AS LETRAS DA SOPA COMEÇARAM A FALAR UMAS COM AS OUTRAS

PEQUENA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS

Trata-se da minha primeira história para crianças, que ofereci ao meu neto Miguel, no dia em que fez sete anos. Foi em 15 de Fev. 2010.

É um primeiro “livrinho”. Aqui publicado No DIA DO LIVRO, em 23 Abril 2016.

AS LETRAS DA SOPA COMEÇARAM A FALAR UMAS COM AS OUTRAS

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Um dia, Rosa disse assim ao filho, que se chamava Jasmim:

– Agora vamos à loja do senhor Américo comprar umas coisas.

Jasmim, que tinha cinco anos, perguntou:

– Comprar o quê, mãe?… olha, as bananas, já as comi todas. Tu sabes que eu gosto muito de bananas…

E a mãe disse:

– Sim, gostas muito de bananas. E de maçãs também. Mas de laranjas não gostas tanto.

Jasmim franziu o nariz e respondeu:

– Pois, sabes porquê? É que às vezes são um bocadinho azedas…

Rosa não disse nada e o filho perguntou:

– O que vamos comprar, mãe?

– Umas coisas… açucar, espinafres, bananas também… e massa para a sopa… massinha de letras para a canja…

Jasmim ficou admirado e perguntou:

– Letras para a canja?…

– Sim – respondeu a mãe – Já vais ver…

Desceram a escada, do 2º andar até ao rés-do-chão. Jasmim tinha aprendido a descer as escadas muito rápido, chegou à porta num instante. Esperou pela mãe que, ao chegar, lhe disse:

– Filho, qualquer dia, com tanta rapidez a descer a escada, ainda cais e partes a cabeça…

Jasmim sorriu e os dois saíram então para a rua, a caminho da loja do senhor Américo, que ficava muito perto. Pelo caminho, encontraram duas vizinhas mais idosas, que estavam a conversar. Rosa disse-lhes:

– Bom dia!… – As duas senhoras responderam e uma delas disse:

– Olá Jasmim, vais com a mãe às compras?…

– Sim, vamos comprar letras para a sopa – disse Jasmim, muito contente.

Quando chegaram à loja, o senhor Américo disse logo:

– Ora vivam, muito bom dia!… Então Jasmim, já te passou a tosse?

– Sim, sim, já passou… minha mãe fez-me fuminhos… e meu pai trouxe um xarope muito bom, muito docinho.

Rosa começou a dizer ao senhor Américo o que queria, até que chegou a altura de pedir a massa. O senhor Américo perguntou se Rosa queria massa de pevide ou se queria outra. Dona Rosa disse que queria a massinha de letras. O senhor Américo trouxe um pacote e disse para Jasmim:

– Aqui está a massinha. Tem muitas letras cá dentro, sabias? Vais ver depois, no prato da canja. Até podes aprender as letras… ou já sabes?.

Jasmim pôs-se a olhar para o pacote e disse:

– Eu já sei algumas letras… o meu pai já me ensinou… quando vamos no carro eu vejo as matrículas e ele diz-me. Já sei o A, o Bê, o Dê, o Fê e outras. E também o Jota, que é do meu nome.

– Muito bem – disse o senhor Américo – Então agora já podes juntar as letras da sopa e assim fazes palavras.

– Posso?… Posso? É verdade, mãe?

Rosa ficou a sorrir e o senhor Américo disse:


– As letras juntam-se umas às outras e fazem muitas palavras… depois a mãe explica, não é?…

Rosa confirmou, fez uma carícia ao  filho e a seguir pagou as compras ao senhor Américo.

Depois de saírem da loja, foram até ao parque infantil que ficava próximo. Jasmim andou de baloiço, subiu e desceu muitas vezes a paliçada e também andou no escorrega. A caminho de casa, Jasmim olhou para as letras da matrícula de um carro e disse:

– Dê… A – Jasmim perguntou:

– Mamã, como é que se lê aqui? – Dona Rosa olhou e disse:

– Dê e A, lê-se DA– E Jasmim repetiu DA.

