalha, que estende sobre o banco. Ela de um lado da toalha e eu do outro, almoçamos assim. Devagar, à sombra das árvores. Falando um pouco, sobre o exame, e sobre como quando foi o exame dela, na quarta-classe, era professora a D. Leopoldina Augusta de Carvalho e Conde. Falando sobre as colegas dela, como a Estrudes do Artur Tendeiro, a Estrudes do João Vítor, a Maria Virgínia, outras. No fim do almoço ainda comemos maçãs leirioas, da nossa vinha. Fomos apanhar a camioneta da Ribatejana, à travessa do Postigo e regressámos ao Vale. Fizemos o caminho pelo açude, entrámos pelo olival do Garcês, e subimos ao cabeço, pelo carreiro da tia Mari da Velha, que aparece, junto à casa dela. Fica muito sorridente por saber que tudo tinha corrido bem. Na altura, comigo a crescer, já ela me parecia pequenita, mais do que sempre fora, e foi pendurada no meu pescoço que meu deu muitos e repenicados beijos. Depois, entrámos em nossa casa. Pela tarde fora foi a descompressão, a satisfação de todos, pela passagem no exame.

Alguns dias depois foi a aula especial, de que falara o professor Costa. Foi de conselhos e de despedida. Mais conselhos para a vida. Pela última vez, transpusemos aquela porta. O mestre estava à nossa espera. Depois das saudações, sentámo-nos. Agora já o via como um amigo, e não só como professor. Era um orgulho. Estava emocionado, e nós também. Por momentos, houve um longo silêncio, o que não era costume. Depois dos parabéns, ele começou por lembrar o que é aprender, da importância de aprender, que é preciso esforço, que é preciso trabalho. Que a vida é assim e que esperássemos isso, sempre, que não caíam as coisas do ar. Que dali em diante tínhamos de honrar a escola, porque todos iriam ficar à espera de que fôssemos bons trabalhadores. Que não nos esquecêssemos do que aprendêramos na escola, que ia ser muito útil. Que devíamos continuar a aprender, principalmente os que não podiam continuar os estudos. Que devíamos ler jornais, e livros, se pudéssemos. Que nas profissões que tivéssemos iríamos ser postos à prova e que nos devíamos servir do que aprendêramos. Que ele ia estar atento ao que íamos fazer. Que éramos os homens de amanhã, e que ele tinha muito orgulho nisso. Que estava disponível para nos atender, se o quiséssemos procurar, para qualquer necessidade. Que, mesmo que não tivéssemos essa necessidade, podíamos fazer-lhe uma visita, quando passássemos por ali, que a porta estaria aberta.

Foi mais longa, a última aula, mas isto foi o principal da conversa. Lembro-me de que os que iam continuar a estudar ainda tiveram algumas sessões de revisões. Mas, nesta aula de despedida, que foi da parte da tarde, havia uma atmosfera de muita emoção. Estava a ser difícil terminar. Parecia que não queríamos sair dali. Então o professor Costa abriu os braços e, aos poucos, cada um de nós foi até ele. Um abraço, ao professor. Pela primeira vez. Os que acabavam de se despedir iam-se encaminhando para a porta, mas pareciam querer ficar ainda. Depois sim, fomos saindo, e cada um foi à sua vida. Acabava assim aquela razão maior que nos juntara pela primeira vez: a escola primária.

∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞

Deste grupo, que terminou a quarta-classe em 1957, a maior parte havia nascido em 1946. Foi em 30 de Outubro de 2011 que nos reencontrámos, num almoço de convívio, onde participaram também as raparigas da nossa idade. Tínhamos 65 anos. E o Manuel Azenha haveria de ser um dos mais activos para que houvesse esse primeiro reencontro, que tem tido continuidade, anualmente, agora já para todos os antigos alunos da Escola Primária Aristides Graça. Assim será, enquanto vida houver.

∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞ ∞

Esta crónica é em tua memória, amigo Manuel Azenha. Não mais falaremos dos nossos tempos de meninos da escola primária. Não mais falaremos de outros assuntos em que nos envolvemos, pelo nosso Vale. Não mais falaremos do muito que leste, das aprendizagens que fizeste com os grandes autores, portugueses e estrangeiros, e com os quais preencheste parte da tua ânsia de saber, que infelizmente não teve continuidade em âmbito escolar. Não mais falaremos da vida das pessoas simples, dos sem poder, e de como continua quase tudo na mesma. Talvez um dia a gente se encontre. Como daquela vez, em Angola, por acaso, tu quase a regressar e eu a chegar à guerra colonial, que se atravessou nas nossas vidas. Talvez.

Terás terminado o que andaste a escrever, e que gostarias de publicar?

Até qualquer dia.

Manuel João Sá

17 Agosto 2016

 

16-AnoLect 1956-57-2ª e 4ª classes (640x390)

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Autor: 60emais

Português.

8 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – MEU AMIGO MANUEL AZENHA”

  1. Foi com emoção, e comoção, que li esta crónica. Os detalhes da nossa vida de alunos da 3ª e 4ª classes são impressionantes e recordei muitos que já se tinham apagado da minha memória. Quero agradecer-te pela bela homenagem que prestaste ao nosso amigo Azenha que, lá onde estiver, também estará feliz e sorrirá.

