CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – No princípio, o a b c d

1953. Setembro a meio. O verão quente e seco, para o fim dos dias uma leve aragem, vem de nordeste, era a minha mãe a esclarecer, continuava naquela lida, para aqui, para ali, tinha tudo na cabeça, o que era preciso fazer em cada tarefa e o que era preciso fazer em cada época do ano. Não parava, a minha mãe, e eu ali sentado, costas contra a parede branca da casa, a vê-la naquela sem-parança desde sempre, e o sempre, para mim, era desde o tempo em que, comigo no ventre, ela estendera os grãos na eira, os grãos ainda nas vagens, depois erguera o malho bem acima da cabeça, balanceara o corpo e o malho a rodopiar e depois a cair com força sobre os grãos e zás, zás, zás, vezes sem conta, ela sempre a rodar à volta do monte dos grãos, sempre à volta, sempre à volta, sempre a malhar, e os grãos a soltarem-se, a soltarem-se e a ficarem sob a palha, como a soltar-se-lhe da testa, do rosto, das axilas, das entranhas, o suor, ácido e salgado, ela a fazer ãn, ãn, ãn, e eu no seu ventre, como num barco sobre as ondas, o grão de bico, ou talvez o feijão catarino ou o milho ou as favas e ervilhas, os grãos já libertos da palha, não era mais preciso o malho, a aragem a levar a palha para o lado, os grãos a ficarem a descoberto, as cores dos grãos a reluzirem ao sol dourado do fim de tarde e a minha mãe a encostar o malho à parede, gotas de suor descendo da testa para as sobrancelhas, a ficarem ali, um instante, até ela passar com a mão, a limpá-las, o tronco numa papa de suor…

Setembro a meio e minha mãe a dizer-me qualquer dia vais para a escola e ainda não sabes fazer uma letra, e eu a olhá-la, pois não mãe, mas já vi a Sencita a fazer, não custa nada, ainda ajuntei, todo convencido, mas a conversa não ficou por ali, vou dizer à tua irmã para te ensinar as letras e os números, ao menos já vais a saber qualquer coisa, dito isto chamou: MariMilha!!!, e a minha irmã apareceu, não a mais velha, a Sencita, que ia para a quarta-classe, mas a que ia para a terceira classe, muito estudiosa, como eu era, dizia a minha mãe, uma letra redondinha, era um gosto vê-la aplicada em tudo o que era da escola, das contas às redações e cópias, canalizava para ali todo o tempo que lhe sobrava das limpezas e de outros trabalhos em que ajudava a minha mãe. No dia seguinte, que era de tirar a palha da eira (a seguir ali iria ficar o bagaço de uva depois de sair da prensa do lagar após fazermos a água-pé, éramos nós que espalhávamos o bagaço na eira e depois, com os pés, abríamos nele sulcos em espiral, do centro para a periferia do monte, para ele secar e ser mais tarde utilizado, sabia bem sentir as grainhas sob os nossos pés descalços, havia um perfume forte em redor, perfume de adega em toda a volta, durante um tempo) no dia seguinte a MariMilha começou a ensinar-me,  primeiro a pegar no lápis e a segurá-lo entre os dedos, depois guiou-me a mão e assim, mão na mão, levou-me a imitar o que ela havia escrito no caderno de duas linhas, até que sozinho fui copiando diversas vezes a letra a entre as duas linhas do caderno comprado na loja da dona Conceição, que eram os melhores para as cópias, assim estive a desenhar as letras a e b, carregando forte no lápis, naquela tarde, eu fazendo letras enormes, barrigudas, tremidas, completamente fora das duas linhas, e ela ao meu lado, sorrindo, corrigindo, sorrindo, como aquilo era tão fácil para ela e tão difícil para mim!… No dia seguinte, logo pela manhã, depois de minha mãe aparar o bico do lápis com a faca da cozinha, fui para a eira e continuei a copiar as letras a e b até a minha irmã me passar para as letras c e d e aí começou a confusão, que as achava muito parecidas, mais ainda porque, dizia eu, todas tinham uma barriga e por isso era difícil pô-las entre as duas linhas, à medida que copiava as letras ia-lhes aumentando o tamanho, parecendo de propósito para me ver livre da empreitada.