A caminho de casa, enquanto subia as escadas, Jasmim ia repetindo DADADA

Era sábado. O pai de Jasmim, que se chamava Jerónimo, tinha ido tratar da lavagem da carrinha, na estação de serviço mais próxima. Um pouquinho depois chegou a casa e Jasmim disse:

– Papá, eu e a mamã fomos à loja do senhor Américo e trouxemos massinhas de letras para a sopa.

– Ai sim? – disse o pai. E depois continuou – quando eu era pequeno, como tu, a avó Josefina também fazia canja com massa de letras. Eu gostava de estar a ver as letras no prato da canja…

– Pois, quando a mamã fizer canja eu também vou ver, não é papá?…

O pai disse que sim. Jasmim, entusiasmado, foi perguntar à mãe:

– Mamã, fazes hoje canja?

– Hoje não… não porque temos de comer a sopa que temos… só depois faço canja.

Jasmim ficou um bocadinho triste. Ainda insistiu com a mãe, mas ela explicou:

– Meu filho, temos de comer primeiro a sopa que já está feita. Se não a comermos ela pode-se estragar… e nós não devemos deixar estragar a comida, percebes?…

Jasmim ouviu a explicação que a mãe deu e ficou menos triste, porque a mãe lhe disse que da próxima vez ia fazer sopa de canja, com a massa de letras. Então, Jasmim teve uma ideia:

– Mamã, hoje podes dar-me dois pratos de sopa.

– Porquê? – perguntou a mãe.

– É que assim a sopa que temos gasta-se num instante e a canja com letras vem mais depressa…

Rosa  achou graça e começou a rir. Depois disse:

– Jasmim, estás a ser um menino muito esperto… Tá bem, eu vou dar-te mais sopa. Se tu a comeres toda, eu fico muito contente… mas também tens de comer o resto… estamos combinados?

Jasmim disse que sim. E ao almoço comeu mesmo muito bem a sopa que a mãe lhe pôs, quase o dobro do que costumava comer. E também comeu o peixe e as batatas e ainda dois bocadinhos de maçã, que a mãe tinha descascado.

Depois de almoçar e de lavar os dentes, Jasmim sentou-se um bocadinho ao pé do pai, a ver o programa para as crianças, que estava a passar na televisão. Mas pouco depois adormeceu, e o pai levou-o para a cama, onde o deitou muito devagarinho, pondo um cobertor por cima.

Jasmim, durante o sono, começou a sonhar. No sonho, ele estava mesmo a ver o pacote da massa de letras. Era tal e qual o pacote que a mãe tinha comprado na loja do senhor Américo. Estava ele neste sonho, quando começou a ver algumas letras a saírem do pacote, que se abria, devagarinho, para elas virem cá para fora. No sonho, o pacote estava em cima da mesa da sala. Algumas letras escorregavam e até ficavam espalhadas na mesa, ao lado do pacote. Então, de repente, Jasmim começou a ouvir vozes. Ouviu assim:

– Olá, vamos brincar… vamos fazer palavras?

– Boa! Vamos!… Nós existimos para fazer palavras, não é?

Quem tinha falado primeiro disse:

– Eu, que sou o Bê, gostava de fazer a palavra BATATA…

– E eu que sou o A, também entro nessa palavra – disse a que tinha falado em segundo lugar.

– Ah pois entras em BATATA, sim senhora… até entras tês vezes, não é? – disse o Bê. E continuou: Então tens que ir buscar mais duas iguais a ti, para formar a palavra.

– … mais duas iguais a mim… para sermos três A.

O A foi buscar duas letras iguais a ele e depois disse:

– Mas ainda precisamos de mais uma amiga nossa, para fazermos a palavra BATATA. E quem é ela, quem é ela?… perguntou o A, com ar de brincalhão.

