CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – AS HORTAS DO MÁXIMO

 Na estrada de “maquedame”, virando à direita, seguia-se para o “rio da quinta”, as mulheres, curvadas, lavando ali a roupa da família, semana a semana. À esquerda, a quinta. Árvores enormes para lá do muro, no jardim. A magnólia e as palmeiras, sobressaindo, a projectarem sombras, pela tarde, sobre o canavial. As canas, baloiçando com a brisa, um ruído suave, um roçagar entre as folhas, e a Dona Mimi, por vezes, à janela alta, as glicínias trepando há muitos anos por ali, a formar grinaldas à volta da janela, quase submersa nos cachos de flores azul anil. A Dona Mimi, de preto, cabelo entrançado, no semblante, parecendo sereno, talvez saudades de tempos idos. A sinoca da quinta, na torre sobre a entrada para a cozinha, de vez em quando despertando pessoas e natureza em redor, quando puxado o martelo, accionado por um cordel, desde a cozinha onde a mulher do Manel da Caseira servia, os pássaros a esvoaçar após o embate do martelo no bronze, uma pausa na quietude do lugar. Dona Mimi, os anos correndo céleres, esfumando-se, os filhos a crescer, rápidos como o tempo, a tomarem caminho e destino lá longe, e ela ali, com algumas ajudas de pessoas amigas, mais que serviçais, privilégios de réstias de passado. A quinta a ficar para trás, passando a alta e larga palmeira à esquerda, um mar de tâmaras no chão ainda, Verão dentro. Como que abandonada, também por ali, uma enorme pedra da mó da azenha que o Manel da Caseira fizera funcionar anos a fio, e logo depois a curva das Rebelas, assim chamada porque ali era o lugar para que assim se dissesse da curva, que ganhara fama de provocar quedas de ciclistas e alguns outros acidentes viários de maior espalhafato, derivado a excessos de velocidade, na descida, para curva tão apertada, ou imperícias dos condutores. A curva, fora isso, um espaço exuberante de vida. À esquerda, silvado espesso barreira acima, flores silvestres, papoilas, ervas, estevas, pássaros a cantar, a esvoaçar, divertindo-se, na sua vidinha, e ratos escondidos, sorrateiros, sob as silvas, e de vez em quando, pela hora de maior calor, um sardãozito brilhando ao sol, espanto de cores na pele rugosa , olhitos revirando sem parar, afoito, porém ofegante, e umas sardaniscas fugidias, todos contribuindo para que, à noite, no silêncio do lugar, qualquer deles que se movimentasse à nossa passagem, logo trouxesse arrepios e angústias, dizia-se ser aquela uma zona temível, ali apareciam fantasmas, lobisomens, almas do outro mundo, outras personagens do demónio…
Mas, em pleno dia, Primavera dentro, a água a correr ao longo da base da barreira, à nossa esquerda, na regueira aberta sabia-se lá quando, acompanhando o desenho da curva, a água, borbulhante, atravessando depois por debaixo a estrada de macadame, um fiozinho de vida gracioso, a dirigir-se para as hortas do Máximo, assim aprendi, pelo dizer dos meus pais e avós, água que, da levada do “rio de cima”, havia sido desviada por ali, para aquele fim, vinda do ponto onde estava a derivação para uma das azenhas.

O senhor Máximo, já um velhinho quando o conheci, ou talvez fosse minha convicção vendo-o sempre de negro, curvado sobre a terra, sobre as hortícolas, sobre a água que corria para aqui, para ali, consoante o encaminho que lhe dava com a pequena enxada, como se abrisse uma porta e fechasse a anteriormente aberta, tal qual numa canalização de vasos comunicantes, como regulando o sangue num corpo, para dessedentar de vida todas as suas partes. Nabiças. Feijão verde. Alfaces. Tomates. Catalões. Alhos. Couve bacalã, couve alta, couve portuguesa, couve lombarda, a menos apreciada, e batatas, pois claro, e cenouras, o senhor Máximo no seu mundo, todos os dias, por vezes erguendo-se, uns minutos, as mãos poisadas uma sobre a outra na extremidade do cabo da enxada, a pá da enxada assente na terra negra, e ele, lentamente, rodando, o olhar a percorrer o espaço que tinha o seu nome. Depois da cancela da entrada, à direita o basto e alto canavial, caneiral na boca de toda a gente, ao fundo um valado e nele mais silvado, à esquerda um socalco com velhas oliveiras, os troncos rasgados pelo tempo, de alto a baixo, há quantas centenas de anos ali, mesmo o senhor Máximo não saberia dizer. Altos loureiros a dar para a curva das Rebelas, enlaçando-se neles alguns marmeleiros, também abrunheiros bravios, madressilvas e duas outras velhas oliveiras, última paragem de alguns despistados ciclistas e outros condutores apressados, imprevidentes. Por sobre tudo isso, misturando-se, a fértil e devoradora hera, abraçando as outras espécies, sufocando-as, o senhor Máximo todos os anos a dar-lhe luta, com golpes certeiros de roçana, não fora isso e lançaria a morte em redor.

