CRÓNICAS DO VALE DE SANTARÉM – TÍNHAMOS UM CHAPÉU

Aparecia a chuva, passado o Verão, e meu pai perguntava “Oh Emilha, o chapéu?” e o chapéu umas vezes mesmo ali, ao canto, atrás da porta de entrada, se tivesse ouvidos até se preparava de imediato para a função, mas qual quê, o seu protagonismo não chegava a tanto, era mais de vir à cabeça de todos quando a chuva, arredada por meses, sem ser esperada reaparecia até embrulhada em relâmpagos e trovões, brusca, violenta, para se ausentar novamente, por uns tempos, como se dissesse vou ali e já venho, para então ficar. Fosse como fosse, minha mãe tinha de dar contas do chapéu, se dele havia precisão tinha de o ter à mão para o dar ao meu pai, a maioria das vezes, mas acontecia também ser ela a usá-lo, em surtidas ao quintal das galinhas, ao palheiro da burra, à vinha, mais aqui, ali, mas era coisa pouca, dizia, que até uma saca de serapilheira, sobrando das batatas de semente, calhando, bem afeiçoada a capuz, servia para se proteger da chuva, dispensando assim o chapéu, que aquele abrir e fechar ainda demorava, que “o trabalho é muito, já se vê”. Quando tinha de ir às compras, à aldeia, pouco menos de um quilómetro em linha recta, então levava o chapéu, se estivesse disponível, lá ia ela, ligeira, pelo carreiro, do cabeço ao vale, depois no regresso, cesta à cabeça, chapéu por cima, viessem chuvadas e ventanias, que ela acocorava-se, aconchegava-se mais no xaile de lã, e assim ficava, encostada à cesta, com as compras protegidas, assim esperava que o pior passasse, retomava depois a marcha. Ajudei-a algumas vezes a erguer a cesta até à cabeça, nessa função de trazer da loja a comida para nós, uma vez por semana.

Tínhamos um chapéu. Hoje diria que tínhamos um guarda-chuva, mas então, pelo menos lá em casa, chamávamos-lhe chapéu. Tínhamos um chapéu que era o único, naquele tempo, outros viríamos a ter, quando já era impossível mantermos a situação de só termos um, que a família aumentava quase ano sim ano não e, por outro lado, a situação económica ia melhorando, aos poucos, quando não seria um “salve-se quem puder”. Tínhamos um chapéu que era de tecido espesso, tipo ganga, de cor azul escura, com um cabo grosso, de vime brilhante, para o castanho-escuro, as varetas enormes, terminando em redondo, enfiavam-se num pequeno copo cilíndrico de latão quando o fechávamos. Um dia aprendi que, querendo abri-lo, soltavam-se as varetas fazendo descer o copo cilíndrico ao longo do cabo e depois empurrava-se tudo até ouvir um estalido, ao passar a mola, e esse era o momento de dizer “já está”, que ficava pronto a usar.

Foi da feira da Piedade, em Santarém, que meu pai trouxe o chapéu, dizia a minha mãe, acrescentando que até foi preciso lutar com o homem por causa do preço, e aquilo dito ficava como uma espécie de aviso, como “vejam lá o que é que fazem com ele”, de cada vez que, chovendo, o levávamos para a escola, carreiro abaixo, por vezes abrindo e fechando o chapéu sem precisão, era mais como se fosse brinquedo ou então, era o meu caso, para ver a diferença entre usar ou não usar chapéu, coisa parva, tá visto. Com essas e outras experiências, que a garotada acha por bem tentar e nisso vê utilidade suficiente, ou por causa da muita chuva, tantas vezes tocada a vento forte, era normal começarmos a ficar com as pernas molhadas, quase até à cintura, mais ainda quando vinha aquela chuva miudinha, irritante, gotículas finíssimas, voando com o vento, por isso chegando aos pontos do nosso corpo onde a chuva mais pesada, mas vertical, não ousava entrar.

Ao fim de alguns anos o chapéu teve de ser levado para reparar, dado que as varetas começaram a ficar estragadas e também por aparecerem uns pequenos buracos no pano, que se ia desbotando, sobretudo junto às varetas. Então foi preciso levar o chapéu ao senhor Joaquim das ratoeiras, pai da Maria Deolinda, mulher do professor Faria que, na escola primária, cuidava da instrução e educação dos rapazes. O senhor Joaquim das ratoeiras, assim chamado pelo facto de, a certa altura, ter começado a fazer armadilhas para apanhar ratos e pássaros, acabou por encontrar nesta ocupação a sua sobrevivência após trágica queda do alto de um freixo, no combro da vala, que o deixou incapaz, hoje dir-se-ia que ficou paraplégico. Não conseguia mexer-se da cintura para baixo, vivia por isso deitado, trabalhava deitado, comia deitado, diziam alguns do Vale que era castigo divino, devido a ter-se posto, lá no alto da árvore, naquele dia de festa, perante a multidão, a mangar com a igreja e os padres, que “graças a Deus muitas, graças com Deus poucas”, isto diziam as mais beatas, fazendo o sinal da cruz, fechando depois as mãos uma sobre a outra, suplicantes, erguiam os olhos para o céu, pedindo a remissão dos seus pecados.

Tínhamos um chapéu que, um dia, arrecadado na adega, à entrada, no canto do lado direito, que era ali o poiso dele no largo tempo de não haver chuva, minha mãe encontrou com grandes buracos, vimos alguns dias depois os obreiros de tal arte, uns ratos que também se atiraram a outras coisas por ali, motivando por isso mesmo a decisão de deixar os gatos na adega, dias a fio, por castigo, que gatos madraços não serviam para nada. Tal foi o castigo que deu em caçada bem-sucedida, como era intenção, de modo que vingámo-nos e soltámos os gatos, cumprida a missão, porém os gatos não aprenderam a lição e, mais tarde, outros ratos haveriam de fazer outro estrago na casita das arrecadações.

Um dia coube-me usar o chapéu, só eu com ele na mão, coisa inusitada e feliz, só eu debaixo dele, aquilo era como uma promoção pessoal, eu a caminhar para o Vale na estrada de macadame, entre a fonte das três bicas e o pombal, a caminho do cabeço da Fonte Boa, a chuva a cair, cerrada, contínua, ruidosa, deixando uma névoa em volta, eu sob a cobertura resistente do nosso chapéu, quase invulnerável, eu pela primeira vez com o prazer de ter aquele objecto nas minhas mãos, eu a vencer a luta contra a chuva, contra o vento, contra tudo, que o nosso chapéu era uma fortaleza. Nunca mais usei um guarda-chuva assim, e essa primeira vez não mais me saiu da cabeça.

Manuel João Sá

Set. 2015

Autor: 60emais

Português.

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