CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – A PESCA NA VALA

Um dia, sem que nada o fizesse prever, meu pai decidiu iniciar-se como pescador. Foi coisa que surgiu assim, e pronto, ficámos todos à espera do que iria acontecer. O meu avô paterno não tinha tido essa arte, de pescar. Pelo menos nunca ouvíramos qualquer referência a isso. Caçador sim, tinha sido, e dos bons. Até conservava ainda, naquela altura, uma velha caçadeira, com a qual se entretinha, pelo lusco-fusco do anoitecer ou da madrugada, a esperar coelhos, na vinha dos Marecos. E era bom caçador, continuando a fama de seu pai que, entre batidas e petiscos com o rei D. Carlos, ao que contava, nas matas das Virtudes, como nas vinhas de Valparaíso, de Almoster e da lezíria, ganhara auréola de atirador rápido e eficaz, que lhe valeria a escolha do monarca, naquela região. Meu avô Alfredo chegou a ter três caçadeiras, no tempo em que a licença para as ter não terá sido obrigatória, certamente. Saía com a espingarda, a cadela podenga, de nome Fineza, saltitante a seu lado e, ao fim da jornada, era normal despejar uma saca de coelhos, no quintal, aos pés da avó Alexandrina, soltando na areia fina restos de sangue e pulgas, que deles saltavam, aos milhares. Depois era amanhá-los, para diversas refeições, para muitos dias, e ainda sobravam, para oferecer, orgulhava-se a avó.

Aquilo de o meu pai começar a pescar foi influência de outros, como o senhor Américo, torneiro mecânico, que tinha uma motorizada há anos. Morava à curva do Manel d’Oliveira, do lado direito, em frente à casa de Venceslau Pinto, o músico de renome que o Vale não conhecia, ali passava não mais de um mês, pelo Verão, a maior parte do tempo atirando aos ares, som em alto volume, as músicas clássicas que preferia, saídas dos seus enormes discos de muitas rotações. Pois o senhor Américo, casado com a senhora Matilde, da família dos Cabreiros, tinha fama de distinto pescador amador. Sabedor disso, tecia ele próprio algumas loas à qualidade da sua cana de bambu, colhida na quinta das Rebelas, a qual havia aparado e envernizado a preceito, os passadores da linha, em inox, fixados por fios de coser, em diversas cores, que a senhora Matilde ajudara a escolher. O senhor Américo tinha um saquinho, em pano, para uma peça que muito gabava – o seu carreto. O saquinho fora obra da senhora Matilde, que para a cana também tinha feito um saco protector, assim como para o engodo, que ele ia pôr na vala na sexta-feira ao anoitecer, sem ninguém ver, para no sábado, ao alvorecer, começar uma pescaria de fazer inveja, em certos pontos da vala, que conhecia muito bem. A meio da manhã, já com carpas, barbos e pampos no saco de rede, o senhor Américo fazia uma pausa. Puxava então a cana para o combro da vala e, após saborear um pedacinho de pão e um naco de queijo, terminava o intervalo bebendo, da pequena garrafa, alguns goles de vinho. Depois, era tempo de meter novo isco no anzol e tentar engatar mais uns peixes.

Outros entusiastas da pesca, nesse tempo, no Vale, eram o Vítor correeiro, o Zeca Faria, o Zé Carlos d’Oliveira e o Dionísio padeiro, genro do João padeiro, além do Zé do coelho, uma referência igualmente na caça. Além do senhor Américo, também eles influenciaram meu pai na pesca à linha, não só para começar como depois, pelo tempo fora, nas aprendizagens que lhe foram proporcionando. Eles eram pescadores militantes. Passavam horas naquilo, sobretudo aos fins de semana, mas no Verão, com dias maiores, era costume vê-los durante a semana quase até ao anoitecer, debaixo da Ponte do Vale, ou noutros pontos da vala, como o “grego fundo”, onde havia pesqueiros muito disputados. Grande parte do ano a vala era batida por muitos pescadores, em particular a partir de Maio e até ao regresso das grandes chuvadas, com as quais a vala transbordava, havendo enormes inundações. Para pescar à bóia ou ao fundo, os pescadores do Vale de Santarém, como de outras terras em volta, acorriam à vala, muito cedo, e ali se entretinham a apanhar peixe, a competir, a confraternizar, ao longo das duas margens do rio, numa grande extensão, que ia muitas vezes da parte de cima da Ponte de Asseca, frente ao paúl de Don’Ana, até à pateira do Setil, este um local de excelência. E, quando havia concursos, com regulamento, prémios e tudo, era um dia muito especial. Depois das provas, havia o almoço, em partilha, havia a entrega dos prémios, havia cantigas e brincadeiras, que os calores do vinho ajudavam a propagar, tarde fora.