Passava eu por ali todos os dias, entre o Vale e a nossa casa. Vinha por carreiros, encosta abaixo, desembocava na rua “por detrás das hortas”, que ia dar à “rua do açude” e o senhor Máximo, logo pela manhã, na horta, via-o pela boina preta que sobressaía para lá do valado, por entre o canavial e o silvado. O burrico, preso à oliveira grande, a esticar-se para abocanhar erva, palha, restos de hortícolas em redor. Melros e rouxinóis em trinados vigorosos, ao desafio, pela manhã, poupas em voo esgalgado de sobe e desce, lento, suave, a deixar traços de amarelo e preto no ar, à sua passagem. Rãs a coaxar, como se em amena confraternização, na zona do poço. Aromas de ervas a cada passo. Hortelã, segurelha, salsa, coentros, flor de laranjeira no tempo dela. Espalhadas, rastejantes na terra negra, beldroegas aqui, ali, mais tapetes de trevos e grama fresca à beira dos carreiros entre canteiros, carreiros feitos de pés passando para lá e para cá. Flores amarelas saindo da sementeira das abóboras, ao lado os melões a crescer, acolá o feijão verde trepando pelo caniço, a vagem cheia, sob o folhado protector, mais além uma carreirinha de morangos, rente ao chão o vermelho já a sobressair, o seu perfume a inundar o ar. Setembro dentro, os pêssegos amarelos felpudos, mais tardios, a derrearem a árvore, projectando ramos quase até ao chão, até à caldeira da árvore, como se fosse uma cúpula redonda, obra de arte da natureza e, passado o tempo dos maiores frios, ali começava a sobressair a flor vibrante da velha amendoeira…

Foi nisto que, passando por ali, me detive, assolado por recordações tais e tantas que a memória, em cavalgadas incessantes, vertiginosa, fugidia (quem dera, de imediato, dela transportar para o papel tanta coisa que, de súbito, revela) impondo-se, senhora de mim, inguiável, incontrolável, fugaz, fugaz, que me deixou extasiado e feliz. Foi nisto que tentei situar-me, trazendo até mim esse tempo de aprendizagem da natureza e o que ele me deu a ver e sentir, ali, tragando enquanto pude, devagar, devagar, cada pedaço desse passado, de que quase nada existe, agora. Restam os loureiros, parte dos silvados, do caneiral, pés de madressilvas, de marmeleiros, de abrunhos bravios. E as oliveiras. Velhíssimas. Dignas. Soberbas. Soberanas. Mas simples. E vivazes, ainda, apesar de quase ocas, nos troncos. E a cancela, entre os loureiros – uns paus velhos, uns arames entre eles, a liga-los, e uma argola também de arame, em cima, para servir de fecho. Lá dentro, no terreno que foi de muita vida, agora seco, a memória do senhor Máximo, da sua horta, do seu mundo. Onde, certo dia de Junho, há muitos anos, um casal de jovens se acoitou, a caminho do anoitecer. Amaram-se. Ali. Uma vez, pelo menos. Um amor clandestino. Surpreendente. Que, pelo seu fruto, haveria de ficar para a história. Para sempre. 

Manuel João Sá

IMG_4722
Vale de Santarém. Antiga “curva das Rebelas”, no sentido Póvoa da Isenta-Vale de Santarém. À esquerda ficava a horta do Máximo. Foto de 19 Abril 2015.
IMG_4723
“Curva das Rebelas”. Uma das oliveiras que estão à entrada do que, em tempos, foi o sítio das Hortas do Máximo. Foto de 19 Abril 2015.

Manuel João Sá

Autor: 60emais

Português.

6 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – AS HORTAS DO MÁXIMO”

  1. Mais um mergulho na infância distante. Este traz-me os odores da terra, da fruta madura, das flores silvestres, dos legumes da horta, mas também o tempo da inocência passado nessa paisagem campestre.
    Obrigado, companheiro!
    RR

      1. Descrição tão real que me arrancou lágrimas de saudade, o senhor Máximo,irmão do “Ginbrinhas da farmácia e grande amigo do meu pai,que frequentava a nossa casa e cuja profissão era marceneiro,fez-me um dia, uma caminha para as bonecas, que foi um dos melhores presentes , á data ,por mim recebido. recordo também a Dona Mimi, e muito da quinta das Rebelas,
        Obrigado.

  2. Fico feliz por isso, Geninha. E pelas revelações que aqui faz, mais um contributo para, todos nós, termos mais referências sobre a nossa história comum. Obrigado.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.