    Reinaldo

  2. Comentário enviado por mail por José Leirião:

    Caro Manuel João,

    Gostaria de te agradecer a crónica sobre o Manuel Azenha, e essa narrativa magnífica de clareza genial, dos tempos de escola
    e da amizade, desafios e sucessos do nosso tempo de meninos e não só.

    Li a tua narrativa duas vezes e revi-me totalmente nas tuas sábias palavras. Também eu frequentei a admissão a convite do Prof.Costa (1954-55 creio ter sido o primeiro ano deste ensino de admissão ao liceu), como sabes sou de 44, portanto dois anos antes de ti, e não tenho memória de nos termos cruzado na escola, mas certamente o fizemos a brincar no rio das Patas, com o João Ferreira e outros que não me lembro o nome, onde morou a tua avó (Alexandrina) que eu conheci muito bem (somos parentes) e pessoa muito respeitada.

    Não conheci em profundidade o Manuel Azenha e muitos colegas de escola, pois saí do Vale em Agosto de 1955 acompanhando os meus pais para Vila Franca de Xira, mas recordo-o em alguns encontros esporádicos nas minhas frequentes visitas ao Vale, e reconheço a sua eloquência, qualidade, humanidade e o proguessismo das
    suas posições. Repousará certamente em paz e como dizes talvez nos voltemos a encontrar um dia…

    Por favor, continua o teu trabalho de intervenção sobre o nosso Vale, a vala, o ambiente, a amizade, as pessoas, a nossa escola, porque o que tens escrito contribui significativamente para a nossa ‘memória’, porque sem memória não existimos.

    Infelizmente em Outubro passado, por razões de saúde, não pôde estar no aniversário da nossa escola, espero fazê-lo este ano.

    Estou reformado há cerca de 11 anos e tenho-me dedicado de forma muito intensa ao voluntariado nas instituições de solidariedade social (IPSS) participando em Direcções desde o ano de 1983, fazendo também parte da Direcção da CNIS (Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade), desde 2002
    membro do Comite Económico e Social Europeu. Também membro da União Distrital de Lisboa UDIPSS.

    Enfim, algum trabalho…

    Um grande abraço para ti desejando as melhores felicidades para a tua família.

  3. Comentário enviado por mail por Francisco José Sequeira:
    Bom Amigo
    Li hoje a sua «última crónica», na qual falava no meu colega Fernando Costa. Não calcula quanto me encheram de orgulho as suas palavras, sobre o professor que me antecedeu no Vale de Santarém e que eu conheci, depois de sair daí, na Escola de Campolide, em Lisboa.
    Gostei muito do Vale de Santarém, da sua gente e de aí trabalhar. Aí dei aulas durante seis anos.
    Um abraço para si e para todas as pessoas do Vale.

  4. Comentário enviado por mail por Joaquim Correia Bernardo
    Meu bom Amigo Manuel Sá

    Muito agradecido pelo envio da sua crónica. Sensibilizou-me. Sem nunca ter estado na “sua” Escola do Vale de Santarém vivi o vosso ano lectivo como se fosse um dos alunos do professor Costa. Por ter
    convivido com o meu sogro e pela ternura da prosa que escreveu recuei umas boas dezenas de anos e fui menino outra vez. Bem haja pelas memórias que acordou e pelas doces palavras em que as envolveu.
    As teimosas lágrimas com que a minha mulher acompanhou a leitura são a melhor homenagem que lhe podemos fazer. Mais uma vez o nosso Bem-haja.

    Um abraço

    JM Correia Bernardo

  5. Comentário enviado por mail por Artur Lopes:
    Parabéns pelo excelente trabalho. A tua escrita descritiva e rica em pormenores transporta-nos fielmente até à época. Recordei vivências que a memória havia arquivado.

    O Professor Fernando Costa regressou ao Vale para ensinar a rapaziada no ano lectivo de Outubro 1952 a Junho de 1953 e, foi nesse ano meu professor na 4ª classe. Em tudo o que tens escrito sobre esse extraordinário docente, deixas entender o quanto ele deixou em ti, tal como em mim, uma marca de rigor, de
    competência e de ensinamentos que nos guiaram por todos estes anos.

    Muito boa também a homenagem que, no artigo, acabas por prestar ao nosso comum amigo e teu companheiro de escola Manuel Júlio Antunes Azenha.

    Termino, agradecendo-te as boas leituras que nos proporcionas nas crónicas
    sobre o Vale e não só.

    Um abraço
    Artur Lopes

  6. Olá amigão, que belíssima crónica. Parabéns, és um ser altamente talentoso, um autêntico escritor . Um abração meu e da Tina. Os meus agradecimentos e votos para uma saúde férrea.

  7. Comentário de José Borges Neves, enviado por mail:
    Caro Amigo,
    Estou impressionado com a excelência da tua escrita e prodigiosa memória. O que, já não é novidade. O elenco das personagens difere ligeiramente de ano a ano. Contudo, o cenário principal e envolvências, a personagem central do Professor Costa, o “guião”, são praticamente comuns às do aluno um ano mais velho, como é o meu caso. Que dizer? Um retrato perfeito duma época que nenhum “iqualquer coisa” dos tempos modernos conseguiria captar. Parabéns e obrigado.
    Zé Neves

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