– É o Tê, disse o Bêe começou a ver se estaria algum Tê por perto. Mas não viu nenhum. Então gritou:

– Tê!… Tê!… Onde é que estás tu?!…

Passou um tempinho, até que saíu do saco a letra Tê, que disse:

– O que é que foi, o que é que se passa… estava tão bem a dormir lá dentro… o que é que me querem?…

– Estamos a fazer a palavra BATATA, disse o Bê. E repetiu… BATATA, bem alto, que o Tê continuava ensonado. Depois acrescentou: Eu, que sou o Bê, estás a ver, não estás?…e o A, já cá estamos….

– Sim, tá bem, eu também entro, eu também entro… duas vezes, não é verdade?… – disse o Tê, ainda a esfregar os olhos.

– Mas é preciso ires buscar outra letra igual a ti – lembrou-lhe o A.

E assim foi. O Tê, um bocadinho contrariado, lá disse:

– Pronto, tá bem!…e lá foi buscar outro T, que chegou e disse:

– Cá estou eu! Que palavra vamos formar? – e os outros disseram-lhe: BATATA.

Então, o segundo T olhou para as outras letras, já todas muito bem alinhadas, assim B  A  T  A   A  e foi-se pôr entre os dois A. E assim ficou formada a palavra BATATA.

Então Jasmim viu, no sonho, como as três letras se juntaram para formarem aquela palavra. A seguir, houve outras letras que começaram a falar umas com as outras para fazerem outras palavras diferentes. Jasmim, que estava naquele sonho das letras da sopa, viu juntarem-se quatro letras para fazerem a palavra PAPA. Mas quando estavam já encostadinhas umas às outras, primeiro um P, depois um A, depois outro P e por fim outro A, este último disse:

– Mas eu posso ter um acento ou não. Se não tiver um acento, nós fazemos a palavra PAPA, mas se eu tiver um acento, nós fazemos a palavra PAPÁ, não é?…

As outras letras disseram que sim. E o primeiro P até disse:

– Pois é… vejam bem… só um acentozinho muda logo tudo. Se não pusermos o acento em ti, último A, a palavra quer dizer PAPA que é uma coisa para comer, por exemplo, mas se pusermos em cima de ti o acento então então fica PAPÁ, que quer dizer PAI…

Foi então que o segundo P disse:

– Pois, é preciso estarmos muito bem arrumadinhas e com os acentos que são precisos, porque se não é uma grande confusão, ninguém nos percebe…

Estava Jasmim a sonhar com as letras e com as muitas palavras que elas podiam formar, quando uma corrente de ar mais forte fez bater uma porta. Então Jasmim acordou e ficou a pensar no que se tinha passado no sonho. Esfregou os olhos e disse para si:

– Tenho de começar a saber todas as letras, para fazer palavras e poder ler muitas histórias… até o jornal… Vai ser fantástico!… Mas não me posso esquecer dos acentos…

Ficou ali, na cama, mais um bocadinho a pensar e disse:

– Mas não vou dizer nada à mamã e ao papá… vou aprender tudo e depois faço uma surpresa… eles vão ficar muito contentes!…

Foi com este pensamento que Jasmim saiu da cama. A mãe, apercebendo-se de que ela já acordara e se dirigia para a sala, foi ao seu encontro e acolheu-o com muita ternura.

– Lindo menino, que dormiu tanto!… Anda, vem lanchar, meu filho.

Jasmim esfregou mais uma vez os olhos e disse:

– Sim, mamã, dormi muito bem… e tive um sonho… tão giro!…

– Ai sim… que sonho foi?… Queres contar?…

Jasmim sorriu e disse:

– Não, hoje não mamã… um dia conto, tá bem?…

A mãe aceitou e foram lanchar, juntando-se ao pai que já estava à mesa.

Manuel João Sá

15 Fev 2010

 

 

Autor: 60emais

Português.

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