No dia seguinte, logo pela manhã o céu estava carregado de nuvens espessas, algumas mais escuras, chegam cedo as trovoadas, lamentava-se a minha mãe, e ainda não fizemos a vindima, acrescentava, olhando o céu, uma ruga de preocupação, a seguir um breve suspiro. Eu acordara pela madrugada com o ruído dos trovões, mas a Nélita, que dormia na mesma cama, disse-me já vi dois relâmpagos muito grandes a entrar por ali, e o ali era a fresta da velha janela, por onde até víamos entrar réstias de luar quando era bem luminoso, desenhava um rasto na parede contrária à nossa cama. Pouco depois o tempo começou a ficar com um ar mais feio, as nuvens baixavam e a claridade era menor, trovejava mais e cada vez mais próximo de nós, a avó Constantina encaminhou-se devagarinho em silêncio para o recolhimento do costume, no seu quarto, a candeia de azeite acesa e as rezas a Santa Bárbara, sem parar, até que a trovoada se fosse sem causar danos, a nossa avó tinha a certeza de que assim seria, não só rezava para que não sofrêssemos, nós e os animais e as culturas, como pedia que o mesmo acontecesse lá para longe, para onde a trovoada se perdesse, só saía do quarto quando o trovejar fosse um ronco longínquo, vinha então para a rua, olhando o céu e tudo em redor, suspirando, aliviada. Enquanto isso minha mãe foi acolhendo os que chegavam à cozinha sobressaltados pelo trovejar, encaminhando-nos para o café, assim chamávamos à primeira refeição que podia ser de leite e torradas com manteiga, havendo, se não era com azeite, deitado sobre fatias de pão torrado, porém antes golpeado em cruz, escorria o azeite pelos golpes, era gostoso, inundava o ar de um perfume único.

Foi quando a trovoada já estava longe que meu pai regressou de ter ido à vinha, amanhã temos de começar a vindimar, se vem outra vai-se tudo, e era isto que minha mãe queria ouvir, tanto que ficou sorridente. Após o almoço já ela andava a preparar os cestos e as tesouras de vindimar, o lagar já estava lavado há alguns dias, era só preciso mais uma passagem, o tonel havia sido lavado por dentro, era minha mãe que lá entrava pelo postigo, um pouco a custo e, munida do vertedouro, lançava água e mais água contra as aduelas, a toda a volta, que era preciso retirar-lhes o sarro o mais que se pudesse, com a ajuda de alguma potassa diluída na água e, durante essa fase, observar bem e tomar nota dos pontos onde aparecia humidade pela parte de fora das aduelas, a fim de ali colocar uma palha vedante, pacientemente, a canivete, bem comprimida, como meu pai fazia, não fosse depois esvair-se pelas pequenas fissuras algum vinho, uma perda a evitar. Depois o tonel ficava a secar, aguardando o novo vinho, e era assim que já estava há uns dias e, quando entrei na adega, encontrando assim as coisas, de novo senti a vibração do dia de antes da vindima, não mais peguei no caderno de duas linhas, nem minha mãe e minha irmã se lembraram disso, a não ser já muito perto do meu primeiro dia escola, quando aprendi a fazer o 1 e o 2, este com grande custo, depois de me perder nas suas muitas voltas e reviravoltas, que era o que me parecia.

Chegou o dia 7 de Outubro de 1953. Minha mãe foi levar-me à escola. Ia de bata branca, com  meu nome feito a linha vermelha, do lado esquerdo do peito, tudo obra de minha mãe. Na mala de cartão, a tiracolo, um caderno de duas linhas, a estrear, um lápis bem afiado, uma ardósia e a pena para nela escrever, mais o livro de leituras da primeira classe, os meninos a sorrir na capa. Comigo também, na minha cabeça, mas eu pensava que era nas minhas mãos, o saber fazer o abcd e ainda o 1 e o 2. Obrigado Mãe e mana MariMilha.