Foi uma surpresa ver meu pai iniciar-se na pesca. Foi das coisas mais bonitas em que me achei, com ele, ao longo da nossa vida comum. Teria eu doze anos. Logo a seguir iria ser aprendiz também da arte de pescar, com ele e como ele, e isso foi acontecimento único na vida de nós dois. Primeiro meu pai comprou um carreto, em Santarém, no Sr. Gerardo. Era da marca Segarra, azul matizado. Era como se fosse pintado de bolhas de água e, quando o sol lhe dava, o matizado ficava ainda mais brilhante. O carreto era uma peça que eu nunca tinha visto. A única arte de pesca que conhecera até ali havia sido o pau muito fino, talvez de marmeleiro, que, através do cordel barbante, tinha na ponta a chumbada da qual pendiam as minhocas, enfiadas numa linha, a que se chamava remolhão. Era essa a estrangeirinha que usava há décadas o Manel d’Abrã, meu tio avô materno que, na zona do “rio da Quinta” ou “da Eloia”, sacava das águas, sobretudo em dias de chuva, no Inverno e na Primavera, dezenas de escorregadias enguias, dias a fio. A sua fama era tanta que passaram a chamar-lhe “deus-nó-senhor”, talvez pela soma de duas razões: por usar sempre barbas brancas e por ser um ás na pesca à enguia, na nossa terra. Ainda hoje a sua figura e tais predicados na pesca são lembrados pelos mais velhos…

Comprado o Segarra, meu pai conseguiu a cana de bambu, a que chamávamos cana da Índia. Foi o Vítor correeiro que lhe ofereceu a cana. Depois foi só preciso aparelhá-la, envernizá-la e colocar os terminais de cobre, e nisso foi o senhor Américo que ajudou. Passadores do fio de nylon colocados, bem seguros por fio de várias cores – em volta dos pés dos passadores, pouco apouco, pouco a pouco, como tinha visto na cana do senhor Américo – foi também assente depois o cabo, formado por argolas de cortiça embebidas em cola e enfiadas na parte mais larga do bambu e que, depois de seca a cola, foram desbastadas e lixadas, até formarem um cabo homogéneo, sólido e macio, que se adaptava muito bem à mão. Por fim, deu-se mais uns retoques de verniz em toda a cana, deixando-a muito brilhante.

A cana tinha três partes, que se encaixavam umas nas outras, pelos tubos de metal que o senhor Américo oferecera, e que deveriam ser limpos, de vez em quando, com Solarine, lembrara ele. Minha mãe fez um saco para revestir a cana. Era azul e tinha um atilho na ponta. Tal como a senhora Matilde, também fez um saquinho para o carreto. Era castanho. Depois foi preciso comprar os anzóis e o fio para os empatar, mais as chumbadas, as bóias, que eram de cortiça e de madeira, e o fio de nylon para o carreto, a que chamávamos fio de coco. Apesar de ser coisa simples, não foi fácil colocar o fio no carreto e apetrechar depois a cana com tudo o que era necessário para pescar. Meu pai, com a minha ajuda, fez a montagem de tudo, antes de ir pela primeira vez para a vala. A seguir, até experimentou os primeiros lançamentos em terra, como se estivesse na vala, mas, fosse por que fosse, os lançamentos ou iam para cima das oliveiras ou atingiam as cepas da vinha em redor. Tínhamos que ir lá tirar o anzol, a chumbada, aquilo tudo, e assim se foram logo alguns anzóis e bocados de fio. Foi só na vala, a ver os pescadores mais experientes, e passo a passo, com pequenos sucessos no meio de muitas tentativas frustradas, que acabámos os dois por conseguir saber pescar, razoavelmente, com a mesma cana, no que iríamos ser seguidos pelos meus irmãos.

Agora, com a vala poluída há dezenas de anos – ou seja, o rio Maior, um dos grandes afluentes do Tejo, como cano de esgoto – que aprendizagens poderá ter ali uma criança ou um jovem se um dia lhe chegar o desejo de… aprender a arte da pesca, ou outra qualquer?…

Manuel João Sá

17 Julho 2017

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Ponte do Vale, sobre a Vala Real de Azambuja-rio Maior, no Vale de Santarém. Rio que continua poluído, há dezenas de anos. Foto de 1 Abril 2016.

 

Autor: 60emais

Português.

2 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – A PESCA NA VALA”

  1. “Agora, com a vala poluída há dezenas de anos – ou seja, o rio Maior, um dos grandes afluentes do Tejo, como cano de esgoto” – A ISTO SE CHAMA O DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO DESENFREADO. DEPOIS DE MORRER, QUEM CÁ FICAR QUE SE LIXE…

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