Manuel João Sá

22 de abril de 2016

Autor: 60emais

Português.

10 opiniões sobre “CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – No princípio, o a b c d”

  1. Esta crónica é uma maravilha! Fez-me lembrar do meu primeiro dia de escola que, por coincidência, também foi no dia 7 de Outubro de 1953…

    Reinaldo

    1. Grande abraço, amigo, pelas tuas palavras, que são grande incentivo. Vou a caminho de um “livro” que conterá muitas destas minhas cronicazinhas do nosso Vale, um tributo à nossa terra: a sua história, as suas gentes, as memórias que vão resistindo e que passo, como posso, para o que vou escrevinhando.

  2. Muito obrigado por nos trazeres à memória tantas e boas imagens. Como sempre, um belo texto.
    Do amigo Zé Neves

    1. Grande abraço, amigo, pelas tuas palavras, que são grande incentivo. Vou a caminho de um “livro” que conterá muitas destas minhas cronicazinhas do nosso Vale, um tributo à nossa terra: a sua história, as suas gentes, as memórias que vão resistindo e que passo, como posso, para o que vou escrevinhando.

  3. Linda e profunda cronica refletindo uma imagem que muitos dos “pés descalços” da nossa aldeia e milhares doutras que igualmente “encostados às paredes uterinas” de nossas/suas Mâes enquanto os malhos, as foices. as enchadas, as gadanhas, os equilibrios com quartas de agua à cabeça, no exterior faziam-nas gemer do esforço fisico e suando, nòs todos “enrolados” gentilemente “berceavam-nos” como que a darem-nos as primeiras liçôes ensinando-nos dos primeiros movimentos para que quando saissemos dos nossos “ninhos” os “a,b,c,d’s” e 1,2,3…..n’s ” nossos dedos fossem a continuaçâo da aprendizagem da vida …
    Zé Tomé

    1. Manuel João, por um acaso, só hoje li a sua crónica. Estou sem palavras, um aperto na garganta e há qualquer lágrima teimosa escondida cá para o fundo, perto do coração, tenho a certeza.
      Já sabia, mas, hoje, que orgulho tenho de ter tido o prazer e a honra de o conhecer. É um escritor! Sabe, não sabe!?… Um grande escritor.
      Parabéns! Obrigado!
      Victor

    2. Só hoje, por diversos motivos, voltámos ao «mail» e tivemos a grata surpresa de encontrar as suas «Crónicas do Vale».
      Parabéns. Gostámos imenso. Escreve com as mãos e com o coração. Na verdade – recordar é viver.
      Um abraço amigo a um Valsantareno de corpo e alma e que tanto ama a sua terra.

      1. Grande abraço, amigo, pelas suas palavras, que são grande incentivo. Vou a caminho de um “livro” que conterá muitas destas minhas cronicazinhas do nosso Vale, um tributo à nossa terra: a sua história, as suas gentes, as memórias que vão resistindo e que passo, como posso, para o que vou escrevinhando.

    3. Grande abraço, amigo, pelas suas palavras, que são grande incentivo. Vou a caminho de um “livro” que conterá muitas destas minhas cronicazinhas do nosso Vale, um tributo à nossa terra: a sua história, as suas gentes, as memórias que vão resistindo e que passo, como posso, para o que vou escrevinhando.

    4. Grande abraço amigo José Tomé, pelas tuas palavras, que são grande incentivo. Vou a caminho de um “livro” que conterá muitas destas minhas cronicazinhas do nosso Vale, um tributo à nossa terra: a sua história, as suas gentes, as memórias que vão resistindo e que passo, como posso, para o que vou escrevinhando.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.